top of page
Buscar

Uma edição marcante em que Alan Moore fecha as cortinas do seu segundo ato com dois momentos clássicos: o Parlamento das Árvores e a edição número 50. Altíssimo nível do começo ao fim.


ree

Sinopse:


De 1983 a 1987, um jovem escritor britânico chamado Alan Moore revolucionou os quadrinhos dos Estados Unidos. Sua ousada abordagem na série do Monstro do Pântano, da DC Comics, definiu novos padrões para a narrativa gráfica e desencadeou uma revolução na nona arte que repercute até os dias de hoje. Partindo das premissas de horror gótico do título e construindo um marcante e intuitivo estilo narrativo e uma profundidade de caracterização sem precedentes, a visão de Moore foi traduzida assombrosamente em belos desenhos de colaboradores como Stephen Bissette, John Totleben, Rick Veitch e Alfredo Alcala. O resultado é uma das mais duradouras obras-primas dos quadrinhos. este volume reúne as edições 43 a 50 de Swamp Thing, e inclui as clássicas histórias o parlamento das árvores e fim, bem como textos introdutórios de Charles Shaar Murray e Neil Gaiman.





Nesta quarta edição chegamos ao encerramento do segundo ato da saga de Alan Moore, Gótico Americano. Vale a pena curtir essa edição para ver como o Mago das Palavras se sai com uma série mais longa. Gosto de ver como ele planeja edição a edição, soltando pistas aqui ou ali para amarrar em um ponto climático mais tarde. Isso sem a necessidade dos famosos arcos que se tornaram o padrão hoje em dia. Ele conseguia entregar histórias fechadas (e muito bem fechadas) em uma ou duas edições. Ao mesmo tempo, o leitor era capaz de perceber que havia algo maior se formando no fundo e que a cada edição mais e mais revelações eram entregues a ele. Moore não testa a inteligência do leitor; pelo contrário, ele o incentiva a sair da zona de conforto e pesquisar sobre as várias coisas que ele deixa nos diálogos ou as citações de fundo. Qualquer edição é muito mais do que ela transparece em sua superfície. É possível ficar apenas com o creme, mas se o leitor for interessado, ele vai perceber que o recheio é tão melhor.


O roteiro de Moore está afiadíssimo, ainda mais por essa ser uma edição de desfechos e continuidades. Ao mesmo tempo, ele consegue nos entregar duas histórias iniciais fantásticas que fazem críticas sociais bastante situadas em sua época, mas que reverberam até os dias de hoje. Apesar de ser O Conjuro e Fim as duas histórias mais importantes desta edição, a que ficou mais conhecida foi O Parlamento das Árvores justamente por ela ser tão fundamental para a mitologia do personagem. E o leitor percebe que nada é por acaso e quando ele relê edições anteriores é recompensado com um novo nível de compreensão. Gosto demais do roteiro do Moore por ele ter um pé maior no literário do que nos quadrinhos. Muitos reclamam do excesso de textos do Moore, algo que já aludi em resenhas passadas. Sinceramente: uma HQ como essa deve ser lida com calma e atenção, absorvendo os detalhes e referências. Não há pressa para ler isso. A forma como Moore conduz seus diálogos mostra o seu cuidado com a concatenação de palavras, com seu significado maior. Aproveito para parabenizar o tradutor, Edu Tanaka, por ter mantido a essência do que Moore escreve. Não deve ter sido fácil traduzi-lo, principalmente os trechos finais. Faço ideia de como deve ter sido fazer isso principalmente com Etrigan e os demônios rimadores. Mas, deixo para falar isso mais à frente.


