• Paulo Vinicius

Resenha: "A Quinta Estação" (A Terra Partida vol. 1) de N.K. Jemisin

Em um mundo assolado por terremotos e preconceito, uma mãe vai buscar a vingança contra seu marido que assassina o próprio filho com as próprias mãos e sequestra sua filha. Mas, existe muito mais nessa história do que apenas a vingança de uma mãe. Venham conosco até a Quietude e descubram.

Sinopse:


É assim que o mundo termina. Pela última vez.


Três coisas terríveis acontecem em um único dia: Essun volta para casa e descobre que seu marido assassinou brutalmente o próprio filho e sequestrou sua filha. Sanze, o poderoso império cujas inovações têm sido o fundamento da civilização por mais de mil anos, colapsa frente à destruição de sua maior cidade pelas mãos de um homem louco e vingativo.


E, no coração do único continente, uma grande fenda vermelha foi aberta e expele cinzas capazes de escurecer o céu e apagar o sol por anos. Ou séculos. Mas esta é a Quietude, lugar há muito acostumado à catástrofe, onde os orogenes - aqueles que empunham o poder da terra como uma arma - são mais temidos do que a longa e fria noite. E onde não há compaixão.




Alguns livros sofrem quando fazemos uma releitura; pegamos problemas, vulnerabilidades ou inconsistências. Outros conseguem se tornar ainda melhores. Este é o caso de A Quinta Estação, primeiro livro da premiada série escrita por N.K. Jemisin. Foi uma das minhas melhores leituras de 2016 e fiquei muito feliz de ela finalmente ser lançada por aqui.

Se eu já havia ficado impressionado antes com a elegância da escrita da autora, aqui eu consegui enxergar outros elementos que eu não havia percebido na primeira leitura. A história possui três tipos de escrita diferentes (assim como os pontos de vista de suas personagens) e a autora vai brincando com esse estilo porque de certa forma essa mudança na escrita afeta a maneira como nos embrenhamos na narrativa. Começando pela mais normal, os capítulos de Damaya seguem uma escrita comum, narrada em terceira pessoa. A personagem possui muitas dúvidas sobre o mundo em que ela vive muito por conta de ela morar em uma pequena comunidade do interior. Então aqui a própria Damaya serve como um personagem-orelha e que vai obtendo as informações aos poucos através da ampliação de sua visão de mundo. Os capítulos de Syenite são narrados em terceiros pessoa também, porém existe uma espécie de narrador escondido na trama. Ele está contando para a gente o que aconteceu com Syenite e suas ações que estiveram ligadas à destruição do mundo. No final acabamos descobrindo quem é o narrador e a revelação dá uma outra profundidade ao que foi contado nas páginas anteriores. Os capítulos de Essun são narrados em segunda pessoa. A narração em segunda pessoa é uma mecânica de escrita bem diferente. Para ser bem sucedida, a autora precisa conseguir quebrar a barreira da quarta dimensão sem comprometer o andamento da história. O que eu estou tentando dizer, é que a narração vai se referir a você, leitor, o tempo inteiro. O narrador vai te colocar na pele de Essun e fazer com que o leitor seja capaz de sentir o que a protagonista sente. É uma outra experiência narrativa que exige um nível de escrita muito avançado.

“Talvez você ache errado eu falar tanto dos horrores, da dor, mas ela é o que nos molda, no fim das contas. Somos criaturas nascidas do calor e da pressão e do movimento cansativo e incessante. Estar quieto é… não estar vivo”.

Apesar de ter uma série de expressões próprias como sensar, orogenes, Fulcro entre outros (tanto que tem um apêndice bibliográfico no final), a escrita do livro é muito tranquila. Não senti qualquer dificuldade durante a leitura, pude perceber como os capítulos são bem espaçados uns dos outros. A autora conseguiu equilibrar muito bem o foco entre as três personagens. A tradução da Morro Branco também ficou muito boa e a tradutora conseguiu preservar o estilo de escrita da Jemisin (como é uma releitura, eu consigo cotejar a versão original e a tradução). Só isso já significa que a editora está de parabéns, mas achei a edição nacional mais elegante que a versão americana. Como curiosidade ambas as versões tem o mesmo tamanho, mas achei a formatação da nossa edição um pouco melhor (na estante a edição nacional fica bem camuflada junto das edições gringas).

