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Gus é um garoto que vive no meio da floresta, isolado de tudo junto de seu pai. Ele não tem contato com outras pessoas e seu pai diz que se ele sair da cerca que separa sua casa do resto do mundo, ele será punido por Deus. Mas, quando seu pai fica doente e morre, Gus se vê sem opções. Só que Gus não é um menino comum; ele tem chifres como um antílope. E seu mundo irá mudar para sempre quando um homem enorme chamado Jepperd o salvar de caçadores.


Sinopse:


Após o sucesso de O Ninguém, a sua estreia como autor do selo Vertigo, o autor/artista Jeff Lemire escreve a sua primeira série contínua, Sweet Tooth. Uma mistura de Bambi e A Estrada de Cormac McCarthy, Sweet Tooth conta a história de Gus, um tipo novo e raro de híbrido entre animal e humano, que foi criado em isolando após uma pandemia inexplicável que afetou a humanidade há uma década atrás. Agora, com a morte de seu pai, ele precisa sobreviver sozinho... até que ele encontra um andarilho enorme chamado Jepperd que promete ajudá-lo. Jepperd e Gus embarcam em uma jornada pós-apocalíptica em uma América devastada para encontrar "A Reserva" um refúgio para híbridos.







Se já não bastasse Jeff Lemire ser um dos autores do momento com trabalhos incríveis como Gideon Falls e Black Hammer (ambos já resenhados aqui no site) a série Sweet Tooth foi adaptado para a Netflix. A HQ foi o primeiro trabalho de Jeff Lemire em uma série mais longa; seus trabalhos anteriores eram volumes únicos. Sweet Tooth projetou o nome de Lemire como revelação e seu sucesso atual se deve muito a seu trabalho na Vertigo. Sweet Tooth teve seis encadernados sendo que a Panini reeditou a série esse ano em três encadernados Deluxe. Para fins das resenhas aqui no Ficções Humanas, vou seguir a organização original de Lemire que é como a série foi pensada, ou seja, vou trabalhar com seis encadernados. Essa resenha aqui diz respeito aos capítulos 1 a 5 do primeiro volume Deluxe que corresponde ao primeiro arco de histórias. Minha opção foi levada em consideração à maneira mesmo como Lemire quis conduzir a história, e isso nos mostra a evolução do autor ao longo da edições.



A propósito... esqueçam uma correlação com a série. A HQ é muito, mas muito diferente da série. Não é melhor ou pior; é só que a abordagem de Lemire é mais melancólica e escura do que o tom leve e ingênuo da série. Até mesmo elementos de narrativa são bastante distintos.


Começamos com Gus isolado em sua cabana na floresta ao lado de seu pai. Certamente Gus é um menino diferente: possui um chifre de cervo, sendo um híbrido entre animal e humano. Seu pai é um homem bastante religioso e ele tem algumas regras para Gus: nunca sair da floresta, sempre rezar para Deus e por sua mãe e quando ver humanos, correr e se esconder. São as regras básicas de sobrevivência. Ele diz a Gus que o mundo lá fora foi destruído e se ele pisar fora da cerca que separa a casa do resto do mundo, Deus irá queimá-lo com o fogo do inferno. Só que o pai de Gus adoece e acaba falecendo, deixando Gus sozinho no mundo. Sua vida se encaminhava para algo mais tranquilo quando dois caçadores entram na floresta e estão caçando-o. Nosso protagonista é salvo graças a ajuda de Jepperd, um andarilho de constituição física avantajada que mata os dois caçadores, para horror de Gus. Jepperd avisa Gus sobre não ser mais possível sobreviver na floresta e que eles precisam sair dali antes que outros caçadores cheguem. O grandão promete a Gus levá-lo até um lugar chamado A Reserva onde ele poderá ficar seguros junto com outros híbridos assim como ele. Gus não entende do que Jepperd está falando porque isso contradiz tudo o que seu pai falou sobre o mundo. É aí que a história de Gus começa... com ele saindo da floresta profunda.