Dessa vez vou optar por falar de três histórias, caso contrário a resenha vai ficar enorme. E escolho começar pela primeira, E o Vento Trouxe, que pega mais essa vibe do Moore de críticas sociais. Na história temos um homem que encontra um estranho fruto no pântano e leva consigo. Mal sabe ele que esses frutos são despejados pelo Monstro do Pântano enquanto caminha e possui um efeito alucinógeno. O personagem é um hippie que ganha a vida vendendo substâncias com esse tipo de efeito, ou seja, é um traficante de drogas especiais. Duas pessoas acabam levando pedaços do fruto: um homem desesperado para encontrar alguma droga que possa servir para abafar as dores finais de sua esposa que está morrendo; e um aproveitador e malandro que quer um pouco de drogas para curtir uma farra com os amigos. Os resultados são bem diferentes.

ree

Aqui temos a sagacidade do Moore de colocar o personagem que dá título ao quadrinho como meramente periférico e secundário para essa história. O roteiro gira no fornecedor de drogas e nas pessoas que tem contato com os frutos. Aqui é bem patente a inspiração de Moore nas obras de Aldous Huxley como As Portas da Percepção ou em Philip K, Dick e seu Ubik. A concepção de bem e mal de Moore é bastante fluida e nos mostra como ela depende do caráter daquele que entra em contato com os produtos. Ou seja, não há um maniqueísmo em seus roteiros ou sequer um julgamento de sua parte. Cabe ao leitor julgar como ele vê ou simplesmente não julgar e fazer uma autorreflexão. Cabe destacar o que acontece lá pelo final quando o fornecedor se vê com a oportunidade de consumir os frutos que ele colheu, mas pensa se deve ou não fazê-lo visto as duas situações com as quais ele tem contato. Será ele digno de poder consumir o fruto e abrir as portas de sua mente ou ele apenas é mais um hipócrita deste mundo decaído?


Essas edições que levam até o número cinquenta são as últimas desenhadas por Totleben que não consegue manter os prazos apertados de uma revista mensal. Nesse número, Ron Randall assume a arte e consegue manter o nível lá em cima. Ele alopra nas cores, principalmente quando as duas pessoas começam a ter alucinações. Até a quadrinização é bastante irregular e tem umas brincadeiras com sobreposições e ausências que é de cair em queixo. Não vou cansar de dizer isso, mas estamos falando da década de 1980 e tem muito desenhista que não faz metade do que esses caras faziam há quase quarenta anos. Tem um par de páginas que mostram a alucinação do bandido e o da mulher, e a do bandido é toda estranha, com o rosto se desfazendo e ele se transformando em outra coisa como se fosse uma gosma ou uma substância estranha. Por outro lado, a mulher abre seu olhar e o mundo parece repleto de novas nuances e complexidades, até com as cores sendo mais brilhantes e ela podendo enxergar por dentro dos vasos sanguíneos da existência. Pensar que dois tipos de páginas tão diferentes foram desenhadas pelo mesmo artista é uma aula de arte. Sem falar nos detalhe presentes no fundo. Randall consegue sair do brilhante ao apavorante em segundos.


Queria falar de Revoada de Corvos, mas vou falar de O Parlamento das Árvores porque... não tem como ignorar essa edição. Que coisa linda! Também conta com a arte de Stan Woch e Ron Randall. Vou inverter as coisas e falar primeiro da arte. Não há uma indicação clara sobre quem fez os trechos como se fosse uma série de fotos sequenciais, mas a ideia foi genial. Mostra realmente uma pessoa que tirava fotos enquanto observava pássaros e de repente vê alguma coisa que tira sua atenção. As fotos são sequenciadas e o artista faz um ótimo uso do preto e branco. Dá para ver os traços finos da pena realçando cada detalhe. E diga-se de passagem: como eles conseguiram tornar a Abigail uma personagem sexy, sem ser vulgar. Não é nenhuma bombshell, mas caramba. Sem falar na pequena sequência de quadros verticais em que ela está tendo seu momento de romance com o Monstro: absolutamente belo e íntimo ao mesmo tempo. Repito: sem nenhuma apelação a sexualizar a personagem nem nada. Toda a cena explode sedução. Mas, a arte não fica só nisso e temos toda a sequência do Parlamento das Árvores onde o Monstro finalmente encontra respostas para suas perguntas. A arte mostra toda a enorme variedade da flora da região, já que cada um dos Monstros anteriores vieram de diferentes partes do planeta. Sem falar nos pequenos mementos que fazem parte da história particular de cada um como o pequeno aviãozinho com a cruz de ferro que faz lembrar a história daquela árvore em particular.


