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A Editora Suma lançou a primeira edição de sua revista contendo uma série de contos de literatura de gênero escritos por autores nacionais. Entre alguns destaques temos Jana Bianchi e uma história sobre encontrar o seu lugar no mundo e sonhos de goiabada; Fernanda Castro e o pavor de uma mulher grávida sozinha; entre várias outras histórias. Venham conferir!


Contos desta edição:


1 - "O Destino não é endereço" de Jana Bianchi

2 - "Não vai ser a primeira, nem a última" de Fernanda Castro

3 - "Um ajuste de ponteiros" de Moacir Fio

4 - "Orvalho Flamejante" de Giu Yukari Murakami

5 - "Vertente" de Andrezza Postay

6 - "Ith" de Ariel Ayres

7 - "Ressurreição" de Fabiane Guimarães

8 - "Dias de pouco pão e zero sonho" de Saskia Sá


Resenha:


1 - "O Destino não é endereço"


Autora: Jana Bianchi Avaliação:

Gênero: Fantasia



Vivemos durante uma ditadura militar no Brasil. Pessoas são perseguidas por acreditarem em ideais progressistas. São consideradas comunistas. Anis é uma atravessadora: alguém que possui poderes de se transportar a longas distâncias atravessando portas ou janelas (ou quaisquer coisas que lembrem essas duas coisas). Sua tarefa é levar possíveis alvos dos militares a lugares seguros. Isso a torna uma nômade, sem endereço ou lar específicos. Sua única certeza é o seu trabalho e a relação que desenvolveu com Mila, um membro importante do grupo de rebeldes. Atravessadores não podem atravessar a própria sombra, algo considerado um tabu que pode levar ao esquecimento de todas as rotas que eles descobriram até hoje, além de resultados desconhecidos que podem ter efeitos adversos no transgressor. Mas, sua vida toma um rumo inesperado quando ela conhece Alê, um atravessador que a conhece acidentalmente. E Alê atravessou sua própria sombra. O que isso vai significar para Anis?


Essa é uma história bastante simples em sua proposta-base, mas que consegue entregar ao leitor um resultado bastante competente. Toda a questão da travessia é compreendida de forma simples e direta, não precisando de grandes voltas para entendermos. Até porque se trata de uma narrativa centrada na personagem e não no que ela consegue ou não fazer. Seus poderes e o tema do tabu são um algo a mais para que a personagem tome uma decisão acerca de si. A ambientação é fácil de entender também para quem vive no Brasil. Ditadura militar, perseguição aos opositores, força bruta, exílio. Muitas vezes os autores se preocupam em explicar demais o pano de fundo em que sua narrativa se passa. Só que quando se trata de um elemento histórico familiar, basta situar tempo e lugar que o resto o leitor consegue imaginar por si mesmo. Aliás, mesmo que o leitor não fosse brasileiro, a matemática ditadura + violência + opressão fornece os ingredientes necessários para entendermos até mesmo a necessidade de um grupo de resistência. A escrita da Jana está muito gostosa e o leitor consegue devorar a história rapidamente.


Estamos diante de uma personagem que não sabe se consegue seguir em frente. Toda a questão do tabu e o fato de quebrá-lo ou não, coloca tudo o que ela sabe em perspectiva. Ela tem medo de perder a direção rumo àquela que ela realmente gosta. Aquela pessoa que te deu um mínimo de noção de porto seguro. Alê surge como um catalisador, um impulsionador para mudanças. É curioso que a relação com Alê e Mila é mais ou menos explicada e nós conseguimos entender a intensidade de ambas. O que está em jogo é uma segunda chance, uma oportunidade para refazer os caminhos. Sempre encontraremos aqueles que gostamos de verdade, não importa aonde eles estejam. O que Mila precisa fazer é se livrar das dúvidas e questionamentos para que ela possa se atirar no desconhecido. Em nossas vidas, nem sempre teremos respostas prontas e previsíveis o tempo inteiro. Às vezes é preciso apostar. Quem sabe alguma coisa ainda mais doce e gostosa pode vir disso, como um bom sonho de goiabada.