Vamos falar primeiro do elefante na sala: sim, o traço de Lemire é esquisito para caramba. Esse é o traço do autor e é bem específico dele. Não esperem que isso vai mudar até porque Lemire só usa esse traço em poucas obras. Faz parte da abordagem mais íntima dele em relação ao que ele pretende fazer com os seus personagens. Digo até que o traço de Lemire combina e muito com o estranho que ele promete trazer para Sweet Tooth. Os traços angulosos dele servem para ampliar a sensação de estranhamento e dá mais força às reações dos personagens. Posso não gostar do traço em si, mas através dele é possível fazer um estudo das emoções daqueles que estão envolvidos na história. Por exemplo, somos capazes de entender que Jepperd é um homem raivoso e marcado pelas agruras da realidade em que vive. Seu rosto está sempre fechado e demonstrando insatisfação e impaciência com quilo que acontece ao seu redor. Por outro lado, Gus manifesta reações de curiosidade e interesse pelo mundo. Ele não sabe como reagir aos humanos já que só viveu com seu pai por toda a sua vida.



Se o design de personagens é estranho, preciso elogiar os cenários e até o enquadramento. A gente realmente se deixa levar pela história e a forma como Lemire encontra saídas criativas para determinados momentos é fascinante. Por exemplo, tem um momento em que Gus desmaia após sofrer um ferimento. Lemire cria uma espécie de mosaico de pequenos quadros que vão se esfacelando quanto mais à direita o leitor vai observando, significando a perda de consciência. Ou o quadro acima que mostra um campo com cerca que serve para separar a mata da estrada. Os cenários também são muito bem feitos mostrando uma América devastada. Por isso, tudo é muito aberto, amplo. Há pouco contato com seres humanos que habitam em bolsões específicos. As cidades foram arrasadas por uma pandemia da qual sabemos ainda bem pouco.


Gus é um menino bastante inocente, embora não seja totalmente ingênuo. Ter sido criado isolado em uma mata fez dele uma pessoa que não conhece sobre o mundo ao seu redor. Seu pai era um homem bastante religioso e duro, o que pode ser percebido em suas falas. A gente vê um protagonista resiliente e que consegue manter a suavidade mesmo tendo sido criado privado de muitas coisas. Para ele, aquela mata era o mundo inteiro e quando ele vê suas fronteiras se abrindo, precisa reformular toda a sua filosofia de vida para poder encaixar outras experiências que tem aparecido em sua vida. O ato de sair de mata podemos até entender como um passo rumo à adolescência, a uma possível rebeldia e reformulação do seu próprio status quo. As regras criadas por seu pai precisam ser revistas e readaptadas a um mundo em transformação.


O que me espanta é o quanto Gus é uma pessoa completamente empática nessa série. Lemire faz o possível para torná-lo alguém para quem vamos torcer. Ele é um menino bondoso e curioso. Cabe até associar o protagonista ao animal ao qual ele é híbrido, o cervo. Ele tem características de receio e curiosidade. Receio no sentido de que ele se assusta facilmente e curioso por querer saber tudo o que está ao seu redor. Vamos ver se Lemire fará isso com outros híbridos, mas é uma forma legal de mostrar o quanto o lado animal faz parte da constituição emocional e psicológica de Gus assim como de outros. Outro ponto que vale a pena destacar é o quanto os seres humanos desse primeiro arco são desprezíveis. Não tem um único neste primeiro momento que possamos elogiar. Mesmo Jepperd é um homem duro e prático na forma como ele sobrevive no mundo. Ele não tem reservas em matar outro ser humano se ele precisar tirá-lo de seu caminho. Ou o cafetão da cidade que pegou mulheres fragilizadas por um mundo violento e as transformou em seus objetos de negócios. Algo que consegue deixar até mesmo Jepperd enojado ao vê-lo que ele não se importa nem de usar menores a seu bel prazer ou de agredir aquelas que o desobedecem. De fato, perceber o quanto Gus consegue manter sua bondade é admirável e nos coloca rumo a uma discussão que será retomada nos próximos encadernados: será que o ser humano é realmente o topo da cadeia alimentar ou estaremos vivenciando, nesta série de quadrinhos, uma forma alternativa de evolução?