Volto a comentar o quanto Tatjana Wood é um monstro na colorização. Todo esse número é baseado na exploração do verde e ela consegue obter ótimos resultados saindo bem pouco de uma alternância entre cores arbóreas. Há também bastante do marrom que remete ao tronco das árvores ou ao solo que alimenta cada uma delas. Algumas cenas ganham toda uma nova dimensão com a combinação de cores como o momento em que o Monstro passa a conhecer melhora história de outros que vieram antes dele. É difícil não pensar no próprio conceito de Gaia ao se deparar com elas. Em um dado momento, o Monstro é cercado por linhas e substâncias que me fazem recordar de tecidos nervosos. O verde tem a intrusão do amarelo, como se uma luz ou alguma outra coisa explodisse no meio de tudo para gerar vida.


ree

O roteiro é maravilhoso e mostra as diversas influências por trás daquilo que Moore queria dar ao Monstro. Não é somente alicerçar toda a sua estranha em um único conjunto de mitos e lendas, mas torná-lo holístico, um representante do próprio planeta cuja existência é a soma de todas as coisas. Então vamos ver o personagem mencionar cultos ameríndios em que os nativos cultuavam deuses e forças da natureza, a visão celta sobre a floresta, a tragédia que sempre acomete aqueles que representam as forças do Verde. Moore cria camadas em cima de camadas e não explora todas, deixando muita coisa para o leitor deduzir. Não só isso como ele oferece uma coesão ao mundo mágico da DC, algo que era uma bagunça completa. E podemos colocar essa história no pós-Crise nas Infinitas Terras, ou seja, muita coisa que o Moore criou é cânone. Pode ter tido um retcon aqui ou ali, mas no geral suas mudanças continuam porque elas fazem sentido. Diga-se de passagem, a versão que ele dá para o Constantine é uma das minhas favoritas ao lado da do Garth Ennis. É um personagem sacana, sedutor, misterioso, mas que ao mesmo tempo quer buscar seu espaço no mundo. Não tem medo de enganar outros para conseguir seus objetivos e entende que isso faz parte do jogo. Melhor do que isso: bem e mal são, para ele, rótulos que não definem pessoas. Hoje alguém pode estar de um lado e amanhã pode ser que ela seja útil para o outro.


O Fim é tudo aquilo que o leitor espera em uma grande saga: um vilão terrível, altas apostas, riscos terríveis e vários personagens se reunindo em prol de uma causa comum. Pensa em um Vingadores Ultimato só que com personagens da magia e menos conhecidos da DC. Mesmo assim, Moore consegue levantar todos e mostrar o quanto cada um é essencial para lidar com os obstáculos. Tem muito personagem ali que ganhou nova vida nas mãos do autor como o Vingador Fantasma e a Zatanna, que era só a filha do grande mago Zatara ou a mulher que usa meias três quartos e um chapéu. Zatanna ganha camadas, tem toda a troca de indiretas com o Constantine, seu amor pelo pai, o quanto o pai é protetor e Zatanna inexperiente, apesar de poderosa. Em O Fim, apesar do Monstro ser o protagonista da HQ, ele toma meio que um segundo plano, buscando entender ainda quem é e qual é o seu papel nesse combate cósmico. Moore valoriza bastante a jornada ao invés do destino. Mesmo aqueles personagens que possuem respostas prontas e definitivas não são os certos para entender o que está de fato acontecendo. É no Monstro do Pântano, que tem dúvidas e dilemas ainda não resolvidos que a história vai se focar. Somente com ele e seu horror diante do que viu e experienciou ao longo das edições que pistas são deixadas. Moore segue muito a lógica oriental de que cada um deve encontrar seu caminho e cabe a ele apenas mostrar as possibilidades existentes. Não caba a ele te dar uma resposta pronta.


