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Uma série de pequenas histórias compõem esse romance que se passa em Campo das Flores. Uma cidade onde o real e o fantástico estão separados por uma linha muito fina e tudo pode acontecer.




Sinopse:


O vento faz a curva lá no fim do mundo à esquerda. Bem naquela última cidadezinha que o tempo esqueceu. Se o vento não virar lá, ele se perde em um vácuo ou qualquer nome que quiser dar para o vazio. E o vazio não é um lugar bom de se ficar, e, apesar de não ter nada lá, preenche cada poro, célula, átomo do corpo e dói mais que dor de dente. Daí importância do vento fazer o que tem que ser feito por aquelas bandas. A curva é uma necessidade, sabe?

Onde O Vento Faz a Curva é um livro sobre seis pessoas que moram nessa cidadezinha, que fica em um pé de serra, longe, mas tão longe, que tive que contá-las senão elas seriam tal qual o vento quando-não-faz-a-curva, poderiam cair no esquecimento e se perder por aí. Tem mistério, suspense, humor, amor e uma pitadinha de terror. Vem descobrir Onde o Vento Faz a Curva.




A cidade onde tudo pode acontecer


Geralmente associamos a ficção fantástica ao gênero de capa e espada, às grandes sagas. Mas, nem sempre isso é verdade. A fantasia recebeu uma leitura bem diferente na América Latina, muito fruto do mestre Gabriel Garcia Marquez e seu realismo mágico. Ele foi o responsável por eternizar a história da lendária Macondo e os vários personagens que a habitavam. E é com essa vertente que Larissa Brasil cria a cidade de Campo das Flores. Nela, uma simples brincadeira de copo pode esconder um terrível segredo, o amor entre duas meninas pode se tornar uma tragédia, e um velho homem pode finalmente encontrar sua falecida esposa após anos de tristeza.


Estamos diante de um romance fix-up, ou seja, uma série de histórias que se interconectam a partir de alguns elementos de enredo. E a autora faz isso de uma maneira bem sutil, sem parecer forçado. Este ano eu já tinha lido O Estranho Oeste de Kane Blackmoon (do autor Duda Falcão) que parte dessa mesma premissa. Mesmo eu adorando a escrita do Duda Falcão, que é um mestre contista, preciso dar o meu braço a torcer e dizer que, tecnicamente, a Larissa fez um trabalho maravilhoso usando essa ferramenta do fix-up. As ligações são tênues e naturais e o leitor vai se dando conta de que tudo aquilo compõe o mesmo universo, de uma cidade pequena onde as pessoas se conhecem e os fatos se cruzam. Lá pela terceira narrativa a gente vai começando a juntar as peças. As narrativas seguem um padrão de terceira pessoa, apesar de que tem uma ou duas que são em primeira. Ou seja, varia de acordo com a necessidade imposta pela história.


"Aquela cidade era pequena demais, insignificante demais, longe demais para saber contemplar a beleza daquele pássaro raro."

Não vou comentar sobre todas as histórias até porque eu quero deixar para os leitores descobrirem um pouco sobre elas. A narrativa de Paula é uma doce história de meninas de uma escola de freiras na flor da idade. Mesmo com as restrições impostas por uma escola religiosa, as meninas estão com os hormônios a toda por hora e pensam em se arrumar, nos meninos, nas amizades e nas rivalidades. Paula está em um dia normal de sua vida, admirando o professor pelo qual ela tem uma quedinha. Sua normalidade muda quando Patricia a chama para uma reunião escondida ao pé da escada, para matarem aula e fazerem algo interessante. Paula segue até lá e a brincadeira é o jogo do copo. Com certeza algum de nós já ouviu falar desse jogo ou até já participou dele. A autora trabalha com o temor e a tensão por trás desse jogo que começa com a incredulidade e termina com uma forte tensão. Já aqui eu pude perceber o quanto Larissa consegue brincar com o leitor com um final surpreendente.



A história de Dóris revela que a autora consegue brincar com personagens com lados obscuros. Nos apresentar uma personagem que parece ser uma boa pessoa e aos poucos nos mostrar como ela pode ser maligna e tortuosa quando aquilo que ela deseja começa a ser afastado de suas mãos. Tudo começa com uma conversa boba entre Dóris e Thais, duas amigas trocando confidências. Quando Thais pergunta a Dóris se ela já beijou alguém e esta diz que nunca tinha experimentado, acontece um breve momento de intimidade entre elas que vai se tornar nas chamas de uma paixão. Mas, a amiga de Dóris tem um segredo complicado que vai ser um obstáculo para nossa protagonista. A partir da metade do conto, a narrativa vai adotando um tom bem macabro até chegar em um daqueles finais que poderiam ter facilmente saído de um filme do Quentin Tarantino.