A América está devastada pela pandemia. Vemos cenários terríveis espalhados por toda a HQ como a pilha de corpos presente na primeira cidade em que Gus e Jepperd chegam. Lemire não alivia nem um pouco os socos no estômago. Essa não é uma história feliz, possuindo vários momentos que são difíceis de engolir. A violência é bastante gráfica, embora não seja aquela coisa mais explícita como Garth Ennis faz em The Boys ou Preacher. Mas, tem diversos momentos de embrulhar o estômago e a própria história tem um tom melancólico. Carregada de um peso que nos faz refletir sobre o papel da humanidade frente a um mundo em decadência. E não estamos ajudando o planeta a se curar das feridas que nós mesmos causamos. O resultado de nossa interferência na natureza é o que acontece na narrativa, com uma humanidade se encaminhando para a sua alvorada.


Sweet Tooth é uma narrativa brutal e sensível ao mesmo tempo. Brutal no sentido de que ela nos apresenta na nossa cara os efeitos de nossos abusos ao meio ambiente com o surgimento de novas doenças e uma possível espécie que teria vindo para nos suceder. Lemire diz a nós que o Antropoceno não é o ponto final da evolução do planeta e que a natureza pode ser bem dura ao reagir contra os abusos da humanidade. Sensível no sentido de que Gus representa aquilo que a humanidade poderia ser se decidisse ser solidária e cooperativa no que tange às relações uns com os outros. O desenho continua sendo aquilo que Lemire sabe fazer, o que causa um estranhamento inicial. Mesmo assim seu traço estranho combina com a narrativa fazendo com que nosso olhar se concentre na narrativa gráfica em que roteiro e arte se combinam para entregar um todo conciso e interligado.












Ficha Técnica:


Nome: Sweet Tooth vol. 1 - Saindo da Mata

Autor: Jeff Lemire

Editora: Panini

Número de Páginas: 125

Ano de Publicação: 2012


Link de compra:

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Uma aterrorizante história de uma mãe que vai em busca de Dylan por causa do estranho suicídio de seu filho, que tinha síndrome de Asperger. Só que tem um agravante: mesmo depois de morto, o menino conversa por chat com sua mãe. Será apenas o desespero de uma mãe que amava seu filho ou existe uma trama mais sinistra por trás?


Sinopse:


Em um chat, Susy começa a receber mensagens do filho que, acometido pela síndrome de Asperger, suicidou-se tempos antes, em tenra idade. Mais uma vez está em curso a eterna luta entre o bem e o mal, cujas linhas divisórias são incertas e envoltas pela fumaça da batalha. Dylan deve iniciar uma terrível descida nas trevas, em busca da alma perdida de um menino.






Continuando em um ótimo ritmo de boas histórias. Gigi Simeoni nos traz uma daquelas histórias de partir o coração. Que falam a todos aqueles que são pais ou mães ou que perderam um filho por algum motivo. Nessa edição veremos a pura batalha entre o bem e o mal, e feito de uma maneira respeitosa, sem parecer piegas demais. Essa sexta edição mostra tudo aquilo que as edições de Dylan Dog tem de melhor: mistério, sobrenatural e algum tema reflexivo. Ah, e tem também o old boy precisando criar um perfil nas redes sociais. Será que ele irá manter? E temos uma extensa participação do Groucho, que mostra todo o seu lado estranho para os leitores.


