• Paulo Vinicius

Resenha: "The Big Book of Science Fiction" organizado por Jeff e Ann Vandermeer (Parte 8)

Chegamos na década de 70. Nessa postagem vamos ver alguns contos incríveis como Robert Silverberg e um papa robô, a famosa James Tiptree Jr em um conto sobre contatos com alienígenas e mais russos e japoneses.

Nesta oitava parte, temos alguns contos da década de 1970. São os seguintes:


1 - "Good News from the Vatican" (de Robert Silverberg) - 1971

2 - "When It Changed" (de Joanna Russ) - 1972

3 - "And I Awoke and Found me Here on the Cold Hill's Side" (de James Tiptree Jr) - 1972

4 - "When Two Paths Cross" (de Dmitri Bilenkin) - 1973

5 - "Standing Woman" (de Yasutaka Tsutsui) - 1974

6 - "The IWM 1000" (de Alicia Yanéz Cossío) - 1975


Seguem as resenhas:


1 - "Good News from the Vatican"


Autor: Rober Silverberg Avaliação:

Publicado originalmente em 1971




Silverberg é um dos autores mais prolíficos e renomados de fantasia e ficção científica do século XX. Não apenas como autor, mas também como editor de revistas e de coletâneas. Há muito tempo eu queria ler algo dele. Já havia lido um conto na coletânea Histórias de Robôs, mas já tinha até me esquecido de como era a história. Pegando esse aqui, pude novamente ter contato com ele e o que posso dizer é que ele tem uma escrita extremamente agradável.

Com uma narrativa escrita em terceira pessoa, Silverberg consegue manter os leitores presos na história. Na apresentação do conto, o organizador da coletânea afirma que ele tem um tom humorístico, mas não achei que isso fosse inteiramente verdade. Não tem a ver com bom humor ou não, mas de uma sátira leve com alguns temas para reflexão. Outro ponto positivo da escrita de Silverberg é que não há dificuldades para compreender a história. O autor não emprega palavras difíceis ou jargões. A história também consegue encerrar todas as pontas possíveis sem deixar nada em aberto exceto aquilo que ele desejava para a narrativa.

A história fala sobre a eleição de um novo papa no Vaticano. Só que o principal candidato é um robô. Por conta da ocasião histórica representantes de outras religiões conversam do lado de fora sobre as implicações de tal decisão e quais as características psicológicas do autômato. O que significa a fé para um ser feito de metal? Será esse o último papa da história, já que um robô não pode morrer. O autor coloca seis personagens cada um de um lado da questão. Todos possuem bons argumentos quanto à ascensão ou não do robô como chefe supremo do cristianismo. Achei curioso a humanização feita da figura por um dos intervenientes no debate, argumentando que o robô era uma pessoa humilde e iluminada.

Até onde vai a modernização da sociedade? Em uma época em que os cientistas sociais discutiam sobre a morte de Deus difundida por Nietzche, Silverberg aparece com questionamentos muito pertinentes acerca da função do sagrado para cada um de nós. Seríamos nós capazes de entender um ser como esse como um representante de uma religião? Good News from the Vatican é um conto curioso que faz com que a gente reflita sobre a nossa relação com o sagrado, sobre o que significa fé e sobre como as religiões se apresentam nos dias de hoje.


2 - "When It Changed"


Autora: Joanna Russ Avaliação:

Publicado originalmente em 1972




Estamos em uma época em que é politicamente correto falar em diversidade. Mas, alguns romances que falam de temas queer ou apenas que possuem mulheres em posições de protagonismo possuem narrativas muito rasas ou personagens unidimensionais. Algumas autoras da década de 1960 e 1970 conseguiam trabalhar temas super atuais com elegância e profundidade que fariam inveja a muitas autoras contemporâneas. Dois exemplos são Joanna Russ e James Tiptree Jr.