2 - "Não vai ser a primeira, nem a última"


Autora: Fernanda Castro Avaliação:

Gênero: Fantasia



Na sala de espera de um bom hospital particular, Laura aguarda os resultados de seu pré-natal para saber o andamento de sua gravidez e tentar ter uma ideia de quando seu filho irá nascer. Mas, a expressão do médico já diz tudo: temos problemas. Isso porque o filho de Laura é meio-demônio nascido de uma noite de amor há muito tempo. O preconceito existente é forte demais e Laura é encaminhada para a saúde pública onde ela espera aflita por um atendimento. Somente sua amiga Ana está ao seu lado, tendo ela sido abandonada por sua família. Os próximos meses de gravidez serão terríveis e veremos como nossa protagonista conseguirá superar os obstáculos para ter seu filho. Com a sombra perene de seu pai ao fundo, silenciosa e estranha.


Segundo conto da revista e consegue superar minhas expectativas. Adoro quando a leitura flui fácil, sem qualquer problema de compreensão. A história é simples de se entender e os elementos mágicos presentes servem para apresentar um drama maior. Um algo mais sobre um problema tão comum entre mulheres. Fernanda fez um ótimo trabalho com o desenrolar da trama, fazendo o leitor se importar com o problema vivido por Laura. Nem sempre autores são capazes de conseguir resultado em um espaço de páginas tão curto. Há também de ressaltar o equilíbrio existente entre os diálogos e as descrições. Um texto fica chato quando tem descrições demais; cansativo, sonolento. Mas, é preciso apresentar ao leitor o que o personagem está pensando, o que ele está vivenciando. Por outro lado, o excesso de diálogo faz parecer que o autor fez a transcrição de uma conversa. O que não é legal. Só que é preciso apresentar o personagem se relacionando com outras pessoas. Obter um meio termo entre essas duas coisas é uma linha bem tênue.


Adorei a temática. É impressionante perceber como a literatura de gênero pode ser empregada em situações tão corriqueiras. A experiência de uma mãe solteira esperando um filho e precisando passar por toda uma série de situações solitárias e constrangedoras é algo que pertence à nossa realidade. Milhões de mães solteiras mundo afora passam por isso todos os dias, em diferentes níveis. Fernanda conseguiu traduzir até mesmo o constrangimento da consulta com um ginecologista. O quanto uma mulher se sente frágil e desprotegida dentro daquela situação. A falta de apoio dos pais, por mais que a personagem tenha brigado ou se desentendido com eles, faz uma grande diferença para ela. Se Laura tivesse tido o apoio de sua mãe para passar por aquela situação, talvez ela não tivesse sentido tamanha insegurança ou solidão. O pai da criança me fez pensar em pais que ou abandonaram seus filhos ou possuem trabalhos que os mantém longe de casa. Acho que o caso aqui é mais o segundo, até pelo que acontece mais à frente na narrativa. Vamos acompanhando toda a gravidez de Laura, seus medos, suas inseguranças, a amizade de Ana, o preconceito com uma criança que é diferente. Daria até para mencionarmos o último caso também ao pensar em crianças que possuem algum nível de deficiência. Seja em gravidez de risco ou na própria antecipação de uma condição futura da criança.


Recomendo fortemente esse conto e a autora vem fazendo sua escrita se tornar cada vez mais interessante. Fiquem de olho nela!


3 - "Um ajuste de ponteiros"


Autor: Moacir Fio Avaliação:

Gênero: Ficção especulativa



O leitor é convidado a acompanhar a trajetória de Luana e Laís, duas crianças que possuem dons muito especiais. Seu pai é alguém que tem, aparentemente, a capacidade de possuir as vontades das pessoas e fazê-las agir sob seu comando. Um dia, acontece um terrível acidente que vai marcar para sempre a vida de Laís, nossa protagonista. O pai das meninas morre de forma trágica, deixando as duas filhas e a mãe para trás. Mas, Laís logo percebe que Luana possui o mesmo poder de seu pai. E isso vai criando um temor em seu coração desde cedo. A relação de ambas é frágil e repleta de dúvidas e inquietações. Na escola, Laís é a menina ativa e afetuosa enquanto Luana é alguém que prefere manter a si mesma longe dos olhares dos outros. Por falar em olhar, Laís teme os olhos de sua irmã, capazes de fazê-la agir sob seu comando em um piscar de olhos. O quanto essa relação vai marcar a vida das duas?


