• Amanda Barreiro

Resenha: "O Iluminado", de Stephen King

Jack Torrance consegue um emprego como zelador no Hotel Overlook durante o inverno, o que parece ser sua última chance de fazer a coisa certa pela sua família. Isolados pela neve, a família Torrance precisa enfrentar monstros mais terríveis que o próprio clima e sobreviver ao Overlook prova-se o verdadeiro desafio.



Sinopse:

Um clássico de Stephen King. Edição especial, com tradução revisada e prólogo e epílogo inéditos.

“O lugar perfeito para recomeçar”, é o que pensa Jack Torrance ao ser contratado como zelador para o inverno. Hora de deixar para trás o alcoolismo, os acessos de fúria, os repetidos fracassos. Isolado pela neve com a esposa e o filho, tudo o que Jack deseja é um pouco de paz para se dedicar à escrita.

Mas, conforme o inverno se aprofunda, o local paradisíaco começa a parecer cada vez mais remoto... e mais sinistro. Forças malignas habitam o Overlook, e tentam se apoderar de Danny Torrance, um garotinho com grandes poderes sobrenaturais.

Possuir o menino, no entanto, se mostra mais difícil do que esperado. Então os espíritos resolvem se aproveitar das fraquezas do pai... Um dos livros mais assustadores de todos os tempos, O iluminado é um clássico de Stephen King. Edição especial com tradução revisada e prólogo e epílogo inéditos.


Só trabalho, sem diversão, faz do Jack um bobão


Uma das obras mais consagradas do terror, O Iluminado foi um dos primeiros livros escritos e publicados por Stephen King e um dos seus trabalhos mais notáveis. Sua história foi imortalizada em uma adaptação de Stanley Kubrick que, apesar de controversa e um bocado diferente do livro, tornou-se referência para o terror cinematográfico. Hoje, O Iluminado é um clássico e nada mais justo do que falar sobre um livro tão marcante no nosso Setembro King.


O Iluminado é um dos livros mais impressionantes que eu li em toda a minha vida (e não foram poucos!). Como narrativa de terror, é incomparável a qualquer outra com a qual já tive contato, enquanto que, em termos de escrita, é uma experiência realmente excepcional. É complicado pôr em palavras as razões para elogios tão abertos, mas vamos por partes.



Os Torrance dependem desesperadamente do emprego que Jack consegue como zelador para a temporada de inverno do Overlook, período no qual o hotel fica fechado para visitantes e inacessível por causa da sua localização nas montanhas do Colorado. Jack é um alcoólatra em recuperação com um histórico de agressividade e pouca credibilidade profissional. O hotel representa sua última chance, a redenção de Jack Torrance, a esperança de reconstrução dessa família tão machucada pelos abusos e inconstâncias. É importantíssimo compreender o que isso significa para os três, especialmente para Jack, para conseguirmos entrar de verdade na história, e só a completa imersão poderá proporcionar ao leitor a dimensão de tudo que está sendo contado.


“Este lugar desumano cria monstros humanos.”

A verdadeira magia por trás de O Iluminado é a construção minuciosa dos personagens e a personificação do terror. Stephen King é mais do que conhecido por seus inúmeros ícones do terror e por sua habilidade em dar vida – e humanidade – a suas criações. Conhecer a família Torrance, portanto, foi algo surreal. Jack, Wendy e Danny são descritos com tantos detalhes que parecem realmente existir, como aparições que nos acompanham durante a leitura e tornam-se reais para nós. Dificilmente vou esquecê-los, ainda que se passe bastante tempo. Existem alguns personagens secundários, como o cozinheiro Halloran e o gerente Ullman, mas o autor se dedicou de corpo e alma à família. Menos personagens, mais desenvolvimento e qualidade.



