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Suspiria é uma das três filhas da Senhora Morte. É a dama do medo e do desespero. Em seus relatos, somos apresentados a almas que estão sendo punidas por sua própria submissão ao destino que lhes é imposto. Não se enganem: Suspiria é um demônio.

DESACONSELHÁVEL PARA MENORES DE 18 ANOS


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Sinopse:


Suspiria é a personificação onipresente do medo e do desespero. Ela perambula pela Terra desde o início dos tempos, caçando e punindo almas que não conseguem se livrar do próprio destino por pura indolência. Suspiria está sempre na companhia da sua mãe Santa Morte e das suas três irmãs: Nenia Candelária, Sudaria e Grimória.


Elas são as Deusas das Trevas, as consoladoras da paz eterna. Uma fúria infernal ungida do Reino das Trevas, região situada nas profundezas do planeta, uma força cosmológica universal suspensa no tempo eterno por onde essa tétrade infernal se move entre os séculos da história da humanidade. Um verdadeiro asilo do universo.





DESACONSELHÁVEL PARA MENORES DE 18 ANOS!





Não vamos enganar ninguém. Suspiria do Reino das Trevas é uma HQ erótica com um enredo bastante voltado para o terror e o misticismo. É uma HQ com mulher pelada, com relações sexuais, bondage, e o que mais você pensar. É preciso ser honesto nesse ponto. E me deu um trabalho danado para encontrar imagens que não me dessem strike nos mecanismos de busca. Gostei bastante do clima da HQ, mas quem está buscando algo diferente, com romance ou qualquer coisa que o valha, esta não é a sua história. Montagliani vai nos mostrar o lado mais obscuro do ser humano e mulheres sofrendo abusos e precisando se empoderar para sair da situação em que se encontram. Em alguns momentos não é uma HQ fácil de ser lida. Gosto de avisar para que os leitores não romantizem a coisa, e nem tenham ilusões. Suspiria é uma HQ sensacional, mas ela tem um público bastante específico. Se você quer adentrar nesse mundo sombrio junto comigo, vamos lá que vou comentar sobre ele nas próximas linhas.


Neste primeiro volume temos quatro histórias: a primeira chama-se O Inferno Existe e tem arte e roteiro do seu criador, Luca Laca Montagliani; a segunda história chama-se A Pequena Morte e é a narrativa mais extensa dessa edição com arte do Andrea Bulgarelli; a terceira narrativa chama-se Aos seus Pés e tem arte de Franco Saudelli; e a última é uma história curtinha chamada Onde Morrem as Almas com arte de Andrea Jula. A edição da Tai Editora está muito boa com capa dura, um papel bem gostoso de manusear e que dá uma boa potencializada na arte. Antes de cada história, tem um prefácio do próprio Montagliani em que ele fala sobre o processo criativo de cada história e as ideias que ele buscou trazer. Das quatro histórias, a primeira e a última são as únicas em alguns tons de cores (não completamente colorida). As demais são em preto e branco. A única coisa que senti falta foram avisos de gatilho. Sei que se trata de uma HQ erótica e de temas bem explícitos, mas alguns temas são mais sensíveis como estupro ou suicídio. Não custa nada colocar um aviso pequeno de duas ou três linhas na capa.


A primeira história é a que eu gostei mais da arte. Montagliani tem uma arte que me cativou e não sei se isso se deu pela escolha de usar preto, branco e vermelho como as cores predominantes da história. Isso dá um aspecto de sanguinolência e de "infernalidade" que combina com o clima que ele quer passar. O design de corpos dele também é o que mais gostei e ele não se importa em deformar corpos ou mostrar ossos. O autor não esconde que isso se trata de uma HQ sobre deusas das trevas indo atrás de espíritos submissos e que precisam pagar pela imobilidade. Os cenários são pavorosos em sua epifania maldita. Esta história funciona como uma introdução e mostra quem são essas três irmãs malignas e o que elas fazem. A narradora é Suspiria e ela nos guia por esse jardim de delícias luxuriosas. Aqui a gente já percebe que Montagliani esconde alguns temas místicos e filosóficos ao longo de sua narrativa. A gente começa a ver aonde ele deseja chegar.