Essa edição dupla é o ápice da arte de Bissette que retorna para uma última edição e entrega tudo de si. Seus quadros estão adiadíssimos e ele mescla suas penas precisas com uma técnica de hachuras que fornece grandiosidade aos personagens. Tem até pontilhamentos que oferecem detalhes de expressões ou cenas que ganham em perspectiva. Algumas cenas são ótimas como a que reúne os dois lados do conflito lado a lado e a gente consegue ver toda uma variedade de formas e cores. Pensando que temos poucos "heróis" no confronto direto, o resto seriam elementos de seus exércitos. Bissette entrega essa variedade com as criaturas sem forma, os trolls, os demônios e outros seres bizarros. É a exploração do terror em seu último nível. Meu destaque fica para uma cena maravilhosa em que o Espectro está lutando contra a criatura sem forma e conseguimos ver o corpo bizarro do Espectro em seus detalhes e o Desafiador em baixo em uma janela circular apenas observando o quanto aquilo está completamente fora de sua alçada. As cenas ganham poder. Mesmo os quadros sendo bem padronizados, se conhecermos o modus operandi de Bissette, ainda assim eles conseguem ser impressionantes com quadros e sobrequadros, as sarjetas integrando as cenas. Tudo coopera para construir um todo harmônico e belo. Não quero contar muito porque essa é daquelas edições que a gente só aprecia e reverencia o artista. Ponto.


Um quarto volume sensacional com uma mescla de boas histórias que mostram outro lado do autor e sua grande narrativa do Gótico Americano chegando ao ápice. Moore entrega vários elementos daquilo que ele pensou para o personagem, altera todo o mundo da magia e abre as cortinas para o seu ato final onde as regras foram chutadas para o alto. Toda a sequência de artistas desta edição cooperam para tornar qualquer simples edição em algo memorável. Poderia falar horas sobre os truques artísticos de cada um, mas seria bem chato ler tanto. Stan Woch, Ron Randall, Bissette e temos até uma edição onde John Totleben atua como artista solo da edição. Isso sem mencionar o incomparável Alfredo Alcala que faz a arte-final da história que antecede Fim, O Conjuro. Spoiler: uma edição maravilhosa também. Essa saga inteira é para aqueles que amam ler quadrinhos, apreciar boa arte.


ree







ree

Ficha Técnica:


Nome: A Saga do Monstro do Pântano vol. 4

Autor: Alan Moore

Artistas: Stephen Bissette, John Totleben, Stan Woch, Ron Randall, Rick Veitch

Arte-Finalistas: John Totleben, Alfredo Alcala, Ron Randall, Tom Mandrake

Colorista: Tatjana Wood

Editora: Panini Comics

Tradutor: Edu Tanaka

Número de Paginas: 228

Ano de Publicação: 2018


Outros Volumes:

Vol. 6


Link de compra:



ree


 
 

Às vezes pegamos livros que achamos interessantes no começo, mas que se tornam muralhas intransponíveis com o passar do tempo. Seja uma história que não era o que você esperava, uma escrita difícil ou simplesmente o humor errado. O que fazer nessas horas? Persistir ou abandonar?


ree

Todos os meses somos abarrotados de novos títulos chegando para nós. São livros e mais livros com opções que nos deixam ávidos por devorar todos. Nossas pilhas de leitura se multiplica como se tivessem vida própria. No começo tem uns cinco, depois dez, vinte e depois estão mais altas do que nós. Cada livro da pilha é um universo novo a ser conhecido, novos personagens para a gente curtir. Ao ver nossas pilhas crescendo chegamos a um ponto em que nos perguntamos se seremos capazes de ler tudo até o fim de nossas vidas. A impaciência aumenta principalmente quando aquele livro que você achava que levaria uns dois dias para terminar se transformam em 4, em 7 dias, em 1 mês. Um livro simples se torna um processo longo e tedioso, quase um sadomasoquismo onde uma história parece não sair do lugar. Você quer abandonar o livro, mas um orgulho quase primitivo lhe diz para continuar seguindo em frente. Mas, será que toda essa dor e chateação precisava ter acontecido? É preciso realmente terminar uma leitura?


Como alguém que tem como hobby a leitura e compartilho minhas impressões com vocês, já tive diversos momentos em que uma leitura simplesmente não avançava. A história parecia redundante e sem importância ou o livro tinha uma escrita travada. Aquele momento em que pensamos por que estamos fazendo isso com nós mesmos. Tenho amigos que não tem dificuldade em abandonar algo se não estão curtindo. Confesso que não consigo fazer isso com tanta frequência quanto gostaria. Só que hoje como produtor de conteúdo preciso otimizar meu tempo para trazer impressões e informações aos leitores com um menor espaço de tempo possível. Isso não significa que leio em uma alta velocidade; me considero um leitor comum comparado a outros colegas. Hoje entendo a necessidade de ler o que gostamos e perder menos tempo com o que não gostamos.