Temos uma história intimista entre duas irmãs que vivem em lados diferentes do espectro. Quase como espelhos uma da outra. Por ser aquela que não possui dons, Laís teme as habilidades de sua irmã. Isso se reflete nas reações e gestos do dia-a-dia. Por exemplo, Laís se mantém distante fisicamente de Luana, com medo de que algo possa acontecer. Luana parece ser aquela que está no controle das coisas, mas pouco a pouco vamos vendo que isso não é necessariamente o caso. É mais uma impressão de Laís por conta de sua incompreensão sobre a real extensão das habilidades de Luana. Em um determinado momento da narrativa, temos uma virada súbita com uma situação em particular que faz as irmãs inverterem suas posições. É nesse momento que a personagem vai se questionar o quanto ela sabe realmente o que aconteceu em sua vida.


Não quero entrar em muitos detalhes da escrita do autor porque temo entregar o segredo do que acontece mais à frente na história. Só que o gênero de histórias que ele escolheu é meio enrolado se o autor não tiver total domínio sobre suas capacidades criativas. É exatamente como a metáfora do relógio que ele escolheu empregar ao longo de toda a história. Se o autor não souber desmontar pedaço por pedaço os vários momentos e elementos do que criou, ele pode cair em anacronismos e interpretações errôneas. Em uma primeira análise, parece genial a virada narrativa que ele propõe no final. Só que quando remontamos o relógio, peça por peça, vamos vendo algumas inconsistências que causam problemas de roteiro. Algumas situações específicas parecem carregadas de um deus ex machina incrível e que nem o dispositivo que ele usa para explicar o que aconteceu realmente consegue explicar de fato. A história acaba se tornando complicada demais sem necessidade. Admiro o autor por tentar algo diferente e arriscado. Mesmo assim, acredito que ele não foi capaz de potencializar sua história. Recomendo a leitura por todo o drama da relação entre as duas irmãs. Vocês terão uma surpresa nas últimas páginas.



4 - "Orvalho Flamejante"


Autora: Giu Yukari Murakami Avaliação:

Gênero: Fantasia



A vida de Reika é bastante difícil. Vivendo no norte do Brasil e sendo originária do Japão, ela vive em uma fazenda no Pará onde sua família mantém as tradições japonesas, mesmo em meio ao conflito da Segunda Guerra Mundial que os tornaram mal vistos na sociedade. Mas, a importância da família Homura está nos membros de sua família, principalmente na esposa e na filha que possuem poderes especiais. Tanto Reika quanto sua mãe possuem um corpo que arde como fogo e seu toque pode ser mortal para qualquer um. A mãe de Reika teve um momento de crise e quase acabou matando seu marido e Reika; marcas da perda de controle de seu poder permaneceram nos dois. A chegada da jovem Yuki, uma menina que parece calma como a neve muda a direção da vida de Reika. Sua presença é confortável onde sua própria respiração parece um sopro de ar fresco em uma casa cujo ar é pesado. Mas, os interesses e dificuldades da família podem colocar essa amizade em perigo.


A escrita de Giu é bastante poética, algo que pode ser percebido na temática da história. Fogo e gelo. Elementos que podem ser descontrolados, mas que juntos podem gerar outros produtos. A narrativa usa esses dois elementos como catalisador para uma história que fala sobre controle, amizade e solidão. Se pegarmos esse elemento isolado, a história já merece uma série de elogios. A contextualização também é bastante curiosa, se passando no norte do Brasil na década de 1940. O problema na história é que achei que a autora desperdiçou uma ótima oportunidade para explorar um contexto em que quase não temos histórias sobre. Poucos sabem sobre toda a história da migração asiática para o norte do Brasil, os problemas que viveram e toda a diferença cultural em outro continente. Na minha visão, se a ideia era produzir uma narrativa sobre a amizade entre Reika e Yuki, os interesses financeiros e a rigidez de sua família e a posição de sua mãe, não havia necessidade de situar especificamente no Brasil. Poderia ser uma narrativa ageográfica. Senti isso porque o pano de fundo é dispensável para o desenvolvimento da história. O que é uma pena mesmo, já que outros temas poderiam ter sido explorados.