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É na segunda história que começamos a ver melhor o que se esconde por trás dos roteiros. Montagliani nos mostra uma mulher que é submetida a todo tipo de humilhações por uma espécie de coronel. Ela e sua mãe são pessoas humildes que precisam se humilhar para conseguirem ter o que comer. A única coisa que a protagonista tem a oferecer é o seu corpo, uma beldade de cabelos negros. Desde jovem, ela precisa aturar tais violências. A gente percebe que a personagem abandonou qualquer perspectiva de vida. Não se importa mais em ter uma casa arrumada ou limpa e sua mãe mora em um tipo de sótão estranho. As violências se repetem todos os dias e ela já se acostumou com o seu atual "dono" até o dia em que ele decide abandoná-la e ir viver com sua família de verdade. É quando a casa cai para ela e ela se vê sem rumo, precisando talvez aceitar um novo "dono". O "dono" da protagonista é um pastor e aí é que a coisa toma rumos bem críticos, mostrando a hipocrisia por trás de um homem cujos valores morais ele cobra de seus fieis. O único amor da vida da protagonista vem de um homem simples que a ajuda a manter a casa com comida. Um homem desprovido de beleza, mas cujo amor por ela é verdadeiro. Suspiria vem até ela em seus momentos finais lhe cobrar o porquê de ela não ter tomado a vida e seu destino em suas próprias mãos. Ela será punida pela deusa das trevas, mas a atitude inerte dela é o que tornou o destino tão inexorável.


A arte do Bulgarelli é bem voltada para o preto e branco. Ele tem um bom domínio dos espaços e consegue preencher os quadros mesmo nas ausências. Sua arte é clássica e me remete tranquilamente aos fumetti italianos. Algo que aprecio muito. Seu design de personagens vai para um campo mais estilizado. O design da protagonista é lindo, porém ele parte para o exagero. Os modelos corporais são grandes demais e é intencional isso. Suspiria é uma beleza maldita; daquelas de excitar o leitor ao mesmo tempo em que o recorda de que ela veio aqui para tirar a sua alma. As expressões que ela faz são insanas e Bulgarelli investe nesse lado demoníaco da personagem, com ela funcionando como aquela voz que te dá o conselho certo, porém é aquela coisa que te deixa de olhos arregalados. Os demais personagens são realmente horríveis e isso é proposital para demonstrar o quanto a vida da personagem era ruim e difícil. Duas cenas chocantes foram a do seu início nessa vida de violências, com ela perdendo parte de si no processo e o quanto a casa é mostrada sempre como suja e bagunçada e a arte ajuda a reforçar isso.


A terceira história busca explorar um pouco o mundo infernal em que Suspiria vive com suas irmãs. Uma espécie de "super-heróina" fetichista consegue invadir o mundo das trevas junto de seu parceiro Mister Mastermind. O objetivo deles é roubar o Graal de Lúcifer. Mas, sua invasão não vai muito longe quando Suspiria e Nênia os capturam. A partir daí as deusas querem saber como eles conseguiram entrar neste mundo e pensam em maneiras criativas de efetuar sua punição. Nesta história Montagliani explora as ideias filosóficas por trás do processo de amarração. O que significa estar à mercê do outro, a confiança por trás dessa experiência capaz de deixar alguém muito vulnerável e o quanto essa vulnerabilidade pode ser excitante. Aliás, algo vivenciado por aquele que sofre a amarração e por aquele que amarra que tem o poder de ditar o destino daquele que está do outro lado. A arte de Saudelli é estilizada demais para mim. Lembra uma arte underground e para uma obra que brinca com a sexualidade e o maldito, uma arte mais redondinha se encaixa melhor. Não é que a arte seja ruim ou coisa do tipo, só achei que não combinava para a história especificamente. Por exemplo, o Bulgarelli tiraria essa história de letra.


