• Paulo Vinicius

Resenha: "O Império de Diamante" (Reinos Eternos vol. 1) de J.M. Beraldo

Após uma terrível batalha, o imortal Imperador sofreu um ferimento mortal e se encontra impossibilitado de governar. Muitos anos mais tarde e com o império em franca decadência, um mercenário, um rebelde fanático e um sacerdote serão a resposta para todas as questões.



Sinopse: Conheça o Império de Diamante : um reino eterno que conquistou e suprimiu várias culturas de Myambe, o continente original da Humanidade. Protegido por um exército com poderes incríveis, o Imperador governa com sabedoria e há quem diga que possa conceder talentos sobrenaturais a quem desejar.


Mas agora sua decadência parece inevitável. Vinte anos após a última conquista, ninguém sabe do Imperador. O governo lentamente abandona as províncias mais distantes à mercê de uma seca avassaladora. O povo implora por socorro, mas não há ajuda.


Em meio à crise, quatro indivíduos com objetivos diferentes acabam envolvidos na trama que pode revelar os segredos deste homem tão poderoso. Neste mundo fantástico baseado nas culturas africanas, o autor J. M. Beraldo explora a construção da História e da crença religiosa através da trajetória desse quarteto. Forçados a depender uns dos outros para alcançar seus propósitos, qual será o papel desse inusitado grupo na história do Império de Diamante?




Muitos comentam sobre o excesso de histórias fantásticas que se inspiram de uma maneira ou de outra nos mitos de povos europeus. Seja Tolkien trazendo um pouco do norte da Europa ou George R. R. Martin se inspirando na Guerra das Rosas na Inglaterra, a maioria dos livros de fantasia partem desse universo mitológico conhecido para construir suas histórias. Por esse motivo, Império de Diamante é um sopro de ar fresco na fantasia ao trazer um mundo com gingado e espiritualidade claramente baseado no continente africano.

A história começa em uma imensa batalha entre uma tropa comandada por Rais Kasim e o exército comandado pelo Imperador de Diamante e seus primogênitos. Em um lance de sorte, Kasim acerta o imortal Imperador com uma lança e leva o Império a um período de decadência. Vinte anos mais tarde, várias peças irão se mover para iniciar um jogo perigoso que poderá colocar toda a Myambe em risco. Kasim retorna depois de um longo exílio, agora como o líder de um grupo de mercenários composto pelo caçador Vinko, pelo assassino Anton e a feiticeira Inessa. Kasim oferecerá seus serviços a quem lhe pagar mais, mas logo terá que confrontar fantasmas de seu passado. Mukhtar Marid é um guerreiro fiel à Estrela da Manhã, um culto religioso considerado herege pelo Imperador. Mas, quando um oráculo lhe conta sua participação em um plano que pode enfraquecer os poderes imortais do Imperador, Mukhtar precisará de todas as suas forças para aceitar o inaceitável segundo suas crenças. Zaim Adoud é mais um a receber esse título e ser um dos generais do Imperador em províncias distantes. Porém, Abechét já viu dias melhores. Cercado por nobres preguiçosos que nada fazem para mitigar as dificuldades da província, Adoud receberá a visita de um primogênito que o levará a ruínas no meio da floresta de Kwindago onde um estranho mistério ronda o lugar. Por fim, Adisa é um sacerdote do Imperador cujo poder é a habilidade de traduzir todas as línguas, conhecidas ou desconhecidas. Habitando Jimfara, capital do Império de Diamante, ele verá sua crença inabalável no poder absoluto e piedoso do Imperador ser questionado por eventos que o colocarão frente a frente com Kasim, Mukhtar e Zaim Adoud. A colisão das histórias destes personagens resultará em uma mudança na vida dos súditos do Imperador.


“Era como uma versão miniatura da vida política em Abechét. Você tomava algo que não lhe pertencia, mascarava as falhas, abusava do que lhe fosse útil e, um dia, outro predador faria o mesmo com você.”

O tema principal é a crença religiosa. Como tanto aqueles que creem como os que não creem podem fazer o bem ou o mal. E que a fé é uma questão de ponto de vista. Kasim é um homem que foi traído por sua fé na Estrela da Manhã e abandonou tudo para seguir uma vida de glórias. Quando retorna a Myambe se vê às voltas com a sua antiga religião novamente e algumas coisas que ele credita ao acaso, acabam se revelando algum tipo de interferência superior. Mas, quando ele percebe o poder do Imperador de Diamante, volta a se questionar sobre se vale a pena ou não ter fé. Entretanto, ele já foi mudado em seu interior. Para um homem que se dizia sem fé e cético cogitar se vale a pena ou não tê-la novamente, significa que suas crenças foram atingidas de uma forma indelével.

Adisa representa a fé inabalável e até mesmo ingênua. Ele é fiel a seu Imperador e sua religião é aquilo que há de melhor para o homem. Os pobres e famintos são apenas pessoas que passam por aquilo para reverenciar o seu deus. Quando ele foi confrontado com a dura realidade fora dos muros de Jimfara ele percebe o quanto o seu mundo é frágil. O curioso é que mesmo diante de uma situação adversa onde tudo converge para uma série de mentiras, ele mantém uma fé ingênua que percebe todos como tolos e ele como o único sábio.



Mukhtar representa a fé cega e vingativa. Como rebelde contrário ao Imperador de Diamante ele vê naqueles que adotam a outra religião como passíveis de serem eliminados e desmerecedores da caridade da Estrela da Manhã. Ou seja, percebemos como o autor trabalhou com gradações de fé ao longo de sua história. E em nenhum momento ele se colocou favorável a qualquer tipo. Beraldo entende todas essas formas com suas qualidades e defeitos. Achei muito interessante essa discussão moral do que significa a fé e como a religião afeta os destinos das pessoas. Existe até uma confrontação entre os deuses antigos (uma espécie de politeísmo não muito bem explicado aqui) e os dois cultos monoteístas (creio eu) da Estrela da Manhã e do Imperador de Diamante. Apesar de que este último é apenas um entre muitos Eternos que veremos em outros volumes da série.

Nesta resenha eu quis tirar um pouco o foco da construção do enredo com base na cultura africana porque muitos já disseram isto em outras resenhas. E Império de Diamante é muito mais do que isso. É uma exploração sobre personagens e seus problemas em aceitar um status quo opressivo. Zaim quer o melhor para sua cidade; Adisa quer o conhecimento para melhor auxiliar seu Imperador; Mukhtar quer acabar com o domínio do Imperador; e Kasim quer mudar em seu interior. Todos são personagens fortes em suas convicções e levados a atos extremos quando necessário.

A ambientação é espetacular e acho que o autor irá trabalhá-la melhor em volumes futuros. Nesta história ele trabalha apenas com o porto, um pouco de Jimfara, Abechét e a floresta de Kwindago. Mas, existe muito a ser explorado. São deixados muitos ganchos intrigantes, mesmo a história sendo fechada em si. Adorei o enredo e os personagens. Recomendo muito a quem quer sair um pouco desta linha de histórias mais europeizantes e tentar algo diferente.




Ficha Técnica:


Nome: Império de Diamante

Autor: J.M. Beraldo

Série: Reinos Eternos vol. 1

Editora: Draco

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 312

Ano de Publicação: 2015


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