O controle do pai de Reika é absoluto e demonstra o quanto a sociedade japonesa tradicional era patriarcal. Seu controle estava nos corpos e mentes das mulheres da casa. Ele percebeu um potencial a ser explorado diante dos estranhos poderes de sua esposa e filha. Para que ele pudesse manter o controle, precisava minar a vontade de liberdade de ambas. Por essa razão ele estabeleceu uma rigidez na relação com ambas. Isso fez de Reika uma menina insegura que não consegue expressar sua afetuosidade. Ela ficou marcada pela queimadura causada por sua mãe e acredita que se ela tocar outra pessoa, irá causar o mesmo com outras pessoas. Isso a tornou também introvertida e submissa. A chegada de Yuki vai dar um sopro de vida a ela já que finalmente encontrou alguém com quem conversar. A personalidade carinhosa dela supre uma necessidade na vida de Reika. Até mesmo a intermediação de Yuki conseguiu reduzir a distância criada entre Reika e sua mãe, que agora vive trancada em um quarto, com receio de perder novamente o controle sobre seus poderes.


Embora a escrita da Giu seja apaixonante, houve uma falta de atenção ao contexto onde a narrativa se passa. Se um contexto pode ser trocado com facilidade por qualquer outro lugar, a narrativa perde parte de sua força. Se algo não vai ser usado, não precisa ser mencionado. E acho que a história teria ganhado mais se o contexto não tivesse sido mencionado. Até mesmo a questão da vinda da família de Yuki para o Brasil por conta da separação das Coreias é meio dispensável. Enfim, estou sendo rabugento demais com uma escrita que eu gostei. Fiquei chateado e implicante porque havia muito potencial a ser explorado.


5 - "Vertente"


Autora: Andrezza Postay Avaliação:

Gênero: Fantasia




Uma criança adora brincar em um grande quintal com vários esconderijos a serem explorados. Júlia é uma menina curiosa e um dia ela descobre um buraco na casa. Um estranho lugar que parece respirar por si próprio. Os avós explicam que esse é um buraco que esconde uma espécie de pequena fonte com uma água que nunca se esgota. Passa um tipo de vertente que possui estranhas propriedades mágicas. Mas, como qualquer criança, Júlia rapidamente se esquece do lugar e sua atenção vai se concentrar em outras coisas. Anos depois, seus avós ficam doentes, um com uma doença desconhecida e a avó com Alzheimer. Toda a vida de Júlia, agora adulta, vai mudar e a estranha vertente terá um papel importante nesse processo.


Esse é um belo conto de realismo mágico. Uma história onde as metáforas e simbolismos são mais importantes do que a fantasia em si. O leitor precisa pensar um pouco no símbolo da nascente e leito do rio como se representasse as nossas vidas. O próprio ato de respirar como o sopro que dá origem às nossas existência e o nascer de uma planta como uma nova vida surgindo. Convido o leitor a ser atento nas linhas da história contada por Andrezza e perceber os pequenos detalhes e mensagens escondidos nas linhas. Aliás, fica a minha sugestão para uma segunda leitura do conto para que as mensagens que não foram completamente absorvidas pelo leitor fiquem mais claras. Esse é daqueles contos que ganham novos significados a cada nova leitura. Nossas existências são tão efêmeras que podemos ser vítimas de alguma estranha doença a qualquer momento. O que aconteceu ao avô de Júlia é apavorante e nos faz pensar em o quanto somos frágeis. Mas, como um rio, deixamos parte de nós para trás, alimentando e irrigando novas existências, capazes de dar continuidade ao que criamos. O que significa uma vertente de água que nunca acaba? Aonde leva o buraco onde essa vertente se encontra? Leiam esse conto e descubram!


6 - "Ith"


Autor: Ariel Ayres Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



Myl é membro da tripulação de uma nave a serviço da Rainha. E ela está furiosa com a ação de rebeldes. As forças especiais da Rainha detectaram uma de suas principais bases no planeta Ithvaraya (vamos chamar só de Ith, tá) e cabe a essa nave lidar com o problema. E lidar com ele de uma forma permanente. Para isso eles vão contar com uma arma de destruição planetária. Um botão e booom... problema resolvido. Mas, para Ith isso é algo terrível. Imagine acabar com a vida de milhões e milhões de pessoas? Como alguém consegue ficar com isso na consciência. A capitã Yaegin é a responsável pela nave e vai cumprir a sua missão. Não importa o quanto Myl reclame. E será que os rebeldes ficarão quietos enquanto suas vidas são decididas ao apertar de um botão?


