• Paulo Vinicius

Resenha: "Ritos de Passagem" (Xenogenese vol. 2) de Octávia E. Butler

Atualizado: Jan 15

Seguimos a vida de Akin, um construto humano-Oankali nascido de Lilith Iyapo, protagonista do primeiro volume. Como primeiro construto macho, ele tem muitas características diferentes dos outros construtos. Ao ser raptado logo quando era pequeno ele vai aprender a viver entre os rebeldes que não aceitam os Oankali. E a ele será dada uma difícil escolha...



Sinopse:


Nessa sequência de Despertar, Lilith Iyapo deu à luz ao que parece um menino saudável de nome Akin. Porém, Akin tem na verdade cinco pais: um homem e uma mulher, um Oankali macho e um fêmea, e um Ooloi agênero. Os Oankali e os Ooloi são parte de uma raça alienígena que resgatou a humanidade de uma devastadora guerra nuclear, mas o preço a ser pago a eles é alto, uma vez que os alienígenas são obrigados a unir seu material genético com o de outras raças, alterando drasticamente ambos no processo.


Nesse planeta Terra em reabilitação, essa “nova” raça está emergindo através da mistura de humano/Oankali/Ooloi, mas há também humanos “puros” que escolhem resistir aos alienígenas e a salvação que oferecem. Esses resistentes são esterilizados pelos Ooloi para que não possam passar para frente o defeito genético que os faz destruírem a si mesmos, mas, fora isso, são deixados em paz (a menos que se tornem violentos). Quando humanos resistentes sequestram o jovem Akin, os Oankali escolhem deixar a criança com seus captores para que ele, a mais “humana” das crianças Oankali, decida se os humanos resistentes devem ter sua fertilidade e liberdade devolvidas, mesmo que isso signifique apenas a volta da sua autodestruição.


Esse é o segundo volume da série Xenogênese, uma poderosa história de existência alienígena.




Cooperação ou Afastamento


Atenção: TEM SPOILERS DO PRIMEIRO VOLUME







No final do primeiro volume, os Oankali retiram a capacidade dos humanos rebeldes de se reproduzirem. Eles podem viver longas vidas, mas não mais podem ter filhos. A resposta deles é sequestrar toda e qualquer criança humana que seja humana. Akin representa o primeiro passo dos Oankali rumo a uma nova direção de um macho híbrido humano-oankali. Um ser com um grau de aprendizado muito rápido, mas frágil na sua infância. Ao ser sequestrado por rebeldes, ele acaba caindo em uma cidade com uma outra maneira de enxergar os alienígenas. Pessoas que não desejam se envolver com os Oankali mesmo à custa de sua própria saúde. Mesmo sofrendo com muito preconceito, Akin vai entendendo pouco a pouco a mentalidade dos rebeldes e um pouco do que eles desejam para si. Estranhamente, os Oankali acabam não realizando uma incursão para recuperar Akin, mesmo ele sendo tão precioso para eles. Vamos descobrir apenas mais tarde o real objetivo dos alienígenas.


Ritos de Passagem possui uma enorme aura de segunda volume. O que eu quero dizer é que o livro sofre muito com o fato de ser um livro de transição entre o ponto de partida da autora e aonde ela deseja chegar. Temos algumas ideias sendo desenvolvidas aqui, mas nada muito ambicioso. Apenas sementes sendo jogadas para frutificar mais à frente. Com isso, o livro parece não decolar muito, diferentemente de Despertar que era bastante ambicioso. O que eu gostei bastante neste segundo volume foi um desenvolvimento dos Oankali, mostrando suas casas e suas visões distintas sobre como lidar com os terráqueos. Imaginávamos que os alienígenas eram mais homogêneos, mas acabamos por perceber que não é bem assim. Nikanj (o ooloi que se envolveu com Lilith no primeiro volume) sequer é uma voz de maioria entre os seus pares.


"[...] Ela não era Lilith Iyapo. Era um rosto tranquilo, expressivo e largo. Era uma pele escura, macia e quente, mãos calejadas pelo trabalho. Era seios cheios de leite. Ele se perguntou como tinha resistido poucos momentos antes."

A escrita da Butler está bem diferente neste segundo volume. Ela optou por uma abordagem mais dinâmica, com capítulos curtos de forma a ganhar velocidade na narrativa. Algo que normalmente vemos em romances Young Adult nos dias de hoje, mas que já era usado por alguns autores clássicos. É uma ferramenta eficiente e que faz a narrativa passar mais rápido. Para esse segundo volume, a narrativa dá uma sensação de passagem de tempo rápida e logo vemos Akin saindo de sua infância e seguindo para sua adolescência. Se trata de uma narrativa voltada mais a uma espécie de história de vida centrada na figura de Akin, alguém responsável por uma mudança de perspectiva na colonização oankali.



O orgulho da humanidade


O tema da colonização continua presente aqui. A relação entre colonos e metrópole (no caso, os Oankali) é abordado de uma forma mais complexa. Os rebeldes argumentam que os alienígenas estariam tirando a sua essência, logo o que sairia de um híbrido das duas raças seria algo não humano. A própria ideia de ter sua genética mexida por eles desagrada boa parte da humanidade. Akin a todo o momento fica confuso pela insistência dos mesmos em viverem sob os antigos costumes e se recusarem a receber tratamentos para doenças e condições que seriam facilmente eliminadas pela tecnologia genética oankali. Um exemplo simples é uma personagem (não direi quem) que possui síndrome de Huntinton, uma doença autoimune, mas que possui tratamento caso os humanos fossem até ajuntamentos oankali.


"Os seres humanos tem medo da diferença. Os Oankali anseiam pela diferença. Os Humanos perseguem aqueles que são diferentes, e ainda assim precisam deles para atribuírem a si mesmos uma definição e uma posição. Os Oankali buscam a diferença e a acumulam. Precisam dela para se manterem longe da estagnação e da especialização excessiva. [...]"

O que eu pude perceber na temática do livro é um certo pessimismo na visão da autora. Não sei se o que eu li é realmente a visão dela, ou é um argumento narrativo dos personagens. Na trama os seres humanos são colocados como uma espécie que busca a violência entre si. E que, ao serem retirados do topo da cadeia alimentar, se colocaram como uma espécie em perigo. Resistem com violência à mudança. Pouco a pouco a insatisfação com o fato de não poderem mais se reproduzir, apesar de terem ciclos de vida mais longos, estoura em ataques de bandoleiros, violência física, sequestros. Podemos argumentar que os oankali se utilizam de táticas desonestas meio que direcionando as escolhas dos seres humanos. Ao retirarem sua capacidade de se reproduzir por considerá-los "imaturos", acabam colocando-os em uma jaula sutil. Akin surge com uma terceira via de forma a dar uma nova oportunidade aos seres humanos. Contudo, há de se colocar que os Oankali já haviam dado uma segunda chance à humanidade ao oferecerem uma espécie de jardim edênico com flora e fauna restauradas.


O protagonista possui muita inteligência logo que nasce, mas sua inexperiência o faz enxergar o mundo com outros olhos. Tendo vivido seus anos com os rebeldes, Akin adota uma perspectiva diferenciada, entendendo em parte seus argumentos. Lógico que em momento algum, o protagonista corrobora com os atos de violência, sendo inclusive vítima de alguns deles. Mas, mostrando a incoerência de seus argumentos ele vai trabalhando a consciência de alguns em relação à necessidade de mudar. Os personagens de apoio fornecem os dois lados da moeda para Akin: Tate e sua tendência a entender Akin frente ao seu marido Gabe, incapaz de aceitar os oankali. Eles são apenas o topo do iceberg do que representa as opiniões dos rebeldes.


Outro ponto fantástico a se discutir é a participação de dois híbridos na história, as jovens Amma e Shkaht. Elas são levadas até o cativeiro de Akin e os humanos do local decidem que querem desfazer as manipulações que os oankali fizeram no corpo delas. Para isso, eles pretendem cortar fora os tentáculos sensoriais que caracterizam-nos. Na visão deles, sem os tentáculos restaria apenas o lado humano delas. Mas, dá para se pensar: somos tão egoístas que desejamos o mundo inteiro à nossa imagem e semelhança? Tratamos tudo o que não é parecido conosco como animais? As duas híbridas ficam horrorizadas com o que os humanos querem fazer a elas. Isso porque os tentáculos são parte de seu corpo, assim como seus braços e pernas. Retirá-los é o mesmo que amputar um membro. Butler nos apresenta um ponto de vista onde o ser humano se sente como o modelo ao qual as demais criaturas devem se basear. Tanto é que em nossa imaginação sobre alienígenas, sempre os imaginamos em formato humanóide (por mais estranho ou "alienígena" que seja o tipo corpóreo).


"Os Humanos chegaram ao próprio fim. Eles eram imperfeitos e especializados demais. Se não tivessem passado pela guerra, teriam encontrado outra forma de matarem a si mesmos."

Por outro lado, temos os Oankali e suas várias facetas. No primeiro volume conhecemos os Dinso e sua propensão à adaptabilidade. Toda essa visão de flexibilidade e manipulação é vista no ooloi Nikanj. Em Despertar, o ooloi começa como uma figura interessante, se afeiçoando a Lilith e desejando apenas ajudar. Mas, à medida em que a narrativa avançava, fomos percebendo o quanto ele podia ser manipulador para atender às suas ambições. Os Dinso são aqueles que ficaram na Terra para trabalhar com os híbridos. Através de um processo de tentativa e erro, eles buscam encontrar a formatação ideal.


Os Toaht são diferentes no sentido de serem mais pragmáticos. No primeiro volume vimos Kahguyaht, parceiro oankali de Tate, como sendo a visão deste grupo. Os Toaht preferem trabalhar de forma mais direta, tendo uma postura gélida quanto a seus experimentos. É compreensível o leitor sentir-se menos propenso a gostar deles, mas eu acredito que seres como Kahguyaht são mais simplórios de entendermos objetivos e motivações. Neste segundo volume eles preferiram se afastar dos humanos e continuar seus trabalhos genéticos em suas naves. Quando Akin propõe uma terceira via, eles são o lado que não apoia de forma alguma. Por essa razão, o protagonista fica limitado à casa Dinso.


Por fim, conhecemos os Akjai. Uma casa mais antiga dos oankali e com uma compreensão muito maior sobre seu próprio corpo e sobre a maneira como os alienígenas conseguem manipular o ambiente ao seu redor. Vai ser com os Akjai que vamos conhecer mais detalhes sobre a cultura oankali. Não vou me estender mais porque posso acabar estragando algumas surpresas que a autora preparou. Só digo que a terceira parte (das quatro existentes neste livro) é uma das mais informativas no sentido da construção de mundo proposta pela autora.


"[...] o propósito humano não é o que vocês dizem que é ou o que eu digo o que é. É o que a biologia diz, o que seus genes dizem."

Dos livros da Butler que eu li até o momento, esse é aquele que eu achei menos impactante. Isso porque eu achei que a autora segurou bastante a mão para inserir suas altas ideias em próximos volumes. Os debates vistos aqui são muito interessantes e cabe aqui a reflexão quanto ao fato de termos ou não uma tendência à autodestruição. A violência é o que capacita o ser humano? Vivemos em um mundo onde nos sentimos no topo da cadeia, mas nunca paramos para pensar que talvez não o sejamos em relação ao universo.



Ficha Técnica:


Nome: Ritos de Passagem

Autora: Octávia E. Butler

Série: Xenogênese vol. 2

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Heci Regina Candini

Número de Páginas: 368

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

Despertar (Xenogênese vol. 1)

Imago (Xenogênese vol.3)


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a Editora Morro Branco



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