• Paulo Vinicius

Resenha: "As Terras Devastadas" (A Torre Negra vol. 3) de Stephen King

Atualizado: 4 de Jun de 2019

Roland e seu ka-tet seguem em sua jornada rumo à Torre Negra. Roland precisa lidar com as consequências de suas escolhas em uma busca por Jake e uma cidade chamada Lud onde eles se deparam com um estranho monotrilho. 

ATENÇÂO: Contém spoilers dos dois primeiros livros. 

Sinopse:


No terceiro volume da saga 'A Torre Negra', Roland, o último Pistoleiro, se aproxima ainda mais da Torre Negra de seus sonhos e pesadelos - atravessando um deserto amaldiçoado em um mundo macabro que é uma imagem distorcida do próprio mundo.




O que a jornada para a Torre Negra representa? Para que formar o ka-tet? Qual é o sentido disso para a jornada como um todo? São essas as perguntas oriundas desse terceiro volume dessa série incrível. É aqui que toda a narrativa pega velocidade e começa a encantar os leitores. Se vocês foram capazes de suportar o estilo vacilante do primeiro livro e a análise exacerbada de personagens do segundo (ambos livros que eu adorei), este terceiro é como um foguete singrando os céus. Não há descanso aqui... não há tempo para respirar. Esse é um volume que vai deixar vários pontos de interrogação nos leitores. 

Aqui sim vemos a escrita do King tomando fôlego. Já mais maduro em sua pena, King consegue mostrar o que fez dele um dos maiores autores das últimas décadas. Uma escrita fácil, notadamente dinâmica e uma construção de personagens perfeita. Essas são as marcas registradas do autor. Ele dá personalidade aos personagens, fornece vivacidade mesmo a gestos simples. Vai ser nesse volume aqui que começam os links com outras obras do autor. É de pensar como a mente dele funciona. Como ele é capaz de organizar toda a sua insanidade e dar um sentido às suas criações? A narrativa é em terceira pessoa, com diversas subseções a cada capítulo, marcando os ângulos de "câmera" e os núcleos de personagem. Mesmo os capítulos sendo longos, a gente acaba não percebendo essa característica dada a velocidade como as coisas acontecem e a fluidez como a história é contada. 

ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI VÃO HAVER SPOILERS DE VOLUMES ANTERIORES. QUEM AINDA NÃO LEU A SÉRIE, PARE ANTES DA FIGURA ABAIXO. 

Como tornar personagens interessantes por vários volumes de uma série? Como fazer deles personagens a serem seguidos por tanto tempo? É aqui que o autor dá mais contorno a seus personagens, criando longos arcos de desenvolvimento. Depois de apresentar Eddie Dean, Susannah e agora o Jake, ele agora pisa no freio para divagar sobre o que move esses personagens. No começo deste terceiro volume, é lógico que ele vai se debruçar mais sobre Jake e sua relação com Roland. A experiência de Jake com O Empurrador é assustadora e marcante. Ao modificar as coisas, Roland cria um cenário com duas possibilidades. Mas, será que ao fazer isso, Roland não acabou causando algum tipo de desequilíbrio universal? O que torna Jake tão importante? Esses questionamentos se mesclam à própria agonia de Roland por ter deixado o personagem para trás lá no primeiro volume. A gente sente que isso abalou profundamente nosso pistoleiro, o que abriu espaço para ele aceitar a formação de um ka-tet. Mas, ele precisa seguir adiante. Nesse ponto, não sei se teria trazido Jake de volta. Isso porque de certa forma, a perda de Jake representou um ponto de virada para Roland fazendo com que ele pusesse suas decisões em perspectiva. Mas, okay, vida que segue. 

“Deus tenha piedade de você, então, pois o sol está se pondo no mundo. Está se pondo para sempre.”

