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Atualizado: há 2 dias

Nesta segunda parte, é hora de descobrir que saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


O domínio da língua de chegada é mais importante que o domínio da língua de partida. OU: saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


Já comecei assim mesmo, tirando dois termos técnicos da cartola, porque a vida de quem traduz é um pouco assim, com coisas novas caindo no seu colo toda hora. Mas vou explicar: língua de chegada é a língua em que o seu público vai consumir o material — no meu caso, o português brasileiro. E a língua de partida, por sua vez, é a língua original do material — no meu caso, o inglês e o espanhol, mas por aqui temos muita coisa vindo do japonês (estou olhando para vocês, mangás e animes), do coreano (oi, K-dramas), do francês (saudades, histórias em quadrinhos do Asterix!), do alemão (imagina ter que entender a trama louca de Dark em uma língua treta como alemão?) e por aí vai.


Ou seja: estou dizendo que é mais importante você ter um ótimo português do que um ótimo inglês. Afinal, pensa comigo: se o mais importante na tradução fosse saber muito bem a língua de partida, essa profissão nem precisaria existir. Seria só jogar tudo em um tradutor da internet — certamente a entidade mais conhecedora de regras de ortografia, gramática e vocabulário de todos as línguas, idiomas e dialetos do mundo. Ou então pegar alguma pessoa falante nativa de inglês e ensinar um pouquinho de português para ela antes de colocá-la para traduzir.


Bom, se você já jogou algum texto no Google Translate e tentou ler (quem nunca?) ou se já teve uma conversa com alguém que está começando a aprender o português do Brasil, sabe que essas duas alternativas são inviáveis. E são inviáveis pela mesma razão: nenhuma língua é um conjunto de aplicações objetivas de regras de ortografia, gramática e vocabulário. Vamos dizer que regras de ortografia, gramática e vocabulário são os ingredientes principais, e a naturalidade da aplicação delas é o tômperro — que pode ir do simples sal a uma festa de especiarias. Como alguém que ama comer, acho importantíssimo lembrar que comer uma comida insossa pode até nutrir, mas não satisfaz nem um pouquinho.


No caso da tradução literária (é importante destacar aqui que muita coisa muda no caso da tradução técnica, e tudo o que eu falar aqui é baseado na minha experiência com a tradução literária), um bom texto é um texto natural. Ou, em outras palavras, um texto reproduzindo o jeito que a gente diz (que está destacado assim porque é o nome de um ótimo livro sobre tradução, escrito pela professora Stella E. O. Tagnin). E quem melhor para conhecer o jeito que a gente diz do que… a gente? Nenhum robô fala e escreve como uma pessoa que mora no Brasil — bom, para começo de conversa nenhum robô fala e escreve como uma pessoa, o que dirá como uma pessoa nascida com polêmicas linguísticas do calibre de biscoito vs. bolacha e canjica vs. mungunzá. Nenhuma pessoa de outros país (ou não alfabetizada em português) que acabou de aprender o básico da nossa língua vai falar e escrever como uma pessoa que mora no Brasil. E mais importante: em nenhum desses dois casos, a entidade tradutora vai ter o conjunto de referências locais.


Porque sim, quem traduz também é responsável por fazer a transição de referências culturais de uma língua para a outra. Em alguns casos (e a escolha vai depender do tipo do material, do público, de escolhas editoriais e por aí vai), essa transição pode ser mais sutil. Em outras, mais descarada. Já que eu decidi jogar uns termos aqui para você procurar na internet depois, digo logo que esse processo de transição de referências de um material original para um material traduzido é chamado de localização.





Quem tem mais ou menos a minha idade deve se lembrar do episódio do Chaves em que a turma da vila vai curtir uma praia no Guarujá. A estranheza disso deve ter passado batida para a maior parte do público do programa, provavelmente formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990. Mas alguém que soubesse um pouco mais sobre a franquia saberia que o programa é mexicano… que sentido faz eles terem ido justo para o Guarujá? Pois então: no original, a turma do Chaves vai para Acapulco. A localização de Acapulco para Guarujá foi feita (muito astutamente, na minha opinião) por uma equipe procurando aproximar a realidade do Chaves da realidade do público. E para isso, a equipe que traduziu esse conteúdo precisava entender um pouco sobre Acapulco — um balneário mexicano muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa — e muito, mas muito mais sobre o Brasil. Que lugar um público formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990 identificaria como um balneário brasileiro muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa? A menção de qual lugar no Brasil faria o público brasileiro passar por uma experiência similar à do público mexicano? Bingo. Guarujá foi uma ótima solução — e só uma das alternativas.