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A última história se chama Onde Morrem as Almas e vai explorar a relação entre as quatro irmãs. Montagliani vai nos apresentar quais são os domínios de cada uma delas. E como elas abordam a punição das almas. Claro que esses domínios não são coisas estanques como vemos nessa edição. Grimoria percebe que as cartas dos condenados estão desaparecendo dos arquivos do mundo dos mortos. E ela quer saber se algum demônio resolveu aprontar com ela. Enquanto isso Nenia se diverte com alguns condenados na árvore da dor. Podemos ver durante a narrativa a personalidade de Nenia e Sudaria. Enquanto Sudaria é quase que uma burocrata insana do mundo dos mortos, Nenia é mais sádica e gosta de pensar em castigos criativos para aqueles que estão sob seu jugo. Vimos um pouco disso na história anterior. Por outro lado, Sudaria funciona como a punição silenciosa e, por esse motivo, mais cruel ao deixar o caminho da punição na imaginação daquele que será sua vítima. Tem uma briguinha básica entre as irmãs, mas é aquela coisa facilmente resolvida. Ou seja, é uma história que visa explorar mais o contexto do universo que Montagliani tem criado. A arte de Andrea Jula não me agradou de todo, mas curti a expressividade de seus personagens. Ele se foca muito nas expressões faciais e nos pequenos gestos feitos por eles. Sejam os olhos, os lábios, uma virada de cabeça, um dar de ombros. Já o design de corpo tende mais ao exagerado do Bulgarelli. Para essa história funciona muito bem porque a narrativa se passa o tempo todo nos domínios das quatro irmãs. A quadrinização adotada também é bem simples com um ou dois quadros por página. Isso produz umas páginas arrepiantes. Sério. Tem uma cena de vários homens e mulheres nuas numa árvore da dor sofrendo as punições de Nenia que são bizarramente deliciosas.


Essa primeira edição funciona como uma introdução ao mundo de Suspiria. Você pode ficar encantado ou não querer nunca mais encostar na HQ. Acho que essa é a reação básica a essas histórias. A mim me agradou porque no meio das maluquices eróticas propostas pelo Montagliani, existe muita, mas muita coisa por trás. Discussões sobre inércia, empoderamento, violência, submissão. Até um capítulo sobre a filosofia por trás do SM. São coisas bastante inesperadas nesta HQ. A arte varia bastante, então fica complicado dar uma nota máxima para isso porque tem histórias que você vai gostar mais e outras nem tanto. Saudelli não me agradou... Bulgarelli me soou estranho por vezes... Montagliani é maravilhoso. Vai depender do gosto. A Tai está de parabéns pela ousadia em publicar uma HQ tão polêmica para nós, mas ao mesmo tempo nos mostrar algo fora do lugar-comum.


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Ficha Técnica:


Nome: Suspiria - Do Reino das Trevas

Autor: Luca Laca Montagliani

Artistas: Luca Laca Montagliani, Andrea Bulgarelli, Franco Saudelli, Andrea Jula

Editora: Tai Editora

Tradutora: Taina Lauck

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2021


Link de compra:













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Um subgênero da ficção científica que vem ganhando cada vez mais espaço, o biopunk revela o que esperamos para a biologia da espécie humana no futuro.


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Recentemente tive contato com um game de Xbox chamado Scorn. A história é bem confusa de explicar, mas tentemos. O jogador encarna uma criatura em um mundo estranho no qual ele precisa sobreviver a situações bizarras enquanto tem seu corpo invadido por uma espécie de parasita que permite a ele abrir portas, manusear armas bizarras e controlar máquinas dignas de filmes de terror. O cenário grita filme de terror com corpos espalhados por toda parte enquanto atravessamos túneis formados por vísceras e enfrentamos monstros disformes. Sem falar nas estranhas máquinas e sua relação com bebês (melhor nem mencionar o que acontece aqui).


Scorn é o exemplo de um cenário biopunk. Ele é um subgênero da literatura cyberpunk que tem como tema principal a biotecnologia. Em suas histórias nos deparamos com o hackeamento corporal, tecnologias de manipulação genética ou até histórias que lidam a indústria farmacêutica. As histórias mantém aquele clima sombrio e pessimista de romances como Neuromancer, de William Gibson. O gênero procura discutir as consequências do mau uso dos conhecimentos sobre a biologia ou até a ética do seu emprego. O leitor pode até se deparar com distopias onde governos de viés totalitário procuram realizar algum tipo de limpeza genética. Um bom exemplo disso é o filme Gattaca onde uma sociedade que valoriza pessoas cujas características genéticas perfeitas se vê infiltrada por um indivíduo que hackeia seu DNA para ter uma vida melhor. Mas, a todo momento ele vê diante do temor de ser descoberto pelas autoridades.