"O grande problema em compartilhar segredos é que você nunca sabe o que a outra pessoa fará com ele. É uma arma carregada que guardamos no bolso alheio."

Mas, nem só de forças macabras vivem as histórias de Larissa Brasil. Ela também consegue entregar histórias que acalentam nossos corações. Uma delas é o conto de Zé do Fumo. Este perdeu sua esposa, de formas não muito bem explicadas na narrativa. Mas, sua esposa deixou uma carta para ele onde declarava seu amor. Junto de outras coisas que lembravam ela, Zé do Fumo guardou a carta em um quadro na parede. Sempre que podia ele cheirava a carta que ainda mantinha o odor cítrico tão típico dela; as letras que revelavam o seu afeto. Mas, tudo muda quando um dia aparece outra carta... É nesse momento que Zé do Fumo tomará uma decisão importante.


Onde o Vento faz a Curva foi uma obra surpreendente para mim. Fui sem grandes expectativas e acabei genuinamente surpreso e impressionado. Não é o primeiro trabalho da Larissa Brasil que eu li; o outro foi A Garota na Casa da Colina. Se neste a autora revelou a sua habilidade em desenvolver as motivações de uma personagem, aqui ela se dedica a criar diversos personagens distintos e ligá-los através de laços que se revelam tênues, porém importantes para o resultado final que ela desejava criar. Com histórias que giram desde o doce e romântico até o obscuro e macabro, este é um daqueles trabalhos entrarão na minha lista de melhores do ano.



Ficha Técnica:


Nome: Onde o Vento faz a Curva

Autora: Larissa Brasil

Editora: Auto-publicado

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 91

Ano de Publicação: 2019


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Em um mundo onde o caos social impera e as pessoas adquiriram uma doença que os tornou incapaz de falar, Rye tenta sobreviver em mais uma jornada em um ônibus lotado. Mas, um acidente vai fazer com que ela conheça alguém que vai mudar a sua percepção sobre o que acontece ao seu redor.



Sons da Fala é um conto cruel que mostra a selvageria do ser humano e o quanto somos capazes de esquecer nossa humanidade. Nossa protagonista é Rye, uma mulher que está voltando para casa em um ônibus lotado de pessoas. Uma doença afligiu a humanidade e retirou da maior parte das pessoas a capacidade de falar e boa parte do seu raciocínio. Agora, os seres humanos não falam, apenas se comunicam com expressões iradas e com a violência. Quando encontram alguém que sabe falar, a inveja transparece e o indivíduo é espancado. Após um acidente no ônibus em que Rye estava, após uma briga entre duas pessoas que escala para algo generalizado, um homem chega de carro e oferece ajuda para Rye. Será sensato aceitar a ajuda?


Octávia Butler sabe jogar na nossa cara o quanto o ser humano é falho. Seja em uma narrativa sobre o preconceito étnico ainda existente, seja a incapacidade que temos de conviver como uma espécie unida ou até do fanatismo religioso, Butler sabe tocar nas nossas vulnerabilidades. Os seres humanos desse conto são praticamente animalescos seja em seus gestos, seja em sua forma de agir. O mundo parece uma paródia distópica do nosso onde uma simples viagem para obter suprimentos é uma jornada aos recantos mais selvagens do mundo. Se eu puder associar a alguma coisa, me lembrou os primeiros 40 minutos do filme Eu sou a Lenda (até o momento em que ele lida com os vampiros embaixo do viaduto). Por conta de todo esse problema, Rye não é mais capaz de confiar nas pessoas. O interessante é que a única pessoa que sabemos o nome é a protagonista e duas outras personagens que aparecem no final. Mesmo o homem que acaba entrando na história recebe um nome de Rye. Seja o motorista que tem em seu ônibus o seu ganha pão ou a mulher desesperada que foge de seu agressor. A humanidade está desprovida daquilo que a torna única: sua individualidade.