Para dar um exemplo de um serviço meu: traduzi um quadrinho de filosofia em que, em determinado momento, propunha-se que a pessoa pensasse em conjuntos de elementos, e um dos exemplos dados era o “conjunto de presidentes da Nicarágua”. Determinei no começo desse projeto que eu ia tentar aproximar ao máximo o texto do público — afinal, filosofia já é um tópico relativamente árido —, e por isso resolvi propor trocar “presidentes da Nicarágua” por “jogadores do Corinthians” (não só porque futebol é um tópico popular, mas também porque eu queria fazer uma piada super secreta ao mencionar, em um livro de filosofia, um time que já teve um jogador que chamava Sócrates).


Podia ter deixado como estava? Sim. Podia ter trocado para “governadores do estado da Bahia”? Sim também. Poderia ter escolhido qualquer outra coisa? Não exatamente, porque todo trabalho tem limitações. Há sempre linhas, de diversos tipos, que não podemos cruzar. O que me leva ao próximo ponto.




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(Apresentação)



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*Jana Bianchi é escritora, tradutora de livros, quadrinhos e jogos de tabuleiro, editora-chefe da Revista Mafagafo, cohostess do podcast Curta Ficção e passeadora de lobisomens. Entre outros, publicou a novela Lobo de Rua (2016, Dame Blanche) e contos em antologias e revistas como Trasgo, Somnium e Dragão Brasil. Pode ser encontrada no site janabianchi.com.br e no Twitter e no Instagram como @janapbianchi.



Garlando busca o amor de sua infância, Celes. Alguém que foi embora de sua vida há muitos anos e afetou quase todas as suas escolhas assim como a perda de seus pais. Um conflito secular parece estar retornando e as escolhas de Garlando podem ser importantes para os lados envolvidos. Mas, Garlando escolherá o amor ou o dever?



Sinopse:


Garlando Espendi é um jovem que tem tudo. Mas nem o prestigioso título de doutor ou a herança da mais rica família comerciante da Terra Pátria podem preencher o vazio que surge entre as taças de vinho e o desabotoar dos vestidos. Uma ferida de espírito tão profunda que o leva a se envolver com a proibida magia e sonhar com uma vida nas estradas, pois o seu sangue gitânio assim lhe exige.


Em um universo fantástico onde a nobreza decadente recua diante da ascensão burguesa e uma terrível Inquisição varre os Três Reinos em busca de hereges, Garlando precisará entender e arcar com o peso de cada escolha de se tornar um adulto. Durante essa descoberta, forças antigas e novas se preparam para uma guerra que transformará o mundo para sempre.





Quando falamos em histórias de fantasia, muitas vezes nos deparamos com o quanto já foi empregado todo tipo de narrativas. E o quanto o mito do herói já foi usado para contar um épico. Reclamamos de o quanto as histórias parecem as mesmas, porém ainda assim gostamos de um Sanderson, um Rothfuss ou um Martin. Por quê? Não importa o quanto um tipo de história já foi contada, quando bem contada, ela é um épico. Por mais que eu imagine como as coisas vão acabar ou tente fazer previsões loucas sobre o protagonista da história: o que importa é o trajeto. Em Guirlanda Rubra, primeiro romance longo de Erick Santos Cardoso, ele não inventa a roda nem nada do tipo. Mas, com toda a certeza do mundo, ele nos conta uma ótima história e eu tenho certeza que no final dela, você vai querer pegar o volume 2 o mais rápido possível.

Na narrativa, fazemos uma jornada ao lado de Garlando Espendi, o herdeiro da família Espendi, uma família de burgueses com ligações espalhadas por toda a Terra Pátria. Como todo garoto mimado, Garlando é um galanteador, curte uma boa festa regada a bebidas e muitas mulheres. Mas, ele tem um trauma de infância. Uma tragédia acabou matando seus pais e o deixou órfão, tendo sido criado por sua tia Reggiane. Além disso, seu coração pertence a uma menina que ele conheceu na infância, Celestiana Tessitore (ou Celes). Porém, Celes deixa a cidade onde moravam para seguir para Babélia. Todas as escolhas da vida de Garlando foram guiadas por suas lembranças de infância, a perda de seus pais e o amor que ele sente por Celes. Agora que se formou, sua tia Reggiane quer que Garlando assuma o negócio da família e tenha responsabilidade. Nosso protagonista questiona o fato de ter sido colocado em um caminho no qual ele não teve a capacidade de escolher. Mas, no fim das contas, ele será colocado de frente a uma trama que vai obrigá-lo a crescer antes do tempo.

