• Paulo Vinicius

Resenha: "Despertar" (Xenogênesis vol. 1) de Octavia E. Butler

Lilith desperta após ser resgatada por seres alienígenas. A guerra levou à Terra ao colapso e agora os Oankali oferecem o planeta de volta aos seres humanos. Mas, a que preço? 

Sinopse:


Há vida inteligente lá fora e é ela que salva a humanidade de si mesma. Quando Lilith Iyapo desperta após 250 anos de animação suspensa, descobre que o planeta Terra e os seres humanos sobreviventes de uma guerra catastrófica estão sob a guarda dos Oankali, uma espécie alienígena com habilidades e tecnologias tão impressionantes quanto sua aparência é repulsiva. Lilith foi escolhida para despertar e preparar outros seres humanos para finalmente retornarem ao planeta natal. A Terra está novamente habitável há pouco, porém em condições bem diferentes do que conheciam. Assim, os humanos precisarão desenvolver suas habilidades de sobrevivência, enquanto Lilith terá que superar as próprias suspeitas para liderá-los nessa nova etapa – além de decidir se vale a pena andar sobre a linha do que nos define como humanos.




Algo inegável sobre os livros da Octavia Butler é o quanto eles nos incomodam. Seja pelo tema, pela reflexão ou pela ambientação. Ela escreve para nos fazer refletir. E seus livros nunca são tão óbvios quanto parecem. Sempre precisamos mergulhar a fundo neles para entender suas implicações. Despertar é o começo de uma quadrilogia, mas é uma história fechada em si. Aqui vamos acompanhar o despertar de Lilith Iyapo e sua tentativa de treinar um grupo para retornar à Terra. Mas, muitos obstáculos se colocarão em seu caminho. 

"O que me assusta é a ideia de ser manipulada. Ouça, nenhuma parte em mim define melhor quem eu sou do que meu cérebro."

Estamos diante de uma narrativa em terceira pessoa. Mas, Butler consegue sempre tornar suas histórias muito pessoais, muito íntimas. Ela nos coloca bem próximos à Lilith. Vemos o mundo se transformando ao seu redor. A personagem precisa amadurecer a ponto de entender que aquela existência não é mais a mesma e todos se tornaram dependentes dos Oankali. A escrita é bastante descritiva, então ela vai travar em alguns momentos. Vamos nos chatear um pouco em alguns trechos da história com as descrições dos espaços ou até mesmo uma repetição do status em que a humanidade se encontra junto aos Oankali. Isso fez a história perder um poudo do seu ímpeto. Entretanto, vale destacar que os capítulos são curtinhos, fazendo a história tomar um tom acelerado em determinados momentos. Achei o livro bem mais veloz do que Kindred ou A Parábola do Semeador. Não à toa eu conseguia ler entre oitenta e cem páginas por dia. 

Os personagens são o ponto alto da narrativa. Nisso é preciso destacar o domínio que a autora tem da psiquê de seus personagens. Eles são sempre indivíduos per se; não temos cópias de características dos personagens. Cada um tem a sua maneira de enxergar o mundo. Seja Tate, Curt ou Joseph, ou até os alienígenas Nikanj ou Kahguhjat. Seus objetivos e anseios são únicos o que faz deles interessantes. Eles até desenvolvem relações que não tem necessariamente a ver com a presença ou não da Lilith. Os problemas que vão surgir são fruto dessas relações entre os personagens. Dá até para dizer que a história se move muito mais a partir dos personagens e suas decisões do que propriamente de uma narrativa com objetivo global. Ou seja, Butler faz sim um estudo de personagens, quase como uma antropóloga, como Lilith representa na narrativa. 

"[Aquelas] São pessoas amedrontadas buscando alguém para salvá-las. Elas não querem razão, lógica, esperança ou suposições. Querem Moisés ou alguém que venha e as conduza para vidas que elas conseguem compreender."