Uma mulher chamada Suzy procura Dylan Dog para lhe ajudar a resolver um dilema que vem a afligindo. Há um ano atrás ela perdeu seu filho, Joy, porque ele cometeu um suicídio enquanto estava no internato Roseville. Joy sofria de síndrome de Asperger e não conseguia permanecer em uma escola comum, sendo sempre vítima de chacota por seus colegas. Principalmente por causa de sua fixação com a vida após a morte. Desde pequeno ele gosta do tema e fez todo um caderno de anotações sobre as aventuras de Dylan Dog, a quem ele tinha bastante admiração. Seguindo o conselho do diretor da última escola que ele frequentou, Suzy coloca Joy no internato Roseville. Mas, desde então o menino se retraiu ainda mais e fazia sinistros desenhos. Um dia, Suzy recebe a notícia de que Joy se atirou da janela de seu quarto no internato. Mesmo com todos os indícios levando a acreditar que o menino se suicidou, a mãe não conseguia acreditar nisso. Passado um ano e com Suzy ainda sofrendo por seu filho, ela começa a receber mensagens em suas redes sociais de alguém que está usando o perfil de seu filho. E esta pessoa sabe detalhes íntimos da sua vida com Joy. Será um enganador? Ou será alguma coisa mais sinistra?


Gigi Simeoni cuida do roteiro e da arte desta edição. Possui uma arte bem concentrada no uso de linhas verticais, rabiscos e perspectiva. Aquele tipo de arte que estamos familiarizados como sendo típico do quadrinho italiano: bom uso do P&B, atenção aos detalhes. Gostei demais da arte do Gigi e uma pena que cuidar de roteiro e arte seja tão trabalhoso porque eu desejaria tê-lo cuidando dos dois com mais frequência. E não pensem que por estar cuidando das duas funções faz alguma delas ser menos do que a outra. O roteiro está bem preciso em conjunto com uma arte que é de babar. Vejam os detalhes de perspectiva na página ao lado. Percebam o domínio do preto e branco. Não é apenas preencher o espaço com cores. Dominar o P&B significa saber quando um espaço do quadro deve ficar vazio e quando deve ser preenchido pelo preto. Ou como usar gradações do preto para gerar um cinza mais claro ou um grafite. Vejam a atenção aos detalhes da fisionomia do rosto na fotografia. Tudo é meticulosamente pensado para criar o clima adequado à cena.


O roteiro é sensacional. E aí vou dividir minha análise em três temas: a luta do bem contra o mal, o amor de uma mãe pelo seu filho e o preconceito contra autistas. No primeiro caso, a gente vê os autores evitando trabalhar esse tema do bem contra o mal. Imagina-se que seja algo clichê demais e os leitores não iriam gostar. Mas, como já afirmei outras vezes, um bom clichê é atemporal. Quando bem trabalhado, qualquer temática pode gerar uma boa história. Nesta edição temos um antagonista que é simplesmente maligno. É aquela existência que só se legitima causando a dor e o sofrimento às pessoas. A própria definição do demônio em comparação com as forças positivas. Dylan assume o papel de um cavaleiro branco (e bastante mulherengo e sarcástico) para defender uma mãe que ama seu filho. Ele aceita o caso porque percebe a dor no coração de Suzy e vê que existem forças malignas que desejam levar a essência de seu filho à danação. O papel de Dylan nesse volume é o de deter esses planos até porque ele é o único que tem a sensibilidade necessária para entender a existência de forças além da compreensão humana.


Essa é uma edição marcada também pela demonstração do amor de uma mãe por seu filho. Imaginem o desafio que é criar um menino que possui síndrome de Asperger, principalmente sem ajuda do pai e de sua família. Suzy e Joy criam uma relação de amor única em que ambos se tornam companheiros. Juntos eles são capazes de enfrentar todos os desafios apresentados pela vida. Mas, infelizmente acontece uma tragédia que tira muito cedo um filho da vida de sua mãe. Isso devasta a vida de Suzy. É como se tivessem tirado um grande pedaço de seu coração, como se ela estivesse morta em vida. Dylan percebe essa dor nos olhos dela quando Suzy o procura. E é interessante que ela sabe que seu filho está morto. Suzy entende que não há volta nisso. Mesmo quando as forças sobrenaturais se revelam. Tudo o que ela deseja é que Dylan descubra quem matou o seu filho porque, em seu coração de mãe, ela sabe que Joy não se matou. O que vai mover a trama é esse amor incondicional que levará mãe e filho, em diferentes planos de existência, a buscar ajudar um ao outro. Uma das cenas finais é de fazer qualquer um se emocionar.