Estamos diante do início de uma série de fantasia bem legal. O autor decidiu usar uma narrativa em terceira pessoa, partindo do ponto de vista do seu protagonista (Garlando). A escrita é bem tranquila de se compreender, sendo só um pouco pesada, mas vem do estilo de contar histórias dele. O encadeamento de palavras é bom, empregando uma construção que, diferentemente do personagem galante, é mais seco e direto. Ou seja, não temos um excesso de carga nas informações. Vamos pensar que se trata do primeiro volume de uma série e info dumping é praticamente o normal porque o autor precisa explicar o mundo, onde os personagens vivem, como é o cenário, como funciona a magia. E isso é feito de uma forma suave, pegando um pouquinho só na segunda parte, mas nada que incomode muito. Esse primeiro volume é dividido em três partes que representam estágios da jornada do herói: relutância/aceitação, conhecimento e clímax. A narrativa é escrita de uma forma fluida, fazendo com que o leitor deseje continuar a ler indefinidamente. Alguns autores usam capítulos curtos para emular essa fluidez, mas o Erick conseguiu fazer isso tão somente com a sua maneira carismática de escrever.


A narrativa conta com uma série de homenagens feitas a coisas que o Erick gosta. Dá para brincar de identificar várias delas como o amor de Garlando, Celes, ou o conde de Balamb, entre tantas outras coisas. Mas, diferentemente do que eu vi em outros livros, as homenagens pop ficam só nisso: homenagens. Elas não dirigem a forma como o Erick constrói a história. Por essa razão, para mim os nomes são apenas nomes mesmo e fico só na diversão de lembrar de onde eles saíram. Não me incomodou nem um pouco. Outra coisa legal é que a gente tem uma mistura curiosa de influências: um cenário que mescla magia e tecnologia, temos um tipo de torre de Babel, zigurates, um personagem que parece um guerreiro japonês (olha aí do lado). Eu poderia estar aqui reclamando dessa salada de referências, mas achei-as bem harmônicas com aquilo que o autor quis construir. Nada está ali por estar; as coisas fazem sentido e possuem um propósito narrativo maior. Até fico surpreso pelo Erick ter colocado tanta coisa porque ele se arriscou com isso. Poderia ter dado muito errado e a gente partir para a falta de coerência ao invés de uma harmonia potencial. Legal!!

Só acho que poderia ter tido mais de um ponto de vista. Ao centrar a história demais no Garlando, os outros personagens acabam ofuscados demais. E isso prejudica no momento de construção de um elenco de apoio. Diria até que poderíamos dizer que, apesar da voz narrativa ser uma terceira pessoa, o livro lembra muito mais algo em primeira pessoa (já vi alguns estudiosos chamarem de terceira pessoa próxima). Até porque todas as impressões e informações que temos da história partem de coisas perceptíveis para o Garlando. Quando você tira o foco de um personagem e espalha, isso ajuda na revelação de informações que não estão sempre à disposição do personagem. Claro que o autor pode ter pensado em desvendar o mundo aos poucos junto do protagonista, mas é possível dosar o quanto é fornecido ao leitor. E ao mesmo tempo tira o peso de o protagonista carregar a narrativa nos ombros. Eu gostei do protagonista, apesar de algumas posturas dele (e que fazem sentido de acordo com sua criação), mas pode ter leitores que não vão gostar. E esse é um dos pontos frágeis da narrativa em primeira pessoa. Como eu mencionei, ou o autor poderia ter criado mais um ou dois pontos de vista orelha ou partido mesmo para a primeira pessoa. No segundo caso, daria para trabalhar os acontecimentos vividos pelo protagonista de uma maneira mais visceral e emocional. Mas, são escolhas.

Outro ponto que eu teria feito diferente é onde fazer uma certa revelação sobre o nome de uma certa personagem ao qual o protagonista se lembra mais para a frente. Na revelação, o autor pega uma cena de flashback para mostrar como isso se deu. Eu teria colocado essa cena antes, bem antes no texto (até antes de ele ter uma certa outra informação). Em escrita criativa, a gente usa a expressar usar um red herring. Usar informações a mais para confundir a cabeça do leitor quanto ao direcionamento. E estes flashbacks iniciais são ótimos para desviar o foco do leitor e fazê-lo construir teorias da conspiração que não existem. No meio deles, daria para inserir este flashback específico. Quando viesse a informação mais à frente o leitor ficaria com aquela sensação de "a-há". Até mesmo a cena em que ele descobre a ligação do nome poderia ter sido bem mais adiante, próximo do final.