Não temos informações exatas sobre como o termo biopunk surgiu. Lawrence Person, um teórico do gênero, afirma que o termo possivelmente é oriundo de uma ressignificação do steampunk. Contudo, os paralelos com o cyberpunk estão aí: se o gênero popularizado por Gibson faz uma crítica política ao abuso tecnológico, o biopunk vai levar sua crítica para a ética da bioengenharia e as críticas sociais derivadas disso. No cyberpunk, acompanhamos normalmente a jornada de um personagem que é marginalizado e precisa adentrar nas frestas deixadas por um regime opressor. É um gênero ficcional de contracultura, por isso que a associação ao punk e ao grunge é tão comum de ser associado ao cyberpunk. A ideia aqui é como aplicar a tecnologia, usada para oprimir as camadas populares, de maneiras criativas que nunca foram pensadas pelos seus criadores. É como reduzir a desigualdade social. Como seus personagens são "lobos solitários", os autores preferem adotar a estética do noir ou dos romances investigativos para construir os cenários. Quando comparamos com a ficção científica tradicional, o cyberpunk é um choque às propostas mais utópicas do gênero. Basta comparar o clima de Neuromancer com um dos romances da primeira trilogia da Fundação, de Isaac Asimov.


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Mas, o que isso tem a ver com o biopunk? Bem, o ponto está nas preocupações temáticas do gênero que são bastante parecidas. O cyberpunk nasce a partir de uma inquietação a respeito do desenvolvimento da civilização humana. No final dos anos 70 e início dos anos 80 havia muito pessimismo com os nossos próximos passos. Alguns cientistas políticos da época alertavam para o surgimento de governos controlados por grandes corporações e o quanto o capitalismo havia se metamorfoseado em um monstro incontrolável. A desigualdade social era cada vez maior e a ascensão de regimes de direita como o de Margareth Thatcher ou o liberalismo de Ronald Reagan apontavam para o pior. A sociedade desse período se preocupava com o aparecimento de múltiplas formas de vigilância na vida cotidiana das pessoas. É impossível não pensar imediatamente na sociedade de controle de 1984, escrito por George Orwell. Ou mesmo a diferença em uma sociedade alienada pelo controle de uma pequena elite. O biopunk vai atacar as frestas da sociedade. Algum tipo de revolução biotecnológica. Ou seja, o gênero volta às origens da palavra revolução, com aqueles que são vistos de baixo buscando maneiras de subverter os mecanismos de controle social. A sua rebeldia serve como uma resistência à opressão e até de lucrar em cima de uma exploração totalitária.


Frequentemente as narrativas biopunk lidam com modificações corporais. Não confundir com alterações cibernéticas; o biopunk é caracterizado pela manipulação genética. Um tipo de cenário comum nestas histórias é a do hospital ligado a cirurgias ilegais ou de compra de órgãos no mercado negro. Uma autora que trabalhou bem esse cenário do mercado de órgãos foi Annalee Newitz em seu livro Autonomous. Ela denuncia a maneira como as indústrias farmacêuticas são capazes de manipular grandes governos. Sejam medicamentos voltados para a cura de doenças ou compostos químicos capazes de engendrar transformações genéticas permanentes. A protagonista acaba envolvida acidentalmente em uma trama de espionagem industrial que revela terríveis contradições sociais.


O gênero biopunk não está alheio a interações com outros subgêneros; Autonomous é um livro de espionagem. Já Scorn, que inspirou esta matéria, é um game cujas inspirações no horror cósmicos de H.P. Lovecraft ou no terror religioso de Clive Barker são bem claros. Vale destacar que Scorn não tem diálogo algum, informação alguma sobre seus arredores. O jogador deduz informações tendo como parâmetro apenas o cenário ao seu redor. Logo no começo vemos o quanto as transformações corporais são importantes para a condução da mesma. O braço do personagem é alterado para receber uma agulha retrátil que serve como uma chave para abrir portas ou manusear mecanismos; o ventre do personagem é invadido por um parasita que parece estar nos devorando ao longo de todo o game. Mas, se falamos em games, é impossível não se lembrar da franquia Bioshock, mais precisamente os dois primeiros jogos. O cenário é uma utopia que se situa abaixo do oceano onde as pessoas teriam uma vida confortável. Só que experimentos biotecnológicos são realizados nas sombras e fazem com que o que seria um mundo radiante se transforme em escombros atacados por seres que são a mescla de corpos disformes e tecnologia de alta performance. O que faz de Bioshock tão diferente é que ele se passa na década de 1960 e dá pistas de situações originadas da Guerra Fria. Lembrar que esta década específica foi o período dos experimentos mais insanos da humanidade com bombas sendo explodidas no Pacífico, relatos de pesquisas que fugiam aos padrões éticos. É o momento mais complicado do confronto entre EUA e URSS.


