• Paulo Vinicius

Setembro King: "O Talismã" de Stephen King e Peter Straub

Jack Sawyer acaba de se mudar com sua mãe Lily para um hotel de veraneio em New Hampshire. Mas, Jack sabe que algo está errado com a sua mãe. Algo está MUITO errado com ela. E ele terá que embarcar em uma aventura rumo a um território perigoso onde precisará buscar um talismã para salvar a vida da pessoa que ele ama.


Jack está no que parecem ser os jardins do Hotel Alhambra. Mas o cenário ao fundo é assustador com pássaros gritando com Jack e trovões atacando o hotel. O céu está vermelho e o hotel aparece ao fundo como uma enorme construção sombria.

Sinopse:


Jack Sawyer, um garoto de 12 anos, está prestes a iniciar uma jornada fantástica: a empolgante e assustadora busca de um talismã. Jack sabe que correrá muitos riscos, que terá sua coragem e resistência física testadas a cada segundo, mas vai lutar até fim: de seu sucesso depende a vida de sua mãe... Para atingir sua meta, Jack terá que lutar contra um inimigo furioso e cruel que está disposto a fazer qualquer coisa para destruí-lo e atravessar não apenas os Estados Unidos de costa a costa, mas também os Territórios, uma região assombrosa e ameaçadora. Onde ficam os Territórios? Como chegar a esta região fantástica e mítica que não pode ser alcançada de modo comum? Em que plano de existência se situa esse mundo tão intrigante quanto a Atlântida? Jack vence estes mistérios ao atravessar para os Territórios. Aí, descobre a desconcertante existência dos "Duplos", reflexos de pessoas que conhece na Terra, como a Rainha Laura, o "Duplo" de sua mãe, que também está com a vida por um fio. Jack não tem muito tempo e é longa a viagem. A cada passo de sua jornada, precisa enfrentar inimigos perigosos que o perseguem nos dois mundos. No entanto, ele persiste, pois só terá sossego quando o valioso talismã estiver em suas mãos.





Bem, esse era um livro do King que estava na minha fila há muito tempo. Estou lendo o King em ordem cronológica (descobri na semana passada que pulei 3 livros e vou ter que voltar) e O Talismã sempre aparecia como aquele elefante na sala. Literalmente. Mais de mil páginas de história. Eu já sabia que iria pegar uma leitura lenta, pausada e complicada até porque esse romance tem várias conexões com o universo da Torre Negra. Aliás ao lado de um punhado de outros títulos como Insônia e A Casa Negra são importantes para entender determinadas características do Mundo Médio. Outro problema é o fato de a narrativa ter sido escrita também pelo Peter Straub, que tem um estilo narrativo que eu não gosto tanto. Mas, vamos lá destrinchar esse título porque ele tem muitos temas.


"Empurrou a pesada porta da frente do hotel e saiu para o sol. Por um instante, o brilho repentino lhe ofuscou os olhos - o mundo era apenas um clarão indistinto. Jack apertou os olhos, desejando não ter esquecido os óculos escuros. Atravessou o pequeno pátio de pedras vermelhas e desceu os quatro degraus redondos que levavam ao caminho central do jardim do Alhambra."

A narrativa acompanha a jornada de Jack Sawyer, um menino de treze anos que vive junto de sua mãe Lily. Os dois decidiram fugir do assédio de seu tio Morgan Sloat, que ficou responsável pela fortuna da família após a morte de Phil, o pai de Jack. Enquanto eles passam algum tempo em um balneário em New Hampshire, sua mãe vai ficando mais e mais convalescente devido a um câncer que a afastou de sua vida como atriz de filmes B. Mãe e filho tentam levar uma vida tranquila, mas Jack acaba se encontrando com um homem misterioso chamado Speedy Parker, que toma conta de um parque de diversões próximo ao hotel. Speedy diz a Jack que é possível ele curar sua mãe, mas, para isso, ele vai precisar do poder de um talismã, um artefato poderoso que só existe em um outro mundo chamado de os Territórios. Inicialmente, Jack não acredita em Speedy, mas quando ele toma um suco que o leva até este outro lugar, ele vai descobrir um local inacreditável e uma rainha (doente também) que possui uma incrível semelhança com a sua mãe.


