• Paulo Vinicius

Resenha: "A Escolha dos Três" (A Torre Negra vol. 2) de Stephen King

Em uma narrativa profundamente psicológica, King nos apresenta os outros membros do ka-tet de Roland. Precisando conhecer cada um deles, suas escolhas vão interferir no futuro da busca do protagonista pela famigerada Torre Negra.  ​ATENÇÃO: Tem leves spoilers de volumes anteriores.

Sinopse:


Após a morte do Homem de Preto, Roland de Gilead se vê diante de três portas que o levam do Mundo Médio para três épocas diferentes da Nova York do mundo. Em 1987, ele encontra Eddie Dean, um viciado em heroína que está tentando entrar em Manhattan contrabandeando um quilo de cocaína pura. Em 1964, descobre Odetta Holmes, uma negra paraplégica, ativista do movimento pelos direitos civis, cuja mente abriga também a malévola Detta Walker. Com a ajuda de Roland e Eddie, essas duas personalidades se tornarão Susannah Dean, que se unirá ao ka-tet do pistoleiro, o círculo de pessoas cujo ka está interligado. A terceira e última porta leva Roland ao ano de 1977 onde ele terá que se confrontar com o temível Jack Mort, psicopata responsável por uma tragédia crucial na história, a morte de Jake Chambers, mas também pela dupla personalidade de Susannah.




Retorno a esta incrível saga criada pelo mestre do terror. É extremamente complicado resenhar alguns livros do King por causa do volume de referências que ele destaca em suas páginas. A Torre Negra é uma série que não agrada a todos os fãs. Geralmente as opiniões acabam se dividindo entre aqueles que curtem e outros que abandonam. Eu me inclino entre os primeiros muito por causa da minha experiência na leitura de obras do autor. Digamos que eu estou acostumado com a maneira como King me apresenta sua história, seu enredo e seus personagens. Discordo da propaganda feita pelos editores de que A Torre Negra é um Senhor dos Anéis na escrita de Stephen King. Discordo veementemente. Ele até pode ter capturado alguns elementos aqui e ali da escrita de Tolkien, mas Stephen King se baseou em Stephen King para escrever esta série de livros. King faz em A Torre Negra aquilo que ele sempre faz em suas obras: estudar o comportamento das pessoas e colocá-las em situações-limite.

Neste volume de A Torre Negra, Roland precisa entrar em três portas que o levarão ao encontro de três pessoas importantes para a sua jornada: O Prisioneiro, A Dama das Sombras e A Morte. O que muitos leitores reclamam é a falta de desenvolvimento da história ou a lentidão do enredo. Essa é a característica do autor: o andamento progressivo da história. Entendo que isso seja um defeito da parte do autor, mas é uma característica presente em quase todas as suas obras. Falar que um livro de King tem gordura demais é chover no molhado. A mim já não me incomoda tanto.

“O que gostamos de pensar de nós mesmos e o que realmente somos raramente têm muita coisa em comum.”

A dinâmica entre o grupo e Roland é muito explorada. Como estes indivíduos são retirados de seus lares e precisam lidar com uma nova realidade em um mundo que não é o seu. Todos os três personagens são seres desprezíveis ou falhos. King demonstra a sua habilidade em construir personagens detestáveis. Roland continua com a sua busca obsessiva pela Torre, mas o ferimento que ele sofre o obriga a ter que confiar em outras pessoas. A própria natureza da busca de Roland é posta em xeque. Eddie Dean é um viciado em heroína que age como transportador para um traficante chamado Balazar. Ao longo da história o caráter do personagem vai se transformando. Roland e Eddie acabam desenvolvendo um senso de irmandade. A Dama das Sombras é uma mulher que sofre de esquizofrenia levando a uma dupla personalidade. Não bastando isso Odetta foi empurrada para os trilhos do metrô enquanto esperava sua condução levando à perda de suas pernas. Detta Walker, a segunda personalidade de Odetta é uma mulher desprezível, cleptomaníaca e que gosta de matar homens brancos. Jack Mort é o empurrador, um empresário bem-sucedido que empurra pessoas e causa infortúnios apenas pelo prazer de fazê-lo.


Uma das questões trabalhadas nesse volume é o quanto o Pistoleiro sentiu a morte do jovem Jake. A partir da interação com Eddie e Detta, esse sentimento vai se solidificando em seu coração. Em vários momentos o personagem se questiona sobre qual é o propósito de perseguir a Torre Negra. Ele sabe que sua jornada é uma inevitabilidade, mas o quanto dela é sua escolha, e o quanto é uma obsessão. Talvez a conversa entre Roland e Eddie, quando eles chegam do outro lado seja uma das melhores para revelar o quanto o protagonista está perdido.


"Se pensou em abrir mão de suas emoções para só se concentrar na Torre, Roland, você já perdeu. Uma criatura sem coração é uma criatura sem amor e uma criatura sem amor é um animal. Ser animal é talvez suportável, embora o homem que se tornou um certamente acabe, no final, pagando o preço do próprio inferno, mas e daí se você alcançar o seu objetivo?"

Por outro lado temos uma Detta Walker, que chama toda a atenção da trama para si. A sua dupla personalidade constrói momentos perturbadores. Roland sabe o que está acontecendo na mente da personagem, por conta de sua conexão com ela, mas o que fazer? E possivelmente o problema maior é o quanto da personalidade de Detta é de sua vontade primal de fazer aquilo que ela quer. Isso porque Odetta nada mais representa do que o elemento libertador para ela. É o que ela gostaria de fazer caso não precisasse usar uma máscara social para bem conviver entre outras pessoas. O lado Odetta é o nosso lado selvagem, desprovido de todas as amarras e prisões. Claro que nenhum de nós vai admitir isso porque fere o próprio princípio de convivência em grupo. O que acontece mais para o final com ela é algo natural, dado que apenas quando ela aceita quem é, é que ela pode seguir em frente.

“Há pessoas que precisam de pessoas que precisem delas. Você não compreende pela simples razão de não ser uma dessas pessoas. Você me usaria e depois me atiraria no lixo como um saco de papel se fosse preciso.”

King não se preocupou em apresentar mais do mundo habitado por Roland. Este não era o seu objetivo aqui. Possivelmente esta seja uma das maiores reclamações dos leitores. King queria apresentar os personagens e desenvolver uma dinâmica com Roland. Esse foi o objetivo do livro e ele consegue isso com maestria. Hoje eu me importo com os personagens. Quero saber se eles conseguirão chegar vivos à Torre. O autor nos dá uma aula de como construir vários personagens interessantes. Até mesmo os policiais que perseguem Roland quando este vai buscar Keflex na farmácia possuem suas personalidades bem construídas. Não sou capaz de me enquadrar entre os críticos da série simplesmente porque esta me fisgou.


Ficha Técnica:

Nome: A Escolha dos Três Autor: Stephen King Série: A Torre Negra vol. 2 Editora: Suma Gênero: Fantasia  Tradução: Mário Molina Número de Páginas: 416 Ano de Publicação: 2011


Outros volumes:

O Pistoleiro (vol. 1)

As Terras Devastadas (vol. 3)

Mago e Vidro (vol. 4)


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