• Paulo Vinicius

Resenha: "The Malice" (The Vagrant vol. 2) de Peter Newman

(Contém leves spoilers). Passados alguns anos após a chegada de Vagrant e Vesper na Cidade Brilhante, uma nova aventura irá se iniciar. E tudo por causa das travessuras de uma jovem e sua pequena cabra. Uma nova força demoníaca está saindo da Fenda enquanto os demônios lutam por quem ocupará o lugar deixado pelo Usurpador.

Sinopse:


No sul, a Fenda treme.

A espada de Gamma, a Malícia, desperta, desejando ser levada para uma batalha uma vez mais.

Mas, o Nômade encontrou uma casa agora, tendo uma vida e então ele dá as costas para Malícia, ignorando o seu chamado.

A espada grita, frustrada, até que um outro alguém responde.

Seu nome é Vesper.



CONTÉM SPOILERS!!! CONTINUE A LER APENAS SE NÃO TIVER LIDO O PRIMEIRO LIVRO. OU PROSSIGA POR SUA CONTA E RISCO!





Conseguir manter a qualidade de um trabalho é uma tarefa árdua. Muitos autores estreantes impressionam em seu romance inicial, mas logo a seguir, ser capaz de criar outra coisa original se torna muito complicado. The Malice é um bom exemplo disso: apesar de ter uma boa qualidade de escrita e narrativa, não consegue criar aquele boom surpreendente que foi o primeiro livro. Mesmo assim, Newman nos entrega uma história que certamente prende o leitor e entretém.

Antes de mais nada... tem leves spoilers. É complicado falar de um segundo volume sem assim o fazer. Portanto: sigam por sua conta e risco.

Uma das coisas que mais me chamaram a atenção em The Vagrant foi a ousadia que Newman teve em criar um livro de fantasia com alguns claros elementos lovecraftianos, puxando a trama um pouco para o lado do terror. As descrições de criaturas que ele faz são incríveis: seres com protuberâncias ósseas espalhadas pelo corpo, criaturas disformes que parecem um cruzamento de Homem de Lama com uma ameba, demônios assustadores. Apesar de o tema ser semelhante, não dá para compararmos a série O Ciclo das Trevas com The Vagrant. O foco das narrativas é bem diferente: enquanto Brett cria uma narrativa focada em personagens, Newman se dedica mais à sua construção de mundo. Falando no jargão de gênero, de um lado temos uma história character-driven e do outro temos uma plot-driven.

Os capítulos são bem construídos com um padrão que se estende quase até o final da narrativa: dois capítulos com a história no presente e um em um passado distante. A narrativa é em terceira pessoa com Vesper e Samael como protagonistas no presente e Massassi como protagonista no passado. A escrita é muito boa e se você conseguiu passar pelo primeiro volume, este vai ser bem tranquilo e até mais fácil de entender (apesar das loucuras) do que o primeiro. A história é bem fluida e o autor se permite sempre a testar coisas interessantes em sua história. No primeiro volume, nosso protagonista (The Vagrant) não falava. Precisava se comunicar através de gestos e olhares. Aqui, temos dois casos curiosos: Vesper e Duet. O autor precisa mostrar uma Vesper inocente e ingênua que não conhece quase nada do mundo. Suas impressões iniciais são doces e ela acaba precisando crescer ao longo da história. A própria fala da personagem vai se alterando pouco a pouco. Já Duet é uma Harmonizada, um personagem dois em um: são dois soldados que através de uma máquina foram ligadas intrinsecamente e todas as suas sensações são compartilhadas. Uma enxerga o que a outra enxerga, elas trabalham em conjunto. As descrições são incríveis e a fala de ambas é curiosa. Não consigo transmitir em palavras, é preciso visualizar. Achei a alternativa genial.

