• Paulo Vinicius

Desafio #LeiaMulheres: "Quem Teme a Morte" de Nnedi Okorafor

Em um continente africano pós-apocalíptico, Onyesonwu é uma Ewu: a filha de um estupro de uma mulher Okeke por um invasor Nuru. Ela sofre com o preconceito dos outros Okeke. Mas, ela logo descobre que tem um destino muito importante. Suas ações podem reescrever o Grande Livro.


Sinopse:


Numa terra devastada por uma hecatombe nuclear, uma jovem e misteriosa mulher com o incomum nome de Onyesonwu – que pode ser traduzido como Quem teme a morte – descobre que tem superpoderes e foi escolhida para salvar a humanidade. Este seria um romance distópico como qualquer outro se não transcorresse na África e sua autora não fosse a surpreendente Nnedi Okorafor, elogiada pelo prêmio Nobel nigeriano Woyle Soyinka. Fantasias, batalhas, tradições e alta tecnologia, sonhos, visões, discriminação racial e sexual, tudo se mistura numa narrativa tensa e poética que confere uma nova linguagem para os romances do gênero.




Superando os desafios


Nnedi Okorafor certamente fugiu um pouco do clichê. A partir de uma proposta ousada, ela nos coloca diante de uma mulher africana em um cenário claramente africano. Mas, não é apenas o tipo de personagem e o local onde a história acontece que tornam Quem Teme a Morte uma leitura tão fascinante. É o quanto ela está repleta de conceitos e ideias tipicamente africanos como o papel do contador de histórias, o quanto o sobrenatural está presente na vida das pessoas comuns e o quanto mesmo uma sociedade marcada por calamidades pode ser violenta entre si. Nnedi mostra o maravilhoso e o horrendo em uma narrativa onde a personagem principal é uma mulher com qualidades e defeitos que a tornam marcante.


Onyesonwu é filha de Najeeba, uma Okeke cuja vila foi invadida por Nurus. Como uma forma de humilhar os Okeke, os invasores estupram suas mulheres deixando suas sementes em seus ventres. Como os Nuru possuem um tom de pele mais pálido em relação aos Okeke, seus filhos acabam nascendo com um tom de pele diferente dos Okeke. Isso é o suficiente para que as crianças Ewu (recebem esse nome por serem filhas dessa violência) sejam consideradas párias dentro da sociedade Okeke. Precisando fugir de sua vila, Najeeba e Onye acabam tendo que viver no deserto durante vários anos. Isso até um momento em que elas encontram a vila de Jawhir que é um pouco menos hostil em relação ao Ewu. Mesmo assim, Onye sofre com o ostracismo e busca se adaptar àquela realidade. Mas, estranhos acontecimentos fazem-na perceber que seu pai era um poderoso feiticeiro Nuru que pode ter passado a ela um pouco de sua habilidade. É então que ela vai precisar dominar suas habilidades para poder se livrar de seu pai, que achava que sua filha estava morta.


"[...] [Dar e receber] não existem um sem o outro. Mas se você continua dando sem receber nada, é um tolo."

Quem Teme a Morte é um livro riquíssimo em temáticas. Vou tentar abordar alguns elementos, mas isso não é nem um terço do que o livro realmente oferece. Só fica uma observação quanto à escrita porque a achei um pouco pesada. Este não é um livro simples de ser lido. Tenho duas ideias a esse respeito: ou a tradução não é tão boa assim e provocou uma leitura truncada ou isso é da própria mão da autora que carregou nos parágrafos. A narrativa é em primeira pessoa o que nos permite entender como a personagem pensa e sente. Aliás, fica a ressalva de que a narrativa parece ser um relato de Onye para alguém (não vou entrar muito nesse tema porque posso dar spoilers). Através desse estilo de contar histórias acabamos nos envolvendo com Onye e seus dilemas. E ela é uma personagem repleta de camadas. Seu papel no caminho do herói é claro, mas aos poucos vamos percebendo que as coisas acabam não acontecendo exatamente do jeito que deveriam. Tudo isso por conta dos próprios sentimentos da protagonista.



"O que faz com que você pense que deve entender tudo? [...] Jamais saberemos completamente por que somos de um jeito, o que somos e assim por diante. [...]"

Gostei demais da forma como Okorafor trabalha as estruturas sociais. No caso dos Okeke, vemos o quanto os Ewu sofrem com a hostilidade e o ostracismo. Tem uma passagem terrível logo no começo da história em que Najeeba carrega o bebê Onye e subitamente elas se tornam alvo de pedradas. Camponeses Okeke sentem uma raiva terrível pelos Ewu. Mesmo as amigas mais próximas de Onye sentem preconceito em relação a ela. É curioso porque esse tema é abordado mesmo em momentos mais avançados da história, significando que o preconceito permanece como um traço de suas amigas. A forma como a protagonista lida com o preconceito também é uma maneira de entender como ela amadureceu na narrativa. Inicialmente ela quer atacar todos aqueles que fizeram mal a ela. Mas à medida em que seus poderes vão aumentando, sua postura muda e há o entendimento de que não adianta destruir o seu povo. Algum outro tipo de atitude acaba se fazendo necessária.