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Se formos tentar buscar os primórdios do gênero vamos nos deparar com um nome bastante conhecido: H.G. Wells. Seu clássico A Ilha do Doutor Moreau foi escrito décadas antes de pensarmos em manipulação genética. No romance, o protagonista estava a bordo de um navio que acaba naufragando. Prendick, a quem seguimos nesta terrível história, vai parar em uma ilha fora do mapa onde um cientista realiza manipulações corporais misturando animais em combinações apavorantes. Os experimentos que começam sendo peculiares, acabam tomando outro rumo quando Prendick descobre que algumas destas criaturas ganharam consciência ou passaram a se organizar em sociedade. O que nem Prendick e nem Moreau poderiam acreditar era que os animais mesclados se voltassem contra seus criadores. Ou seja, uma discussão bastante comum nestas histórias também é a do homem querendo brincar de ser um Criador. O quanto temos o direito de manipular ou criar formas de vida já que somos seres tão imperfeitos. Ao final temos um cientista que é assombrado pelas criaturas que ele gerou.


Por falar em criaturas que se voltam contra o criador, algo semelhante é visto no romance Jurassic Park, escrito por Michael Crichton. Para variar um pouco, vou comentar o filme de Steven Spielberg que toma várias liberdades em relação ao material original. No filme, temos o doutor Hammond liderando uma equipe de pesquisadores para tentar criar um parque de diversões dos sonhos contendo dinossauros renascidos através da manipulação de seu DNA. Basicamente se trata de uma releitura da obra de Wells. Jurassic Park vai novamente debater a arrogância do homem ao tentar agir como criador. Percebam que no biopunk há uma necessidade sempre premente de que o desastre precisa acontecer para que então possamos aprender com nossos erros. Contudo, isso nem sempre significa um final feliz. Em boa parte das histórias, o ser humano precisa deixar o local onde a tragédia aconteceu para recomeçar em outro lugar.


Uma outra forma de abordar o tema foi feita por Octavia E. Butler. No livro Despertar, a autora nos coloca em um planeta Terra afetado por terríveis desastres ambientais que fizeram a civilização entrar em decadência. É então que temos contato com os Oankali, uma raça alienígena disposta a nos ajudar em troca de usar a fisiologia humana para se aprimorar. Ao longo dos três volumes da série Xenogenesis vemos a humanidade seguir outros caminhos evolutivos. Alguns são becos sem saída e levam a uma espécie de seleção natural enquanto outros despertam habilidades incríveis ao lado das criaturas que se tornam seus hospedeiros. O grande debate do biopunk de Butler segue em duas direções distintas, porém complementares: abandonar nossos preconceitos em prol de um bem comum e a manutenção de nossa identidade, mesmo após tantas mudanças. Em última análise, o que nos faz humanos é nossa fisiologia ou nossa capacidade adaptativa?


A série de games Resident Evil também são um belo biopunk que vai lidar com outro aspecto do gênero: transformar espécies humanas ou animais em algum tipo de arma biológica. O primeiro game tem uma investigação da equipe STARS a denúncias de estranhos acontecimentos ocorrendo em uma mansão próxima a Raccoon City. No segundo game um vírus se espalha pela cidade transformando as pessoas em aberrações biológicas ou monstros ainda mais perigosos. Deixando o estilo de ação de lado, a história se concentra nos interesses escusos de uma empresa multinacional chamada Umbrella Corporation. Experimentos com cobaias humanas, não se importando com princípios éticos e usando seus vastos recursos financeiros para acobertar o que é feito de errado. Pessoas inocentes acabam sendo arrastadas para um turbilhão de desastres que vão se empilhando um após o outro. E diante disso tudo, a Umbrella só quer saber de apagar as provas e jogar tudo para debaixo do tapete.