Essa é uma história curtinha com um tema básico que é o de possuir armas de destruição em massa e manter as vidas das pessoas em jogo com um simples gesto. É uma longa (ou nem tão longa assim) digressão acerca da ética da posse de armas. Nesse sentido o autor conseguiu abordar bem, sob todos os ângulos, a hipótese a qual ele apresentou. Usando a ficção científica, ele nos colocou quanto poder e responsabilidade se encontram nas mãos de poucas pessoas. Óbvio que vamos pensar sempre na nossa realidade contemporânea, mas me veio à mente imediatamente o desastre da Baía dos Porcos, no final da década de 1950 em que a Guerra Fria acabou escalando vários tons por causa de um ataque desastroso dos norte-americanos em Cuba e que fez a União Soviética, à época aliada do regime revolucionário cubano, quase colocar o dedo no gatilho e disparar suas armas nucleares contra os EUA. Esse tipo de poder e responsabilidade não deveria estar nas mãos de ninguém. Até porque não sabemos a índole daquele que se encontra do outro lado da sala. Em mãos erradas, grandes poderes podem gerar destruições terríveis; basta ver o que homens brutos como governantes com sede de poder são capazes de fazer.


Gostei da história e a virada narrativa no final é daquelas de te dar uma bela de uma rasteira.



7 - "Ressurreição"


Autora: Fabiane Guimarães Avaliação:

Gênero: Ficção Científica



A imortalidade agora é possível. Permanecer vários anos vivo deu aos humanos uma capacidade de não mais se preocupar com seus problemas. Morrer é um fato tolo que vem quando as pessoas simplesmente se cansaram de sua existência e decidiram pela eutanásia. Nossa protagonista é uma pessoa que vem de uma família simples e cujos pais se decidiram por partir depois de mais de duzentos anos de existência. Ela não quer deixar nada seu para trás: nenhum filho, nada que possa ser parte dela. O motivo para isso está em sua própria longa vida. Ela experimentou tudo o que poderia e mais um pouco. Se casou muitas vezes, encontrou e perdeu o amor. Vagou por vários lugares buscando respostas para perguntas que não possuíam resposta. E ela fez uma descoberta terrível acerca de um procedimento que ocorreu durante sua adolescência que fez todas as suas escolhas de vida mudarem radicalmente. Que segredo se esconde por trás da ressurreição?


Fabiane Guimarães nos apresenta uma sociedade decadentista onde o brilho e a esperança das coisas desapareceram diante de uma sociedade estagnada. Não ter mais um limite para sua existência fez o lado mais obscuro do ser humano despertar. O lado menos criativo e imaginativo. A protagonista é um produto dessa sociedade e ela tenta encontrar uma motivação para seguir em frente. Ela apresenta toda a sua experiência de vida como se fossem dados em uma ficha técnica. A autora consegue traduzir bem em suas linhas esse tédio, essa falta de vontade de seguir em frente. O quanto a personagem foi afetada pela descoberta que fez, traduzindo-se em relacionamentos efêmeros e em vivências que estavam ali apenas porque sim. Ressurreição me fez pensar nos artistas decadentistas do século XIX ou até em O Retrato de Dorian Grey. O quanto a vida perde o sentido porque ela não é mais finita. E a descoberta feita pela protagonista é como o quadro que Dorian esconde no porão, sendo que a diferença é que ela decidiu tentar fazer algo para mudar sua realidade. Descobrir a tornou envergonhada acerca de si e em como a sociedade tocava sua continuidade.


Esta é uma bela história que nos faz refletir sobre a importância da finitude de nossas vidas. Muitas vezes reclamamos que a existência humana é curta por demais por tudo aquilo que desejamos fazer. Mas, será que se tivéssemos vidas mais extensas, nossa criatividade se manteria? Ou seríamos apenas um bando de sacos de carne existindo sem sentido ou motivação? Alguns filósofos alegam que o ser humano consegue alcançar seu máximo potencial justamente por imaginarem sua vida como sendo finita e tendo um prazo de validade. É uma discussão possível e que provavelmente fará parte do futuro.


8 - "Dias de pouco pão e zero sonho"


Autora: Saskia Sá Avaliação:

Gênero: Fantasia



A loja de artigos exóticos de Damiana negocia produtos de todo tipo: espelhos mágicos, livros demoníacos, artefatos amaldiçoados. É um lugar onde esses objetos eventualmente vão parar em busca de novos donos. E em busca de manter o seu fascínio e terror sobre as pessoas. Um dia, uma jovem professora entra na loja e logo de cara Damiana já sabe que um dos artefatos mais cruéis, a caixa com a serpente Ouroboros, irá para as mãos dela. Mas, o rosto da professora desperta sentimentos há muito escondidos no coração de Damiana. Algo que ela não sabe explicar e a faz querer fazer alguma coisa para ajudá-la. Só que em sua loja e diante de tantos objetos de tamanho poder místico, ela não pode interferir. E agora? É então que Damiana decide seguir a jovem e observar o desenrolar dos acontecimentos. E se decidir agir ou não, eventualmente.