Antes de mais nada, eu aconselho aos leitores para irem com calma na leitura. Não adianta ter pressa. Esse livro foi concebido de forma a tratar sim da jornada de um menino, mas mais do que isso, apresentar um mundo mágico onde as regras do mundo mortal não se aplicam da mesma maneira. A narrativa é em terceira pessoa, onisciente em que o autor se permite passar por vários pontos de vista distintos: o de Jack, o de Morgan e o de Lily, por exemplo. Terão alguns trechos bem longos como no Oatley Tap e na Casa Sunrise onde a gente fica com um pouco de cansaço devido a um trecho bem enfadonho criado pelo autor. King adora criar personagens e isso pode ser uma faca de dois gumes. Em diversos momentos esse elenco pode representar a força de uma narrativa bem construída, enquanto que em outros se torna uma enrolação sem fim. Digo isso porque diversos personagens da narrativa acabam sendo criados apenas para preencher o local com pessoas diferentes. Não se tornam importantes para a jornada. O cúmulo disso é quando King detalha a vida de um cara que dá carona ao Jack. Um personagem que dura cinco páginas na história, mas que conhecemos a fundo suas características e motivações.


Um cenário ao fundo que parece estar pegando fogo. No canto direito temos a silhueta de Jack (como se fosse uma sombra)

Peter Straub está envolvido na história e com isso vamos ver o quanto do autor está presente na narrativa. Para quem não conhece o autor, basta lembrar que ele foi o responsável por Ghost Story, considerado um clássico das histórias de fantasmas. Straub gosta de lugares que possuem poderes sobrenaturais. Ele trata esses lugares quase como pessoas vivas. A gente consegue ver isso em alguns momentos como o hotel Alhambra onde Lily e Jack estão no começo da história. Se trata de um lugar estranho desprovido de humanidade onde os atendentes quase não são vistos. O rosto dos personagens que trabalham no local é desprovido de sentimentos e até a fala deles é estranha. Mais para a frente veremos o Hotel Negro, um elemento de ambientação que lembra bastante o tipo de história que Straub gosta de contar.


Mas, é preciso apontar também a mudança ocasionada pelo atravessar de mundos, algo que Jack faz muito ao longo da narrativa. Não é que o Mundo Médio seja o lado bizarro ou contrário a esse mundo, mas ele esconde uma série de perigos que na realidade material não representaria tantos problemas para Jack. É como se no Mundo Médio as coisas não usassem disfarces para esconder sua real natureza. Vamos ver personagens como Osmond que são cruéis mesmo. Aliás, O Talismã mostra outra qualidade do King: estamos na moda dos personagens cinza e dos anti-heróis, mas eu sinto falta às vezes dos personagens puramente malignos. Daqueles que somos capazes de entender pela simplicidade de sua natureza. Vamos nos lembrar de que o gênero fantástico nasceu a partir dessa necessidade de mostrar o embate entre bem e mal. Personagens como Osmond, Morgan Sloat e vários outros que aparecem durante a jornada de Jack são maus porque sim. Ambiciosos, extravagantes, obscuros; King tem essa qualidade de mostrar o que existe de pior no seio do ser humano.


" - Nunca mais... nunca mais... ameace um homem com uma faca... ou um garfo... ou um arpão... ou mesmo com uma maldita farpa a não ser que pretenda realmente matá-lo."