Apesar de eu achar fofinha a ingenuidade da Vesper, ela não foi uma protagonista que me interessou tanto quanto o Vagrant. A gente vê alguns desenvolvimentos interessantes no final deste segundo volume e provavelmente a personagem irá crescer em The Seven, o volume final. A jornada dela é de crescimento porque ela acaba precisando se responsabilizar pela travessura que fez. Ela vai precisar conhecer o mundo como um todo e tirar suas próprias conclusões acerca das situações pela qual ela passa. Mesmo ela sendo uma pessoa bondosa, o mundo de The Vagrant é cruel e vai exigir dela decisões difíceis. A relação dela com Duet é muito bem explorada. Se no começo as duas não são capazes de se entender até porque Duet percebe de cara o engodo, a química entre as personagens é excelente. Quando acontece o plot twist no começo e no final, a gente acaba ficando sem chão.

Alguns personagens retornam do primeiro volume como o líder dos Cavaleiros de Jade e Cinzas, Samael, que agora foi tocado pela corrupção e Tough Call, em Verdigris. Aliás, foi muito bom voltar a Verdigris e rever algumas pessoas. Mas, enfim, Samael é um cavaleiro buscando seu lugar no mundo. Quando tudo aponta em uma direção, ele deseja outra completamente diferente. No caso de Samael, o tema principal é o livre arbítrio; ele quer fazer a sua própria história e agora que ele está livre do Usurpador, talvez isso seja possível. A dúvida é: como usar a Malícia para os seus propósitos? A Malícia foi a responsável pela queda de seu amo. Além do mais, existe algo ainda mais perigoso espreitando na fenda. Curioso também é que tanto Vesper quanto Samael vão tentar unir as pessoas para tentar criar um mundo melhor. Cada um a seu jeito: Vesper pelo seu jeito de tocar a vida das pessoas (muito semelhante a como o Nômade faz no primeiro volume) enquanto Samael vai tentar pelo caminho político. Mas, ambos irão perceber que um caminho não destoa do outro.

O que eu achei confuso demais foram os trechos da Massassi. Entendi que a ideia era fornecer subsídios para que entendêssemos o passado do mundo. Eu cheguei a uma conclusão bizarra que só vou comentar na resenha de The Seven. E, se for isso... pela madrugada... que viagem. Os trechos da Massassi são repletos de elementos de ficção científica: cirurgias genéticas, máquinas robóticas de guerra, mísseis. O mundo antes da Fenda é altamente mecanizado. A personagem parece ser um ser humano altamente modificado e capaz de controlar pessoas e máquinas. O grande tema de Massassi é a solidão. Por ela ser única e por compreender o perigo da Fenda, ela deseja ter outras pessoas lhe ajudando para combater essa ameaça. Só que suas ideias não são aceitas e ela não consegue se fazer entender. Daí ela decide tomar o rumo do mundo em suas mãos e emprega a violência para alcançar os seus objetivos. Infelizmente, as decisões de Massassi provocam uma série de eventos catastróficos. A pergunta é: o que Massassi desencadeia vai valer a pena no final? Fazer a violência, matar pessoas e tentar expandir o seu alcance é um meio aceitável para um fim?

Muitas coisas ficaram em aberto. Existe imensas lacunas a serem preenchidas e não sei se apenas com The Seven tudo será respondido. Muitas perguntas ficaram e dependendo da maneira como Newman conduzir o terceiro volume pode gerar tanto uma história inesquecível como um desastre inacreditável. Eu acredito no autor; ele foi capaz de criar histórias muito boas e personagens inesquecíveis como A CABRA. Dessa vez é o cabrito, um dos filhotes da lendária CABRA, que segue Vesper. Apesar de ser o alívio cômico da história, nada supera o poder e o carisma da CABRA no primeiro volume. Torço para que a DarkSide traga a obra de Newman para o Brasil porque vale demais a pena.


Ficha Técnica:

Nome: The Malice Autor: Peter Newman Série: The Vagrant vol. 2 Editora: Harper Voyager Gênero: Fantasia Número de Páginas: 464 Ano de Lançamento: 2016


Outros Volumes:

The Vagrant (vol. 1)

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