Eu adorei o protagonista. O autor poderia ter partido para aquela ideia de criar um personagem perfeito e ideal com o qual viver suas provações. Tal não é o caso. Garlando é qualquer coisa menos um personagem "heroico". Não pela falta de ações até porque quando ele se vê em uma situação em que precisa ajudar alguém e estiver ao alcance dele, ele vai fazê-lo. Mas, ele é um personagem nitidamente guiado pelo amor. O seu amor por Celes domina as suas escolhas. Isso tanto para o bem quanto para o mal. Se ele se vir em uma situação em que ele ou segue atrás de Celes ou ajuda alguém, a escolha pode pender para o primeiro lado. Isso demonstra uma imaturidade da parte do personagem, algo que é deixado claro desde o início. Ele até vai mudar um pouco o seu jeito, mas traços desta personalidade vão permanecer, mesmo em momentos em que achamos que isso mudou. Por essa razão, um acontecimento lá para o final do livro eu imaginava como iria terminar. Porque o personagem cresceu um pouco, mas ainda não havia se tornado um adulto. Muitas de suas preocupações continuavam a ser as mesmas de sua infância. Elas só haviam tomado uma profundidade maior.


Conhecemos Celes pela visão que Garlando tem da personagem. Portanto, podemos dizer que não apenas a narrativa é em terceira pessoa próxima, como o pseudo-narrador não é confiável. Isso porque são as lembranças dele sobre a personagem; pode não ser a forma como Celes enxerga os fatos. E algo me diz que o segundo volume vai ser focado na Celes e não no Garlando (olha, não sei de nada não, tá, gente... estou só deduzindo). E quem já não teve aquela paixão em que idealizávamos a mulher amada? Colocávamos essa pessoa em um pedestal a ponto de criar toda uma narrativa sobre ela. É assim que eu enxergo a relação entre Garlando e Celes. Quando aparece uma outra personagem na narrativa que poderia ser um par romântico para ele, Garlando prefere se agarrar a uma obsessão por alguém que ele não vê há muito tempo. Falta ainda ao personagem ultrapassar essa etapa de sua vida para que as coisas comecem a se tornar mais claras. Qual é o seu papel no mundo? Talvez essa seja uma grande pergunta colocada ao longo deste primeiro volume e deixada no ar porque o personagem ainda não soube respondê-la, mesmo após passar por acontecimentos marcantes.

Como a narrativa se centrou muito em Garlando, senti falta de conhecer mais sobre os outros personagens. Por exemplo, o tio Ralfo que acaba se tornando uma presença marcante mais para a frente. Teria sido bom dedicar mais tempo a solidificar a relação entre os dois e isso um ou dois flashbacks a mais com cenas cotidianas ou de formação teriam bastado. Não ficou claro para mim a importância da Universidade e de se formar para Garlando. Como a gente viu a história já no momento em que ele se formava, seria preciso compreender de uma forma mais cristalina o quanto isso interferiria em como ele iria tocar os negócios dos Espendi. Outra oportunidade muito legal que acabou ficando um pouco para trás foi com a Rosa Vermelha. Uma personagem com potencial para momentos marcantes como manipulação política, controle de um personagem... achei que ela acabou sendo dispensada rápido demais na história. A personagem que mais me marcou nesse primeiro volume foi Reggiane Espendi. Aí sim, houve um belo trabalho da parte de Erick ao nos apresentar uma mulher segura de si, dominante em seus negócios. Uma comerciante no sentido mais estrito da palavra. E que, em um momento onde ela não tem mais o controle das ações, ela se sente com medo, apesar de não perder sua postura. Adorei e quero vê-la mais nos próximos volumes (acho que a veremos sim).