Em When it Changed temos a história de uma sociedade formada apenas por mulheres que de repente tem seu mundo completamente alterado com a chegada de homens. Após um tipo de epidemia, apenas as mulheres conseguiram sobreviver e continuaram suas vidas por mais de 30 gerações. Subitamente um grupo de astronautas russos chegam em Whileaway e se veem no direito de dar as cartas. É através dessa história que podemos perceber algumas generalizações machistas que nós, homens, fazemos de forma "natural". Por exemplo: "é óbvio que uma sociedade sem homens irá ruir e entrar em uma espiral de destruição". Não, não é óbvio. Não existimos em um mundo naturalmente heterossexual. Apenas que nossa civilização judaico-cristã ocidental colocou que a heterossexualidade e a monogamia são razões naturais para a sobrevivência. Aqui temos mulheres que acabaram por desenvolver métodos para gerar seus filhos que não a partenogênese.

Outra "máxima" machista é de que os homens são os líderes naturais da civilização. Joanna Russ contesta isso de uma maneira tão sutil que chega a ser assustador. Ela nos mostra uma sociedade que se organizou de uma tal maneira eficiente que rapidamente as mulheres precisam discutir como lidar com os recém-chegados. Na história da Terra, temos exemplos de uma série de sociedades matriarcais altamente complexas no interior da África e até em diversas regiões da Oceania. Patriarcalismo é outra generalização tola.

E por fim é preciso dizer o quanto me desagradou quando o homem olhou a forma como a protagonista estava vestida e ficou indignado porque ela se vestia como um homem. Não, ela não se vestia como um homem; ela se vestia com uma roupa confortável para o trabalho que ela estava fazendo. E pior: ele espera que as mulheres tenha ações femininas e quando isso não acontece, ocorre um estranhamento. Não estamos diante de um daqueles filmes satíricos hollywoodianos ou desenhos da Hannah-Barbera em que o homem chega a uma ilha deserta repleta de mulheres que o recebem como um rei e desejam transar com ele todos os dias, a todos os momentos. Não é real ou verossímil; é apenas uma fantasia machista velada.

Provavelmente, os leitores devem estar achando que ou eu sou um homossexual ou um banana absoluto. Mas, depois de ler muita coisa sobre feminismo e assistir a uma série de debates sobre a participação das mulheres na sociedade contemporânea eu aprendi simplesmente a rever os meus valores. Procuro me policiar mais quanto a certas ações ou pré-julgamentos. Não sou perfeito e até tenho minhas recaídas porque somos criados em uma sociedade patriarcal machistóide. E é com autores como Charlotte Perkins Gilman, Joanna Russ, Ursula K. Le Guin e James Tiptree Jr. que a gente aprende a desnaturalizar certas situações. Esse é um conto que eu recomendo muito.

3 - "And I Awoke and Found me Here on the Cold Hill's Side"


Autora: James Tiptree Jr Avaliação:

Publicado originalmente em 1972




Esse é um conto que faz uma inversão na temática do contato com alienígenas. Aqui temos um mundo distópico onde os seres humanos idolatram os alienígenas e se veem em um lugar decadente em que se relacionam sexualmente com estes. O protagonista é um repórter em busca de um furo, de uma grande história dentro de um bairro onde todo o tipo de perversão pode ser alcançada. Mas, onde na verdade a maior perversão é o caráter humano que objetifica o próximo acima de tudo.

Algumas pessoas confundem o fato de Tiptree ser uma autora à frente de seu tempo, capaz de escrever histórias vorazes e que fogem um pouco ao conservadorismo da Era de Ouro. Sua visão acerca da sexualidade é muito mais livre e progressista e conseguimos perceber isso no desenrolar da história. Ela não tem pudores ao mostrar personagens que são bem resolvidos acerca do que fazem sobre si mesmo. Mas, ao mesmo tempo, ela é capaz de mostrar personagens desesperados em realizar os seus fetiches mais obscuros, como uma mulher que vendia seu sexo por um pouco de prazer e dinheiro. De forma alguma o conto é erótico; nada disso. O que temos aqui é uma outra visão acerca do contato entre humanos e alienígenas, algo mais sujo e liberal.

