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Um menino (aparentemente autista) tem a habilidade de pegar futuros possíveis e colar em nossa realidade, alterando-a. Membros do governo o supervisionam e seu poder só pode ser ativado através do medo ou da raiva.

Deixo logo um aviso para aqueles que são sensíveis a histórias que envolvam meninos autistas ou violência sexual. Não continuem. É uma história forte.




Esta é uma narrativa contada por um jovem retraído (aparentemente um autista, apesar de nunca ser dito de forma explícita) que possui a habilidade de pegar futuros possíveis e alterar nossa realidade. É como se ele fosse um mestre tecelão e os futuros fossem cordas que pudessem ser trocadas de um lado para o outro. Ele as entende por cores: azul, para as tranquilas; vermelhas, para as catastróficas; brancas, para as pacíficas. O governo usa as suas habilidades para alterar os eventos a seu favor. Mas, isso é feito à custa da liberdade e da vida do protagonista. Para que ele consiga ativar a habilidade, ele precisa sentir medo ou raiva de seus captores. Somente a partir disso que ele entra em uma espécie de transe que o permite fazer a operação. Chega a um ponto que tudo o que o menino deseja é que tudo aquilo acabe.


Essa sensação de medo ou raiva é provocada pelos agentes que se encontram em sua casa. Mas, isto não é feito com ele, já que ele é uma "mercadoria" valiosa. Os agentes tem medo de machucá-lo a ponto de ele não poder mais ativar o seu poder. Portanto, quem sofre é sua mãe. Os agentes a agridem tanto fisicamente quanto sexualmente. As cenas são fortes e causam uma forte repulsa no leitor. O protagonista se sente culpado por tudo o que acontece com sua mãe. Mas, estando em uma cadeira de rodas, ele está impossibilitado de ajudá-lo. Em um dos futuros possíveis, sua mãe acaba engravidando de um dos seus agressores e não consegue mais olhar para seu filho.


Acho que um dos sentimentos que mais transbordam nessa narrativa é o de impotência. É o de ser incapaz de ajudar aqueles que você ama. Essa sensação de impotência é algo mais agressivo do que a própria violência em si. Por essa razão é o que o narrador acaba tomando uma atitude drástica. Porque ele realiza que a sua própria presença é o catalisador daquilo tudo. O Sr. Henry é o responsável por verificar se o futuro adequado foi adicionado com sucesso à linha temporal. Ele é o único que entende verdadeiramente a extensão dos poderes do protagonista. Este personagem é apresentado quase como alguém sem característica alguma. Como se fosse um branco, um vazio em sua vida. É uma mensagem profunda sobre como o menino passou a enxergar aqueles ao seu redor. Talvez essa retração total é a maneira como ele lida com o problema.


Old Dead Futures é um conto poderoso, e que, se você é pai ou mãe, vai tocá-lo profundamente. O final é arrebatador e mostra o quanto o amor de um filho pode ser poderoso.


Ficha Técnica:


Nome: Old Dead Futures

Autora: Tina Connolly

Editora: Tor.com

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 14

Ano de Publicação: 2013

Avaliação:


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Uma guerra acontece entre rebeldes e o governo vigente. Dura, cruel e sanguinária, transforma as pessoas e destrói vidas. Quando ela acaba, aqueles que saíram feridos passam por um processo que os transforma em ciborgues.



Sinopse:


Olavo Amaral mescla fatos e fantasia, narrativas labirínticas e distopias, na tradição dos grandes autores que escapam do realismo para tratar dos temas cruciais da situação humana.




Em uma narrativa repleta de camadas, Olavo Amaral nos coloca uma série de temas contemporâneos. É impressionante quando um autor consegue maximizar sua escrita a ponto de um parágrafo possuir tantas leituras diferentes quanto significados. Estamos diante de uma narrativa com pouco mais de dez páginas, cujas imagens podem nos revelar temas como a guerra, o fim da inocência, a opressão de um governo, a alienação e uma sociedade vigiada. Uma riqueza tão grande que o tema dos ciborgues se perde nesse manancial literário.


Estamos diante de um protagonista sem nome que parece estar escrevendo algo para o leitor. Trata-se de uma narrativa híbrida de primeira e segunda pessoas onde a quarta dimensão é quebrada vez ou outra. Isso porque o protagonista se refere ao leitor como "você" em algumas cenas, revelando momentos em que teria encontrado esse "você" ou alguma situação que o fez lembrar dessa pessoa. A escrita é muito poética e as palavras são vibrantes e cheias de energia. Os parágrafos possuem significados ocultos e jogos de palavras que podem conduzir diferentes leitores a diversos caminhos. Não dá para o leitor ler esse conto de maneira leviana ou rápida. Não recomendo isso. Vá com calma e apreenda o significado do que o autor está querendo dizer. Reflita. Deixe a mensagem entrar. Só depois prossiga. Se for preciso, releia algumas vezes.


A narrativa trata de um grupo de jovens que se rebelaram contra um governo opressor. A guerra durou algum tempo e fez com que estes jovens acabassem amadurecendo rápido demais. A dureza da guerra transformando jovens em homens devastados ao final do conflito. Este termina quando os líderes do movimento acabam conquistando aquilo que desejam do governo. Os oprimidos se tornaram opressores. Àqueles que foram feridos na guerra, resta uma operação que substitui os membros ou órgãos perdidos por peças mecânicas. Mas, a sociedade parece ser a mesma para eles? Depois do fim de um conflito duro e que todos buscavam algo que não foi alcançado, o que fazer?


"Pedaços e cicatrizes concretas de um passado que se esvai, marcas de uma derrota que nos une como a vitória não seria capaz."

Esta é a história daqueles que perderam. O quanto estes foram assimilados por uma sociedade que eles combatiam tanto. E agora se veem dentro dela, precisando se adaptar depois de terem tido suas vidas lançadas para o alto. Nenhum deles consegue se encaixar, já que os olhares daqueles que julgam estão por toda a parte. Nosso protagonista acaba seguindo para um bar onde outros como ele se encontram. Até aquele momento, o personagem sentia muita pena de si mesmo. Primeiro por ter sobrevivido enquanto outros morreram; e em segundo lugar, o porquê de ele ter deixado seus membros serem substituídos. Ele não se sente parte do próprio corpo.


O autor trata de temas que estão sempre em voga. Um outro exemplo é o do governo opressor que transforma mesmo a melhor das intenções em uma corrida capitalista mortal. Imagine fazer parte de um movimento que possuía um objetivo nobre e ver seus líderes negociando vantagens para si. O quanto isso pode devastar o coração de um rebelde. Quando aqueles no qual você acreditava passaram para o outro lado e se uniram àqueles que combatiam até algum tempo atrás. Infelizmente isso é mais comum do que parece. Essa sensação, esse sentimento de insatisfação é transmitido pelo protagonista que não se conforma com o que aconteceu. A injustiça de tudo aquilo é reveladora de o quanto a sociedade pode não recompensar aqueles que buscaram um equilíbrio.


Conto maravilhoso e só tenho a agradecer à Companhia das Letras por ter republicado esse conto em um formato tão legal. Pude ler a narrativa como se fosse uma pílula de encanto em uma tarde de primavera. Só tenho a recomendar a escrita de Olavo Amaral, um autor que eu não conhecia e o qual buscarei ler outros trabalhos.


Ficha Técnica:


Nome: O Ano em que nos Tornamos Ciborgues

Autor: Olavo Amaral

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 13

Ano de Publicação: 2019


Avaliação:


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  • Paulo Vinicius

Fran Briggs nos apresenta novamente a famosa jornada do herói, em um formato divertido e engraçado.


Sinopse:


Era uma vez uma ordinária garota chamada Fulana. Numa bela tarde de sol, enquanto Fulana se dedicava ao seu não-tão-produtivo passatempo de não fazer nada, ela recebeu de sua mãe uma importante ordem, à qual uma recusa colocaria em risco sua integridade física. A tortuosa missão incumbida a Fulana foi a terrível demanda de… comprar pão. E assim começa essa aventura ilustrada muito da sem vergonha. Talvez você já tenha ouvido falar sobre A Jornada do Herói, ou Monomito. Se esse for o seu caso, não se preocupe. Este livro não vai mais uma vez explicar o passo a passo dessa narrativa que roteiristas e romancistas utilizam de um modo acadêmico (outra palavra para complicado). Aqui vamos usar, de um jeito nonsense e divertido, a estrutura cíclica estudada por Joseph Campbell e detalhada pelo roteirista Christopher Vogler em sua obra A Jornada do Escritor para contar uma história onde esses detalhes possam ser desconstruídos ou transformados ao bel-prazer, com a ajuda da tremenda cara de pau dessa narradora que aqui vos fala.





Ainda há espaço para a jornada do herói?


Talvez essa seja a grande pergunta que Fran Briggs procura responder com o seu divertido guia para esta velha mecânica que ainda hoje é utilizada em diversas mídias (sejam livros, séries de TV, cinema). Decidi não fazer uma resenha sobre esse livro ilustrado porque acho que nesse caso cabe mais essa discussão. Esta mecânica acabou se popularizando graças a Christopher Vogler que escreveu um livro chamado A Jornada do Escritor. Nele, o autor nos apresenta uma estrutura para composição narrativa baseada naquilo que Joseph Campbell chama de estrutura mítica (em seu livro O Herói de Mil Faces). Não vou entrar em detalhes a respeito (até posso depois montar uma matéria se vocês, leitores, quiserem) mas simplificando muito, Vogler constrói uma espécie de estrutura em etapas que levam um personagem das suas origens até sua apoteose como herói. Vogler foi um dos consultores de roteiro para Star Wars: A Nova Esperança, então esse é um dos lugares em que vocês podem ver essa estrutura em ação.


Fran Briggs buscou decompor toda a longa estrutura montada por Vogler (são 488 páginas na edição da Aleph) e brincou um pouco com os clichês. Achei muito divertida a forma como ela buscou apresentar toda a estrutura narrativa partindo de uma jornada simples: uma garota preguiçosa indo buscar pão para sua mãe. Eu até imaginei que a autora iria tecer críticas colocando a estrutura toda de forma sarcástica, mas não foi o caso. A ideia é muito mais brincar com essas estruturas e apresentar tudo de uma forma fácil e didática. Sério, gente... são 80 páginas sendo que boa parte delas tem desenhos. Acho que se tiver 40 páginas é muito. E mesmo assim eu senti que qualquer pessoa consegue entender tudo, mesmo se não tiver nenhum conhecimento prévio. A arte é linda e divertida e cada uma delas busca passar a etapa que está sendo descrita no texto. É uma exemplificação da respectiva etapa. Nesse sentido, a proposta cumpre bem o seu papel. Não esperem uma arte super detalhista, porque essa não é a ideia. Para mim, funcionou super bem.


Sobre a estrutura em si, como qualquer mecânica chega um momento em que há um stress, um momento que de tanto ser usado, é preciso deixar descansar. Ou então pensar em uma maneira para não tornar a estrutura tão óbvia como parece. O que a Fran nos apresenta são os passos básicos sem ordenar ao leitor como ele deve usar. Tudo o que ela apresenta pode ser reinventado porque a HQ não tem a pretensão de ser um guia. Talvez o que torna o livro do Vogler tão icônico é que ele esmiúça demais todo o mecanismo e o leitor fica tentado a copiar tudo ipsis litteris, sem modificar nada. E não é nesse sentido que ele escreveu o livro. É possível mudar... surpreender, sem mexer demais na Jornada em si. Christopher Nolan fez isso na trilogia do Batman. A gente consegue ver ali a Jornada do Herói, mas em diversos pontos temos alguma coisa diferente ou alterada de forma a surpreender o leitor.


Outro ponto que eu já cheguei a comentar em outras matérias é que não há só a jornada do herói como estrutura narrativa. Temos a estrutura em três atos, como ficou famosa pelo autor Robert McKee em seu livro Story: Substância, Estrutura, Estilo e os Princípios da Escrita do Roteiro. Por décadas foi A estrutura dominante no mundo cinematográfico. Mas, pensando melhor depois, poderia ser interessante mesclarmos diversas estruturas narrativas. O roteiro precisa atender às necessidades daquele que está escrevendo. Para a pequena aventura da Fran Briggs em sua HQ, a narrativa mítica serviu bem, apesar de ela brincar um pouco com as expectativas aqui e ali. O ponto é: podemos criar em cima daquilo que foi feito. As mecânicas podem ser alteradas ou mescladas. Quem manda no roteiro é o roteirista e não a estrutura.


Em última análise, qualquer coisa bem feita pode ser única. Mesmo que seja uma estrutura ultrapassada. Vou usar um exemplo bobo para isso (pegando um pouco da good vibes da Fran). Eu sou um fã de wrestling (luta livre). E uma das características básicas do wrestling é contar uma boa história que culmine em um combate entre dois ou mais indivíduos. Seja uma história de vingança, de traição, de inveja, de dominância. Não importa. Bom wrestling vem de um bom roteiro (e não apenas das habilidades atléticas dos envolvidos). Como espectador, eu preciso me importar com o que esteja acontecendo. Hoje, a empresa dominante neste ramo é a WWE, uma empresa que já está no mercado há mais de quatro décadas. Como qualquer empresa há muito tempo no mercado, ela se acomodou. Quase sempre suas narrativas são recauchutadas ou repetitivas, o que cansou os fãs mais apaixonados do gênero. No último ano, apareceu uma concorrente à WWE, a AEW, formada por lutadores mais jovens e alguns mais experientes sob a tutela de um milionário do petróleo. O curioso dessa nova empresa é que ela vem empregando modelos de roteiro usados nas décadas de 1980 e 1990. Roteiros que seriam chamados de ultrapassados e tolos, mas que os membros da equipe criativa conseguiram adaptar para o público nos dias de hoje. O que eu quero chegar com isso é que não importa qual estrutura narrativa você use... O que importa é entregar aos seus leitores uma história que seja criativa e envolvente. Para um autor, o pior tipo de reação não é o ódio, mas a indiferença.


Enfim, eu recomendo A Jornada da Heroína? Claro! Achei tão divertida e criativa que eu vou indicar a todos os meus amigos, sejam eles autores ou não. É uma forma prática de conhecer aquilo que a gente acompanha há tanto tempo na televisão. A Fran traz tudo de uma forma tão ágil que você vai devorar esta HQ em uma sentada, mas eu garanto a você que será uma daquelas HQs que vamos reler inúmeras vezes.



Quadrinho mencionado:


Ficha Técnica:


Nome: A Jornada da Heroína

Autora: Fran Briggs

Editora: Jambô

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 80

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

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