Importante mencionar também que o autor incluiu algumas cenas de ação sensacionais. É difícil escrever cenas de ação. Isso porque o autor precisa ter uma noção de um roteiro a ser seguido e onde posicionar os personagens. É como mexer em um grande tabuleiro onde cada ação afeta não apenas o personagem que está sendo descrito, mas todos os outros que estão juntos dele. Isso porque tudo acontece em sequência. É bem comum um autor se perder nas descrições deste tipo de cena ou preferir descrever cenas mais contidas, com poucas variáveis próximas umas às outras. Aqui não só as ações parecem verossímeis, como as magias empregadas respeitam uma física bem legal. Elas têm todo um conjunto de regras ao qual o autor segue bem. Claro que, na proposta de ter um personagem que encontra um artefato de poder, é preciso encontrar brechas nas próprias regras que ele criou. É óbvio que em algum momento vai aparecer alguém que vai distorcer uma ou duas coisas na física criada.

Dá para contar muita coisa ainda sobre o conflito entre os imortais, sobre a magia do mundo que é proibida pela Inquisição, sobre as crisálidas. Mas, quero deixar um pouco para os leitores descobrirem no livro. Como puderam ver, Guirlanda Rubra tem muito conteúdo para te mostrar. Seja com um protagonista marcante que vamos desejar acompanhar seu crescimento, um contraponto a ele que deve ser desenvolvido em próximos volumes, uma guerra que parece que vai avassalar o continente e provocar terríveis mudanças, uma torre ancestral que esconde muitos segredos. Eu adorei a leitura e preciso parabenizar o Erick por um livro de estreia tão legal.










Ficha Técnica:


Nome: Guirlanda Rubra

Autor: Erick Santos Cardoso

Série: Segunda Essência vol. 1

Editora: Draco

Número de Páginas: 280

Ano de Publicação: 2020


Link da campanha no Catarse


*Material cedido em parceria com a editora Draco


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Yang se vê arrastado para um mundo onde ele pode ser a última esperança para se livrar do mal. Mas, para isso ele vai precisar aprender seu papel no mundo e como lidar com suas habilidades buscando as respostas em seu próprio interior.


Sinopse:


O universo de O mundo de Yang só existe devido a uma vivência de mais de duas décadas que acabou influenciando diretamente meu interesse pela cultura oriental. Algumas pessoas participaram de maneira significativa nesse processo e, direta ou indiretamente, contribuíram para que esse universo existisse. Fica aqui meu agradecimento para Paulo de Carvalho Junior, Vandinei Cristante, Daniel Marcato, Tiago Francisco Bezerra, Peterson Menezes e Kazuo Nagamine. Também deixo registrada toda gratidão pelo indispensável apoio de Ruis Vargas e Spacca, amigos e consultores. O mundo de Yang começou a ser publicado semanalmente no site www.omundodeyang.com.br em janeiro de 2015. A ideia partiu da vontade de contar uma saga de fôlego utilizando um formato que sempre me foi familiar, o de “tira de jornal”. Vá lá, o formato não lembra exatamente uma tira tradicional, tá mais para um “quadrão”, mas já sabendo que sua principal plataforma seria a internet não me preocupei muito com isso. Importante era um formato que possibilitasse construir uma narrativa gráfica curta e completa a cada quadro, assim como as tiras, e que, juntas, formariam uma grande história. Com a premissa de uma aventura com toques de cultura oriental, motivada pela vivência nas artes marciais, o enredo tenta levar o leitor a refletir filosoficamente sobre algumas questões. Por ironia do destino, ou capricho das energias do universo, uma delas se mostrou presente fora das páginas e telas de monitor. Antes do ponto final, tudo pode acontecer. Nada é, tudo está.




O Mundo de Yang é uma série de tirinhas criadas por Orlandeli que acaba nos apresentando um pouco de suas ideias e filosofias. Ao invés de serem histórias esparsas, as tirinhas de Yang possuem uma história longa e contínua apresentada ao longo de vários anos. Esse encadernado que eu tenho em mãos agrega um primeiro conjunto delas (continuada depois em O Mundo de Yang - Rumo ao Sul). Orlandeli nos apresenta aqui uma bela história que trabalha uma série de questões como aceitar nossos próprios medos, humildade e o conhecimento de nossos próprios limites.


O roteiro é acima da média. Muitos leitores conheceram o trabalho do Orlandeli através da HQ Chico Bento - Arvorada (que pertence à Graphic MSP), mas este é o meu primeiro contato com o autor. E eu adorei. Orlandeli consegue mesclar filosofia profunda com aventura e alguns pontos de bom humor. O leitor consegue se situar fácil ao lado do protagonista. Ou melhor, o leitor se perde junto de Yang e precisa se encontrar pouco a pouco para ir superando as adversidades. A gente possui um roteiro dividido em três atos onde no primeiro Yang chega a esse mundo, no segundo ele encontra dificuldades e no terceiro temos a superação das adversidades. Tudo bem direto.