Assim como a Torre Negra, O Talismã é um dos romances que mostram como King enxerga o gênero fantástico. Isso é o mais próximo de fantasia que vamos chegar ao lado do mestre. Ou seja, ele é um dos autores que se aproximam bastante também do gênero de dark fantasy, décadas antes do gênero receber seu nome. No mundo criado por ele, a fantasia está impregnada de terror à sua volta. Mesmo os cenários típicos de um universo de fantasia, como o castelo da rainha Laura DeLoessian, são repletos de melancolia e sombras. Talvez o autor esteja brincando com a incapacidade do homem adulto de se encantar por um mundo mágico. Faz parte do ato de crescer e chegar a uma outra fase da vida o se desligar daquilo que tornava as coisas especiais. Jack está passando por essa transição e, apesar de ele estar disposto a acreditar, sabe que abandonar o estranho e o fantástico faz parte do ato de chegar à fase adulta da vida.


Ainda nesse tema, é interessante como Jack e Richard representam lados opostos nessa discussão. Ao longo de suas aventuras Jack vai precisando se desfazer de seu ceticismo e aceitar tudo como são mostradas a ele. Isso faz com que ele passe a ter uma visão mais aberta. O mesmo não se pode dizer de Richard, um jovem racional e metódico que se pauta em seus estudos para encarar a vida. Ou como Jack vai chamá-lo mais tarde, o Racional Richard. Só que esse racionalismo vai ser testado por conta de toda a bagagem que o protagonista traz junto dele. E abrir a mente para o estranho e para o fantástico pode representar algo terrível para quem busca se pautar nas explicações científicas. Esse momentos entre Richard e Jack podem ser uma cutucada do King ao abandono que fizemos no século XX do maravilhoso e do miraculoso. Tudo temos que duvidar e buscar explicações, só que nem sempre elas existem. Às vezes as coisas são porque elas são e cabe a nós nos adaptarmos ao que nos é colocado.


O rosto do Lobo em tela cheia. Visão apenas do queixo para a testa. Olhos amarelos e rosto coberto de pêlos.

"Quando eu tenho um sonho, só sei que estou realmente sonhando quando começo a acordar. Se estou sonhando e me acordam bruscamente (se o despertador, por exemplo, começa a tocar), sinto o maior espanto do mundo. A princípio, o mundo do despertar pe que parece um sonho. E tanto nele quanto no mundo do sonho não me sinto um estrangeiro. Será exatamente isso que estou querendo dizer Não, mas estou chegando perto. Aposto que meu pai tinha sonhos muito profundos e sonhava muito. E aposto que o tio Morgan quase nunca consegue sonhar."

Vou apresentar dois dos conceitos mostrados sobre o Mundo Médio em O Talismã. Tem muito mais, mas isso poderia atrapalhar a diversão e as surpresas que o livro apresenta aos leitores. Primeiro é preciso dizer que Jack não perambula pelos mesmos lugares que Roland de Gilead percorre até o livro 3 (As Terras Devastadas, o último que eu li). Pelo que dá para entender da geografia do Mundo Médio (King nunca se preocupou em criar um mapa disso), Roland caminha pelas fronteiras e regiões inexploradas do Mundo Médio enquanto Jack permanece dentro de um espaço mais "organizado" conhecido como os Territórios. Trata-se de um imenso lugar que se assemelha a um reino nos moldes do período feudal, administrado por uma série de lordes. O contato com o mundo terreno fez aparecer uma série de espectros dos EUA nos Territórios como as estações, as estradas. Outro conceito importante de destacar é o dos Duplos. Aí entra um pouco em discussão a ideia de multiverso que King emprega em suas obras. Porque segundo os seus mundos, cada pessoa tem um duplo (ou triplo, ou quádruplo) nos mundos que fazem parte do Mundo Médio. O Território seria apenas uma pequena fração disso. Por exemplo (e sem dar muitos spoilers), a mãe de Jack, Lily, tem um duplo que ocupa uma função de poder nos Territórios. Geralmente, coisas que acontecem com os Duplos se refletem de alguma forma sobre os humanos do mundo terreno.


