• Paulo Vinicius

Resenha: "Revista Trasgo nº 4" organizada por Rodrigo van Kampen

Na quarta edição desta revista que eu tanto gosto e curto, temos alguns contos incríveis como Isaac, uma história aterrorizante de Ademir Pascale. Temos o trabalho sempre interessante de Gerson Lodi-Ribeiro entre outros autores que merecem a sua atenção.

Nesta edição da Revista Trasgo, temos os seguintes contos:


1 - "Rendição do Serviço de Guarda" (de Gerson Lodi-Ribeiro)

2 - "Vivo. Morto. X" (de Erica Bombardi)

3 - "Isaac" (de Ademir Pascale)

4 - "Estive Assombrando seus Sonhos" (de Mary C. Muller)

5 - "Arca dos Sonhos" (de Fred Oliveira)

6 - "No Labirinto" (de Jessica Borges)


Vamos às resenhas:


1 - "Rendição do Serviço de Guarda"


Autor: Gerson Lodi-Ribeiro Avaliação:

Genero: Ficção Científica




Algumas das melhores histórias de ficção científica são aquelas que conseguem fazer o leitor acreditar que aquilo que está sendo especulado é verossímil. Quando o autor te convence de que aquilo é possível. Gerson Lodi-Ribeiro nos mostra uma raça alienígena chamada makene que está em luta há milênios contra os carnívoros. Krestzul percebe na humanidade uma possibilidade de luta diferente contra estes alienígenas impiedosos. E é aí que veremos Krestzul contando ao novo guardião da Terra, um humano chamado Eddie, como ele interferiu na história da humanidade sutilmente para que chegássemos aonde estamos hoje.

Eu adoro este tipo de história. Ainda mais quando o autor consegue torná-la completamente possível. Ao mesmo tempo estas são as mais difíceis de serem escritas porque exigem um alto grau de pesquisas. Minúcias históricas podem prejudicar todo o planejamento do autor com algo que nunca existiu ou cuja ação não se encaixa em uma linha temporal. Mas, Gerson consegue fazer isso muito bem aqui. Por ser uma novella, ele consegue desenvolver a sua história a contento e realizar a construção de mundo do jeito que ele gosta. Quando chegamos à segunda metade da história, já acreditamos em todas as possibilidades expostas pelo autor.

Temos dois grandes temas girando na história. O primeiro deles, é claro, é o da solidão. Krestzul é um alienígena que está a anos-luz de seu povo e em um planeta muito diferente do seu. Sendo imortal o tempo não é sua preocupação. Mas, ele expõe uma fragilidade de seu povo já que muitos desistem de viver após muitos milênios de existência. Por incrível que pareça, a guerra feita contra os carnívoros é o que os mantém ativos. Os esforços de guerra, a necessidade de combatê-los e defender a Liga de Planetas é o combustível para a sua vida. Mas, vamos ver que a convivência na Terra vai se revelando problemática. Krestzul não pode se ligar emocionalmente aos humanos por conta de seu tempo de vida longo. Vemos ele relatando como foram algumas de suas experiências neste sentido e sentimos a dor pungente de perder uma pessoa amada sem nada poder fazer a respeito.

Outro tema debatido é como, mesmo gozando da dita "civilização", ainda somos animais selvagens em nossa essência. Os makene são pacifistas em sua natureza. Eles tentam resolver a guerra contra os carnívoros através de subterfúgios, poder tecnológico superior (mas, sem o extermínio em massa) ou até a negociação. Mas, a violência da raça humana coloca um novo nível ao jogo que talvez nem os inimigos esperam. E isso assusta Krestzul. No sentido de que ele percebe que está criando um monstro que pode vir a se tornar formidável no futuro. O que o autor trabalha aqui é o próprio caráter humano.

Ou seja, Rendição do Serviço de Guarda é uma novella fascinante de um autor extremamente prolífico que vocês deveriam conhecer. Ele nos mostra um nível de pesquisa incrível em uma história profunda e repleta de camadas. É ficção científica com uma pegada clássica, mas muito atual.