Admito que não consegui assimilar tudo o que a autora quis dizer na história. Mas, percebi a qualidade da escrita dela, percebendo que este é um daqueles contos que para que você entenda completamente é preciso reler algumas vezes. Com uma narrativa em primeira pessoa e uma escrita repleta de simbolismos que nem sempre estão à vista do leitor, Tiptree consegue impor um ritmo veloz à história. Por isso além de ser um conto curto, o leitor é capaz de lê-lo rapidamente. Mas, todo o cuidado é pouco na leitura dele. Minha recomendação é que o leitor vá e volte para pegar todos os sentidos e significados, principalmente porque se perder na leitura é bem fácil.


4 - "Where Two Paths Cross"


Autor: Dmitri Bilenkin Avaliação:

Publicado originalmente em 1973




Essa é mais uma história que inverte alguns clichês típicos de ficção científica. Bilenkin pega o bom e velho tema do encontro entre alienígenas e humanos e dá um twist. Aqui estamos diante do confronto entre os mangors e os homens. Percebi alguma inspiração em Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein só que é como se estivéssemos vendo o confronto sob os dois pontos de vista. A questão é que os mangors são uma forma de vida completamente diferente dos homens. Então algumas certezas não valem para eles que estranham certas atitudes dos seres humanos. Os mangors se parecem um pouco com vegetais, inclusive no comportamento em relação a seus predadores.

A escrita de Bilenkin é bem direta e dividida em cenas. Ele alterna entre as ações dos homens e dos mangors. Me incomodou um pouco essa transição rápida. Não sei se o objetivo era tornar essa transição mais dinâmica e fazer com que a ação fosse contínua, mas para mim o efeito não funcionou. Entretanto, o autor consegue mostrar as características de ambos os povos com muita precisão. A ideia era realmente trabalhar a diferença entre ambos e a maneira como os alienígenas enxergam o mundo ao seu redor é realmente alienígena. Às vezes alguns autores de ficção científica não conseguem passar essa sensação de estranheza com habilidade; o alienígena fica apenas parecendo um ser humano que tem outra disposição física.

Sem dúvida alguma a noção de choque cultural é o principal tema aqui. São as diferenças de visão de mundo, de relacionamento com o ambiente ao redor e de alteridade que regem a história. Porém, dá para fazermos uma associação clara com a chegada dos espanhóis na América durante as Grandes Navegações. A maneira como a tecnologia superior de uns sobrepujou a engenhosidade e a superstição dos outros. No caso, os mangors não eram capazes de entender o estranho comportamento dos homens. Não condizia com aquilo que eles estavam acostumados a enfrentar.

Where Two Paths Cross é a demonstração genuína de que a ficção científica russa tem uma pegada bem diferente da que estamos acostumados. Infelizmente o conto acabou não me agradando tanto. Entretanto, eu recomendo para os amantes de boa ficção militar. As reflexões sobre sociedade e sobre táticas de batalha feitas por Bilenkin são, no mínimo, criativas.

5 - "Standing Woman"


Autor: Yasutaka Tsutsui Avaliação:

Publicado originalmente em 1974




Histórias que versam sobre governos autoritários e censura são sempre instigantes. Tsutsui constrói uma narrativa sutil para falar desse tema e consegue um efeito incrível. Com um trabalho sobre nossas emoções ele coloca uma ideia absolutamente estranha e traz à tona a forma como a opressão pode chegar ao âmago de nosso ser. Cabe a cada um aceitar ou se rebelar contra o status quo. Mas, Standing Woman não é uma história sobre revolta; é uma história sobre status quo. Então não há heróis aqui, apenas pessoas comuns tentando sobreviver em um mundo torto e hediondo.