Preciso também falar um pouco do tal internato Roseville. Isso porque Gigi Simeoni toca em parte no tema do abuso cometido por instituições ditas especializadas em lidar com crianças autistas ou com outros tipos de déficits de aprendizagem. Vários são os casos de agressões físicas ou morais realizadas com essas crianças. Isso é coisa séria; demonstra o quanto ainda existe bastante despreparo ou má intenção da parte de algumas pessoas que se dizem "especializadas". Lógico que lidar com crianças assim exige paciência e atenção. Mas, mais do que isso, pede amor no coração. O caso de Joy, apesar de cercado de elementos sobrenaturais que ditam as histórias de Dylan, também possui bases reais e a cada ano que passa as denúncias vão ficando numerosas. Claro que existem também os bons exemplos, mas o problema está aí e precisa ser enfrentado. Em um mundo onde a tolerância se torna uma virtude cada vez mais rara, precisamos ler mais sobre histórias que falam da relação pura entre uma mãe e seu filho.


Sexta edição sensacional vinda no esteio de uma quinta que foi marcante para a mitologia do personagem. Aqui temos um roteiro preciso com uma arte que transborda talento de um dos principais roteiristas da série. Uma história que fala bastante sobre amor, sobre bem e mal e sobre como precisamos de mais tolerância nesse mundo. Só quero dizer também o quanto passei a curtir as edições de Dylan Dog e é por histórias como essa que fico mais e mais ansioso por ler outras edições.











Ficha Técnica:


Nome: Dylan Dog Nova Série vol. 6 - Na Fumaça da Batalha

Autor: Gigi Simeoni

Editora: Mythos

Tradutor: Julio Schneider

Número de Páginas: 100

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

Vol. 1

Vol. 2

Vol. 3

Vol. 4

Vol. 5

Vol. 7

Vol. 8


Link de compra:

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Tomozaki é viciado em um jogo chamado Tackfam e por conta disso acabou se isolando socialmente. Ele acredita que o jogo no qual ele é um mestre é um game divino e ele não vê graça em estabelecer relações sociais. Até que ele conhece Hinami, uma adversária de peso e mestra na arte do jogo da vida.



A vida pode ser mais complexa do que parece em um primeiro momento. Repleta de desenvolvimentos e variáveis, é impossível prever o que vai acontecer no momento seguinte. Mas, é possível criar estratégias que possibilitem criar situações. Seja através de uma produção estética, ou de usar frases que possam formar assuntos a serem comentados entre um grupo de amigos. E essa compreensão de como funciona o cotidiano é que vai nos colocar diante de um garoto chamado Tomozaki, um garoto viciado em um jogo chamado Atack Families (parecido com o Smash Brothers) e que vê nas relações sociais algo tedioso e sem graça. Por essa razão ele não se dedica a criar relações com outras pessoas e foi deixado de lado pelos seus colegas. Em suas disputas no Tackfam (o apelido do jogo) ele conhece um player chamado noname. E um dia ele combina de se encontrar com noname para trocarem ideias sobre o jogo que eles tanto curtem. É aí que ele descobre que noname na verdade é Aoi Hinami, uma garota que frequenta a mesma escola que ele e está matriculada na mesma classe. E Hinami se prontifica a ensinar Tomozaki como lidar com as relações sociais. Segundo ela, a vida é um jogo e somente aqueles preparados podem conseguir se dar bem nela.