Inicialmente temos um viés colonialista que perpassa o pano de fundo da narrativa. Temos um povo que acabou por pegar os cacos da humanidade e tentou juntá-los de volta. Um povo com uma tecnologia muito superior à nossa e que deseja impor sua forma de ver as coisas para criar uma nova humanidade. Essa visão de superioridade pode bem ser associada à maneira como os europeus partiram para a conquista da África no século XIX. Durante o imperialismo, a ideia de conquista não era necessariamente pela força das armas (apesar de que essa instância realmente aconteceu), mas a partir da imposição da civilização diante da "barbárie" que representava a cultura africana. Muito do que eles tinham foi apagado ou denegrido por uma cultura que apresenta sua "lógica" diante da superstição das crenças locais. Com a justificativa de uma "salvação", o europeu levou a modernidade até eles, mas não se importou em saber qual era o impacto cultural dessa modernidade. O mesmo acontece com a humanidade diante dos poderes dos Oankali, A reação mais natural de todos é o de se voltar contra aqueles que "lhes deram a mão". Em vários momentos, Lilith acusa Nikanj falando que o que retornaria para a Terra não poderia ser considerado a humanidade, tamanho tinha sido o impacto da destruição cultura e física feita pelos alienígenas. 

Chegamos também a outro ponto que tem a ver com a bioética. O objetivo dos Oankali é a permuta genética e em certo ponto da história essa permuta começa a ficar mais grave já que os descendentes de Lilith teriam seu material genético alterado. Até onde podemos dizer que o que sairia dali era um ser humano? Mesmo Lilith começa a ser rejeitada por seus iguais tamanha a diferença que ela tinha em relação a eles. Claro que aí podemos colocar muito na conta de uma xenofobia exacerbada com tons de violência. Mas, eu concordo com a protagonista. O objetivo dos Oankali é devolver a Terra para os humanos ou se beneficiar de um tipo de simbiose? Os alienígenas mexem até na percepção dos humanos de quem iria ser ou não parceiro deles para reprodução. O tema é bem sutil porque os Oankali escondem o seu objetivo final em um pano de auxiliar os homens em sua sobrevivência. Mas, sua forma de pensar é alienígena, de fato, no sentido de que não se coaduna com aquele grupo de seres humanos entende como o senso comum. 

"Somos uma espécie adaptável, mas é errado infligir sofrimento apenas porque sua vítima consegue suportá-lo."

Temos algumas cenas bem pesadas mais para a frente na história. Momentos em que os humanos perdem a razão e temos momentos de violência física e tentativas de estupro. Tudo porque os homens que faziam parte do grupo se sentiram emasculados diante de uma liderança feminina forte. E esse é outro tema no qual a autora toca e é muito bem trabalhado. A protagonista da narrativa é uma mulher ativa e que busca resolver os problemas por si só. Ela não depende de nenhum homem para mediar sua relação com os Oankali. Por conta disso, os homens do grupo acabam enxergando nela uma espécie de bode expiatória. No começo as agressões são apenas verbais, mas isso vai escalando até partir para a violência física. Tem um momento na história em que um grupo de homens tenta arrastar uma mulher recém-desperta e desejam a todo custo ter relações sexuais com ela. A personagem desejando ou não. Mesmo Joseph acaba tendo determinadas falas machistas que fazem Lilith recuar um pouco em relação a ele. 

Despertar sofre com o mal do primeiro volume em séries. Por ser um volume inicial, a autora precisa explicar muita coisa aos leitores. Isso provoca um enorme info dumping que atrasa os desenvolvimentos narrativos. Principalmente porque o livro é orientado para os personagens e não para a narrativa. Com isso temos longas seções onde os capítulos são voltados apenas para explicar certas situações envolvendo os Oankali ou descobertas sobre como os braços sensoriais deles funcionam ou até como a nave é disposta. Acredito que a série não vá sofrer com esse problema em volumes subsequentes. 

Mais um livro da autora sendo trazido ao Brasil e tenho certeza que esse é mais um daqueles trabalhos que vai gerar uma série de discussões. Não consegui debater nem metade do que eu gostaria (deixarei para fazer uma matéria a respeito do livro e os nomes que ele emprega). É maravilhoso termos um ano em que dois grandes trabalhos da Octávia Butler foram lançados no Brasil com 2019 tendo a perspectiva de ainda mais materiais dela chegando. Só tenho a agradecer a Morro Branco de ter tido a oportunidade e o privilégio de poder conhecer o trabalho desta grande mulher. 


Ficha Técnica:

Nome: Despertar Autora: Octavia E. Butler Série: Xenogênesis vol. 1 Editora: Morro Branco Gênero: Ficção Científica Tradutora: Heci Regina Candiani Número de Páginas: 352 Ano de Publicação: 2018


Outros Volumes:

Ritos de Passagem (vol. 2)

Imago (vol. 3)

Link de compra:  https://amzn.to/2EbwrrQ


*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco


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