A escrita da Saskia Sá é muito bonita. A gente percebe a preocupação na escolha de palavras e em como estas fazem total sentido uma após a outra. Algumas construções frasais vão parecer estranhas, mas é engano seu: elas estão corretas. Você, leitor, é que precisa entender o ritmo delas. A narrativa é bastante intimista e segue impressões e sentimentos vividos pela personagem ao observar aquela a qual ela desenvolveu uma preocupação. Damiana é como uma expectadora e Saskia subverte a ideia do personagem-orelha. Nesse caso é como se a vendedora fosse a narradora da história e nos contasse em detalhes tudo aquilo que está observando a respeito daquela que está sendo observada. O elemento mágico é explicado com calma e tranquilidade, sem entrar em detalhes. O leitor sabe que aquilo é perigoso e até deduz o que possa vir a causar.


Na temática, nos deparamos com as dificuldades vividas por uma mulher que decide viver de sua arte. É curioso o quanto Saskia aborda tangencialmente o assunto e o leitor consegue intuir direitinho aonde ela deseja chegar. Ou seja, não é necessário o autor explicar detalhadamente qual o tema da história. Uma das magias da escrita é ser capaz de fazer o leitor caminhar através de seus próprios pés e chegar às próprias conclusões. A vida de uma poetisa é complicada, principalmente em um mundo tão machista quanto o nosso. Perder o espaço para o homem cis hétero capaz de fazer uma poesia meia sola, mas ter aquele sorriso perfeitinho que agrada às mulheres e o faz ser o boêmio aceito pela grande crítica. Enquanto isso, outras mulheres precisam fazer o dobro ou o triplo do esforço para alcançar metade do reconhecimento. Isso desanima muitas que entram por esse caminho. E tais obstáculos provocam depressão, dúvidas e angústias que podem acabar por ceifar suas vidas.


Fico contente de que esta bela história da Saskia sobre produção literária feminina seja a última desta coletânea. Pensem que a primeira edição da Suprasuma começou com um conto de uma autora que, mesmo jovem, já é alguém com sucesso e respeito tanto no Brasil quanto fora dele e termine com uma pessoa que nunca li nada a respeito, mas sei que é alguém que está em um grupo de escrita criativa ao lado da Jana. Já quero ler mais coisas da Saskia e sua bela escrita poética e intrigante.


Ficha Técnica:


Nome: Suprassuma n. 1

Autores: Andrezza Postay, Ariel Ayres, Fabiane Guimarães, Fernanda Castro, Giu Yukari Murakami, Jana Bianchi, Moacir Fio e Saskia Sá

Editora: Suma

Número de Páginas: 163

Ano de Publicação: 2021


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Um jovem cai na água e se descobre capaz de respirar embaixo da água. Em seu mundo, pessoas com essas características precisam seguir rumo a uma outra vida na água. Mas, o protagonista não quer ter sua capacidade de escolha tolhida por algo em que ele não acredita.



Esse é um conto dificílimo de se comentar. Vou tentar falar a respeito dele, mas tenho certeza que não vou conseguir avaliar apropriadamente ou sequer ser justo com o que ele apresenta. Preciso dizer logo de cara que apesar de eu ter tirado uma coruja no final das contas, isso não significa que algo no conto seja ruim ou nada do tipo. É mais porque eu acho que o conto é pouco amigável com quem está o lendo. Dito isso, a escrita da Natasha é linda. Tão linda como uma flor em um campo primaveresco à brisa da tarde. As frases parecem sempre estar no lugar certo, os encadeamentos de períodos simplesmente são excelentes. Fazem sentido. Mesmo se tratando de um conto onde o estilo descritivo predomina, não é cansativo nem nada do gênero.


Somos colocados diante de um protagonista que cedo descobre ser capaz de respirar embaixo da água. Segundo as tradições, ele deve abandonar a vida em cima da terra e iniciar uma nova vida no ambiente aquático. Mas, nosso protagonista não aceita isso, o que o coloca em uma situação de ostracismo pela sua sociedade. Ao rejeitar uma tradição, ele se coloca como alvo. E isso vai continuar dia após dia, com a vida se tornando insuportável para ele. Então ele decide fugir e tentar a vida em outro lugar... mas, isso não é apenas fugir da realidade? E as pessoas que ele deixou para trás, como ficam?