A evolução de cada um deles avança junto com a narrativa e é feita de forma gradativa, tão natural que força uma empatia imediata com o leitor (e um desespero terrível enquanto vemos tudo se desenrolar, diga-se de passagem). Todos têm um background explorado, uma história de vida, traços marcantes de personalidade, sonhos, anseios e medos. A dinâmica familiar criada é impressionante. Questões práticas como o isolamento, o clima, a “iluminação” de Danny (e suas consequências, como os pesadelos e visões que o menino experimenta diversas vezes) e as próprias características individuais de cada personagem servem de gatilhos para cenas dramáticas e tenebrosas. Mas um personagem em especial age como o propulsor da trama: o próprio hotel Overlook. Ele é o grande enigma, a entidade desconhecida e soberana que alicerça toda a história, que move os personagens e conduz o leitor a momentos de puro horror. Cada cena, cada trecho narrativo envolvendo o Overlook é de arrepiar até a alma.


“Você pode fugir de um estranho, mas não pode fugir de si mesmo.”

A narrativa é em terceira pessoa e divide-se ora acompanhando a percepção de um personagem, ora de outro, mudando sutilmente o estilo para um discurso de convencimento do ponto de vista em questão. São pequenas alterações que dão a sensação de intimidade com cada um deles e fazem a história fluir muito bem. O tempo todo a narração é interrompida por pensamentos, dúvidas e sentimentos do personagem em foco, como se estivéssemos ao mesmo tempo dentro e fora da cabeça deles, dando ampla dimensão à história e gerando (muita) tensão narrativa. Apesar de ser um livro de tamanho médio, a velocidade de leitura é bastante rápida e sem dificuldades. E, a partir do momento em que o terror começa a ganhar contornos mais sérios, é simplesmente impossível interromper a leitura. O tom da leitura, no entanto, é pesado, dramático e profundamente inquietante. A sensação de que algo terrível está prestes a acontecer não nos abandona em momento algum.


Apesar do terror ser percebido de maneira muito particular por cada leitor, a qualidade do horror psicológico do King em O Iluminado é inegável. O autor utiliza recursos de escritas extremamente refinados e complexos, como a ligeira regressão na linha temporal em certos momentos e a mudança de perspectiva narrativa, além de diálogos inteligentes não apenas em conteúdo, mas também no formato narrativo. Alguns mistérios e pequenas pistam conectam-se a todo momento, exigindo máxima atenção, e há toda uma aura de suspense maligno em volta de algumas impressões de Danny, como por exemplo a palavra Redrum, uma sacada genial do autor, considerando a idade do personagem. As metáforas também são muito exploradas e dão grande profundidade à trama e aos personagens. São esses elementos que constroem a tensão e pouco a pouco dão sentido ao quadro geral do Overlook.


Um ponto que pode parecer uma desvantagem para leitores menos atentos ou que não se entregaram à narrativa, como frisei anteriormente, é o volume de detalhes e extensas descrições sobre o Overlook. Os corredores, a cozinha, o porão, os jardins, as topiarias, tudo é muito, muito descrito, parecendo até mesmo uma repetição. Mas esse elemento faz parte da aura de terror que emana do Overlook e todas as descrições são absolutamente necessárias para criar o clima de tensão e claustrofobia. A dica mais valiosa que posso dar sobre a leitura de O Iluminado é a entrega sem reservas à história. Se não estiver disposto a passar por essa experiência, adie a leitura para outro momento.


A Companhia das Letras trouxe O Iluminado em uma edição de luxo em capa dura, com prólogo e epílogo inéditos em anexo. A edição da Biblioteca Stephen King está linda, o trabalho de revisão e tradução está impecável e o material adicional contextualiza melhor o histórico do Overlook, explorando pequenas histórias sobre os hóspedes do hotel ao longo de suas décadas de funcionamento. O Iluminado foi uma das minhas melhores leituras desse ano de 2018, e talvez a melhor experiência que já tive com o gênero até hoje.


















Ficha técnica:


Título: O Iluminado

Autor: Stephen King

Tradução: Betty Ramos de Albuquerque

Editora: Suma

Páginas: 520

Ano de lançamento (no Brasil): 2017


Livro cedido em parceria com a editora Companhia das Letras.


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