Na narrativa temos três personagens femininas muito fortes. Todas elas possuem suas qualidades, suas virtudes, suas falhas. São heroínas em um mundo marcado pela violência, pela intolerância e pelo preconceito. Vejamos por exemplo Damaya. Neste mundo, os orogenes (manipuladores de forças sísmicas) são vistos como seres inferiores, como máculas para o mundo. Os orogenes sofrem com a fúria das populações locais, alguns deles sendo mortos via linchamento. Algumas famílias chegam a contactar o Fulcro, uma instituição onde essas pessoas podem ser treinadas para fazer o bem à Quietude. Este é mais ou menos o caso de Damaya. Esta descobre ser uma orogene durante uma confusão na escola em que ela quase mata o colega ao despertar seus poderes. Sua família a tranca então no celeiro durante quase duas semanas. Quando o enviado do Fulcro, o Guardião Schaffa chega as condições em que a menina se encontra eram péssimas: sem lugar para fazer suas necessidades, sem uma coberta para protegê-la do frio, com pouca comida.


É na parte de Damaya que a autora vai nos mostrar o quanto os cidadãos da Quietude odeiam os orogenes a ponto de desejarem matá-los a todo custo. Mas, seguir junto com o Guardião até o Fulcro não significa que a vida dela vai se tornar melhor. Isto porque eles agora vivem uma existência limitada em que servem a seu Guardião podendo ser machucados ou morrerem por qualquer motivo. O nível de violência física e psicológica apresentados aqui demarca o quanto a narrativa possui um peso enorme. A relação entre Schaffa e Damaya é a de um amor paternal abusivo; ele não se arroga de feri-la quando bem entende apenas para provar um ponto. Este tipo de violência se relaciona aos dias de hoje onde alguns homens dizem amar suas mulheres estabelecendo relações de extrema violência. Escondem seus abusos em uma cortina absurda de um amor que não existe.

"Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o começo de outra. Afinal, isso já aconteceu antes. Pessoas morrem. Velhas ordens passam. Novas sociedades nascem. Quando dizemos “o mundo acabou “, geralmente é mentira, porque o planeta está bem."

Já Syenite é uma quatro-anéis emparelhada junto com Alabaster, um orogene extremamente poderoso ao mesmo tempo em que é desequilibrado. Somos colocados diante de outra violência deste mundo: Syenite é enviada para Alabaster para que ele possa introduzir sua semente para gerar um filho tão poderoso quanto ele. Por conta de tudo o que existe na Quietude, Syenite pode apenas se resignar e seguir as ordens do Fulcro. A maneira humilhante como ela é enviada, como um pedaço de carne a ser usufruído, consegue embrulhar o nosso estômago.


Os capítulos de Syenite são mais questionadores, ou seja, ficamos sabendo de verdades cruéis que acontecem neste mundo. A protagonista acreditava que fazer tudo corretamente, agir dentro do status quo lhe daria a possibilidade de atingir um módicum de conforto e felicidade. Mas, Alabaster, com seu jeito cínico e irônico vai quebrando uma a uma as crenças da personagem. O que vemos é que a protagonista nunca parou para pensar nas inconsistências daquilo que lhe era dito enquanto ela estava em treinamento. Quando eles chegam à estação de ligação, acho que é aí que cai a ficha dela. É quando ela percebe o quanto o mundo é podre e o quanto eles, orogenes, não estão nem um pouco seguros. Alabaster é um personagem extremamente complexo e interessante; por ser homossexual, ser colocado junto a Syenite para produzir um filho é uma ofensa para ele. O ato sexual é descrito com tanta frieza que a gente sente o nojo que o personagem sente da protagonista. Claro que ao longo da narrativa eles desenvolvem uma relação mais próxima, mas mesmo assim esse asco dele não muda tanto.

"Você é ela. Ela é você. Você é Essun. Lembra? A mulher cujo filho está morto. Você é uma orogene que está morando nessa cidadezinha de nada de Tirimo há dez anos. Só três pessoas aqui sabem o que você é, e você deu à luz duas delas. Bem. Só resta mais uma pessoa que sabe, agora." 