O personagem de Morgan Sloat é outro daqueles personagens memoráveis que King gosta de criar assim como Jack Torrance ou Annie Wilkes. Um personagem ganancioso que começa como um homem pequeno que, quando se depara com o poder, se torna manipulador e cruel. Phil é a pessoa que apresenta os Territórios para Morgan. Se Phil tinha uma visão de explorador, Morgan queria aproveitar o contato com o Mundo Médio em seu próprio benefício: "como eu posso lucrar com isso?". Mas, é claro que Morgan logo vai descobrir que brincar de travessia dos mundos não é tão simples como parece. E por mais que os benefícios sejam incríveis, pouco a pouco podemos estar nos desligando de nossas essências. Morgan é um personagem mesquinho, daqueles que sabemos não existir nenhuma forma de redenção ou arrependimento. Ele é porque é, e gosta de ser assim. Alguns personagens do autor são propensos a momentos de arrependimento, mas tal não é o caso aqui.


A escrita do King, diferentemente de Straub, segue à sua própria maneira. Porém, eu preciso dizer que O Talismã é um livro bastante descritivo que lembra em alguns momentos O Senhor dos Anéis pela carga de descrições. Isso é o que torna o livro mais longo do que o habitual e vai cansar o leitor em algum momento. O curioso é que King não esconde o que o influenciou a escrever, fazendo até uma interpretação de alguns seres criados por Tolkien em O Senhor dos Anéis. Claro que a visão de King é bem mais aterrorizante e menos fantástica. Particularmente eu gosto de como King abraça o gênero, dando a sua própria visão. Seria muito estranho ver o autor fazer algo da forma tradicional com cavaleiros, armaduras, princesas e magia. Sinceramente eu estranharia. Desde que eu li O Pistoleiro entendi como seria uma obra de fantasia pelas mãos dele.


"Certas coisas não podem ser evitadas. Às vezes algumas pessoas morrem porque alguém fez alguma coisa. Mas, se esse alguém não tivesse feito essa coisa, muito mais gente teria morrido. Entende aonde estou querendo chegar, filho?"

Algumas pessoas que eu vi resenharem O Talismã, se referem a ele como uma imensa road trip onde Jack precisa atravessar os EUA em busca do artefato. Só que ao ter a visão do todo, cheguei a conclusão de que não se trata necessariamente disso. A narrativa tem muito mais da Jornada para o Oeste, o famoso conto chinês do que uma road trip aos moldes americanos (a la Deuses Americanos, do Neil Gaiman). Percebam que o personagem precisa fazer uma jornada para o oeste, onde precisa atravessar obstáculos e fazer aliados para poder derrotar o mal. Não só isso como o protagonista passa por uma transformação em que ele deixa de ser simplesmente um menino para ser um indivíduo repleto de poderes místicos. Jack pode não se transformar em macaco, ou andar em uma nuvem voadora ou sequer possuir um bastão mágico, mas as características da jornada de Son Wukong estão todas ali. Podemos até entender que salvar sua mãe é uma forma de King reinterpretar a missão de Wukong.


Jack está portando um objeto brilhante nas mãos e afastando criaturas malignas que se encontram à sua frente. Jack está usando botas, uma calça e uma camisa comprida branca, vermelha e azul. As criaturas se parecem com lobos terríveis usando coletes militares. Tem um fundo de um posto de gasolina e uma lanchonete do McDonald's

Tenho que falar um pouco sobre o enorme momento em que Jack permaneceu no Oatley Tap, um bar que ficava em uma região afastada dos EUA. Ali, King aproveita para trabalhar temas que ele está mais acostumado: abusos, violência e personagens com moral questionável. Dá até para entender que essa parte foi inteiramente escrita pelo King dado o teor da narrativa, a necessidade de criar personagens para preencher o local (algo que ele faz novamente na Casa Sunlight). O Oatley Tap se torna um micromundo dentro da jornada do personagem. Vemos Smokey, um homem inescrupuloso que com seus olhos argutos percebe a vulnerabilidade das pessoas e faz questão de se aproveitar dela. Este é o típico machão do interior, um estereótipo que King gosta de brincar. Dentro do Oatley Tap, Smokey é um pequeno mandão, um reizinho que tudo manda e tudo abusa. A maneira como ele lida com a namorada (ou mulher... ou amante, sei lá) pode incomodar alguns devido à forma crua como ele faz.