2 - "Vivo. Morto. X"


Autora: Erica Bombardi Avaliação:

Gênero: Terror




O quanto nossas escolhas afetam as vidas daqueles que nos cercam? Esse é o tema tratado por Erica Bombardi em um conto absolutamente arrepiante. Nele somos colocados diante de um skatista que por conta de seus problemas com motoristas imprudentes acaba causando ele mesmo um acidente indiretamente. Uma estranha menina chamada Ana lhe dá uma escolha terrível.

A narrativa é feita de uma maneira bem simples e direta colocando o personagem na cena onde a situação se passa. A autora não gasta muito tempo aprofundando as motivações e objetivos do mesmo (até porque não precisa). E eu acho que dentro do espaço que ela propôs a si mesma, a narrativa até que se desenvolve de forma competente. O encadeamento das frases é bom e a gente realmente acredita que os personagens dialogam daquela forma. Outro elemento no qual a autora é muito boa é nas descrições visuais. Somos capazes de imaginar a cena com bastante tranquilidade. Ela nem é muito específica e nem muito genérica: dá espaço para o leitor criar a cena em sua mente.

Juro que Ana me lembrou muito a personagem Morte criada por Neil Gaiman para os quadrinhos de Sandman. Mas, claro, as semelhanças acabam aqui. Ana é uma personagem sádica e cruel que no topo de sua estranha existência gosta de torturar os seres humanos. A escolha na qual ela coloca o protagonista é impossível. E, nos dias de hoje, acho muito difícil ele ter feito uma escolha diferente da que ele fez. Vivemos uma época em que nós somos mais importantes para nós mesmos do que o outro. É triste, mas é algo imposto pela nossa sociedade.

O conto não me conquistou completamente porque esse é um tema que eu já vi ser trabalhado em outros trabalhos (claro, de formas bem distintas). A ideia do pacto faustiano e de como o homem reage a isso é sempre um tema que rende boas histórias. Quero muito ver algo mais longo da autora para poder entender melhor o que ela pensa e como ela escreve.

3 - "Isaac"


Autor: Ademir Pascale Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Distopias onde os homens acabam se tornando selvagens são sempre interessantes de serem observadas porque acaba nos revelando como a nossa sociedade se coloca diante de situações extremas. Agora, o que eu curti mais nessa história é como o autor nos apresenta um protagonista incrível que representa o repositório de todo o conhecimento humano e como este se porta diante de uma sociedade que precisa reaver tudo o que ela deixou para trás.

O tom apocalíptico de Ademir Pascale está presente logo nas primeiras linhas. Somos apresentados a um mundo devastado por um desastre terrível que levou os homens a voltarem a seu estágio primitivo. A narrativa é feita em primeira pessoa pelo robô humanóide Isaac que se tornou o detentor de todo o conhecimento humano anterior ao desastre. Cabe a ele devolver esse conhecimento para restaurar a civilização. Mas, nada é tão simples quanto parece: Isaac precisa decidir como repassar adequadamente esse conhecimento para que se possa construir uma sociedade melhor. E ele sente que os homens precisam de um guia para fazê-los tomar escolhas melhores.

Sim, é isso que você leu!! O robô sente. Ademir Pascale nos coloca diante de um robô sentimental que inicia o conto nos colocando em uma situação absurda em que um grupo de fanáticos religiosos adorando uma estátua pagã realizam um ritual em que uma criança de 12 anos é devorada por seus semelhantes. A cena é de uma violência primal que te coloca no espírito daquilo que o autor nos quer passar. Em alguns momentos eu senti até um certo tom de western na história. Mas, não se deixem enganar: o tom de decadência está ali na esquina logo quando você virar a página.

Gostei da maneira como o autor aborda o fanatismo religioso e como os homens reagem diante do inexplicável. Isaac quer encontrar a maneira mais adequada de passar o seu conhecimento para um pequeno grupo de homens que ele encontra em uma planície. Após muito ponderar ele chega a uma resposta bem lógica. E a solução é tão simples e impactante que nos causa aquele momento de "caramba". Como eu queria ver mais histórias nesse universo. Extremamente interessante e impactante aonde importa. Convido vocês a conhecer a escrita de Ademir Pascale.