Muitos fatores podem levar a não conseguirmos avançar em uma leitura. O mais comum de todos é o nosso próprio momento. Cada indivíduo é único no sentido de que gostamos de algo dependendo do nosso humor, conjunto de conhecimentos, gatilhos de leitura, entre outros fatores. Pode ser que uma determinada leitura não nos agrade naquele momento específico de nossas vidas. Podemos não ter a maturidade suficiente para entender que uma temática que estamos achando sem graça seja essencial para a compreensão das linhas que tecem uma história. Aqui vale o mesmo conselho de uma releitura: volte em outro momento. Às vezes tudo o que falta é apenas um conjunto adequado de conhecimentos ou experiências de vida. Podemos ser sujeitos a gatilhos específicos de leitura. Alguma situação que nos remete a um livro, uma imagem ou até um filme. Livros podem sair de nossas pilhas e irem para nossas mãos instintivamente.


ree

Uma leitura pode se tornar difícil por uma série de fatores também. A inabilidade do autor em criar uma história que engaje o leitor, o emprego de uma escrita truncada e difícil de ser compreendida, personagens incoerentes. Usei três exemplos, mas existe uma infinidade de outras situações. Talvez um dos aspectos mais complicados seja caminhar na linha tênue que separa escrever uma boa história e atender às expectativas dos leitores. Não vou entrar em discussões sobre a escrita criativa porque iremos abordar isso futuramente, mas é preciso pensar que o autor tem uma ideia de aonde ele deseja chegar. Não é possível pensar apenas em agradar ao leitor. Caso contrário, o livro se torna um patchwork de ideias arremessadas ao vento. Sem falar no próprio quesito coerência textual e narrativa.


Partindo desse ponto a gente precisa se conscientizar de que leitura é fruição, é entretenimento. Lemos para poder fugir por alguns minutos da realidade que nos cerca. Mesmo um livro acadêmico ou de não ficção nos retira de nosso cotidiano. Pode não ser algo fruitivo, mas atende a uma função específica. Livros de ficção nos inserem em outras realidades onde vivemos uma vida de acordo com o ponto de vista de outrem. A partir do momento em que uma leitura deixa de nos entreter, ela perde uma de suas principais funções. Entendo que alguns pensem que se trata de uma traição ou de um desrespeito a quem escreveu. Mas, não é o caso aqui. Leituras precisam nos acrescentar algo, ser aquele doce e secreto prazer da hora do almoço ou de um momento relaxante. Do contrário ela se torna um trabalho.


Vou usar um exemplo pessoal para descrever isso. Nos meus primeiros anos como produtor de conteúdo, tinha uma política de portas abertas a todos que desejassem enviar seus materiais a serem resenhados. Comecei a receber alguns livros e ebooks e lia com todo o carinho e atenção e o que fazia rapidamente se espalhou por outros autores. O que começou com um livro eventual, se tornou um por mês, dois, três, cinco. Até que em um mês insano foram dez. Por mais que goste de apoiar novos autores, muitos deles ainda estão engatinhando em seus processos de escrita. São leituras mais difíceis e que exigem um bom feedback da parte do crítico para que o autor possa aprimorar suas habilidades. Um bom conselho que o autor escolha escutar pode ser muito importante nessa difícil jornada. Só que eu acabava não conseguindo ler o que eu queria além de passar tempo demais em leituras que não eram agradáveis. Sem falar que o fato de eles fornecerem um livro "gratuito" parece fornecer o privilégio de cobrar prazos e dedicação. Ou até resenhas que sejam positivas porque sim. No começo do site, passei por situações bastante constrangedoras com alguns autores que jurei a mim mesmo nunca mais trabalhar com suas obras (sim, eu tenho a minha lista de personas non gratas assim como alguns autores devem me ter na lista deles). Decidi dar meu grito de independência e ler o que me agrada. Ainda faço publis? Raramente. Acho que sou lá muito marketável pelo meu baixo alcance geral e excesso de honestidade.