Preciso comentar que esses momentos de micromundos que aparecem ao longo de O Talismã me incomodaram bastante. Como King já tinha uma certa fama neste momento, os editores começaram a não controlar mais a maneira como o autor entregava seus materiais. E isso faz com que o livro tenha muita barriga. Nas mãos de um editor mais exigente, a tesoura da edição ia fazer um belo estrago. Esse livro mostra o quanto King em alguns momentos esquece o que significa ser objetivo e conciso e prefere se perder em elucubrações sobre as coisas mais diversas e inúteis. Este é o momento onde Jack precisa aprender a ser mais independente e se virar no mundo real. Para a jornada dele ser bem sucedida, nosso personagem vai precisar crescer antes do tempo. E esse ato de amadurecer vai envolver alguns momentos bem dramáticos do personagem na estrada.


"Gardener fez com que o pessoal goste dos pecados [...] Eles o amam, eles querem sua aprovação, e acho que só a conseguem se confessam. Aposto que alguns desses tolos chegam até a inventar seus pequenos crimes... "

Algo que é bem explorado por King ao longo da narrativa é sua conexão com Lily e o quanto ele sente falta de seu pai Phil. É a mola propulsora que o impulsiona adiante. Alguns momentos são bem dramáticos, principalmente no começo com Jack percebendo o quanto sua mãe estava definhando progressivamente. Ao mesmo tempo, Jack vai se dando conta de que ele tem muito em comum com seu pai. A necessidade de ser um explorador, o seu sentimento de espírito livre. O amadurecimento da criança vai dando lugar a um espírito desbravador, que quer ir atrás do desconhecido e tentar ajudar as pessoas ao seu redor ao mesmo tempo. Não tem como descolar a conexão de Jack com Lobo e o quanto ele aprendeu sobre a necessidade de "proteger o rebanho". O rebanho nada mais é do que aqueles que amamos e que nos são caros. Se Jack representava o rebanho para Lobo, o rebanho de Jack vai ser representado por sua mãe e mais tarde também por Richard.


Por falar em Lobo, que personagem bacana que o King criou. E como vários de seus personagens puros, King precisa fazer com que eles passem por diversas agruras e testes que visem reforçar essa bondade interior. Talvez Lobo seja o personagem mais puro de toda a narrativa. Por essa razão a gente se apega tão facilmente a ele. Os momentos dele tentando dar sentido à América são hilários. Agora, eu fico pensando: será que as ausências de Lobo e a necessidade dele de caçar criaturas para se alimentar tem alguma conexão com A Hora do Lobisomem? O momento em que Lobo está no mundo terreno e o local em que eles se encontram é próximo do lugar onde o lobisomem apareceu na história de King.


Lobo e Jack Sawyer sentados em uma campina. Lobo está usando um macacão jeans enquanto Jack está usando uma calça de linho marrom e uma camisa azul típica de camponês medieval. Ao fundo tem vários bois e carneiros. Uma alta árvore está ao fundo.

Tem que ter um fanático religioso maluco nas histórias do King. E Sunlight Gardener vem para preencher esse bloco. Que sujeito desgraçado. Acho que mais do que eu odiei mais o personagem do Sunlight do que o próprio Morgan. Porque ele representa a desfaçatez e o emprego da religião para realizar suas ambições. Dá para tecer vários comentários sobre como ele é abusivo, como ele tem uma relação estranha com as crianças que ele abriga na Casa Sunlight. Tem um momento em que descobrimos o esquema de exploração infantil e de lavagem de dinheiro que é desagradável. Sem falar nos sermões repletos de mentiras, ira e violência que ele usava seus contatos na cidade para transmitir sua estação de rádio e aliciar mais meninos para sua casa. Nada como ter uma casa evangélica de fachada onde o "pastor" escraviza crianças delinquentes e os coloca para trabalhar sem qualquer pagamento usando a Bíblia como justificativa para seus atos. Acho que o King deve odiar fanáticos religiosos, hein?