Jaku-Chara Tomozaki-kin ou Bottom-tier Character Tomozaki é uma animação baseada em uma light novel escrita por Yuki Yaku e que é publicada desde 2016 e conta com 9 volumes até o momento. Nos EUA ela é publicada pela Yen Press. A light novel foi adaptada em um mangá de Eight Chida que é publicado pela Square Enix em sua revista Gangan Joker. O mangá tem 5 volumes até o momento. O anime estreou na temporada de janeiro contando com 12 episódios. A direção é de Shinsuke Yanagi e o roteiro foi adaptado para série por Fumihiko Shimo (famosa por Fairy Tail). O estúdio foi o Project Nº9 e caso vocês fiquem curiosos para assistir, ele está disponível no streaming da Funanimation. Foram adaptados os 3 primeiros volumes da light novel, ou seja, tem muito material ainda para adaptar. A animação não é nada excepcional até porque uma comédia romântica não exige tanto dessa parte. Mesmo assim, o estúdio entrega um material decente e o design dos personagens está bem legal. Cada um é bem diferente um do outro. A trilha sonora não compromete e consegue se encaixar de forma adequada aos momentos mais dramáticos ou mais leves do anime. Não é aquele anime que vai mudar sua vida e até acho que outros animes do mesmo estilo conseguem entregar melhor do que Jaku-Chara Tomozaki-kun, mas mesmo assim a história consegue ser divertida e intrigante ao mesmo tempo.


A dinâmica central do anime está no bate-bola entre Tomozaki e Hinami. A garota funciona como uma espécie de "sensei" para o protagonista. E é curioso que o anime consegue criar uma estrutura de problemas da semana ou missão da semana. Quem assistiu no ritmo de lançamentos ficava preso à narrativa porque ela meio que entregava episódios fechados no começo até o arco da eleição para presidente de classe. E o espectador vai sentindo o personagem crescer lentamente a cada novo episódio. Sim, esse crescimento é devagar e a cada novo episódio é como se o Tomozaki tateasse o caminho pelo qual ele estava seguindo. Era bem engraçado ele testando o que ele aprendeu de forma bem desastrada no episódio seguinte. A completa falta de tato do protagonista tornava os episódios mais leves. A gente só vai ver o Tomozaki se "normalizando" lá pelo final desta temporada. Ao mesmo tempo em que é legal ver o protagonista se transformando, a narrativa esconde bem uma contradição mais e mais explícita a cada novo episódio. Até que ela estoura no final da temporada.



Tomozaki é o típico gamer viciado japonês. Recluso, se torna antissocial porque não vê graça nas relações sociais. Ou simplesmente não consegue se relacionar bem porque se sente diferente. Quando ele conhece Hinami e percebe que ela é o oposto dele, Tomozaki toma um choque. Ela é popular, estudiosa, desejada por vários colegas e causa inveja em outras garotas que desejam ocupar o seu lugar. Tudo isso sendo uma jogadora de Tackfam no mesmo nível do protagonista. Isso causa insatisfação no coração dele. Como ela consegue ser tão eficiente? Qual é o segredo dela? Hinami acaba convencendo-o a dar uma chance ao "jogo da vida" e perceber que ele é o jogo supremo. Os dias de Tomozaki passam a ser preenchidos por pequenas missões passadas a ele por Hinami; algo quase como um RPG em que ele precisa vencer missões para conseguir níveis. Os objetivos começam bem genéricos como conversar com uma pessoa, fazer 5 perguntas, andar junto com uma pessoa voltando para casa. E aos poucos vão se tornando mais e mais complexos até o momento em que Hinami coloca para ele o objetivo de namorar uma menina até o final do verão.


A personalidade de Hinami é bem complicada de entender. Ao longo dessa temporada, a personagem funciona como uma espécie de pedestal a ser alcançado. Não à toa ela é vista com carinho por alguns e inveja por outros. Só que algumas coisas começam a ficar estranhas à medida em que a temporada passa. Hinami tem uma personalidade bastante artificial. O que ela passa para o Tomozaki é o que ela faz por si mesma. Como uma máscara que ela usa boa parte do tempo. Acaba que não conseguimos saber como a personagem é de verdade. Como se a Hinami fosse uma pequena raposa que se adapta ao ambiente em que ela se encontra com extrema facilidade. Para aqueles que começam a se relacionar mais a fundo com ela, Hinami vai parecer bem evasiva e pouco verdadeira. Esse lado dela fica mais visível durante a eleição para presidente em que Tomozaki tem como missão ajudar a Minami a vencer a Hinami.


