• Paulo Vinicius

Desafio #LeiaMulheres: "Filhos de Sangue e Osso" (O Legado de Orisha vol. 1) de Tomi Adeyemi

Os divinais são uma classe social que teve sua principal característica, a magia, destruída por Saran, imperador de Orisha. Mas, o surgimento de um pergaminho capaz de restaurar a magia e de uma mulher capaz de realizar o ritual para fazê-lo colocarão o reino em um turbilhão de eventos que podem mudar tudo para sempre.


Sinopse:


Zélie Adebola se lembra de quando o solo de Orïsha vibrava com a magia. Queimadores geravam chamas. Mareadores formavam ondas, e a mãe de Zélie, ceifadora, invocava almas. Mas tudo mudou quando a magia desapareceu. Por ordens de um rei cruel, os maji viraram alvo e foram mortos, deixando Zélie sem a mãe e as pessoas sem esperança. Agora Zélie tem uma chance de trazer a magia de volta e atacar a monarquia. Com a ajuda de uma princesa fugitiva, Zélie deve despistar e se livrar do príncipe, que está determinado a erradicar a magia de uma vez por todas. O perigo espreita em Orïsha, onde leopanários-das-neves rondam e espíritos vingativos aguardam nas águas. Apesar disso, a maior ameaça para Zélie pode ser ela mesma, enquanto se esforça para controlar seus poderes ― e seu coração.




Há alguns anos atrás questionávamos porque os romances de fantasia ainda seguiam os padrões de Tolkien, com florestas inspiradas na Europa central, seus elfos, anões e guerreiros habitando castelos medievais. Mas, temos visto uma explosão de novas narrativas explorando outras mitologias ou adaptando ideias a novos cenários. Vimos isso com Quem Teme a Morte, de Nnedi Okorafor (resenha aqui), A Quinta Estação, de N.K. Jemisin (resenha aqui) , Range of Ghosts, de Elizabeth Bear (resenha aqui) ou Twelve Kings in Sharakhai (resenha aqui). Temos exemplos nacionais também como Araruama, do Ian Fraser (resenha aqui) ou Império de Diamante do J.M. Beraldo (resenha aqui). O que não faltam hoje são histórias usando cenários e culturas bem diferentes e exótico entre si. Entramos então em uma segunda etapa da discussão: hoje não basta só apresentar algo diferente; é preciso usá-lo bem e torná-lo único. Tomi Adeyemi nos apresenta um mundo com vários nomes familiares a quem conhece mitologia iorubá e nos coloca em uma narrativa também bastante familiar. Será que ela conseguiu entregar algo bom?


"Os maji surgiram em toda Orisha, foram os primeiros reis e rainhas. Naquele tempo, todos estavam em paz, mas isso não durou. Aqueles que estavam no poder começaram a abuar de sua magia, e, como punição, os deuses retiraram seus dons. Quando a magia se esvaiu do sangue, seus cabelos brancos desapareceram como sinal de seu pecado. Por gerações, o amor pelos maji se transformou em medo. O medo virou ódio. O ódio se converteu em violência, em um desejo de dizimar os maji."

Estamos diante de um romance young adult, com todas as suas qualidades e defeitos. A autora não esconde essa identidade em nenhum momento da obra. Vai ter romance (possivelmente um triângulo amoroso... ela dá dicas disso), uma personagem em fase de amadurecimento, mas com uma índole rebelde, uma escrita superveloz, um cenário fácil de ser compreendido (até bem mastigado em alguns momentos). Todas as características estão ali. Então, se você não curte o gênero, recomendo que procure outro material (ou dê uma chance ao livro que é bem divertido). A escrita da autora é bastante competente, só me incomodando a forma como ela usa a mecânica dos Pontos de Vista (POVs), técnica que se tornou famosa com Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin. Ela constrói capítulos bem curtos com, no máximo, doze a quatorze páginas. A ideia é dar velocidade à narrativa, fazendo com que o leitor tenha uma sensação de progresso a cada capítulo finalizado. Porém, como ela emprega muitos capítulos, estes não tem a sensação de interconexão, falhando em criar ganchos narrativos. A gente acaba lendo rápido, porque o final do capítulo está logo ali, não por conta de um interesse na história. Isso só vai mudar lá para o momento climático nas últimas setenta páginas onde aí sim os ganchos aparecem.