Algo que me incomodou mais para a frente na narrativa foi que eu não consegui mais ver Jack como um garoto de 13 anos. Simplesmente não batia mais. Okay, podemos dizer que as experiências vividas por ele o moldaram em uma criança mais madura. Mas, sei lá. Minha suspensão de descrença foi severamente abalada pela forma como King fazia o personagem vivenciar as situações. A própria fala e os diálogos realizados por Jack não pareciam de um adolescente. Em vários momentos da metade para frente, Jack se parece mais com Roland de Gilead do que com um adolescente assustado e em crescimento. Por mais experiências ruins que ele tenha vivido, isso não deveria ter apagado quase toda a sua inocência e ingenuidade. A maneira como os adolescentes se relacionam com o mundo que os cerca. E isso vai ficando mais e mais difícil. Ao final o personagem parece descaracterizado demais (salvo bem no final mesmo que ele parece reverter à sua persona antiga).


Outra coisa que vale a pena tocar é que embora Jack comece a narrativa sozinho, logo ele vai perceber a necessidade de Richard para sua missão. O que começa como uma busca por um abrigo logo se torna mais do que isso. Os dois personagens vão desenvolvendo pouco a pouco uma relação única na narrativa. Richard foi colocado ali para que Jack percebesse a necessidade de não se descolar completamente de sua realidade. Mesmo Jack sabendo da urgência de sua missão, seus laços com Richard vão lhe dando uma série de lições e questionamentos. É Richard, mesmo com seu jeito covarde de não querer enxergar um mundo que não entende, quem vai dar a Jack a coragem necessária para superar os desafios mais complexos que o esperam. King nos mostra que esse tipo mais íntimo de conexão é o que nos move para frente mesmo quando estamos com problemas que parecem impossíveis de serem resolvidos.


Para fechar as discussões queria tocar no tema da predestinação, algo que vai seguir Morgan e Jack ao longo de toda a narrativa. O que faz de alguém um predestinado? Morgan acredita que os acontecimentos giram em seu favor e que existe algum tipo de força que o está guiando rumo à grandiosidade. Ele tem um complexo de Deus enorme, combinando com seu ego desenvolvido após uma série de negócios escusos. Já Jack começa como o herói relutante e depois vai se dando conta pouco a pouco da importância de sua missão. Ele é mais reativo no que diz respeito a como ele vai obter o talismã, o real objetivo de sua missão. Essa noção de destino talvez seja uma brincadeira ou uma cutucada de King ao mito do herói. Se formos levar Jack e analisá-lo a partir dos parâmetros propostos por Christopher Voegler, Jack não é o protótipo de herói clássico. Ele foge de algumas situações, enquanto outras ele decide pelo sacrifício.


O Talismã é uma obra maciça de Stephen King. Mostra a sua versatilidade ao lidar com gêneros tão distintos como o terror e a fantasia. Ao mesmo tempo é uma vigem pelas lendas do Mundo Médio onde ele nos apresenta mais toda uma série de informações que não nos permitir entender outros livros que se passam nesse mundo estranho e bizarro criado por ele. Quem espera uma fantasia tradicional, vai cair rapidinho do cavalo. Mas, não deixa de ser uma narrativa épica e emocionante que apresenta o próprio coração dos EUA. Ao mesmo tempo não deixa de ter os seus vários problemas como uma escrita descritiva demais (e no sentido ruim da coisa), personagens demais e alguns que são irrelevantes para a jornada do protagonista e uma narrativa que se arrasta por páginas demais. Mesmo assim, vale a pena conferir a fantasia sombria do mestre do Terror. 6









Ficha Técnica:


Nome: O Talismã

Autores: Stephen King e Peter Straub

Editora: Suma

Tradutor: Mário Molina

Número de Páginas: 752 (minha edição tinha 1052; era a edição pocket)

Ano de Publicação: 2013


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Assinatura Paulo Vinicius - Frase: "Isto é o que você deve se lembrar: o fim de uma história é apenas o começo de outra."