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Resenha: "A Saga do Monstro do Pântano vol. 5" de Alan Moore, John Tottleben, Rick Veitch et al

Atualizado: 19 de nov. de 2023

Um volume clássico contendo duas histórias belíssimas que mostram um Alan Moore descobrindo outros caminhos para a sua arte. Venham conhecer O Jardim das Delícias Terrenas e Meu Paraíso Azul.


Sinopse:


De 1983 a 1987, um jovem escritor britânico chamado Alan Moore revolucionou os quadrinhos dos Estados Unidos. Sua ousada abordagem na série do Monstro do Pântano, da DC Comics, definiu novos padrões para a narrativa gráfica e desencadeou uma revolução na nona arte que repercute até os dias de hoje. Partindo das premissas de horror gótico do título e construindo um marcante e intuitivo estilo narrativo e uma profundidade de caracterização sem precedentes, a visão de Moore foi traduzida assombrosamente em belos desenhos de colaboradores como Stephen Bissette, John Totleben, Rick Veitch e Alfredo Alcala. O resultado é uma das mais duradouras obras-primas dos quadrinhos.


Este volume reúne as edições: The Saga of The Swamp Thing (1982) 51-56, e inclui as clássicas histórias O Jardim das Delícias Terrenas e Meu Paraíso Azul, bem como um texto introdutório de Stephen Bissette.





Esta é uma edição muito interessante porque nos apresenta uma virada nos interesses de Alan Moore. Se, nas edições anteriores, Moore se focava em uma reimaginação do que é o terror, a partir daqui o vemos seguindo dois caminhos: os seus interesses no xamanismo que vai lhe render a alcunha de Bruxo e algumas histórias voltadas para o terror cósmico com a exploração de temas caros à ficção científica. Dizer que essa é uma edição maravilhosa é chover no molhado e aqui temos duas histórias magníficas: O Jardim das Delícias Terrenas, que coloca o Monstro do Pântano em rota de colisão com a própria Gotham City e a belíssima e melancólica Meu Mundo Azul. A partir desse volume Alfredo Alcala se torna parte da equipe recorrente na arte, atuando como arte-finalista para John Tottleben. Me referi a essas duas histórias em particular, mas o volume é de altíssimo nível com As Flores do Romance sendo outra história impactante e que merece ser mencionada por tratar de temas tão comuns no dia de hoje como violência doméstica e comportamento abusivo, mas que nos anos 80 fazia parte daqueles temas que acabavam silenciados.


A entrada de Alfredo Alcala como arte-finalista fez toda a diferença do mundo nessa edição. Sem desmerecer a fantástica arte de Tottleben, mas Alcala tem um senso de tridimensionalidade e posicionamento que são impressionantes. O lápis de Tottleben já é muito potente e tende a dar destaque para as sombras, mas Alcala consegue fazer com que estas sombras se sobressaiam de uma maneira que elas parecem estar vivas. A preocupação com o realce das linhas finas do artista fornece toda uma gama de novos significados ao que está sendo desenhado. Sem mencionar que existe todo um processo de perceber aonde Alcala deve ou não dar o seu toque, caso contrário poderia fazer a arte de Tottleben perder a identidade. E tal não é o caso. Para quem conhece a arte das edições anteriores do Monstro do Pântano vai perceber uma mudança brusca, mas quem não conhece, é como se Totleben e Alcala fossem complementares.


Gostei demais de como Totleben fez mais alguns experimentalismos por todo esse volume. Em O Jardim das Delícias Terrenas vemos uma mescla de um mundo completamente urbano, cinzento e melancólico com a vida fornecida pelo toque verde do Monstro. As composições de quadros são maravilhosas com Totleben mexendo até mesmo nas bordas colocando matizes vegetais ou mexendo na forma como os quadros são apresentados. Faço ideia de como se tratou de um volume bem complicado de desenhar dada a quantidade absurda de detalhes em cena. Temos a entrada de Rock Veitch como artista recorrente também e ele assume no lugar de Totleben sem decepcionar os leitores. Veitch dá um sopro de ar fresco ao propor novas maneiras de abordar as ações do Monstro. Ele é um adepto mais frequente das splash pages ou das cenas montadas como um caleidoscópio. De Terra a Terra foi a história que mais gostei na arte do Veitch porque ele conseguiu trazer para o leitor todo o sentimento de perda e melancolia que aquela história, em específico, precisava. Os momentos que ele coloca a Abby e o Monstro juntos são de uma poesia que toca a alma. A gente vê a expressão de amor que existe entre eles.

Não consegui falar adequadamente da Tatjana Wood na resenha passada e não farei esta desfeita aqui. Que colorista impressionante ela é. E estamos falando dos anos 80 que ser um colorista era um muito menos glamouroso (não que hoje seja né... mas era pior) que o trabalho de um artista. Os méritos da arte e do traçado estão nas mãos do Veitch, mas a maneira como ela fez essa história funcionar a partir de uma palheta de cores toda voltada para o azul é algo de outro mundo. Literalmente. Ela produz um senso de estranhamento para o leitor que vê estes espaços alienígenas que partem de uma outra forma de entender as colorações. A edição não precisava me dizer que a história se passava em outro planeta... as cores me diziam isso. Mesmo quando Veitch insere elementos familiares como casas e pessoas, em nenhum momento eu considerei aquilo normal. Não há normalidade nesse estranhamento.


Não vou falar de todas as histórias porque poderia passar parágrafos e mais parágrafos falando do quanto Moore insere de temas diferentes nestes capítulos. A propósito, o roteiro do Moore caminha mais e mais para algo poético. A cadência das frases, a escolha de palavras. Tudo remete a isso. A primeira história funciona como um epílogo para os grandes acontecimentos da edição anterior. Ao mesmo tempo, Moore já insere as sementes para a tragédia que se aproxima. Vimos que na edição anterior um fotógrafo curioso flagrou Abby e o Monstro em momentos muito íntimos. Aqui, Abby passa a ser perseguida em todas as direções como uma transgressora sexual por se envolver com um ser vegetal. Nesta edição vemos o poder que a mídia tem para destruir a trajetória de uma pessoa. E isso porque Abby sempre foi enxergada como uma mulher à margem por conta de sua aparência estranha. A comunidade passa a atacá-la com meias verdades e um falso senso de moralismo. Só um ponto: parece, novamente, que estou falando de um quadrinho atual com esses temas que se tornaram tão abordados por diversos autores, mas não é. Essa é uma história de agosto de 1986. O leitor é levado junto com Abby pela torrente de acusações, e não é dado a ela a possibilidade de se defender. Seus atos são considerados imorais por natureza. Tem uma fala ótima do Batman em O Jardim das Delícias Terrenas para o Comissário Gordon e o prefeito que resume o absurdo de tudo isso. Claro que ali já era tarde demais.


O Jardim das Delícias Terrenas é uma edição gigante do Monstro em que ele consegue retornar para o mundo terreno e descobre o que aconteceu com Abby, que havia fugido para Gotham City. Temos um confronto do mundo natural contra o mundo dos humanos. O Monstro demonstra todo o seu poder e domínio sobre o verde. Essa é uma mensagem de Moore de que a natureza é capaz de colocar o homem e sua civilização de joelhos. Nós é que precisamos dos favores da natureza. Junto com o ataque à cidade, a invasão das florestas a Gotham desperta em algumas pessoas mais sensíveis ao meio ambiente a necessidade de viver ao natural. Vamos ver pessoas descobrindo prazeres quase edênicos em sua relação com a cidade. O Batman fica sem ação diante de uma habilidade tão crua como a do Monstro. Fora que o Monstro não demonstra nem um pingo de violência. É curioso pensar no Batman como parte das forças do status quo, mas Alan Moore consegue fazer isso de uma forma natural. O Batman simplesmente não consegue reconhecer sua cidade como aquele jardim de delícias. E não tem a ver com hipnose ou lavagem cerebral. As pessoas estavam se encontrando naquele meio caótico. Apenas àqueles que a ordem exacerbada interessava é que se sentiam incomodadas. Esse é um debate que hoje temos feito: o quanto somos capazes de coexistir com o meio ambiente? Enquanto temos problemas imediatos como aquecimento global e a destruição das florestas, não somos capazes de nos pensar vivendo em um contato mais próximo com a natureza. Apenas queremos acinzentar os espaços. É isso o que o Monstro faz a humanidade pensar.


Ao longo deste volume, vemos Alan Moore resgatando alguns personagens vistos em histórias anteriores e até mesmo parte do elenco da fase do Len Wein como a Lizzy e o Dennis. Ele retoma a história do Sunderland, o homem que "matou" o Monstro do Pântano no primeiro número da fase do Alan Moore. Lizzy está sendo mantida em prisão domiciliar e Dennis fez toda uma lavagem cerebral nela, fazendo-a acreditar que eles vivem uma vida de terror, com medo de serem mortas por Sunderland, este, sim, morto há quase dois anos. É terrível ver o estado emocional no qual Lizzy se encontra quando vai até Houma ver a Abby. E Lizzy era uma repórter investigativa, inteligente e assertiva e agora parece um caco de uma pessoa que ela foi um dia. Ela não consegue encarar a realidade e teve o seu mundo mediado por Dennis, que praticamente ditou o que ela podia ou não fazer. Alan Moore não deixa claro no roteiro se aconteceu algum outro tipo de violência nesse tempo, mas o roteiro solta pistas que isso pode ser verdadeiro. Existem gatilhos que são acionados no comportamento de Lizzy, principalmente quando Dennis começa a ficar nervoso. Esse é o retrato falado de uma relação tóxica em seus níveis mais alarmantes. Daquele que é violento latto senso.


Não tenho como deixar de mencionar a última história, Meu Mundo Azul. Um roteiro genial de Moore que mostra um Monstro todo-poderoso em um planeta em outra galáxia. Nesse mundo, só existe ele e outras vidas vegetais mais primitivas junto dele. Ele até pode retornar para a Terra, mas tem medo de deixar de existir no processo. Então teme dar o próximo passo. Pouco a pouco a solidão vai se abatendo sob a sua alma. Como um ser senciente e que já foi humano, ele não consegue existir em um lugar onde não exista ninguém com quem se relacionar. É então que, para suprir a sua ausência, ele dá o primeiro passo em uma perigosa direção: ele cria uma mulher à imagem de Abby para lhe fazer companhia. Depois de algum tempo, ele deseja criar mais e mais vida ao seu redor. Mas, o que estas vidas artificiais tem de especial? Elas possuem livre-arbítrio? Pensamento próprio? Uma existência única? Ou são apenas marionetes nas mãos de um ventríloquo? É com essa realidade cruel que o Monstro vai precisar refletir o que ele deseja de fato para si.


O que conversamos aqui é apenas um tira-gosto do que o autor insere em sua narrativa. Os significados são múltiplos e os temas são vários. É possível pescar detalhes bem interessantes nas histórias. Nem chego a mencionar outras duas histórias com medo de dar spoilers graves da edição. Basta pensar que essa coleção como um todo representa um clássico dos quadrinhos. Difícil eu achar uma história na qual eu consiga fazer uma crítica mais grave, seja por tema ou por ritmo. Nessa altura do arco do Moore, a gente já sabe como as histórias vão ser, então não tem como ser enganado. O que muda são as direções para onde Moore acaba levando o personagem. Estou curioso com o sexto volume e saber como Moore vai terminar a sua jornada com o personagem. Já posso expressar minha enorme satisfação em ler tantas histórias maravilhosas e uma pena que Moore teve tantos problemas com as grandes editoras. Aqui está o sumo do que ele consegue fazer em uma mensal de personagem.












Ficha Técnica:


Nome: A Saga do Monstro do Pântano vol. 5

Autor: Alan Moore

Artistas: John Totleben, Rick Veitch

Arte-Finalista: Alfredo Alcala

Colorista: Tatjana Wood

Editora: Panini

Tradutor: Edu Tanaka

Número de Páginas: 168

Ano de Publicação: 2018 (nova edição)


Outros Volumes:

Vol. 6


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