O meu conselho é sempre fazer o que você gosta. Nosso horário de lazer é sagrado e nesses tempos modernos e insanos devemos aproveitá-los com mais qualidade. Realizar atividades que nos acrescentem algo. Já dizia o educador Paulo Freire: "É preciso que a leitura seja um ato de amor." Cultive esse amor ao se engajar em suas leituras. Se um livro não te interessar, não tenha pudores em deixá-lo. Pode não ser a hora certa para lê-lo, pode ser que o livro pertença a um gênero que você não gosta ou simplesmente não houve química entre o leitor e o livro. Carpe Diem! Sempre.



ree


 
 

As notícias são graves: a magia está desaparecendo. Para Valdete, isso pouco importa, mas quando ela e outras pessoas que não possuem magia são convocadas para o palácio do imperador Damião, ela se incomoda com o que eles pretendem. E outra: ela já tem coisas demais para se preocupar. Mas, tudo muda quando uma bola quebra a sua janela...


ree

Sinopse:


A magia do mundo está desaparecendo, e o Conselho do Império lança uma profecia: somente uma pessoa idosa e sem magia poderá resolver o descontrole do Imperador em brasa.


A pessoa em questão é Valdete: uma viúva de oitenta e seis anos com quatro filhos, alguns netos e zero paciência para magia ou para o Conselho do Império. Para piorar a situação, o Conselho mandou uma pessoa do passado doloroso de Valdete para convencê-la a cumprir a profecia, e as duas vão precisar resolver sessenta anos de raiva, ranço e rancor para dar cabo de sua missão.


Será que Valdete terá saco para lidar com o Imperador, com o passado e com a profecia... e sobreviver no processo?






Gosto demais quando uma autora emprega a fantasia para contar assuntos bem comuns para nós. Personagens que são tão autênticos que poderiam ser nossos vizinhos. Muitas vezes nos esquecemos que a fantasia também serve para tecer críticas bem atuais. Acabamos deixando isso demais nas mãos da ficção científica. Mas, desde homens como Garcia Marquez e Samarago que percebemos a potência do fazer fantástico da América Latina. Seja explorando uma extensa família ao longo de várias gerações que tinham uma certa afinidade com milagres saídos da fantasia ou de uma cidade onde a morte tirou férias. Mas, calma! Não estou dizendo que este romance é uma narrativa de realismo mágico. Não acho isso, mas que ela flerta, flerta. Enfim, não conhecia Coral Daia e quero compartilhar com vocês um pouco das minhas impressões deste delicioso livro. Mas, antes... deixa eu pegar minha xícara de café que está passadinha.


Valdete é uma mulher de muitos talentos. Passar café, ser independente, cuidar dos filhos. Mas, magia certamente não é com ela. Seus filhos até possuem tais dons que, na visão dela, acabam tornando as pessoas preguiçosas. E por falar em filhos, ela tem vários deles. Alguns deles bem-sucedidos e trabalhando para o império, outro tentando tocar suas vidas enquanto um deles luta para ser aceito por quem é: alguém que ama seu namorado e espera que a sociedade o respeito. Valdete foi casada por muitos anos com Osmar, com quem teve seus quatro filhos. Mas, no passado, ela amou muito Cida, sua melhor amiga que a abandonou no dia de seu casamento arranjado, algo que deixou marcas em seu coração. Agora, com oitenta e seis anos, ela já não pensa muito nos anos que virão. Só que o mundo tem o dom de dar voltas. A magia parece estar desaparecendo do mundo e o imperador está tendo acessos de fúria, queimando a todos com seu poder vulcânico. Aqueles que não possuem magia estão sendo chamados para tentar apaziguar sua ira. E Valdete está em uma destas listas de convocação. Só que ela não tem paciência para essas bobagens imperiais. Até que Cida bate em sua porta...