Outros personagens vão entrando na vida de Tomozaki e ajudando-o a crescer. A primeira delas é a Minami embora ele tenha tentado se relacionar com a Izumi, uma garota que parece também curtir o Tackfam. Mas, tendo falhado com a Izumi, embora tenha conseguido ajudá-la de certa forma, Tomozaki desenvolve uma amizade bem legal com a Minami, ou Mimimi para os seus colegas. Minami tem uma personalidade feliz e estranha o que talvez tenha ajudado na aproximação entre os dois. E ter a Hinami como ponto em comum pode ter sido um fator decisivo. Tomozaki acaba precisando desenvolver um pouco de tato com a Minami, o que se torna uma missão bem complexa dada a estranheza da personalidade dela. A gente descobre, por exemplo, que Minami tem uma rivalidade saudável com a Hinami. Mas, ela se torna uma obsessão depois de um tempo e Tomozaki precisa agir e entender o motivo por trás das atitudes de sua nova amiga. Tem uma cena muito legal na estação de trem em que ela expõe seus sentimentos a respeito de sua amiga de uma forma honesta para Tomozaki e Tama, sua amiga mais próxima.



Até aí Tomozaki entende apenas que Hinami é uma mulher de muitos recursos. E que sua dedicação é fora do normal para tudo aquilo que ela faz. Mas, ele começa a reparar em algumas coisas dissonantes quando se relaciona com uma simpática garota chamada Fuka. É curioso que Tomozaki tinha como missão conversar com a Izumi, mas acaba desenvolvendo uma amizade com a Fuka. E nem percebe o quanto é correspondido por ela. Fuka é uma garota reservada, que gosta bastante de ler e, assim como Tomozaki, tem bastante dificuldade para se relacionar com as pessoas. Durante uma das missões dadas por Hinami, ele mente a ela dizendo ser fã dos livros de Michael Ande (acredito ser uma homenagem a Michael Ende, o escritor de História sem Fim) para se aproximar dela. Mas, nosso protagonista não consegue mentir adequadamente, mas Fuka acaba não se importando muito com isso. As aproximações de Tomozaki são retribuídas ao quadrado por Fuka que a gente percebe ter um crush no nosso protagonista sem tato. A percepção de que algo das lições de Hinami está errada acontece durante um encontro entre Fuka e Tomozaki. Sem entrar em detalhes para não dar spoilers, ele percebe que ao usar algumas das coisas da Hinami, estas não funcionam exatamente. Ou produzem resultados que não combinam com ele.


E é aí que chegamos à nossa reflexão. A vida é um jogo? Podemos simplesmente criar estratégias para causar reações nas pessoas? Uma das táticas bizarras da Hinami é o famoso bloco de assuntos. Ela dá a ele um pequeno bloquinho de anotações (que ela usava) com vários temas que podem ser inseridos no meio de uma conversa. Quase como prompts de escrita usados por escritores para dar ideias para um livro. Segundo ela, é possível criar conexões entre os diversos temas do bloquinho. Ou até gerar reações baseadas nele. Existe toda uma disciplina estética de forma a construir reações específicas de outras pessoas em relação a si. Mas, construir relações não é algo tão artificial assim. É algo intuitivo criado a partir das relações no dia-a-dia. Coisas podem acontecer de forma inesperada. Mesmo em um ambiente como a escola. Criar situações para gerar reações te torna uma pessoa manipuladora e sem personalidade. É isso o que Tomozaki começa a perceber a respeito de Hinami. Claro que ele imagina ser apenas uma impressão, que vai se tornando mais e mais forte com os episódios se seguindo. Ao final, ele tem uma conversa franca com Hinami que deixa sementes para serem desenvolvidas em uma possível segunda temporada. Por enquanto não temos ideia se vai haver uma segunda, mas tudo indica que sim porque a recepção foi positiva e uma versão dublada em inglês foi encomendada pela Funanimation.


E aí, o que acharam da série? Deixem aí nos comentários.