Os capítulos de Essun são os mais carregados de dramaticidade. Saber que o seu filho foi morto por seu próprio pai, um bom marido que vivia com eles há dez anos, foi devastador para a personagem. É totalmente compreensível o quanto ela fica estática na hora em que ela descobre o que aconteceu. Aquilo era bizarro demais pelo fato de ela ter convivido tantos anos com uma pessoa. E conhecer os instintos primitivos desta e sem o apoio de ninguém na vila, já que Essun é uma orogene, é ainda pior. Essun foi traída em todos os sentidos da palavra. A gente sente o quanto ela deseja matar Jija; isto está expresso em cada linha de suas falas. Percebemos a experiência da personagem e o quanto ela está exausta por uma vida que cobrou tanto dela. Nos capítulos de Essun, é ela que age como aquela que fornece as informações a outros personagens. Toda a sua vivência e ceticismo é passada adiante, não à toa ela consegue reunir em torno de si personagens tão estranhos quanto Hoa e Tonkee.

Analisando novamente o plot twist mais ou menos na última parte do livro, eu consigo perceber o quanto ela nos surpreende com a revelação. Mesmo assim ela vai deixando pistas disso ao longo da narrativa seja através de pequenas reflexões, uma fala perdida aqui ou ali ou alguma situação que uma das personagens faz algum comentário estranho. Mesmo assim é um plot twist do caramba porque quem não estava atento não viu aquilo se sucedendo página a página. E ela solta a primeira revelação de um jeito que você fica assustado... quando vem a segunda revelação você fica doido. Tipo "É sério isso??". Só demonstra a qualidade de escrita e de composição narrativa da Jemisin.

"Damaya espera, claro. Ela não é idiota. Ela está em frente à porta que dá para uma área movimentada; apesar da hora, outros Guardiões surgem de vez em quando e olham para ela. Ela não devolve o olhar, e algo nessa atitude parece deixá-los satisfeitos, então eles continuam sem incomodá-la."

A construção do mundo é incrível. Ela conseguiu criar um mundo em franco declínio onde tudo colabora para uma devastação cruel que pode acontecer a qualquer instante. A sociedade precisou se adaptar a essa realidade onde a natureza se volta contra as pessoas. Aliás, preciso elogiar o trabalho da autora em compor uma série de ecossistemas que extrapolam situações reais. A autora realmente pesquisou a relação entre terremotos, vulcões e as maneiras como um mundo desequilibrado podem destruir nosso modo de vida. Por isso alguns autores costumam colocar A Quinta Estação no subgênero de ficção científica climática. Jemisin descreve muito bem as maneiras como as quintas estações mexeram com o equilíbrio ecológico seja introduzindo um fungo que destruiu as plantações ou obrigando as pessoas a adotarem um outro estilo de arquitetura que fosse capaz de resistir aos tremores de terra. Economia, política, religião, tecnologia, tudo é feito de forma equilibrada e coerente com um mundo cruel. O sistema de magias orogênico também é muito bem feito; a autora impôs uma série de limitações aos poderes mágicos. Os orogenes são poderosos, mas eles precisam se conter, caso contrário podem destruir o próprio mundo em que vivem. Portanto, a gente não vai ver feiticeiros disparando bolas de fogo a torto e a direito, mas poderes sendo usados de forma inteligente e moderada (salvo em alguns momentos).

Eu queria falar mais sobre este livro, mas vejo que já me alonguei ao limite. Existe ainda no livro alguns flashes de algo que parece ser ficção científica. Mas, parece que algumas dessas revelações ficaram para o segundo volume, o que nos deixa terrivelmente ansiosos para saber o que vai se seguir a tudo o que aconteceu aqui, A Quinta Estação, sem dúvida alguma, é um dos melhores livros de fantasia escrito nos últimos anos. Uma escrita perfeita, onde a autora usou e abusou de ferramentas saindo do lugar comum dos livros do gênero, personagens que vão se comunicar emocionalmente com cada um de nós e uma trama terrível em seu encanto. Minha única dica é: Leiam. Leiam logo. Leiam agora. Se deixem encantar por esta autora magnífica.

"Inverno, primavera, verão, outono; a Morte é a quinta e ocupa o trono."

Ficha Técnica:

Nome: A Quinta Estação Autora: N.K. Jemisin Série: A Terra Partida vol. 1 Editora: Morro Branco (no Brasil) Gênero: Fantasia Tradutora: Aline Corto Pereira Número de Páginas: 560 Ano de Lançamento: 2017


Outros Volumes:

O Portão do Obelisco (vol. 2)

O Céu de Pedra (vol. 3)


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