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O biopunk é um gênero bastante rico em temáticas e ele vem crescendo lentamente nos últimos anos sem nos darmos conta disso. Ele está aí há mais de um século, mas somente de trinta anos para cá é que a tecnologia de manipulação genética se desenvolveu e atingiu outro estágio. As histórias hoje acabam se debruçando bastante sobre qual é a próxima etapa da evolução humana.




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Mary Ann Woodhouse é uma mulher à frente do seu tempo. Ela descobriu um dente de uma criatura que ela chamou de iguanodonte, mas teve sua descoberta roubada por seu marido. É então que ela decide abandonar sua vida tediosa em Londres para seguir atrás do professor Challenger, um homem que pode lhe ajudar a realizar seus sonhos.


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Sinopse:


A Era Vitoriana! Uma época de máquinas maravilhosas, prodígios sem fim e mulheres intrépidas!


Mary Ann Woodhouse resolve abandonar o marido após ele roubar a sua descoberta de um dente de dinossauro. Disposta a provar-se para si mesma, ela segue até Londres em busca de uma oportunidade e embarca no Barracuda em direção à Amazônia. Sua missão: procurar a expedição desaparecida do Professor Challenger.


Viaje de Londres até Manaus e embarque para os recônditos mais inóspitos da floresta, seguindo a trilha de Mary Ann até o Inferno Verde. Pilote o dirigível experimental de Santos Dumont e enfrente a ira de um empresário inescrupuloso e seus assassinos. Sobreviva aos perigos de uma caverna misteriosa e maravilhe-se com os segredos da floresta virgem.

Pois esse é o mundo de Vitorianas, Um Século de Aventuras.






Se você está procurando aquele livro puramente de aventura, A.Z. Cordenonsi é o autor certo para você. Todos os livros que ele entregou para nós, leitores, até hoje possuem uma narrativa divertida, bons personagens e uma trama tranquila de se acompanhar. O gênero de aventura costuma ser bastante negligenciado não só aqui no Brasil, mas mundo afora. E eu gosto muito que o Cordenonsi é um expert nele. Torna os seus livros ótimas portas de entrada para todo tipo de leitor, do mais jovem ao mais velho. Folgo em dizer que o Cordenonsi é um autor que eu sempre coloco em listas de indicações para primeiras leituras. Nesse seu mais novo trabalho, ele conseguiu entregar um trabalho redondinho, não só na trama, quanto nos personagens e até no tamanho da narrativa. Mesmo que você tente passar um tempo buscando problemas, não vai encontrar. Gosto da série do Sherlock e os Aventureiros e até do Le Chevalier, mas achei essa história perfeita em todos os aspectos. Vou te contar os motivos.


Na narrativa, acompanhamos a excêntrica Mary Ann Woodhouse que, definitivamente, não é uma dama de seu tempo. Sendo interessada por exploração, ele encontrou os dentes de uma fera nunca antes catalogada, ao qual ela chamou de iguanodonte. Seu marido a traiu, roubando os louros da descoberta para si o que provocou nela uma vontade de tomar as rédeas de sua própria vida. Desejando encontrar pistas de seus "lagartos terríveis", ela descobre informações sobre o professor Challenger, um impetuoso cientista que estaria na Amazônia em busca de ossadas de animais gigantes. Para chegar a Challenger, ela precisa entrar para a tripulação do capitão Roxton e, é claro, ele não aceitará uma mulher como tripulante. Aliás, se a própria Inglaterra não aceita suas mulheres em posições de mais destaque, o que dirá uma mulher que deseja sujar seus pés na lama amazônica para fazer descobertas científicas. Mas, nenhuma dessas coisas irá desencorajar a senhora... digo senhorita agora, Woodhouse.


Esse é um daqueles livros que passam voando pelo leitor. Uma vez que se pega para ler, a gente não consegue parar mais devido a um ritmo frenético com o qual a história é contada. A narrativa segue em terceira pessoas com capítulos bem dosados em tamanho e dramaticidade. Nosso ponto de vista fica sempre em Mary Ann e vivenciamos com ela as aventuras, embora tenhamos um pouco mais de informações do que ela. Cordenonsi divide a trama em três atos, bem delimitados e que servem de um ótimo guia para o leitor. No aspecto da escrita, a narrativa é bastante tranquila de ser entendida. Curioso é que o autor não sobrecarrega nas informações, e isso ele precisando contextualizar a época. A experiência do autor com o gênero de histórias conta muito nessa hora porque ele sabe como e quando fazer. Embora tenha menos de duzentas páginas, a narrativa tem o tamanho ideal para o seu desenvolvimento. Nem mais, nem menos. Não tem enrolação e nem nada foi cortado.