Não há mais instituições funcionando neste mundo. Polícia, governos... o que impera é a sobrevivência do mais forte. O fato de o homem do carro estar portando uma estrela de policial chega a ser curioso. Mas, como Rye vai acreditar que aquele homem representa uma força do bem? Não será apenas uma estratégia para baixar suas defesas e fazer com que ela entre em um novo lugar perigoso? É essa a dúvida que paira até para o leitor já que Butler não nos deixa margem para acreditarmos em algo diferente. Somente a fé da protagonista é que a fará seguir em frente e se arriscar diante do inesperado. Ela terá que confiar em seus instintos. A mensagem poderosa que fica nessa narrativa está no final e somente lá é que você vai entender por que o conto se chama Sons da Fala.


Ler qualquer coisa da autora é uma viagem por uma reflexão que se apodera do leitor. Seja destacando nossos aspectos sombrios, seja nos dando alguma luz de esperança no fim do túnel. Esse é um conto veloz, com uma temática poderosa e que vai fazer você ficar interessado em conhecer outras histórias da autora. Que tal experimentar?










Ficha Técnica:


Nome: Sons da Fala

Autora: Octávia E. Butler

Editora: Morro Branco

Número de Páginas: 35

Ano de Publicação: 2019


Conto disponível gratuitamente em:

Projeto Cápsula















Em uma sequência de três histórias, vemos histórias envolvendo a relação da humanidade com a natureza, os mistérios dos deuses antigos e um caçador que vai provocar uma matança desenfreada em um requiem de sangue e vísceras.



Sinopse:


Em 1845 o escritor norte-americano Henry David Thoreau retirou-se para a floresta, onde ergueu, com as próprias mãos, sua nova casa e a mobília, com o intuito de viver com o mínimo necessário e em total contato com a natureza. O que o moveu foi a necessidade de procurar entender as mudanças pela qual a sociedade da época passava, bem como investigar as necessidades essenciais da vida. Não se isolou, porém, da sociedade. Recebia visitas enquanto passava dois anos em contato absoluto com a natureza e seus livros, refletindo sobre a liberdade e a existência, que começava a assumir um ritmo acelerado nas cidades com a industrialização e urbanização crescentes. O resultado desta experiência social e espiritual a partir da autossuficiência tornou-se público com Walden, ou A Vida nos Bosques, manifesto poético que o autor publicou em 1854. Em 2019, Wagner Willian, premiado autor de obras magistrais como Bulldogma, Martírio de Joana Dark Side e O Maestro, o Cuco e a Lenda deixou a casa de Thoreau com novas considerações. Entrando para o time de grandes autores da DarkSide® Books, o quadrinista brasileiro entrega aos leitores uma obra de arte imersiva e reflexiva, ao mesmo tempo orgânica e visceral. Em Silvestre, acompanhamos a jornada de um velho caçador que atravessa e dialoga com lendas sobre divindades extintas, mergulhando na relação entre o homem e a natureza, e o respeito sobre o que a terra pode nos dar e o que somos capazes de oferecer. No isolamento de sua cabana, ele assa uma torta. Seu aroma cruza a memória, as paredes, a floresta, atraindo animais silvestres e criaturas fantásticas em um grande resgate ao convívio humano, digno de uma celebração selvagem e ritualística.






O chamado selvagem


Silvestre é uma experiência bem diferente. Wagner William nos coloca em um cenário no meio de uma floresta repleto de criaturas sobrenaturais as mais diversas ao mesmo tempo em que nos faz pensar sobre quem somos. Qual é a engrenagem que nos faz funcionar? O que é a real natureza humana? Em uma HQ linda e poética, ele passa do belo e magnífico ao grotesco e monstruoso em um piscar de olhos. Sem dúvida alguma foi uma das melhores HQs que saíram em 2019 e só prova o talento do autor. Daqueles quadrinhos que servem como vitrine para você curtir alguém e se tornar fã eterno.


Vou tentar falar um pouco sobre a história, mas acreditem que isso não será uma tarefa simples. Temos três narrativas que são interligadas e tem alguma sequência específica. Mas, é possível lê-las de forma independente. Na primeira parte, nos familiarizamos com aquele que vai ser uma espécie de protagonista da história, o caçador. Vemos sua rotina diária em busca de alimento e o quanto ele precisa se preparar e superar as dificuldades que são impostas pela mãe natureza. Esta pode ser bondosa e bela, mas também cruel e demoníaca. Os desígnios da natureza não são compreendidos pelo homem. A segunda narrativa começa com o caçador preparando uma torta que lhe foi ensinada por sua mãe. Quando a torta fica pronta todo tipo de divindade que tem a ver com a natureza chega na casa do caçador e ele procura repartir a torta com o maior número possível deles. Na última vemos uma inversão no que é contado na segunda história, e é uma espécie de orgia desenfreada de violência e sangue.


