• Paulo Vinicius

Resenha: "Autonomous" de Annalee Newitz

Jack é uma pirata de produtos farmacêuticos. Ela vende produtos ilegais de forma a financiar suas pesquisas para tratar pessoas com necessidades reais. Eliasz e Paladin foram enviados para caçar Jack por conta de um de seus produtos ilegais que está matando pessoas. Terá ela sido responsável ou não?

Sinopse:


Quando alguma coisa pode ser possuída, como podemos ser livres?

Terra, 2144. Jack é uma cientista anti-patentes que se transformou em uma pirata de drogas, atravessando o mundo em um submarino como uma Robin Hood farmacêutica, fabricando receitas baratas para pessoas pobres que de outra forma não poderiam pagar por elas. Mas sua última experiência deixou um rastro de overdoses letais quando pessoas se tornam viciadas em seus trabalhos, fazendo tarefas repetitivas até que eles se tornam inseguros ou insanos.

Em seu encalço está uma dupla improvável: Eliasz, um agente militar da IPC e seu parceiro robótico, Paladin. À medida em que eles correm para impedir que as origens sinistras da droga de Jack se espalhem pelo mundo, eles começam a formar uma estranha relação próxima que nenhum dos dois entende completamente.

E por baixo de tudo isso está uma questão fundamental: a liberdade é possível em uma cultura onde tudo, até mesmo pessoas, podem ser possuídas?




Assim como Neuromancer de William Gibson significou uma revolução na maneira de escrevermos histórias sobre um futuro assustador, tenho certeza que estamos diante de outro desses marcos. Autonomous não só é uma história cujo futuro pode ser posicionado logo ali do lado, mas é uma narrativa escrita de maneira extremamente competente por uma autora que está muito antenada em tudo o que acontece no mundo neste momento e extrapola apenas um pouquinho.

A escrita de Annalee é em terceira pessoa usando núcleos narrativos específicos. Isso porque estamos diante de uma história que herda muitos elementos de histórias de perseguição como Prenda-me Se For Capaz. Então temos capítulos que se alternam entre Jack e Paladin. Mais para o final que veremos um terceiro ponto de vista. O grande calcanhar de aquiles do romance está aqui já que a história usa muitos jargões farmacêuticos e relacionados a patentes. No primeiro terço, eu recomendo ao leitor fazer uma leitura lenta, sossegada e atenta para pegar detalhes como os indentures e as chaves de autonomia. É fundamental para a boa compreensão da história entender como funciona o esquema das propriedades. Nos capítulos da Jack vemos uma história que alterna momentos no presente e flashbacks de forma a que nós possamos entender como a protagonista se envolveu nesse mundo cinza da pirataria.

Em um mundo onde qualquer um, até mesmo uma pessoa, pode ser propriedade de alguém, o que significa a liberdade? Essa é uma pergunta que vai nos assolar por toda a narrativa. Jack é uma pessoa que precisa viver uma vida à sombra. Ela é capaz de fazer aquilo que ela deseja, no sentido de ajudar as pessoas fornecendo remédios baratos desprovido de patentes de grandes empresas. Entretanto, para isso ela precisou abdicar de sua liberdade precisando viver em um submarino e não se envolvendo muito com as pessoas. Threezed é alguém que passou de mão em mão se tornando propriedade de um centro de estudos. Mas, de uma hora para outra ele vai parar nas mãos de pessoas inescrupulosas que o obrigam a fazer serviços especiais a pessoas com perversões. Muito de sua inocência é perdida por conta de seu indenture que o torna um ser que não entende nuances de sentimentos. Ele deseja ser livre, mas entende que isso é tão inalcançável quanto escalar o Everest. Por isso,ele vive o presente. Paladin é um bot que foi colocado para ser o par de Eliasz em uma investigação. Mas, aos poucos ele (ou ela) vai percebendo estranhos sentimentos sendo desenvolvidos por seu parceiro. E para apreensão de Paladin, Eliasz parece estar correspondendo a esses sentimentos. O bot vai precisar chegar a termos com isso e talvez uma chave de autonomia dê a possibilidade para que isso aconteça.


As grandes indústrias farmacêuticas são o grande vilão da história. A gente percebe o domínio que eles possuem sobre a vida e a morte das pessoas. Claro, Annalee extrapola um pouco o tema para escrever um romance de ficção científica, mas alguns dos elementos presentes na construção de mundo não são tão absurdos assim. Basta vocês verem algum documentário falando sobre como as indústrias de fármacos ganham bilhões e como suas pesquisas partem de erros que eles mesmos cometeram. O que sabemos realmente sobre os produtos que estamos ingerindo? Há também uma forte discussão sobre a indústria de patentes. Remédios que poderiam ser popularizados e vendidos a preços populares para camadas sociais mais pobres não chegam. Podemos estar diante das grandes máfias do século XXI: aquelas que controlam o quanto a mais de vida você tem direito.

Admito que eu gostaria de ter visto um pouco mais de dúvida na relação entre Eliasz e Paladin. Acho que essa parte da história poderia ter gerado inúmeras discussões principalmente quanto ao fato da Eliasz ser um machista por conta de situações de seu passado. A Annalee tinha ouro ali e poderia ter esticado por mais dois ou três capítulos antes de Paladin decidir o seu sexo. Aliás, Paladin poderia ter escolhido o outro que daria muito pano para manga. Por ser da mesma escola da Charlie Jane Anders, eu queria ter visto a Annalee ser ainda mais ousada. Mas, okay, rendeu uma trama instigante e que certamente provocou a reflexão sobre gênero. Tem algumas cenas que serão desconfortáveis para a "boa família brasileira". A cena do tiroteio é incrível tanto do ponto de vista da ação quanto do sexual. Quem ler essa parte, vai entender o que eu estou falando.

Autonomous é um dos grandes romances de ficção científica deste ano. Não tenho dúvidas que irá concorrer a muitas premiações em 2018. Annalee conseguiu me surpreender com o seu romance de estréia com uma escrita competente e que, mesmo com seu jargão necessário para situar a história, ela consegue entregar uma história compreensível. Para mim, ela revolucionou o gênero ao nos colocar diante de novas tecnologias que podem ser exploradas por outros autores tranquilamente.

Alô, editoras brasileiras... estão procurando uma boa ficção científica para publicar? Aqui está uma!!


Ficha Técnica:

Nome: Autonomous Autora: Annalee Newitz Editora: Tor Gênero: Ficção Científica Número de Páginas: 302 Ano de Lançamento: 2017


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