Falando um pouco dos personagens, eu gostei dos três pontos de vista, apesar de ter achado o Inan um personagem mal trabalhado (já volto nele a seguir). Zélie Adebola é o protótipo da protagonista, da heroína. Ela precisa passar pela jornada do herói para obter redenção. Esse talvez seja o mote de todos os personagens neste primeiro volume: REDENÇÃO. Corrigir erros; reparar danos; se afirmar. No caso de Zélie, ela quer se afirmar como pessoa. Ela é uma personagem inquieta e raivosa, e sua impulsividade é sua característica mais marcante. Fico feliz de a autora não ter mexido nisso por toda a narrativa. Em outras séries, os protagonistas parecem perder seus defeitos e se tornar subitamente sábios da montanha. Aqui não. Zélie erra uma vez; erra duas; erra três. Erra quatro. Cada um de seus erros vai formando blocos de caráter, tornando-a uma mulher mais cascuda no final da narrativa. As perdas familiares causaram um buraco no coração dela, algo que ela acabou substituindo por uma rebeldia que em muitos casos age em seu detrimento. Se posso dizer algo curioso é que Zélie é a personagem que move a narrativa a partir de suas ações impensadas. Lógico que tudo o que acontece com ela serve para fazer com que a gente sinta empatia com ela. Para muitos de nós, leitores, ela vai ser o elemento de identificação pessoal na narrativa.


"Nos meus sonhos, nunca imaginei o inferno da selva, todos os mosquitos, o suor e as pedras afiadas. Mas, depois de quatro dias no deserto, estou convencida de que não há limite para os infernos que Orisha pode conter. O deserto não fornece carne de raposana para comer, nem leite de coco para beber. Tudo que ele nos dá é areia."

É preciso destacar também que Adeyemi usa uma narrativa em primeira pessoa. E o emprego é totalmente acertado porque causa esse grau de identificação no leitor. Principalmente quando vemos uma personagem como Amari que vai ganhando cores com a narrativa. Ela é o clichê da princesa ingênua e que vai se tornando uma guerreira à medida em que os acontecimentos vão moldando seu caráter, assim como ocorre com a protagonista. Porém, achei Amari com uma personalidade mais complexa. Para mim, ela é a personagem com o melhor arco narrativo. A gente espera que Zélie ganhe o protagonismo e faça as coisas acontecerem... isso é óbvio. Mas, Amari brilha ao se tornar o ponto de ligação entre os diversos personagens. E ela não é apenas o personagem de suporte, como ela tem seus interesses. Não é exatamente um spoiler (isso é dito na orelha do livro), mas a morte de sua amiga Binta (uma acompanhante/serviçal da corte do rei) faz com que Amari fuja do castelo. O fato de Binta ser uma divinal faz com que Amari vá precisando rever seus conceitos sobre como o rei administra seu reino. Coloca em perspectiva todas as falsas noções que ela possui.


Por outro lado, Inan é um personagem mal trabalhado. Entendo aonde a autora queria chegar, com um personagem torturado entre o amor e o dever. Porém, suas ações nem sempre são coerentes com o seu estado de espírito ou de emoções em um determinado momento. Às vezes, parece que as incoerências de Inan são um deus ex machina, algo usado para criar obstáculos para os personagens na narrativa. Aliás, um deus ex machina que serve muito mais para corrigir falhas de construção narrativa. Como o momento em que acontece a batalha no campo de refugiados ou a tortura no forte. Daria para entender um personagem indeciso... não é o caso aqui. Isso tanto é verdadeiro que os capítulos de Inan costumam ser os menores em todo o livro. Ou seja, faltou um pouco mais de tempo de tela para o personagem aqui.


"Para a magia desaparecer de vez, todos os maji precisavam morrer. Uma vez que tivessem provado o poder, nunca parariam de lutar para trazê-lo de volta."

Posso dizer com segurança que até quase a metade desse primeiro volume, eu não estava gostando da história. Isso porque a gente pode interpretar a construção narrativa a partir de dois pontos de vista:


1 - como uma fantasia young adult: o começo é morno e a autora acaba caindo no erro de colocar dinamismo demais na narrativa quando precisa frear e explicar algumas coisas. E frear demais no momento em que ela deveria acelerar. Geralmente o primeiro volume de uma série serve para explicarmos o mundo, os personagens, suas motivações e qual é a história por trás de tudo. Quando você falha em apresentar os personagens (deixando para fazer muito mais à frente), isso provoca uma confusão na cabeça do leitor. No começo da história (até mais ou menos a página 250 ou 300), os personagens parecem muito iguais. São jovens, com algum problema emocional, querendo mudar seu status quo. Somente depois é que eles vão se individualizar mais, a partir do momento em que ganham mais cores. Por esse motivo eu achei a narrativa apenas mediana nesse ponto.


