• Amanda Barreiro

Setembro King: Misery - Louca Obsessão, de Stephen King

Após um terrível acidente de carro, o famoso escritor Paul Sheldon descobre que sua salvadora é também o seu pior pesadelo.



Sinopse:


Paul Sheldon descobriu três coisas quase simultaneamente, uns dez dias após emergir da nuvem escura. A primeira foi que Annie Wilkes tinha bastante analgésico. A segunda, que ela era viciada em analgésicos. A terceira foi que Annie Wilkes era perigosamente louca. Paul Sheldon é um famoso escritor reconhecido pela série de best-sellers protagonizados por Misery Chastain. No dia em que termina de escrever um novo manuscrito, decide sair para comemorar, apesar da forte nevasca. Após derrapar e sofrer um grave acidente de carro, Paul é resgatado pela enfermeira aposentada Annie Wilkes, que surge em seu caminho.

A simpática senhora é também uma leitora voraz que se autointitula a fã número um do autor. No entanto, o desfecho do último livro com a personagem Misery desperta na enfermeira seu lado mais sádico e psicótico. Profundamente abalada, Annie o isola em um quarto e inicia uma série de torturas e ameaças, que só chegará ao fim quando ele reescrever a narrativa com o final que ela considera apropriado. Ferido e debilitado, Paul Sheldon terá que usar toda a criatividade para salvar a própria vida e, talvez, escapar deste pesadelo.


Setembro King


Dando continuidade à nossa tradição anual de um mês inteiro dedicado ao mestre do terror contemporâneo, um dos livros escolhidos é um dos mais clássicos e bem-conceituados do autor. Não só o livro foi aclamado pela crítica da época, mas também a adaptação consagrou-se como um dos melhores filmes baseados nas obras do Stephen King, estrelando a incrível Kathy Bates como Annie Wilker, o que lhe rendeu um Oscar de melhor atriz em 1991.


Misery fala por si só no que diz respeito à sua qualidade, mas a questão é que este é, talvez, um dos romances que mais se aproxima da dura realidade de vícios enfrentados pelo autor , basicamente uma metáfora para externar dores, medos e lutas diárias com a cocaína. Em uma entrevista para a revista Rolling Stones, o autor se pronunciou sobre o assunto afirmando que Annie Wilkes é a própria cocaína, e ela era a sua fã número um. Naturalmente, isso acrescenta ainda mais camadas de complexidade à trama já tão rica de Misery.


Misery - Louca Obsessão


Misery parte de uma premissa bastante simples. O cenário monótono e reduzido, em grande parte da trama, ao quarto em que Paul é mantido preso, a rotina entediante, dramática e absolutamente agoniante de Paul, e a própria dinâmica entre os dois únicos personagens da história montam o plano de fundo perfeito para que Stephen King demonstre toda a maestria de um contador de histórias através da própria escrita. É a narrativa, e não simplesmente o conteúdo, que ganha o leitor desde a primeira frase.


Justamente pela simplicidade dos principais elementos que norteiam Misery, que é possível observar detalhes bem pensados e essenciais para que a história flua da forma mais convincente possível. Cada canto do quarto de hóspedes ocupado por Paul é explorado, cada possibilidade de fuga, de resistência, assim como cada desdobramento de cada tentativa realizada é visualizada e trabalhada na narrativa. Não existem pontas soltas.


A imersão é inevitável em uma trama tão paranoica e opressora. O leitor se vê obrigado a pensar como Paul a todo momento, buscando soluções para uma situação que pouco a pouco vai se tornando mais difícil e assustadora. E o ponto-chave para desencadear tudo isso é Annie Wilkes, uma das vilãs mais complexas de Stephen King.


Annie não é apenas sádica, tampouco apenas mentalmente instável - ela é um emaranhado de coisas, de sentimentos, de traumas e de problemas psicológicos não-resolvidos que escalam por si só durante a narrativa de Misery. Ela pode ser romântica e boba como uma adolescente e extremamente cruel no momento seguinte. Annie é uma verdadeira bomba-relógio prestes a explodir pelo menor detalhe da vida cotidiana. A habilidade do autor de construir essa mulher tão complicada e tão assustadoramente real se revela no decorrer da trama, desenvolvendo uma personagem bastante consistente.


"Como o coração dele bate! Como ele se esforça para escapar! Que nem nós, Paul. Nós achamos que sabemos tanto, mas na verdade não sabemos mais do que um rato numa ratoeira: um rato com as costas quebradas que pensa que ainda quer viver."

Penso que, ao afirmar que Annie é a cocaína, Stephen King estivesse se referindo à montanha-russa de emoções que a vilã concede à narrativa de Misery. A Annie solícita que quer ajudar, que admira seu autor favorito e diz que o ama em contraste com o desespero que provoca.


Paul, por sua vez, não é menos complexo, mas, subjugado e atormentado por uma dor constante em suas pernas deformadas pelo acidente de carro - e pela "ajudinha" de Annie -, o grande foco do personagem é o sofrimento. A empatia por ele é instantânea, mas a verdade é que não chegamos a conhecer bem o verdadeiro Paul Sheldon por trás do escritor e refém dela.



Outro ponto que precisa ser mencionado é a história dentro da história: Paul se torna uma espécie de Sherazade que se mantém vivo através da escrita de um novo livro de sua famosa heroína Misery Chastain, exclusivamente para Annie. Capítulo após capítulo escrito, Paul adia o que sabe ser a cada dia mais inevitável. A narrativa é entremeada por alguns capítulos espaçados escritos por Paul, diretamente relacionados a algum ponto da história que se desenrola na casa de Annie, no Colorado. É muito interessante participar do processo criativo - desesperado - de Paul. Ainda associando Annie aos problemas com o vício em drogas de Stephen King, a escrita revela-se como o refúgio e a salvação para se desligar do sofrimento, tanto de Annie, no caso de Paul, quanto da cocaína, no caso de Stephen King.


É importante também ressaltar que a palavra Misery, em inglês, significa o sofrimento prolongado, essa dor física e emocional sem fim que persegue Paul, e, de certa forma, também agrava a situação psicológica instável de Annie.


"Ninguém sabe que existe dor desse tamanho no mundo. É como estar possuído por demônios."

Misery - Louca Obsessão é, sem dúvidas, um dos romances mais complexos e perturbadores de Stephen King. Diferentemente da maioria, não há menção ao sobrenatural, constituindo-se basicamente em uma profunda análise sobre a crueldade humana e os motivos - nem sempre simples - para tal. O livro contém uma enorme dose de violência explícita, além de sofrimentos diversos e muita maldade, e, apesar de representar a monotonia angustiante de Paul em seu cativeiro, o ritmo de leitura é absurdamente veloz. É uma leitura obrigatória para qualquer fã do mestre do terror e também uma excelente escolha para quem deseja conhecer melhor Stephen King e suas histórias.










Ficha Técnica:


Nome: Misery - Louca Obsessão

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Tradutor: Elton Mesquita

Número de Páginas: 326

Ano de lançamento (no Brasil): 2014


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