"Nada é. Tudo está."

A arte do Orlandeli é bem singular. Ele usa traços exagerados e expressivos, onde o importante é entendermos os sentimentos do personagem. O mais legal é entender o quanto a expressividade se relaciona ao humor da narrativa. Yang é um personagem irônico e curioso. Assim como nós, o protagonista questiona tudo e todos ao seu redor. Tenta entender o mundo através de uma lupa simples, desconstruída pela voz e por Yoh, posteriormente. Os vilões são realmente assustadores como o Migou. Eu adorei como o autor conseguiu criar vilões terríveis e abstratos dentro do mundo de Yang ao mesmo tempo em que eles são tiradas engraçadas acerca de elementos do nosso cotidiano. Não se deixem enganar pela arte que ora é simples; há muito refinamento e o emprego da separação entre o preto e o branco está incutido na própria essência da narrativa que retira sua inspiração na cultura oriental.



A narrativa começa como está no quadro acima: com Yang simplesmente acordando em outro mundo sem entender como foi parar lá. Uma voz conta a ele um pouco sobre o que está por vir: este mundo mudou completamente e foi arrebatado pelas trevas. Cabe a Yang ajudar a trazer de volta a luz que existe nesse mundo. Teoricamente, o protagonista possui incríveis poderes, mas ele ainda não é capaz de usá-los. Ele vai precisar da ajuda de outros aliados para derrotar as terríveis criaturas que se espalharam por toda a parte. Para isso, a voz que o guia, recomendou-lhe seguir para o sul. Mas, neste primeiro volume vamos ver os primeiros momentos de Yang nesta nova realidade onde ele precisará aprender mais sobre si mesmo e superar os seus medos internos.


Yang é um personagem fascinante. Ao mesmo tempo em que ele funciona como o herói da história, ele possui muita individualidade. Não se deixa levar por tudo aquilo que é dito a ele. Essa posição de ceticismo é um pouco do que nós mesmos fazemos diante do desconhecido. O que a história tenta nos colocar é ter a capacidade de nos abrirmos a compreender aquilo que está além de nós. A voz que guia Yang serve como esse alguém que quebra as nossas chamadas "verdades universais". Por isso que a frase "Nada é, tudo está" é tão importante para a jornada do protagonista. O mundo nunca é estável, ele está sempre em um processo de mutação.


Yoh ainda é um enigma para mim até porque não houve tanto tempo assim de interação com Yang. Eu imaginei que ele fosse uma coisa, mas na verdade ele é outra completamente diferente. Gostei muito o quanto o traço do Orlandeli oferece personalidade aos personagens. Eles são únicos. Yoh vai servir como uma boa contraparte para Yang ao mesmo tempo em que vamos nos familiarizando com ele. Parece existir uma série de coisas não ditas sobre Yoh que possivelmente serão reveladas em Rumo ao Sul. O final com a luta de Yoh e Yang contra o Migou é muito legal. E mostra o quanto a narrativa ainda está em seus estágios iniciais, mas em rumo ascendente. As coisas vão se tornando bem complexas mais para o final.



O medo também é um tema trabalhado na HQ. É claro que diante de algo que não conseguimos vencer ou superar vamos sentir medo. A diferença é se vamos nos deixar abater por aquilo que nos dá medo ou e vamos aceitá-lo e tentar fazer algo a respeito. Todos nós somos limitados. Ninguém é capaz de vencer o universo. Os desafios são o que tornam a nossa vida mais movimentada. É nesse sentido que a voz e Yoh tentam aconselhar Yang. Ao ver a força monumental que é Migou, Yang se sente intimidado e se perde em si mesmo. Vai caber a ele buscar a força interior necessária para superar a simples presença de seu adversário.


O Mundo de Yang é uma HQ profunda, repleta de significados e divertida ao mesmo tempo. Orlandeli criou um elenco de personagens diferentes e com muitas camadas que não foram completamente reveladas aqui. Ainda existem muitos mistérios em torno da missão de Yang e até em como ele foi parar ali. E quem será a voz? Será que saberemos mais no segundo volume? Eu vou embarcar imediatamente rumo ao sul ao lado destes personagens. Convido vocês a me seguirem.











Ficha Técnica:


Nome: O Mundo de Yang

Autor: Orlandeli

Editora: Sesi-SP Editora (a versão que eu tinha era auto-publicada)

Número de Páginas: 68

Ano de Publicação: 2016


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