O protagonista nos conta a história de um dia em sua vida em que ele está andando na rua e se sente inclinado a visitar o local onde sua mulher está vegetizada. Sim, nesse mundo os seres que cometem atos ilegais (sejam homens ou animais) são condenados a se tornarem árvores. Ficam estáticos em um lugar até se transformarem em árvores completas. Nosso protagonista luta contra sua angústia e tristeza de ver sua mulher passando por essa transformação. Ele compartilha de sua dor com outros que passaram pelo mesmo que ele. É uma narrativa muito emocional, principalmente pelo fato de o autor ter escolhido a primeira pessoa como fórmula de escrita.

A ambientação é extremamente claustrofóbica. Tsutsui consegue nos passar a impressão de um lugar no qual não existe saída. As pessoas apenas tentam se conformar com o que se passa mesmo sabendo que não existe justiça naquilo. O que se tem a fazer é apenas abaixar a cabeça e esquecer o ocorrido. Esqueçam a estranha ideia da vegetização; prestem atenção no que o autor quer dizer na verdade. A narrativa é bem simples e direta e pode se remeter ao regime japonês que era bem severo com os dissidentes. Regido por normas e códigos de conduta, uma versão extrema do que se passava com os cidadãos sempre estava ali na esquina. Nesse ponto o conto de Tsutsui se coloca em um patamar semelhante ao O Conto da Aia, de Margaret Atwood: são elucubrações muito fáceis de acontecer.

Recomendo a leitura de Standing Woman e a reflexão sobre a mensagem que ele passa. É incrível como algumas histórias conseguem ser tão atuais e essa é uma delas. Além do mais, é uma literatura de ficção científica com a qual não estamos acostumados e a escola japonesa tem muito a nos mostrar.


6 - "The IWM 1000"


Autora: Alicia Yanéz Cossío Avaliação:

Publicado originalmente em 1975




Mais um conto que versa sobre a relação do ser humano com o mundo. Alicia Yánez Cossío nos apresenta uma máquina capaz de fornecer qualquer tipo de informação ou conhecimento para as pessoas. Isso vale para a busca de informações ou até para a tomada de decisões. Quando duas pessoas entram em uma discussão eles fornecem dados para as máquinas e podem continuar a argumentação com a consulta. Ou podem fazer as máquinas discutirem entre si e observarem-nas argumentando entre si. Com o tempo algumas pessoas começam a ficar incomodadas sentindo que perderam um pedaço de si mesmos ao adotarem a IWM 1000. E aí recomeça a busca pelo que foi deixado para trás. Mas, será que uma sociedade tão modificada por algo pode retornar ao que foi antes?

Incrível como a autora foi capaz de pensar em algo como o Google na década de 70. Sim, o IWM 1000 nada mais é do que o Google. E ela prenuncia mais ainda: a portabilidade do conhecimento, ou seja, a capacidade de conseguir qualquer informação em qualquer lugar. Isso acaba tirando um pouco da criatividade e da inventividade humanas. Porque com o conhecimento na palma das mãos, o ser humano deixa uma parte de si para trás, aquela capaz de criar soluções criativas quando não há a informação à disposição. A inovação fornecida pela máquina fornece tanta praticidade que as pessoas não precisam mais saber ler, escrever ou contar. Basta pedir à máquina que faça a ação por elas. Quando eles querem retomar a capacidade de pensar por si próprios, eles precisam reaprender a viver em sociedade e a construir conhecimentos.

Conto curtinho, mas repleto de ideias geniais. Não vou nem entrar em muitos detalhes para não tirar as surpresas criadas pela autora. Uma história que mostra o quanto a ficção científica é capaz de prever determinadas situações. Tiro isso pelos meus alunos nos dias de hoje: não tenho mais tantos alunos criativos, tenho muitos copistas. Eles não conseguem mais ser muito inventivos (ainda tenho alguns, mas estão ficando cada vez mais raros), preferindo entrar na internet e copiar alguma informação. O Google abriu o mundo a todos nós, mas também criou uma sociedade dependente do conhecimento na palma das mãos.

Ficha Técnica:


Nome: The Big Book of Science Fiction Organizado por Jeff Vandermeer e Ann Vandermeer

Editora: Vintage

Ano de Publicação: 2016


Outras Partes:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

Parte 9


Link de compra:

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