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A narrativa é claramente inspirada na obra Mundo Perdido, de Sir Arthur Conan Doyle só que Cordenonsi dá a sua própria assinatura ao livro e o atualiza aos nossos dias. Isso porque ele emprega uma personagem feminina com todos os problemas que ela vivia em sua época. A opção pelo gênero de aventura empregando raríssimos elementos fantásticos foi ótima para o que ele pretendia fazer. Um dos grandes chamarizes na obra de Conan Doyle eram os personagens explorando lugares exóticos e descobrindo lugares e situações inesperados. Sou um fã de Mundo Perdido e de outras histórias nessa pegada exploratória e posso dizer o quanto me diverti lendo essa história. O que mais me surpreendeu foi o fator diversão que, às vezes, é deixado de lado pelos autores em prol de uma história mais reflexiva ou dramática. Nada contra, mas em alguns momentos só desejo fugir da minha realidade por alguns momentos e somente curtir uma doce aventura com os meus personagens. Histórias de aventura possuem essa característica de nos permitir essa fuga. A narrativa de Cordenonsi é simples, mas não no sentido pejorativo, e sim em como ele consegue trazer o leitor para junto dele e o levar pela mão a um outro mundo.


Ainda assim ele consegue tocar em dois grandes temas, sendo um deles a do preconceito de gênero. Estávamos em pleno século XIX, com a Segunda Revolução Industrial batendo à porta e as pessoas buscando um mundo mais iluminado e desenvolvido. No entanto, a mulher continuava relegada às suas funções ancestrais: cuidar da casa e dos filhos. Só que o século XIX é o momento em que mulheres fortes como Mary Shelley passam a se interessar por ciências, incomodando a sociedade patriarcal da época. Mary Ann é uma mulher ousada, acostumada a ouvir as reprovações masculinas, mas que decidiu ignorar estes comentários tolos que em nada contribuiriam para o que ela desejava. A personagem é apresentada em suas qualidades e defeitos e mostra quantos obstáculos ela precisa superar. É legal perceber que a base desta história se encontra na necessidade que ela tem de provar o seu valor para Roxton e Challenger. Para quem acha que Cordenonsi foi exagerado ao colocar uma sociedade tão reticente, está redondamente enganado. Era até pior. Uma mulher como Mary Ann seria trancada por seu marido ou até considerada louca e sedada.


A história tem também ótimos personagens de apoio e Cordenonsi mescla um pouco com a história do Brasil. É óbvio que ele vai tomar algumas liberdades criativas, mas ter inserido Santos Dumont no grupo de Mary Ann foi bem legal. Deu aquele sabor brasileiro que a história precisava. Os personagens possuem suas personalidades bem trabalhadas mesmo com a história sendo curtinha. Seja Roxton e sua característica teimosa e intrépida, ou Challenger com seu jeito pedante ou Dumont com medo dos perigos, mas sendo alguém brilhante em seus inventos. A dose certa para cada personagem. Os diálogos são excelentes e respeitam bem o espírito da época. Como disse acima, Cordenonsi precisa explicar algumas coisas sobre a época em que a história se passa e detalhes sobre pesquisas arqueológicas (até inserindo personagens reais como Howard Carter e Champollion), mas nunca deixa a história ter barrigas. As trocas de farpas de Mary Ann com os personagens masculinos são divertidíssimos e dá um tom de leveza à história.


A palavra-chave para esta história é equilíbrio. O autor encontrou a quantidade ideal de diversão, aventura e reflexão sobre o papel da mulher na sociedade vitoriana em um livro delicioso de ser lido. Ótimo para uma tarde de sábado. Já vi que Cordenonsi se propôs a fazer uma série com diversas histórias fechadas, algo no qual ele é mestre em fazer. Experiência conta muito nessa hora. Por enquanto o livro está somente disponível em formato digital, mas está tão baratinho e vale tão a pena que não tem como não recomendar. Podem conferir numa boa. Para mim, é nota máxima.