2 - como um romance que emprega a mitologia iorubá como mote: aí é que a coisa complica mais. E eu até peço desculpas a quem estiver lendo e deixando bem claro que eu vou tentar, e apenas tentar (porque sou um homem branco, com todas as minhas qualidades e defeitos, porém, tenho experiência em trabalhar com relações étnicorraciais, apesar de não ser o meu lugar social) analisar isso por esse ponto de vista.


Lembrando de novo: estou me colocando como sendo um homem branco e mostrando que este não é meu lugar social apesar de eu ser formado como especialista no tema.


Na minha opinião, a autora começou a narrativa de uma forma vacilante. Ela queria empregar a cultura iorubá, mas queria escrever algo que fosse divertido e pudesse ser vendido como young adult. Por isso, senti que no começo a narrativa mais substituiu nomes do que inseriu a cultura propriamente dita. Orisha ao invés de Terra Média, axé ao invés de magia, uma mulher negra guerreira ao invés de um homem branco guerreiro. Nada contra inserir isso, mas eu já ouvi diversos autores do gênero comentar que só isso não basta. Não posso só substituir, eu preciso elevar e individualizar. E o meu temor quase se revelou verdadeiro. Mas, na segunda metade da narrativa, respirei mais aliviado porque a autora acertou mais a mão nesse sentido.


"Somos todos filhos de sangue e osso. Todos instrumentos de vingança e virtude."

A dança se tornou um forte componente para a progressão narrativa. E a cultura iorubá possui muito do ritmo do atabaque e da dança de roda. E essa alegria contagiante ao mesmo tempo em que se torna um momento para trabalhar os personagens serve também para compor a mitologia a ser conhecida. Os deuses se tornam representações do espírito e não apenas fonte de um poder mágico-elemental. São parte do que torna um indivíduo completo. Quando acontece uma situação com Zélie no meio da narrativa, aquilo só acontece porque seu corpo não estava em consonância com seu espírito. Somente quando ela percebeu essa dissonância é que ela pôde seguir em frente (infelizmente um clichê do gênero foi empregado para isso acontecer). Outro ponto de construção de mundo que eu gostei foi o quanto a autora trouxe discussões sociais pesadas até para uma história voltada a um público mais jovem. A visão de Saran em relação aos divinais pode ser facilmente associada ao colonialismo europeu em sua versão mais selvagem. Quando a cultura tem que ser apagada para não causar danos aos "civilizados". A escravidão é explorada também já que Amari possui seus escravos que podem ser descartados quando não são mais úteis ou pelo bel prazer de seu dono.


Mas, nem tudo são flores. Eu entendi que a inclusão dos sêntaros se devia a uma associação com a tradição dos griots, os contadores de histórias. Mas... putz... que frustração. Nada disso aconteceu. Mesmo Mama Agba que talvez possamos colocar na mesma função some da história. Há uma pinta de explicação no final onde imaginamos o que possa ter ocorrido (ou não) com a personagem. Mas, essa dúvida permite à autora as duas opções como viáveis. Tem muitos furos na narrativa simplesmente porque ela estava acelerada demais. Muitas vezes reclamamos do info dumping como algo que prejudica o desenvolvimento narrativa. Mas, a ausência de informações também é um problema. Conhecimentos precisam ser equilibrados.


Filhos de Sangue e Osso é uma boa narrativa com um mundo bem diferente daquilo que você está acostumado. Tem os seus problemas, mas a autora consegue nos apresentar algo só dela. Ainda precisa de alguns ajustes aqui ou ali, muito em relação à construção de mundo e ao desenvolvimento dos personagens, mas existe potencial para crescer. Estarei ansioso pelo segundo volume.










Ficha Técnica:


Nome: Filhos de Sangue e Osso

Autora: Tomi Adeyemi

Série: O Legado de Orisha vol. 1

Editora: Rocco

Tradutor: Petê Rissatti

Número de Páginas: 560

Ano de Publicação: 2018


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