A arte do Wagner é linda. É preciso destacar que o Wagner é um ilustrador, então a maneira como ele concebe suas páginas pode parecer diferente do que você está acostumado. Ele enxerga as páginas como um todo e mesmo o letreiramento faz parte do cenário. Até o tipo de fonte que foi empregado naquele momento pode causar um efeito no leitor: uma letra mais correta implica uma pesquisa, algo manual denota um relato pessoal, uma letra macabra pode indicar um personagem com medo. A arte é pintada o que produz alguns efeitos magníficos. Mesmo páginas simples são obras de arte nas mãos do Wagner. Tem algumas páginas inteiras que são algo de outro mundo. Tem uma em especial lá pela terceira parte que mostra uma página inteira com vísceras que é arrepiante. Daquele tipo que te faz ficar horrorizado e maravilhado ao mesmo tempo em como ele foi capaz de fazer aquilo.



Algo importante de se destacar antes de passarmos aos temas abordados é em como arte e roteiro conversam entre si. Nos últimos tempos eu aprendi a curtir silêncios mais do que enormes caixas de texto. Admito que isso se deu muito por causa do Chabouté (leiam a minha matéria sobre Um Pedaço de Madeira e Aço) e a gente acaba aprendendo a ler mais os quadros propriamente ditos. A terceira parte é aquela que possui menos texto (em contraste com a primeira) e teoricamente passaria mais rápido. Me peguei passando minutos contemplando os quadros e retirando interpretações do que eu estava vendo. Ou seja, Silvestre é também uma HQ repleta de símbolos e metáforas. O roteiro conversa com a arte e vice-versa.


O ser humano está ilustrado na figura do caçador. Como se trata de uma HQ que trabalha muito os símbolos e as metáforas por trás deles, algumas interpretações são possíveis. Por exemplo, podemos especular que os três capítulos representariam o desenvolvimento da humanidade dos dias antigos até hoje. No primeiro capítulo o homem estaria descobrindo como dominar a natureza. Isso seria representado pelo caçador indo atrás da sua rara caça e ao longo do caminho ele vai nos mostrando pequenas lendas que representariam o conhecimento acumulado pelo ser humano até aquele momento. O segundo capítulo seria a era dos deuses quando os homens buscavam o favor deles de forma a alcançar benefícios. O ato de oferecer uma torta a eles representaria algum tipo de sacrifício ritual em troca do favor divino. Já o terceiro capítulo poderia ser interpretado de duas formas: ou representaria a vitória do monoteísmo sobre as religiões antigas (e aí o caçador poderia ser interpretado como o filho do Deus cristão) ou o crepúsculo dos deuses, quando o homem perde a fé nas divindades sobrenaturais.


Wagner pesquisou bem uma variedade de culturas, representadas por diversos panteões presentes na narrativa. Temos deuses védicos, pagãos, norte-americanos e até alguns representando a cultura brasileira como o curupira e a mula-sem-cabeça. Apesar do clima inicial de harmonia e união, logo reparamos como os deuses antigos não são nem um pouco amistosos. Algumas cenas bem estranhas vão se sucedendo uma atrás da outra e vão construindo o clima para o que viria a seguir. Não confundir os deuses representados pelo autor com seres amistosos e justos. Nesse sentido, temos toda a selvageria por trás de suas ações, ou situações que nem sempre saem como o esperado inicialmente. Alguns são malignos e cruéis, outros são trapaceiros.



Silvestre é um trabalho sensacional que eu só consigo encontrar uma palavra para descrevê-lo: visceral. E é isso o que vamos ver nas páginas que mostram o talento como pintor de Wagner Willian em que algumas cenas brilham com vida saída da tinta a óleo usada na composição delas. A narrativa exige um pouco mais do leitor e vai revelando detalhes e camadas que em uma primeira leitura não são tão perceptíveis. Mas, à medida em que nos sentamos e remoemos aquilo que foi lido, conseguimos fazer os links. Eu adorei o trabalho do autor e quero ler mais coisas dele.









Ficha Técnica:


Nome: Silvestre

Autor: Wagner Willian

Editora: DarkSide Books

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2019


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