4 - "Estive Assombrando seus Sonhos"


Autora: Mary C. Muller Avaliação:

Gênero: Fantasia Urbana/Paranormal




As histórias de fantasmas possuem temas muito comuns como coisas deixadas para trás ou temas de vingança. Nesse conto curto, Mary C. Muller nos apresenta Felipe, um menino de 10 anos capaz de enxergar aquilo que não é tão visível aos seres humanos: fantasmas, vampiros, lobisomens. Um determinado dia, ele se depara com uma fantasma diferente de todos os que ele havia se deparado. Ele vai até seu amigo vampiro o qual ele deixa ocupar a casa da piscina e descobrem que esta é uma fantasma que precisa encontrar o seu corpo. A partir daí se inicia uma busca para ajudar esta fantasma e tentar entender como ela morreu.

Senti que essa história parece ser o pontapé inicial para algo maior. A autora cria uma série de detalhes e situações que levam o leitor a entender algo mais ou menos nesses termos. Talvez se trate do recorte de uma história ou algum subplot que se passa no universo que ela criou. Provavelmente o objetivo fosse interessar o leitor em continuar a saber mais sobre este mundo. Ela deixa várias pontas soltas como de onde vem a amizade de Felipe com as criaturas sobrenaturais, o funcionamento de certas coisas neste mundo, como Felipe faz para esconder suas habilidades de seus pais, etc.

A autora rompe um pouco com algumas convenções deste gênero ao introduzir um garoto de dez anos na história. Normalmente emprega-se alguém entre 15 e 18 anos que vai sendo introduzido ao mundo paranormal pouco a pouco. Fiquei em dúvida sobre qual é o público pretendido pela autora: é infanto-juvenil ou YA? Como estamos diante de um conto curto não dá para dizer ao certo qual é o público-alvo. Certamente não é adulto porque ela diminui bastante o tom da história. Havia várias formas diferentes de dar um tom gore na narrativa que ela não fez. Portanto, não é para esse lado que ela deseja ir. A narrativa é feita em terceira pessoa de uma maneira bastante tradicional. Diálogos simples e tranquilos de serem entendidos, ou seja, a história não apresenta uma curva de compreensão muito larga. Em duas ou três páginas já é possível se assentar na história.

Não foi um conto que me chamou a atenção. Em vários momentos senti que a minha atenção dispersava e eu acabava querendo acabar de ler o conto logo. Não é bom porque significa que eu não empatizei com os personagens ou com o que eles estavam buscando. Dessa edição da Trasgo, esse conto é o mais fraco. Gostaria de ler algo mais da autora para poder tirar uma conclusão diferente.

5 - "Arca dos Sonhos"


Autor: Fred Oliveira Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




A exploração da galáxia e a busca de novos mundos sempre foi uma obsessão da humanidade. Em um mundo cada vez mais apertado para os homens, as viagens interplanetárias ou até intergaláticas se tornaram um tema recorrente na ficção científica. Lembrando que este gênero quase sempre reflete os problemas do tempo em que a história foi escrita. Fred Oliveira nos conta a jornada de um capitão em uma viagem longa e solitária por galáxias em busca de um novo planeta para os milhares de seres humanos que se encontram criogenados aguardando a chegada. O Capitão reflete sobre sua missão ao mesmo tempo em que observa o espaço tentando lidar com a responsabilidade e a solidão.

A escrita do autor é belíssima. Muito descritiva e poética, somos presenteados com páginas e mais páginas do que há de melhor na ficção científica. Adoro quando o gênero é usado para falar do próprio ser humano. Diante dos perigos de um vasto universo, o ser humano é apenas um pequeno grão de areia. As maravilhas espalhadas por toda a parte podem representar uma beleza infinita ou um perigo mortal. Ao mesmo tempo outras raças alienígenas entendem o homem como um invasor. E eles farão tudo ao alcance deles para impedir que nos espalhemos por outras galáxias.

