• Paulo Vinicius

A injustiça social em Aqueles que Abandonam Omelas, de Ursula K. Le Guin

Para que você obtenha a felicidade absoluta, alguém precisa estar em uma situação de degradação completa. O quanto estamos dispostos a fazer essa troca?



Aqueles que Abandonam Omelas é uma história curta clássica de Úrsula K. Le Guin que foi vencedora do Hugo na categoria de histórias curtas em 1972. É um dos contos que pertencem a uma das melhores coletâneas de histórias da autora: The Wind's Twelve Quarters (que eu adoraria que alguma editora trouxesse para o Brasil). A Editora Morro Branco traduziu e disponibilizou gratuitamente este conto em sua plataforma, o Projeto Cápsula.


Imaginem uma cidade linda e maravilhosa. Onde as pessoas estão celebrando um festival, dançando e cantando enquanto as luzes da cidade revelam todas as belezas. Crianças tocam flautas, com acordes belíssimos. A cidade é uma utopia magnífica, onde não há pobreza e nem doenças. O narrador segue em descrições idílicas deste verdadeiro paraíso na Terra. E se o leitor quiser pode acrescentar uma orgia qualquer com sacerdotes ou sacerdotisas nuas passeando pelas ruas da cidade. Ou, se o leitor quiser algo mais estimulante, acrescente o drooz, uma droga capaz de fazer o que quiser com os sentidos. O importante é o leitor se sentir encantado pelas maravilhas dessa cidade. Mas, isso vem a um preço. Para que esta felicidade exista, uma criança vive nas profundezas desta cidade. Com medo, assustada e mal nutrida, sua desgraça é o que sustenta a felicidade dos demais. Ela vive nua, desnutrida, sentada nas próprias fezes, sendo xingada e vítima de pena pelos outros. Todos da cidade sabem que ela existe. O que acontece a ela é necessário para que a cidade viva sua era de ouro.


Le Guin é uma autora incrível ao tecer uma história que possui tantos significados como esta. O que ela discute aqui é um tema aparentemente claro, mas que exige muita reflexão: a injustiça social. E aí é possível trazermos essa discussão para o mundo em que vivemos. A alegoria que ela emprega é o da Criança Torturada, algo que Dostoievski explora em Os Irmãos Karamázov: somos capazes de conviver com a certeza de que a nossa felicidade depende da desgraça de outra pessoa? Na narrativa, Le Guin usa descrições bem vívidas tanto acerca da cidade magnífica como o da criança torturada. No mundo de hoje, temos uma sociedade capitalista que se construiu em cima da desgraça de muitos. Se engana quem pensa que o modelo econômico é igualitário. Ele jamais vai ser. Para o capitalismo funcionar, eu preciso ter poucos ricos e muitos pobres. Dessa forma quem é rico dita o andamento da sociedade enquanto o pobre trabalha almejando, com sua força de trabalho, se tornar um integrante da elite. Ou seja, para a bela cidade da elite funcionar, ela depende da criança torturada que é a massa camponesa.


Inteligentemente, Le Guin nos coloca como cúmplices da narrativa. Isso porque a narrativa funciona em uma mescla de segunda e terceira pessoas. As descrições do narrador não são tão completas assim e ele coloca na mente do leitor as sementes para que ele possa construir sua própria versão da cidade. A todo o momento ele faz essas interlocuções onde ele pede que acrescentemos as festividades, as orgias, as drogas entorpecedoras. Tudo a nosso gosto. Ou seja, Omelas é a nossa utopia manifestada de forma concreta. Quando ela nos apresenta a Criança Torturada, já havíamos criado tudo o que tanto desejamos. É como se o narrador (ou seja a própria autora) fosse Mefistófeles, e nos oferecesse tudo o que quiséssemos, mas em algum momento teríamos que pagar o preço. E esse preço vem em uma descrição que, diferente da abertura fornecida pela anterior, é inteiramente fechada e não dá espaço para justificativas. A criança vive em um estado deplorável e nós, leitores, somos parte disso porque aceitamos transformar a cidade em nosso conceito de cidade e ambientação perfeita.


É esse jogo duplo de culpabilidade, cumplicidade e tortura que tornam o conto tão poderoso. Porque ele joga na nossa cara como o mundo é injusto. Como o sistema do qual fazemos parte não prega igualdade, mas a imundície. É a definição absoluta de o quanto não existem luzes na nossa cidade sem a escuridão dos esgotos. Qual é a solução? Nenhuma. Le Guin não se propõe a te dar um final feliz, uma solução para os problemas do mundo. Ela só nos mostra o quanto somos inertes em tentar impedir que aquela criança seja torturada. Porque aqueles de nós que possuem mais escrúpulos apenas vão fazer como aqueles que mais se incomodaram com a situação na cidade: abandonar Omelas.


Ficha Técnica:


Nome: Aqueles que Abandonam Omelas

Autora: Úrsula K. Le Guin

Editora: Morro Branco

Gênero: Ficção Especulativa

Tradutora: Heci Regina Candiani

Número de Páginas: 21

Ano de Publicação: 2019


Link para leitura


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