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Ficha Técnica:


Nome: O Dente do Iguanodonte

Autor: A.Z. Cordenonsi

Série: Vitorianas - Um Século de Aventuras vol. 1

Editora: Autopublicado

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2023


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*Material recebido em parceria com o autor












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Conversa aberta. Uma mensagem lida. Pular para o conteúdo Como usar o Gmail com leitores de tela 2 de 18 Fwd: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br Caixa de entrada Ficções Humanas Anexossex., 14 de out. 13:41 (há 5 dias) para mim Traduzir mensagem Desativar para: inglês ---------- Forwarded message --------- De: Pedro Serrão Date: sex, 14 de out de 2022 13:03 Subject: Re: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br To: Ficções Humanas Olá Paulo Tudo bem? Segue em anexo o código do anúncio para colocar no portal. API Link para seguir a campanha: https://api.clevernt.com/0113f75c-4bd9-11ed-a592-cabfa2a5a2de/ Para implementar a publicidade basta seguir os seguintes passos: 1. copie o código que envio em anexo 2. edite o seu footer 3. procure por 4. cole o código antes do último no final da sua page source. 4. Guarde e verifique a publicidade a funcionar :) Se o website for feito em wordpress, estas são as etapas alternativas: 1. Open dashboard 2. Appearence 3. Editor 4. Theme Footer (footer.php) 5. Search for 6. Paste code before 7. save Pode-me avisar assim que estiver online para eu ver se funciona correctamente? Obrigado! Pedro Serrão escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:42: Combinado! Forte abraço! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:41: Tranquilo. Fico no aguardo aqui até porque tenho que repassar para a designer do site poder inserir o que você pediu. Mas, a gente bateu ideias aqui e concordamos. Em qui, 13 de out de 2022 13:38, Pedro Serrão escreveu: Tudo bem! Vou agora pedir o código e aprovação nas marcas. Assim que tiver envio para você com os passos a seguir, ok? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:36: Boa tarde, Pedro Vimos os dois modelos que você mandou e o do cubo parece ser bem legal. Não é tão invasivo e chega até a ter um visual bacana. Acho que a gente pode trabalhar com ele. O que você acha? Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. Atenciosamente Paulo Vinicius Em qui, 13 de out de 2022 12:39, Pedro Serrão escreveu: Olá Paulo Tudo bem? Obrigado pela resposta! O meu nome é Pedro Serrão e trabalho na Overads. Trabalhamos com diversas marcas de apostas desportivas por todo o mundo. Neste momento estamos a anunciar no Brasil a Betano e a bet365. O nosso principal formato aparece sempre no topo da página, mas pode ser fechado de imediato pelo usuário. Este é o formato que pretendo colocar nos seus websites (por favor desligue o adblock para conseguir visualizar o anúncio) : https://demopublish.com/pushdown/ Também pode ver aqui uma campanha de um parceiro meu a decorrer. É o anúncio que aparece no topo (desligue o adblock por favor): https://d.arede.info/ CAP 2/20 - o anúncio só é visível 2 vezes por dia/por IP Nesta campanha de teste posso pagar 130$ USD por 100 000 impressões. 1 impressão = 1 vez que o anúncio é visível ao usuário (no entanto, se o adblock estiver activo o usuário não conseguirá ver o anúncio e nesse caso não conta como impressão) Também terá acesso a uma API link para poder seguir as impressões em tempo real. Tráfego da Facebook APP não incluído. O pagamento é feito antecipadamente. Apenas necessito de ver o anúncio a funcionar para pedir o pagamento ao departamento financeiro. Vamos tentar? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 16:28: Boa tarde Tudo bem. Me envie, por favor, qual seria a sua proposta em relação a condições, como o site poderia te ajudar e quais seriam os valores pagos. Vou conversar com os demais membros do site a respeito e te dou uma resposta com esses detalhes em mãos e conversamos melhor. Atenciosamente Paulo Vinicius (editor do Ficções Humanas) Em qui, 13 de out de 2022 11:50, Pedro Serrão escreveu: Bom dia Tudo bem? O meu nome é Pedro Serrão, trabalho na Overads e estou interessado em anunciar no vosso site. Pago as campanhas em adiantado. Podemos falar um pouco? Aqui ou no zap? 00351 91 684 10 16 Obrigado! -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! 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