Onye vai encontrar em Mwita, um Ewu assim como ela, alguém em quem ela pode confiar. Novamente Okorafor surpreende e a relação entre os dois não é só flores. Eles discutem e se amam, e pensam diferente. Mwita acaba aceitando algumas das ideias de Onye porque ele percebe que sua amada é uma força da natureza. Isso não impede que ele coloque um outro ponto de vista em sua cabeça. Se Onye é uma filha da violência, Mwita acaba sendo criado por aqueles que fazem a violência. Mas, ele é apresentado a um outro lado da coisa. Tendo sido criado entre os Nuru, ele acaba conhecendo os rebeldes Okeke e se dando conta de que atos de violência podem existir dos dois lados. O ressentimento que ele sente pelos Okeke é quase tão grande quanto a raiva que Onye sente por seu pai e pelos Nuru.


"[...] se você não se reconhece, então quem é a pessoa que a lembra sobre quem você é?"

A narrativa é repleta de magia. Isso demonstra um pouco como algumas sociedades do continente africano lidam com o sobrenatural. Temos dois tipos: os juju e a magia da natureza. Os juju são habilidades mais usadas no cotidiano, sem serem usadas para atacar ou se defender. São truques como fazer fogo, criar barreiras, proteger um espaço. Já a magia da natureza é muito poderosa e somente utilizada por feiticeiros que tenham passado por um ritual de iniciação. Vale dizer que como qualquer habilidade envolvendo manipulação do meio ambiente, ela cobra alguma coisa em troca. Vamos descobrir logo de cara que uma das habilidades de Onye é se transformar em diferentes animais. Quando ela permanece muito tempo na forma de animal, sua mente acaba se transformando. Isso exige dela cautela para que ela não se torne um animal por completo.


O mundo de Quem Teme a Morte foi arrasado pelas mãos do homem. O que aconteceu exatamente não sabemos. Apenas compreendemos que o que sobrou da África se tornou um imenso deserto, significando que alguma catástrofe ambiental ocorreu. Temos algumas sobras tecnológicas aqui ou ali, como notebooks e tablets, possuindo informações bem esparsas sobre a sociedade que desapareceu. Magia e tecnologia se mesclam em uma sociedade que acaba precisando buscar qual é a sua identidade e seu papel neste novo e estranho mundo. Não há um grande esforço aqui para buscar resgatar aquilo que desapareceu. Vemos apenas nos Nuru um povo empenhado em tentar empregar a tecnologia ancestral para tarefas comuns. Mas, infelizmente acabamos não entendendo muito a sociedade Nuru porque só chegamos a Durfa (capital dos Nuru) no final da narrativa.



Achei que faltou um pouco mais dos Nuru na narrativa. Sei que a autora acabou relativizando o fato de eles serem violentos, colocando apenas na conta de alguns poucos essa postura, mas a verdade é que não os conhecemos por completo. Se torna necessário conhecer o outro lado também, ainda mais em uma narrativa onde este conflito é o cerne da história. Gostei do final, só achei que ele acabou se desenrolando rápido demais. Isso se tornou um pouco anti-climático no fim das contas. Somos deixados com pontas soltas de forma a imaginarmos o que aconteceu aos personagens depois de tudo o que aconteceu.


"[...] Ser fora do normal significava que você estava ali para servir os normais. E se você se recusasse, eles iriam odiá-lo... e muitas vezes, os normais o odiavam mesmo quando você os servia. [...]"

Este é um livro fascinante que vale a pena ser lido. Okorafor foge das convenções do gênero e procura criar algo único, passível de ser discutido a partir de vários ângulos. Basta ao leitor puxar alguma coisa. Também somos deixados com a questão de como encarar certos conflitos. Devemos combater violência com mais violência ou isso se torna uma conflito sem fim? As observações sociais feitas pela autora também são incríveis, mostrando o quanto ela não tem papas na língua e é sensível aos problemas vividos pelos negros nos dias de hoje. Convido vocês a retirarem a narrativa dos confins do scifi e entenderem o que ela diz entre as linhas de sua narrativa. Vocês vão perceber temáticas aterradoras.



Ficha Técnica:


Nome: Quem Teme a Morte

Autora: Nnedi Okorafor

Editora: Geração Editorial

Gênero: Ficção Científica

Tradutora: Mariana Mesquita

Número de Páginas: 412

Ano de Publicação: 2014


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