A narrativa é feita em terceira pessoa sem nenhum diálogo presente em todo o conto. Já aviso àqueles que não gostam de histórias mais descritivas que essa não é uma história para você. Arca dos Sonhos é aquele tipo de história para ser degustada, lida com calma e paciência, absorvendo todos os detalhes apresentados pelo autor. Aliás, a construção de mundo é bem simples. Não é uma ficção científica hard, ou seja,o leitor vai entender todos os detalhes tecnológicos e se situar na narrativa bem rapidamente. O personagem também é tratado profundamente. Podemos ver como a missão refletiu em sua psiquê, deixando-o mais fragilizado.O final é de surpreender e somos presenteados com uma pequena batalha espacial (bem rápida). Recomendo muito este conto para todos os fãs do gênero.


6 - "No Labirinto"


Autora: Jessica Borges Avaliação:

Gênero: Fantasia




Labirinto é um filme clássico da década de 1980. Um dos melhores trabalhos de David Bowie como ator e algo que fez parte da infância de muitos de nós, inclusive da minha. Jessica Borges pega essa inspiração para construir uma história de uma mulher atraída para um mundo fantástico por um homem encantador e precisa decidir se ela quer ser mais uma de suas esposas imortais em um mundo de fantasia ou se deseja voltar ao mundo real e se casar com um homem simples para viver uma vida modesta.

O tom da história é bem mais sério do que o filme. Enquanto que Labirinto tinha uma coisa mais fantasiosa e otimista, aqui Rodriel é um cara egoísta e que deseja Sarah, a protagonista, para si. Ele vai usar de chantagem e de todo um jogo psicológico para convencê-la a permanecer a seu lado. E o que vemos é que Rodriel não a ama de verdade, mas deseja possui-la para seus caprichos. Sarah é uma mulher em uma encruzilhada; Rodriel usa de um truque sujo para mostrar um pouco do que sua vida pode vir a ser e almeja mudar a opinião da personagem quanto a ir ou permanecer.

Um ponto negativo nesta história é que ela vai ser melhor assimilada por quem é fã do filme. Muito fica por explicar em No Labirinto. Existe uma menção muito rápida a como entrar no mundo. Quem não pesca logo de cara, não compreende depois como funciona. Eu sei porque já assisti Labirinto inúmeras vezes. Mas, um leitor não familiarizado com este universo vai sentir essa lacuna. Acho que a autora poderia ter dado um pouco mais de atenção a simplesmente explicar determinadas coisas, a apresentar a "física da fantasia". Uma ou duas páginas teria sido suficiente para colocar o leitor comum em sintonia com o que estava sendo apresentado.

Entretanto a reflexão moral é muito válida. Aí vai da interpretação de cada leitor frente ao que é apresentado pela Jessica. Eu entendi o quanto uma vida comum e mundana é importante para a personagem. Viver nesse universo fantástico e imortal só tem valor até certo ponto. A felicidade verdadeira pode ser obtida muitas vezes na simplicidade, no dia-a-dia. O fantástico pode ser fantástico, mas estar ao lado de quem amamos compartilhando momentos felizes pode ser ainda melhor. Acho que a tática de Rodriel apenas reforçou o que Sarah realmente gostaria. Ela estava mais confusa no começo da história.

Por outro lado, não consegui sentir empatia com a personagem. Acho que a autora criou várias pequenas cenas enquanto ela poderia ter criado poucas grandes cenas. As vignettes da vida de Sarah acabam não criando a conexão necessária para o leitor. Pelo menos, para mim não funcionou. Entretanto, destaco a habilidade da autora de usar várias pequenas inspirações criando easter eggs para o leitor buscar ao longo da história. Vale a pena a leitura e é uma escrita que flui muito bem.

Ficha Técnica:

Nome: Trasgo vol. 4 Organizado por Rodrigo van Kampen Ano de Publicação: 2014


Outros Volumes:

Trasgo vol. 1

Trasgo vol. 2

Trasgo vol. 3

Trasgo vol. 5

Trasgo vol. 15



Link para download:

www.revistatrasgo.com.br


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