Recomendo lerem o posfácio onde a autora expõe suas ideias e conceitos iniciais para a história. Ela queria escrever algo sobre personagens trans, mas outra história surgiu então. Sua solução foi manter a essência da narrativa enquanto apenas mudava o ambiente no qual ela se passava. Ou seja, o fato de a história tratar de alguém que deseja ter o poder de escolha para o que ele quer para si ao mesmo tempo em que recebe sentimentos negativos daqueles que o rodeiam nada mais é do que uma metáfora para alguém que sofre preconceito de gênero. Pessoas que não se conformam com o que lhes é imposto e desejam seguir os caminhos do coração. Uma trajetória repleta de obstáculos e espinhos que vão provocar questionamentos, dúvidas e escolhas ruins. Mas, que àquele capaz de resistir e encontrar a sabedoria interna, se transforma em um ser iluminado.


A escrita da Natasha é totalmente figurativa e metafórica. Se você ler tentando entender as coisas ao pé da letra, a história vai parecer caótica e confusa. Por isso se torna necessário compreender os simbolismos: o ser capaz de entrar na água em oposição à vida na terra, o fato de o personagem ter abandonado sua vila, a reação daqueles que vivem ao seu redor, quem é a menina que o observa do lago. Entender cada simbolismo e buscar seu significado (partindo do não óbvio) pode ser uma tarefa mais complexa do que parece. Mas, infinitamente mais recompensadora. Achei o conto do tamanho certo e nem mesmo o fato de ser uma narrativa mais descritiva me incomodou. Só achei que é um daqueles contos que não vai agradar a todos, devido ao seu alto grau de dificuldade. Para quem busca uma leitura diferente e desafiadora, esta pode ser a sua pedida.










Ficha Técnica:


Nome: Marcas D'água em Chão de Madeira

Autora: Natasha Avital

Editora: Revista Trasgo

Número de Páginas: 23

Ano de Publicação: 2019


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Nesta história conhecemos o começo da vida de Merlim, como um porqueiro criado por um camponês que descobre ter incríveis poderes mágicos. Ele é perseguido por poderes que o desejam morto de qualquer forma.


Sinopse:


O jovem Merlim está a ponto de descobrir seus extraordinários poderes que o converterão no mago mais poderoso da história. Conhecerá Hector, um jovem de reputação duvidosa com quem cirará fortes laços de amizade. Ambos enfrentarão os perigos dos sinistros metamorfos.






A história do famoso mago Merlim já foi contada inúmeras vezes ao lado do grande rei Artur Pendragon. Por ser baseado em lendas antigas não existe uma versão definitiva ou sequer histórica. Sem falar que não são muitas as histórias que se focam especificamente no mago em si. Isso permite oportunidades como a desse quadrinho de criar uma narrativa ficcional sobre os primeiros anos de sua vida, como ele descobriu seus poderes. Esta é uma história bem no comecinho ainda mostrando a descoberta de que Merlim tem um destino especial aguardando-o no futuro. E que ele será responsável por grandes feitos caso consiga permanecer vivo até lá. Explorar esse ponto de vista pode oferecer novas oportunidades para boas histórias e Santullo consegue entregar um material bem divertido. Meu alerta fica àqueles que desejam algo fiel ao mito arturiano; é preciso pensar que essa é uma releitura do mito e que Merlim sequer tem uma história pura.


Vivendo ao lado de um homem que o trata mal desde que ele se entende por gente, Merlim é um criador de porcos que vê sua vida sendo mudada para sempre quando sua casa é assaltada por um grupo de bandidos. Dentre eles está Héctor, um guerreiro que tenta sobreviver a custo de pequenos furtos. Ele acaba sendo pego por Merlim que começa a despertar estranhos poderes. Em seus sonhos ele é alertado de que é um ser de enorme poder e seu destino se liga ao da própria Bretanha e que ele será responsável por inúmeras mudanças no futuro. Só que ele será perseguido por forças malignas que desejam matá-lo a todo custo. Tudo o que ele precisa fazer é sobreviver até a vida adulta. Héctor e Merlim formam uma improvável amizade e decidem ajudar uma jovem que diz estar sendo perseguida por homens que desejam matá-la. Mas, essa jovem pode ser mais do que aparenta ser.