Já Eddie e Susannah começam a desenvolver uma afinidade, algo que já havíamos percebido lá no primeiro volume. Para Eddie, Susannah é uma espécie de ambrosia, uma fruta dos deuses que lhe dá forças para reprimir os seus instintos auto-destrutivos. Começamos a ver flashes do que Roland viu no espírito de Eddie. E pouco a pouco vamos entendendo por que ele é tão importante para a jornada do pistoleiro. O espírito de redenção do ex-viciado se assemelha ao de Roland. Talvez dos três personagens, Eddie é o que mais consegue se relacionar a Roland. Pelas coisas que perdeu e pelas decisões que tomou. Já Susannah vai construindo um senso de propósito que vai tornando-a uma personagem riquíssima em detalhes. A junção de suas duas personalidades dá a ela uma perspectiva única sobre o mundo. Somos formados por um lado obscuro assim como por um lado bom. Ninguém é inteiramente bom ou ruim... isso seria puro maniqueísmo ingênuo. E é aprofundando o cinza de Susannah, mostrando que ela pode ser traiçoeira e maligna quando necessário, é que temos o melhor desenvolvimento de personagem até aqui. Quero muito ver o que King pretende fazer com ela. 

Temos uma bela construção de mundo aqui com o aparecimento das terras devastadas, da cidade de Lud e da revelação das luzes que levam até a torre. King começa a traçar as bases para a construção de um épico que vai balançar as estruturas do universo que ele está criando. É incrível como ele conseguiu criar interesse no leitor nos dois volumes anteriores sem dar grandes detalhes sobre o que ele planejava na história. Apenas estávamos seguindo Roland por onde quer que ele fosse. Aqui não... através de alguns detalhes como a existência dos Anciãos, o passado dos Pistoleiros, as luzes que de alguma forma sustentam aquele mundo, o autor consegue fazer com que o leitor entenda que essa jornada vai levar a lugares obscuros, mas que ela é necessária no fim das coisas. E finalmente o aparecimento de um vilão dá um colorido especial a este terceiro volume. Blaine é assustador. 

“Não tem medo do grande mundo, Eddie, mas do pequeno mundo dentro de si mesmo.”

Podemos separar este terceiro volume em três momentos: a busca por Jake, a chegada a Lud e a interação com Blaine. Eu achei que a parte em Lud demorou mais do que o necessário. Aquele momento com os Pubes e os Grays serviu apenas para separar o grupo e criar momentos de tensão que acabaram não servindo tanto em um sentido maior da trama. Se era para mostrar mais o desespero de Roland em relação a Jake havia outras maneiras. Claro que os momentos finais com Blaine valeram o volume inteiro. O vilão consegue arrepiar... ele consegue fazer a gente se preocupar com o destino dos personagens. A sua mentalidade pervertida só poderia ter saído da mente de um autor como King. Ele tem talento para criar vilões torpes e malignos quando quer. Tem alguns momentos da jornada no monotrilho em que a gente fica agoniado com o desenrolar. Ainda ficou alguma coisa por ver no quarto volume em relação a Blaine, mas já fiquei animado demais. 

“Não confie nas lágrimas em seus olhos – dizem que os crocodilos também choram.”

As Terras Devastadas é um volume que criou aquela noção épica tão necessária à Torre Negra. Se antes sabíamos que a jornada de Roland seria perigosa, aqui ficamos sabendo quais são as apostas. O quanto essa jornada pode destruir tanto Roland como várias outras pessoas que não tem interferência direta no que está acontecendo. 


Ficha Técnica:

Nome: As Terras Devastadas Autor: Stephen King Série: A Torre Negra vol. 3 Editora: Suma (no Brasil) Gênero: Fantasia Tradutora: Alda Porto Número de Páginas: 528 Ano de Publicação: 2012


Outros Volumes:

O Pistoleiro (vol. 1)

A Escolha dos Três (vol. 2)

Mago e Vidro (vol. 4) Link de compra: ​https://amzn.to/2trkXJu


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