Essa foi a primeira vez que tive contato com algo escrito pela Coral Daia e fiquei modestamente impressionado. Ela possui uma escrita bastante segura e conduz o leitor ao longo das páginas da história, apresentando personagens e situações as mais diversas. O cenário quase sempre é a casa de Valdete, embora mais para o final tenhamos uma mudança rápida de cenário. A gente acaba se acostumando e se aconchegando naquele pequeno espaço onde toda uma vida se desenrolou e ainda se desenrola diante de nós. Uma narrativa contada em terceira pessoa e com personagens bastante autênticos. Talvez essa seja a característica mais marcante de sua história. Os personagens são bastante tridimensionais, apesar de que eu gostaria que a autora tivesse dado um pouco mais de profundidade aos irmãos. Alguns deles mal aparecem na história e daria para trabalhar algumas boas situações com eles, principalmente por sua diferença de pensamento em relação aos dois que mais aparecem. A ideia de levar a história para um mundo mágico funciona mais como uma alegoria para que a autora possa brincar com as fundações da realidade. Novamente, não consigo encaixar essa história no realismo mágico, mas dá para traçarmos várias similaridades com as situações apresentadas em Como Água para Chocolate, da autora Laura Esquivel.


ree

Esse é um romance que debate a percepção da sociedade sobre a população LGBT. E a questão é tratada a partir de uma perspectiva de passado e presente. Primeiro vamos falar de passado e é claro que ser homossexual em tempos passados era bem complicado porque isso era vista como uma doença ou como um desvio de caráter. Ainda hoje é em alguns locais. Na história, a autora trata o tema com elegância mostrando o quanto a vida de Valdete acabou tomando outros rumos porque as famílias mais conservadoras queriam evitar a perda de status, as fofocas, as humilhações que vinham. O ostracismo básico de quando se descobre algo horrendo para a mente dessas pessoas. E isso acontece a Valdete; fatos que ela só vai entender mais tarde. No presente vivido pela personagem, a sociedade parece ter se tornado mais aberta, mas a percepção cotidiana continua sendo outra. São os comentários ruins pelas costas, é o desprezo até mesmo entre os seus. Considero incrível Valdete ter se tornado a pessoa que é, tão sábia e aberta, diante do ambiente que teve. Vale destacar que mesmo Valdete mantém leves preconceitos, porque ela teme a visão dos outros sobre ela. E queria chegar nesse ponto porque a visão externa se torna uma prisão, mesmo em nossa sociedade. O medo de ser julgado. Convivendo com adolescentes nas salas de aula da vida, me deparo inúmeras vezes com esse tipo de situação. Alguém que sofre porque deseja assumir seu amor, mas teme que seja abandonado ou se torne motivo de chacota ou agressões.


A luta de Valdete é para apaziguar seu coração. Até porque algumas dores são tão marcantes que mesmo décadas mais tarde elas ainda estão ali, cutucando quando menos esperamos. É curioso pensar que Damião e Valdete possuem problemas quase similares: a visão que o outro tem sobre mim. É a responsabilidade que imagino ter e que se transforma de algo positivo em uma obrigação cruel. Em grilhões que nos colocam para baixo e esfacelam nossos espíritos. Damião entende a si mesmo como infalível e todo-poderoso, mas sabe que seu poder é falho e que não é mais possível resolver tudo. Mostrar sua vulnerabilidade é perder aquilo que lhe é essencial. Valdete passa por algo semelhante ao se imaginar como uma mãe idosa e que suas batalhas já terminaram. Voltar com Cida é buscar para si um alvo que a faria ser julgada até por seus filhos. Só que se privar da felicidade é algo tão duro que nossos não corações conseguem aguentar antes de gritarem. E é esse grito que veremos saindo do desespero de Valdete ou das explosões de chamas de Damião.


Dou meus parabéns para a autora por explorar tão bem a terceira idade. Que pessoas mais velhas podem sim, iniciar uma nova trajetória na vida. Podem amar, se apaixonar, viver. Nos últimos tempos esse se tornou tema de algumas boas histórias como Suzette, de Fabien Toulmé e Sessenta Primaveras no Inverno, da Aimee de Jongh. Isso porque alguém que atinge essa faixa de idade não deixa de existir. Podemos sim fazer escolhas ousadas, amar. E isso é o que prende Valdete até o momento em que ela percebe que precisa ser feliz. E que a magia é algo tão secundário que as pessoas podem e devem aprender a se virar sem elas. Mas, este é outro tema na história e lhe convido a explorar esse bom romance publicado pela Editora Dame Blanche.


ree









ree

Ficha Técnica:


Nome: Café Passado e outros Dotes de Valdete

Autora: Coral Daia

Editora: Dame Blanche

Número de Páginas: 103

Ano de Publicação: 2023


Link de compra:


*Material recebido em parceria com a Editora Dame Blanche










ree


 
 
ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.

bottom of page
Conversa aberta. Uma mensagem lida. Pular para o conteúdo Como usar o Gmail com leitores de tela 2 de 18 Fwd: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br Caixa de entrada Ficções Humanas Anexossex., 14 de out. 13:41 (há 5 dias) para mim Traduzir mensagem Desativar para: inglês ---------- Forwarded message --------- De: Pedro Serrão Date: sex, 14 de out de 2022 13:03 Subject: Re: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br To: Ficções Humanas Olá Paulo Tudo bem? Segue em anexo o código do anúncio para colocar no portal. API Link para seguir a campanha: https://api.clevernt.com/0113f75c-4bd9-11ed-a592-cabfa2a5a2de/ Para implementar a publicidade basta seguir os seguintes passos: 1. copie o código que envio em anexo 2. edite o seu footer 3. procure por 4. cole o código antes do último no final da sua page source. 4. Guarde e verifique a publicidade a funcionar :) Se o website for feito em wordpress, estas são as etapas alternativas: 1. Open dashboard 2. Appearence 3. Editor 4. Theme Footer (footer.php) 5. Search for 6. Paste code before 7. save Pode-me avisar assim que estiver online para eu ver se funciona correctamente? Obrigado! Pedro Serrão escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:42: Combinado! Forte abraço! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:41: Tranquilo. Fico no aguardo aqui até porque tenho que repassar para a designer do site poder inserir o que você pediu. Mas, a gente bateu ideias aqui e concordamos. Em qui, 13 de out de 2022 13:38, Pedro Serrão escreveu: Tudo bem! Vou agora pedir o código e aprovação nas marcas. Assim que tiver envio para você com os passos a seguir, ok? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:36: Boa tarde, Pedro Vimos os dois modelos que você mandou e o do cubo parece ser bem legal. Não é tão invasivo e chega até a ter um visual bacana. Acho que a gente pode trabalhar com ele. O que você acha? Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. Atenciosamente Paulo Vinicius Em qui, 13 de out de 2022 12:39, Pedro Serrão escreveu: Olá Paulo Tudo bem? Obrigado pela resposta! O meu nome é Pedro Serrão e trabalho na Overads. Trabalhamos com diversas marcas de apostas desportivas por todo o mundo. Neste momento estamos a anunciar no Brasil a Betano e a bet365. O nosso principal formato aparece sempre no topo da página, mas pode ser fechado de imediato pelo usuário. Este é o formato que pretendo colocar nos seus websites (por favor desligue o adblock para conseguir visualizar o anúncio) : https://demopublish.com/pushdown/ Também pode ver aqui uma campanha de um parceiro meu a decorrer. É o anúncio que aparece no topo (desligue o adblock por favor): https://d.arede.info/ CAP 2/20 - o anúncio só é visível 2 vezes por dia/por IP Nesta campanha de teste posso pagar 130$ USD por 100 000 impressões. 1 impressão = 1 vez que o anúncio é visível ao usuário (no entanto, se o adblock estiver activo o usuário não conseguirá ver o anúncio e nesse caso não conta como impressão) Também terá acesso a uma API link para poder seguir as impressões em tempo real. Tráfego da Facebook APP não incluído. O pagamento é feito antecipadamente. Apenas necessito de ver o anúncio a funcionar para pedir o pagamento ao departamento financeiro. Vamos tentar? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 16:28: Boa tarde Tudo bem. Me envie, por favor, qual seria a sua proposta em relação a condições, como o site poderia te ajudar e quais seriam os valores pagos. Vou conversar com os demais membros do site a respeito e te dou uma resposta com esses detalhes em mãos e conversamos melhor. Atenciosamente Paulo Vinicius (editor do Ficções Humanas) Em qui, 13 de out de 2022 11:50, Pedro Serrão escreveu: Bom dia Tudo bem? O meu nome é Pedro Serrão, trabalho na Overads e estou interessado em anunciar no vosso site. Pago as campanhas em adiantado. Podemos falar um pouco? Aqui ou no zap? 00351 91 684 10 16 Obrigado! -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification Área de anexos ficcoescodigo.txt Exibindo ficcoescodigo.txt.