A narrativa de Santullo foca na formação do Merlim. Quem ele é, o que deseja, o que o move para frente. O autor tenta compreender como o personagem vai se tornar quem ele é no futuro. Para isso, é como se ele apertasse um botão de reset e colocasse os pés no chão. Nesse primeiro volume, somos apresentados a um novo elenco de personagens criados para atender às necessidades narrativas da edição. Seja a pessoa que o cria, o guerreiro que se torna seu amigo ou aquela que o apresenta ao mundo da magia. Vale destacar que Santullo coloca o personagem como um órfão ao qual nunca conheceu os pais. Aí temos uma aura de personagem que podem ser misteriosos ou representando algum antigo poder. Santullo não entrega ao certo, mas a maneira como os sonhos de Merlim colocam existe alguma coisa mais aí. Não temos nenhuma pista além das falas enigmáticas das Filhas da Lua. A história ainda é bem inicial e não consegui me engajar muito bem com ela. Sinto que falta um algo mais que a marque como uma narrativa a ser apreciada, seja um romance fantástico, seja uma história de capa e espada. A melhor expressão (e sem nenhuma forma pejorativa de falar) é que falta identidade ao quadrinho. Talvez mais alguns volumes forneçam esse corpo necessário.


A arte do Jok tem alguns detalhes bem sujos que são bastante característicos da arte latino-americana. Apesar de ter momentos mais claros, a opção dele é do emprego de uma palheta escura. Como podemos ver no quadro acima. Os personagens são bastante expressivos e o leitor pode conferir um protagonista sempre confuso e assustado, um Héctor mais malandro e camponeses amedrontados diante do desconhecido. Os fundos são meio desfocados e essa arte mais suja auxilia a nos mostrar as origens humildes do personagem. Confesso que a arte do Jok não me atrai tanto quanto em suas obras de ficção científica. Aqui ela parece estranha demais. Talvez com um estilo mais polido e voltado para a alta fantasia teria sido melhor do que uma abordagem mais sombria. Mas, é questão de preferência mesmo.

Outro ponto que me deixou um pouco confuso foi em relação à magia propriamente dita. Vemos o personagem usando algumas habilidades e os antagonistas que são seres místicos. Mas, o funcionamento da magia não é explicado corretamente. Ou pelo menos não consegui encontrar uma lógica per se. As cenas onde o personagem desperta suas habilidades são um pouco confusas. Me perdi tentando encontrar o que estava acontecendo. Por outro lado, achei legal a manutenção de uma abordagem mais voltada para as energias da natureza. Em algumas releituras do mito arturiano, Merlim é quase um ser ultrapoderoso com poderes quase olimpianos. Novamente o quadrinho sofre de um desenvolvimento maior. A gente consegue ver pequenas sementes sendo plantadas para volumes posteriores. Mas, analisando a edição em si, não funciona bem. Vai precisar de um pouco de paciência do leitor, aguardando novos desenvolvimentos. Na minha opinião, tem um caldo legal a ser explorado ali.


A amizade que se forma entre Héctor e Merlim é quase que um espelho do que virá a ser futuramente a dualidade entre Artur e Merlim. Claro que aqui temos duas pessoas com a mesma idade descobrindo o mundo lado a lado. Héctor funciona como o personagem que tem mais sagacidade enquanto que Merlim ainda é inocente demais. Sua criação simples e sofrida ainda é uma prisão para o sábio que ele virá a ser no futuro. Pareá-lo com um cara mais vivido, porém não tão velho foi uma boa sacada do autor porque os transforma em parceiros sem criar aquela relação entre aluno e mentor que muitas vezes é a relação entre Artur e Merlim. Sei que estou me repetindo entre os três personagens, mas é inevitável fazer essa comparação. No mais, a HQ deixou algumas perguntas a serem respondidas, que provavelmente serão retomadas em futuras edições. A história ainda precisa ser bem desenvolvida, sendo que encontrei muitos problemas aqui, seja na narrativa ainda inicial, seja na arte que precisa de um polimento maior para atender à temática proposta.












Ficha Técnica:


Nome: Merlim - O Início

Autor: Rodolfo Santullo

Artista: Jok

Editora: Avec

Tradutora: Larissa Medeiros

Número de Páginas: 66

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora