• Paulo Vinicius

Resenha: "Jurassic Park" de Michael Crichton

Em uma ilha próxima à Costa Rica, um empresário tenta criar o maior parque de diversão de todos os tempos. Para isso, ele oferece aos visitantes uma atração extraordinária: dinossauros vivos. 

Sinopse:


Uma impressionante técnica de recuperação e clonagem de DNA de seres pré-históricos foi descoberta. Finalmente, uma das maiores fantasias da mente humana, algo que parecia impossível, tornou-se realidade. Agora, criaturas extintas há eras podem ser vistas de perto, para o fascínio e o encantamento do público. Até que algo sai do controle. Em Jurassic Park, escrito em 1990 por Michael Crichton, questões de bioética e a teoria do caos funcionam como pano de fundo para uma trama de aventura e luta pela sobrevivência. O livro inspirou o filme homônimo de 1993, dirigido por Steven Spielberg, uma das maiores bilheterias do cinema de todos os tempos.




Sem dúvida alguma, Jurassic Park foi o livro mais divertido que eu li este ano. Sabe aquele tipo de livro que você não quer largar mais? Esta é a experiência que o autor nos fornece nas páginas do livro. Ser capaz de contar uma narrativa reflexiva ao mesmo tempo em que entretém o leitor. Só reforça a tese de que é possível encontrarmos livros que sejam apenas uma diversão despropositada. Isso quando muitos esperam grandes sagas, uma narrativa estilisticamente aprofundada, um hall de personagens inesquecíveis. Não é bem isso o que você vai encontrar aqui. Mas, te garanto que a leitura vai ser uma montanha-russa de emoções. 

Deixa eu fazer logo um aviso: o filme é o filme e o livro é o livro. Vou evitar traçar quaisquer comparações porque ambos são muito diferentes um do outro. A ponto de eu dizer que se tratam de histórias distintas, porém complementares. Acho bobagem traçar comparações neste caso. Isto porque estragaria qualquer uma das duas experiências. Eu adoro o filme e curti muito o livro. Mais ainda porque eu desliguei a minha mente de traçar associações. 

​A escrita do autor é em terceira pessoa a partir de todo o elenco de personagens. Não temos pontos de vista óbvios apesar de que a ação se foca bastante em Grant e no menino Tim. Mas, todos os personagens ganham espaço em algum momento. O que fica bem nítido desde o começo da narrativa é o forte apelo para os aspectos científicos da narrativa. Vou voltar a esse tema mais tarde, mas aos leitores que estão preocupados, esse aspecto não é chato ou sequer pedante. O autor consegue ser bem didático e divertido em suas colocações. Para quem gostou de romances como Perdido em Marte, do Andy Weir, certamente vai gostar da maneira como o autor dá um belo approach na narrativa. Claro que tem um pouco da reflexão do próprio autor na fala principalmente do Ian Malcolm, mas ele não prega para o leitor. 

"O maior predador que o mundo já conheceu. O ataque mais apavorante na história humana. Em algum lugar no fundo de seu cérebro de assessor de imprensa, Ed Regis ainda estava escrevendo slogans. Mas podia sentir seus joelhos começando a tremer incontrolavelmente, suas calças abanando como bandeiras."

Quem se intimidou pelo tamanho do livro, pode ficar despreocupado. Para mim, Jurassic Park tem o tamanho certo. Nem mais, nem menos. O autor teve o espaço certo para contar sua história do jeito que ele quis. Eu me senti totalmente satisfeito ao final. Foi como se o Crichton tivesse me levado para uma louca aventura dentro do Jurassic Park onde eu precisava escapar de todo o tipo de perigos e tivesse saído com vida. No começo, o autor emprega capítulos bem rápidos que fazem a leitura engrenar. Depois ele passa a esticar mais, mas os momentos sempre acontecem de forma dinâmica. No final, o autor usa subseções para construir as cenas e os núcleos narrativos. 

Ah, fica também um alerta para a tradução: muitos errinhos acabaram passando. Alguns bem bobos como errar o nome do médico Harding, que ora é escrito corretamente, ora como Hardin (devo ter pescado umas dez vezes isso pelo menos). Outros são pequenos erros ortográficos. Acho que em uma futura reimpressão a obra merecia uma revisão de tradução. Para uma obra clássica como essa, não é nenhum esforço. Vale a pena mesmo. (Posso estar falando demais e a editora ter feito uma revisão na edição que saiu no box novo... não sei). 

Para mim, o ponto fraco de Jurassic Park está nos personagens. Como toda obra que embrenha para um ângulo mais científico, é bem normal os personagens ficarem um pouco de lado. E como o elenco de personagens é grande e a história toda acontece em poucos dias, não há tempo para aprofundar muito as coisas. Mesmo assim, eu me ressenti um pouco disso. Os dois que acabam tendo muito espaço para desenvolvimento são o Grant e o Malcolm. Grant por ser aquele no qual a ação gira e que faz a história se mover; Malcolm por ser o teórico, a própria voz do autor presente na trama e que discute bioética e a teoria do caos. As duas crianças são divertidas e Tim é bem esperto para a idade. O autor conseguiu mesclar a inocência infantil com o aspecto curioso das mesmas. Porém... aquele momento em que o Tim começa a fuçar no sistema elétrico do parque é um pouco surreal. Muldoon funciona como o armamento para lidar com os dinos. Ele é o alarmista de plantão e ajudou todos quando necessário. Não mais do que isso. 

Não posso deixar de falar da Ellie. Em vários momentos eu não entendi o que ela estava fazendo ali. A Ellie é completamente desnecessária para a história. A personagem funciona apenas como a gatinha de shortinho e camiseta regata. Mais nada. O autor sequer trabalha uma possível relação entre ela e Grant. Deixa no ar em um parágrafo e só. E, impossível não mencionar o filme aqui, enquanto que a Laura Dern parece ter a mesma idade do Grant no filme, aqui a Ellie do livro é bem novinha. Ela é aluna do Grant. Outro aspecto que poderia ter sido trabalhado que é a relação da aluna que tem um crush pelo professor. Como paleobióloga só a vi funcionando como especialista em duas ocasiões e mais com comentários bem por alto e ignorados pelos personagens. Só no caso do estego que ela acaba servindo para solucionar alguma situação. A outra personagem feminina é a Lex, a irmãzinha do Tim, que é tratada como uma garotinha chata e irritante. 

"A teoria do caos descreve sistemas não lineares. Agora, ela se tornou uma teoria muito ampla que está sendo usada para explicar de tudo, desde o mercado de ações até os ritmos cardíacos. Uma teoria muito na moda. Aplicá-la a qualquer sistema complexo em que possa haver imprevisibilidade está se tornando muito popular."

Hammond encarna o protótipo do cientista ganancioso. Esqueçam a ideia do velhinho divertido que quer entregar um parque para as crianças verem dinossauros. Crichton começa nos mostrando esse lado do personagem, mas aos poucos vamos vendo a contradição disso com a vontade de colocar dinos vivos a todo custo. Ele chuta os cuidados para o alto, suborna quando tem que subornar e ignora todos os avisos. Mesmo quando tudo está caindo, Hammond ainda pensa antes no parque do que em seus próprios netos. Aliás, não vi o personagem preocupado com os garotos em nenhum momento. Só aí já dá para tirar uma opinião sobre o personagem. Como diz Malcolm vivemos uma época em que determinadas indústrias e empresários ligados à alta ciência pouco se importam com a ética da mesma. Não importa se o planeta vai pagar o preço. Contudo, pensar que podemos destruir o planeta é muita arrogância de nossa parte. Tudo o que é possível fazer é deixar a Terra inabitável para os seres humanos. Outros animais vão dar um jeito de se adaptar ao novo meio. 

Nunca paramos para pensar na teoria do caos. Mesmo que imaginemos estar tudo controlado é aí que tudo não está. Determinadas variáveis são muito específicas para sermos capazes de prever. Pensar em um meio ambiente controlado precisa de uma forma holística de observar as coisas. Porque a natureza pode encontrar maneiras imprevisíveis de resolver determinados limites. Esse trecho de Jurassic Park me fez lembrar de outro romance que eu li: Aurora, de Kim Stanley Robinson. Nele, um grupo de colonizadores segue em uma nave-habitat até um planeta na constelação de Tau Ceti. Dentro da nave, eles conseguiram criar vários ecossistemas de forma a levar o máximo possível de nossa fauna e flora para outro planeta. Só que tudo começa a dar errado quando os ecossistemas começam a funcionar de uma forma estranha enquanto em outros animais morrem ou se comportam imprevisivelmente. (Se vocês ficaram curiosos sobre Aurora, cliquem aqui). Eu gostei demais quando Malcolm se embrenhou pela noção de fractais ao descrever as complicações sentidas pelo sistema de segurança do parque. 

Jurassic Park é uma leitura extremamente divertida. Crichton é capaz de nos colocar em uma história que tem ação ininterrupta e no meio de dinossauros comendo seres humanos, ele é capaz de entrar em questões profundas sobre ética na ciência e sistemas complexos. Pecou um pouco na construção de personagens, mas garanto que foi um tempo muito proveitoso com uma leitura. Recomendadíssimo.


Ficha Técnica:

Nome: Jurassic Park Autor: Michael Crichton Editora: Aleph Gênero: Ficção Científica Tradutora: Marcia Men Número de Páginas: 528 Ano de Publicação: 2015

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