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Uma noitada entre amigos que vai se tornando uma aventura muito doida. Com direito a ida a um bar russo e a confusões mil. Otávio te convida para essa loucura ao lado de seus três amigos de bebida.



Sinopse:


Traje de Rigor é uma adaptação em quadrinhos de Gustavo Lambreta do conto homônimo de Marcos Rey.


Otávio comprou um smoking sob medida e está ansioso para usá-lo no baile. Ele sai mais cedo para beber um pouco no bar e se encontra com alguns amigos que não via há tempos. Esta é uma história em volume único de como uma simples ida a um baile pode se tornar algo diferente do planejado.


Agora em versão digital publicado pela Conrad Editora





Essa HQ é a adaptação de um conto escrito por Marcos Rey. E ela chega para mostrar o quanto o brasileiro é capaz de criar histórias divertidas com aquele ritmo brasileiro de ser. Traje de Rigor trata da boêmia e da amizade, mesmo as falsas e as amizades de bar. Na narrativa o leitor vai encontrar de tudo: confusão, reflexão, amizade, aventura. Foi uma grata surpresa ler essa HQ porque eu entrei não esperando nada e fui recompensado com algo bastante divertido. Afinal quantas vezes já não fomos para uma noitada esperando uma coisa e quando nos deparamos vivemos algo completamente inusitado, mas igualmente divertido?


A ação começa com Otávio se preparando para ir a um baile de gala. Para isso ele coloca sua melhor roupa e parte para aquecer os motores antes de ir para a festa. Ele decide beber um whisky até que um de seus amigos aparece e quer por que quer empurrar uma arma para ele comprar. Logo em seguida aparece o festeiro Gianini que resolve filar uma bebida, já que Otávio está pagando. E por último chega o último dos três amigos, um pai de família enrolado que está levando leite ninho para seus filhos. Mas acaba parando para uma birita rápida com os demais. O que vamos ver a seguir é uma série de desventuras malucas dos amigos por todos os bares da cidade. Porque a festa não para jamais.


O roteiro é adaptado, mas eu não tive contato com o original então não tenho como avaliar a fidelidade do mesmo. No entanto, achei a narrativa bem coesa e inteligente. Os personagens são bem delineados pelo roteiro e ao final conhecemos todos os personagens de forma íntima. Cada um deles possui uma personalidade própria e característica que o diferencia dos demais. Por exemplo, mesmo o pai de família a gente percebe que ele é um fanfarrão no fundo e aos poucos sua verdadeira personalidade vai aparecendo. Se focar nos quatro personagens é uma atitude acertada porque eles é que são a essência da história. Claro que tudo gira em torno de Otávio e em como ele se relaciona com os outros três. O leitor percebe logo no começo que o protagonista quer apenas causar inveja nos outros. Ele acaba se colocando em uma posição superior aos demais, fato esse comprovado pela sua vestimenta, um smoking caro em relação aos outros que estão vestidos normalmente.




Ao mesmo tempo um de seus amigos, Gianini, percebe o que está acontecendo e decide usar isso a seu favor. Ao fazer Otávio pagar por todas as despesas, Gianini "aluga" a companhia e a amizade dos demais. Sim, é uma aventura divertida entre amigos que lembra bastante Se Beber, Não Case. Mas, também a falsidade dos amigos está presente em alguns momentos e principalmente mais para o final. O quanto de tudo isso é uma aventura e o quanto não passa de outros se aproveitando de um amigo metido? Tem uma cena ótima que representa essa visão de Otávio que é quando ele olha no espelho e vê seus companheiros deformados enquanto ele brilha no meio da cena.


A arte do Gustavo Lambreta está excelente para essa HQ. Não se enganem porque apesar de ser uma narrativa contida, existem detalhes a serem trabalhados em cada cenário. Ainda mais se imaginarmos que os amigos vão parar nos mais variados ambientes. Mesmo sendo preto e branco, Lambreta usa a cor azul para dar detalhes e causar um impacto geral. Algumas vezes as roupas dos personagens estão na cor azul, enquanto em outras é algum elemento do cenário que está assim. O design de personagens é simples, mas se encaixa como uma luva na proposta geral. Devemos pensar que os amigos não são idealizado, sendo apenas pessoas comuns que podem ser baixinhos, velhos, barrigudos.


A HQ é excelente. Recomendo bastante porque vai causar no leitor todo o tipo de reações: espanto, divertimento, reflexão. Afinal, a gente já teve um Otávio em nossas vidas... ou podemos até ter sido um Gianini em algum momento. É mais uma publicação da Conrad que difere bastante do que temos visto no mercado. Uma grata surpresa de verdade.













Ficha Técnica:


Nome: Traje de Rigor

Adaptado por Gustavo Lambreta do conto original de Marcos Rey

Editora: Conrad

Número de Páginas: 58

Ano de Publicação: 2020


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Para que você obtenha a felicidade absoluta, alguém precisa estar em uma situação de degradação completa. O quanto estamos dispostos a fazer essa troca?



Aqueles que Abandonam Omelas é uma história curta clássica de Úrsula K. Le Guin que foi vencedora do Hugo na categoria de histórias curtas em 1972. É um dos contos que pertencem a uma das melhores coletâneas de histórias da autora: The Wind's Twelve Quarters (que eu adoraria que alguma editora trouxesse para o Brasil). A Editora Morro Branco traduziu e disponibilizou gratuitamente este conto em sua plataforma, o Projeto Cápsula.


Imaginem uma cidade linda e maravilhosa. Onde as pessoas estão celebrando um festival, dançando e cantando enquanto as luzes da cidade revelam todas as belezas. Crianças tocam flautas, com acordes belíssimos. A cidade é uma utopia magnífica, onde não há pobreza e nem doenças. O narrador segue em descrições idílicas deste verdadeiro paraíso na Terra. E se o leitor quiser pode acrescentar uma orgia qualquer com sacerdotes ou sacerdotisas nuas passeando pelas ruas da cidade. Ou, se o leitor quiser algo mais estimulante, acrescente o drooz, uma droga capaz de fazer o que quiser com os sentidos. O importante é o leitor se sentir encantado pelas maravilhas dessa cidade. Mas, isso vem a um preço. Para que esta felicidade exista, uma criança vive nas profundezas desta cidade. Com medo, assustada e mal nutrida, sua desgraça é o que sustenta a felicidade dos demais. Ela vive nua, desnutrida, sentada nas próprias fezes, sendo xingada e vítima de pena pelos outros. Todos da cidade sabem que ela existe. O que acontece a ela é necessário para que a cidade viva sua era de ouro.


Le Guin é uma autora incrível ao tecer uma história que possui tantos significados como esta. O que ela discute aqui é um tema aparentemente claro, mas que exige muita reflexão: a injustiça social. E aí é possível trazermos essa discussão para o mundo em que vivemos. A alegoria que ela emprega é o da Criança Torturada, algo que Dostoievski explora em Os Irmãos Karamázov: somos capazes de conviver com a certeza de que a nossa felicidade depende da desgraça de outra pessoa? Na narrativa, Le Guin usa descrições bem vívidas tanto acerca da cidade magnífica como o da criança torturada. No mundo de hoje, temos uma sociedade capitalista que se construiu em cima da desgraça de muitos. Se engana quem pensa que o modelo econômico é igualitário. Ele jamais vai ser. Para o capitalismo funcionar, eu preciso ter poucos ricos e muitos pobres. Dessa forma quem é rico dita o andamento da sociedade enquanto o pobre trabalha almejando, com sua força de trabalho, se tornar um integrante da elite. Ou seja, para a bela cidade da elite funcionar, ela depende da criança torturada que é a massa camponesa.


Inteligentemente, Le Guin nos coloca como cúmplices da narrativa. Isso porque a narrativa funciona em uma mescla de segunda e terceira pessoas. As descrições do narrador não são tão completas assim e ele coloca na mente do leitor as sementes para que ele possa construir sua própria versão da cidade. A todo o momento ele faz essas interlocuções onde ele pede que acrescentemos as festividades, as orgias, as drogas entorpecedoras. Tudo a nosso gosto. Ou seja, Omelas é a nossa utopia manifestada de forma concreta. Quando ela nos apresenta a Criança Torturada, já havíamos criado tudo o que tanto desejamos. É como se o narrador (ou seja a própria autora) fosse Mefistófeles, e nos oferecesse tudo o que quiséssemos, mas em algum momento teríamos que pagar o preço. E esse preço vem em uma descrição que, diferente da abertura fornecida pela anterior, é inteiramente fechada e não dá espaço para justificativas. A criança vive em um estado deplorável e nós, leitores, somos parte disso porque aceitamos transformar a cidade em nosso conceito de cidade e ambientação perfeita.


É esse jogo duplo de culpabilidade, cumplicidade e tortura que tornam o conto tão poderoso. Porque ele joga na nossa cara como o mundo é injusto. Como o sistema do qual fazemos parte não prega igualdade, mas a imundície. É a definição absoluta de o quanto não existem luzes na nossa cidade sem a escuridão dos esgotos. Qual é a solução? Nenhuma. Le Guin não se propõe a te dar um final feliz, uma solução para os problemas do mundo. Ela só nos mostra o quanto somos inertes em tentar impedir que aquela criança seja torturada. Porque aqueles de nós que possuem mais escrúpulos apenas vão fazer como aqueles que mais se incomodaram com a situação na cidade: abandonar Omelas.


Ficha Técnica:


Nome: Aqueles que Abandonam Omelas

Autora: Úrsula K. Le Guin

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Especulativa

Tradutora: Heci Regina Candiani

Número de Páginas: 21

Ano de Publicação: 2019


Link para leitura


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Indo ao resgate de Xavier que se perdeu em janeiro de 1980, Galileu e Estevão usam a máquina do tempo para trazer o chefe de volta na marra. Mas, Galileu não esperava ter de rever alguns traumas do passado.



Sinopse:


Quanto tempo o tempo tem?


Galileu tem medo de chuva. Não chega a ser um problema tão grande assim, a não ser por um detalhe: ele é meteorologista — e está prestes a enfrentar a maior tempestade de sua vida, mas ainda nem sabe disso.





Quando se fala em histórias de viagem no tempo, normalmente o leitor imagina histórias aventurescas ou que tratem do futuro da humanidade. Mas, é possível abordar este gênero de uma maneira mais intimista como Audrey Niffenegger fez em A Mulher do Viajante do Tempo. É nesse clima que Anna Martino conta a história de Galileu, um homem já maduro, médico e parte de uma equipe de viajantes do tempo a serviço de Xavier. Quando uma das expedições de Xavier dá errado, eles precisam ir até 1980 resgatar o patrão. Só que Galileu não esperava ter que enfrentar alguns dos fantasmas de seu passado.


Uma das características marcantes da escrita da autora é seu jeito compassado de levar a história. Ela não tem pressa de expor as situações e sentimentos dos personagens. Isto a gente pode perceber em A Casa de Vidro, onde ela vai contar uma narrativa que dura vários anos. Ela consegue nos entregar um personagem repleto de camadas na figura de Galileu. Ele possui um trauma relacionado a chuvas e enchentes. Logo no início ela revela que o personagem perdeu a mãe na enchente do rio Capiberibe. O personagem acaba sendo enviado para o Rio de Janeiro para ser cuidado por sua avó de quem guarda boas recordações. Nesse resgate de Xavier, ele jamais esperaria cruzar com sua avó no meio de uma capital como São Paulo. Mas, o destino prega estranhas peças em nossas vidas. A narrativa vai nos guiar pela vida do protagonista e ao mesmo tempo em que ele vai se recordando de alguns bons momentos, Galileu descobre novas informações sobre sua vida.


Não paramos para pensar muito a respeito de nossas infâncias. Sempre nos lembramos com nostalgia de algumas coisas, mas as informações costumam ser nubladas. É interessante perceber como a visão de determinadas coisas ou a opinião sobre nós pode mudar de acordo com o ponto de vista. E é isso o que pega o nosso viajante do tempo de surpresa. Ao mesmo tempo o personagem acaba revendo algumas de suas opiniões sobre acontecimentos do passado. Isso com um novo olhar, um olhar mais maduro de quem já teve anos de vivência.


Se eu falo que a escrita da Anna é compassada, o fato de a narrativa toda se passar em um dia acaba tornando tudo muito corrido. Eu entendo que havia a necessidade de mostrar uma certa urgência, mas isso foi prejudicial ao todo. Talvez se a história tivesse ocorrido no espaço de alguns dias, daria para aceitar determinados acontecimentos. Por exemplo, por mais que Galileu seja um cara bom de lábia, as pessoas o aceitaram com muita facilidade. Informações íntimas de família foram repassadas para ele em um espaço de horas. Mesmo ele sendo um conhecido de alguém aparentado da família, eu acho pouco provável repassar essas informações para um total estranho. Nesse sentido, a narrativa da Anna teria se beneficiado da própria qualidade da autora, a paciência e o ritmo calmo: construir uma interação entre Galileu e a família no espaço de alguns dias e criar alguns obstáculos para Estevão e Xavier.


A leitura é muito gostosa e divertida. A Anna tem uma qualidade de compreensão de personagens que poucos autores possuem. Como eu já disse algumas vezes, ela é uma boa contadora de histórias. Infelizmente ela acabou derrapando no próprio esquema que ela criou para essa história em particular, mas essa narrativa vai te deixar pensando bastante sobre escolhas e o valor dos dias vividos. Nossa existência é única e cada nascer do sol é um momento que jamais se repetirá no tempo e no espaço. Aproveitem cada segundo de suas vidas.











Ficha Técnica:


Nome: Senhor Tempo Bom

Autor: Anna Martino

Editora: Plutão Livros

Número de Páginas: 78

Ano de Publicação: 2020


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