• Paulo Vinicius

Resenha: "Range of Ghosts" (Eternal Sky vol. 1) de Elizabeth Bear

Em uma jornada para recuperar sua honra, sua mulher e seu orgulho, Re Temur segue rumo às pradarias de Song e às praias de Asitaneh para enfrentar uma terrível seita de assassinos. A feiticeira Samarkar terá seu destino ligado ao de Temur por causa de uma tragédia em sua família. Essa é a história que acontece sob os céus da eternidade.

Sinopse:


Temur, neto do Grande Khan, está retornando de um campo de batalha onde ele foi dado como morto. Por toda a parte ao seu redor estão os exércitos caídos do seu primo e de seu irmão que guerreou para governar o Khaganato. Temur é agora o herdeiro legítimo de sangue para o trono de seu avô, mas ele não é o mais forte. Se exilar é a única forma de sobreviver ao seu primo cruel.

A Outrora-Princesa Samarkar está subindo os milhares de degraus da Cidadela dos Magos de Tsarepheth. Ela é a herdeira do Império Rasante até que seu pai conseguiu ter um filho com sua nova esposa. Então, ela foi enviada para ser a esposa de um Príncipe em Song, mas seu casamento terminou em batalhas e sangue. Agora, ela renunciou ao seu poder laico para buscar o poder mágico dos feiticeiros.

Estes dois irão se unir para lutar contra um culto secreto que cuidadosamente levou todos os reinos na estrada Celadon para a guerra e para as lutas internas através da esperteza e da enganação e pelos poderes de feiticeiros.




A palavra world building, ou construção de mundo, é uma das partes mais divertidas e mais assustadoras da criação de uma história. Todos os autores de fantasia curtem criar sociedades, estabelecer os impérios, mostrar o funcionamento da economia. Mas, o problema disso é como colocar isso na história sem torná-la longa e enfadonha? Muitos autores caem nessa armadilha e suas histórias sofrem com o chamado info dumping, ou com o excesso de informações. Nesse livro, Elizabeth Bear mostra como fazer isso sem afetar o ritmo da história.

Estamos diante de uma escrita que não é nem erudita ou estilosa demais, nem ingênua. O que eu posso dizer é que a autora é muito eficiente na apresentação de personagens e de conteúdo. Em pouco menos de dois capítulos ela já conseguiu me passar todas as informações que eu precisava. Acreditem: isso é dificílimo de ser feito e só por isso a autora merece muitos elogios. A história é contada em terceira pessoa a partir de três pontos de vista básicos: o do Temur, a da Samarkar e a do al-Sepehr/Edene. A história é contada a partir de um discurso direto simples,mas carregado de descrições e momentos reflexivos dos personagens. Ou seja, não é nenhuma invenção, nem nada demais. A autora simplesmente consegue entregar muito bem os fundamentos básicos da escrita. Me incomodou um pouco a parte final da história, mais carregada de transições entre os núcleos narrativos. Isso fez com que em certos momentos a história ficasse truncada e não fluísse tão bem quanto no começo. Mas, não tira a boa escrita da autora.

Os personagens são um dos pontos estranhos na escrita. Achei-os um pouco desequilibrados em relação ao tempo de atenção dado pela autora a eles. Vou começar falando da Samarkar. Para mim ela é o ponto alto da narrativa, pois a autora decide nos apresentar uma mulher que já está com uma idade um pouco maior (na casa dos 30) e que teve uma série de problemas ligados ao casamento e à maternidade. Devido aos rituais necessários para o recebimento de poderes mágicos, ela não pode mais dar à luz. Mesmo assim, a autora nos mostra uma protagonista feminina forte e decidida, capaz de tomar decisões difíceis, mas tendo os seus lapsos de insegurança. É uma personagem muito humana e com o qual conseguimos nos relacionar. Aliás, fica aqui também o destaque para o fato de a personagem não ser sexy e maravilhosa, tendo problemas para aceitar que ela é de alta estatura e muito forte para os padrões aceitáveis dentro de sua sociedade. A maneira como a autora trabalha a insegurança por trás da não aceitação de si mesma é outro bom destaque narrativo.


A narrativa de Re Temur segue um homem derrotado após uma guerra entre clãs rivais em sua tentativa de sobreviver. Os acontecimentos que seguem acabam guiando-o rumo ao desastre. Ele conhece Edene e acaba se apaixonando por ela. Esse trecho eu achei muito bom porque nos mostra um homem destruído por tudo o que aconteceu a ele na guerra. Apesar de ser um dos herdeiros do trono, ele vê com total impossibilidade ascender ao poder e nem faz esforço para tal. Ele quer sossego e viver com dignidade. Mas, ele é perseguido pelo ódio de Qori Buqa que deseja eliminar todos aqueles com algum direito ao trono. E é isso que vai empurrar Temur para a narrativa. É isso o que eu não gostei muito: estamos diante de um personagem muito mais reativo do que pró-ativo. Outras coisa que acaba me incomodando é a sensação de um deus ex machina sempre impelindo o personagem com alguma coincidência fortuita ocorrendo. No final a autora dá uma amenizada nesses empurrões e a trama do personagem melhora em termos. Acontecem algumas complicações que vai fazer do personagem mais interessante no próximo volume.

Digamos que eu achei que a personagem não teve muito tempo para explorar devidamente os seus personagens. A riqueza e a originalidade do mundo que ela criou são chamativos. Ela mesclou elementos chineses, árabes e mongóis em um mundo de fantasia. Tomou certas liberdades que em nada diminuem sua criação. Só que por conta disso, ela conseguiu trabalhar menos as ligações entre os personagens e suas histórias de fundo. Por exemplo, al-Sepehr parece ser um vilão com motivações legais, mas seus momentos são tão poucos que ele fica parecendo mais "vilanesco" do que legal. E eu tenho certeza que a autora tem algum coelho na cartola em relação a ele. Já a mudança que ocorre em Edene mais para o final do primeiro volume soou estranha e forçada. Súbito demais. Espero que tenha uma explicação convincente no segundo volume.

Os reinos criados pela autora são o que há de melhor na narrativa. Ela conseguiu criar uma ambientação incrível e bem diferente do padrão. Passamos por dois momentos de ambientação propriamente ditos: em Tsarepeth e na caravana onde Temur e Edene se encontram. A autora conseguiu trabalhar bem os hábitos e os costumes dos dois povos. Detalhes bem pequenos ficam nítidos na escrita da autora: toda a etiqueta por trás da corte de Rasan, o amor de Temur e de seus compatriotas pelos cavalos, as visões distintas sobre religião, as relações de comércio. Tudo é ricamente trabalhado pela autora. Um detalhe que muitas vezes foge aos autores é a barreira do idioma. Aqui os personagens precisam aprender a falar o idioma um do outro para poderem se comunicar. Eles passam a viagem tentando ensinar um ao outro a falar e mesmo assim sentem dificuldades na hora de falar com alguém nativo do lugar. Uma excelente maneira de cobrir esse tema, na maior parte das vezes deixado de lado.

Range of Ghosts é um bom início de série, apresentando um mundo diferente do que estamos acostumados a ver, entrando no trend de histórias baseadas na cultura oriental. Somos apresentados a dois personagens que tem muito ainda a nos mostrar e que certamente enfrentarão terríveis desafios. O cliffhanger no final do volume nos deixa salivando para saber o que vai acontecer a seguir.


Ficha Técnica:

Nome: Range of Ghosts Autora: Elizabeth Bear Série: Eternal Sky vol. 1 Editora: Tor Books Gênero: Fantasia Número de Páginas: 352 Ano de Publicação: 2013


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