• Paulo Vinicius

Resenha: "Revista Trasgo nº 3" organizado por Rodrigo van Kampen

Atualizado: 28 de Mai de 2019

Uma edição épica contendo alguns contos fenomenais como um assustador escrito por Gael Rodrigues. Para quem não conhece a revista Trasgo, dê uma olhada nos contos que compõem essa edição de número 3. Tenho certeza de que não vão se arrepender.

Nesta edição das Trasgo temos os seguintes contos:


1 - "Rosas Brancas" (de Roberto de Sousa Causo)

2 - "Feita de um Sonho" (de Caroline Policarpo Cardoso)

3 - "Viral" (de Tiago Cordeiro)

4 - "O Empacotador de Memórias" (de Gael Rodrigues)

5 - "Invasão" (de Cláudio Parreira)


Vamos às resenhas:


1 - "Rosas Brancas"


Autor: Roberto de Sousa Causo Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




Histórias de mães fazendo coisas impossíveis por seus filhos ou filhas são um tema comum em algumas histórias. Mas, Roberto de Sousa Causo usa essa temática em um universo futurista criando as sementes de uma história que parece ser promissora.

Pelo que eu entendi, a ideia é apresentar uma personagem que será usada em histórias futuras. Bella é a filha de Mara Nunes e é uma garota especial: criada em laboratório, teve seu corpo preenchido com nanorrobôs que são responsáveis por fortalecer o seu corpo. Infelizmente ela sofre de uma doença que enfraquece a sua saúde, fazendo com que ela precise se submeter a certos procedimentos para que não morra. Mas, Mara se aliou a um grupo rebelde que prometeu uma cura para Bella em troca de certos dados confidenciais. E, somos colocados na história a partir daí.

Esse conto serve como um prólogo, então vamos ver uma intensa construção de mundo nesse curto espaço. Como o conto possui essa limitação, o autor acabou sofrendo com isso precisando apresentar as informações de forma bastante concisa. Me deixou interessado, mas eu precisei ler alguns trechos mais de uma vez para conseguir captar direito certas ideias. Ele deixa boas sementes a serem trabalhadas depois.

Mas, o ponto alta da história é sua alta velocidade. Tudo é muito dinâmico. A protagonista é trabalhada rapidamente como uma mãe dedicada e que é capaz de tudo por Bella. Isso fica claro nas primeiras três páginas do conto. A partir daí somos apresentados ao que Mara é capaz de fazer. E aí nos damos conta de que Mara não é uma pessoa comum. Daí em diante tudo acontece num estalar de dedos. Nesse sentido, achei a construção da protagonista muito eficiente e fiquei curioso para saber o que vai acontecer com Bella a seguir. Tem alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados, mas fico aqui pensando como fazer isso dentro de um espaço tão limitado. O autor fez muita coisa no pouco espaço que teve e só isso já é digno de aplausos.


2 - "Feita de um Sonho"


Autora: Caroline Policarpo Cardoso Avaliação:

Gênero: Fantasia




Histórias que trabalham com o ambiente dos sonhos são sempre muito difíceis de serem montadas. O autor precisa trabalhar muito bem os ambientes dos sonhos e o da realidade equilibrando bem as situações. Se a ideia é mostrar um ambiente onírico que a protagonista precisa descobrir e, quem sabe, acreditar, é assim que precisa mais ou menos ser feito. Se ocorre um desequilíbrio, tudo pode ir por água abaixo. E aqui a narrativa me pareceu muito confusa e até tem uma revelação interessante que poderia deixar a história em outro nível. Mas, o que foi construído antes não ajudou a tornar a história melhor. Achei até que a autora sofreu um pouco para escrever certas partes. A minha percepção mais uma vez é de uma história que acabou sendo comprimida para caber no formato de um conto.

Roberta é uma jovem assolada por sonhos que se tornam cada vez mais vívidos. Ela sonha com uma multidão que a leva em direção a um lugar que ela sabe que é importante e ao mesmo tempo perigoso. Mas, para a sorte de Roberta, sempre que ela está se aproximando desse lugar, Suzana, sua irmã a desperta para mais um dia de trabalho. A perda da mãe ainda pesa nos ombros das duas e parece que os sonhos estão de alguma forma relacionados com a morte da mãe ou alguma coisa que a mãe de Roberta precisava resolver antes de partir. Em um dia comum após muito refletir sobre sua vida, coisas estranhas irão acontecer à protagonista que a apresentarão a um outro lado de si mesma e a fará questionar suas crenças sobre o que é real ou não.

O meu maior problema nessa história foi não ter conseguido estabelecer empatia com Roberta. Ela nunca me pareceu uma personagem crível ou vívida para mim. Falando dessa forma, parece ser uma leitura muito pessoal da minha parte (e outro leitor pode estabelecer outro tipo de relação), mas eu achei que o conto dependia demais de você comprar o dilema da protagonista. Caso contrário a história acaba ficando truncada e sem sentido.

A escrita da autora é boa e ela sabe trabalhar com ambientes oníricos. As cenas são carregadas de símbolos intrínsecos que alguns mais perceptivos vão se dar conta. A surpresa que ela apresenta no final é curiosa e dá aquela quebra nas expectativas do leitor. Talvez essa quebra possa ter sido o ponto alto da narrativa. No mais, não consegui entrar na história.


3 - "Viral"


Autor: Tiago Cordeiro Avaliação:

Gênero: Ficção Científica




O tema do apocalipse zumbi já foi explorado de diversas maneiras diferentes. Mas, o que permeia a história de zumbis é o tema da sobrevivência em situações extremas. É até onde o homem é capaz de chegar em uma situação completamente absurda. Esse não é o tema aqui. Tiago Cordeiro mexe um pouco nos tropes desse estilo de história para mostrar a força da amizade de dois rapazes. Com zumbis. Mas, não do jeito que vocês imaginam.

André e Pedro tinham uma rádio pirata que eles mexiam como uma brincadeira para passar o tempo na favela. Os dois são amigos há muitos anos, mas cada um acabou seguindo seu caminho após terem crescido. Pedro conseguiu ser bem sucedido entrando para uma faculdade de administração. Nesses dias que eles se encontravam para mexer na rádio pirata eles descobrem uma frequência esquisita que transmitia uma linguagem estranha. Subitamente as pessoas que estavam ouvindo a essa estranha linguagem desenvolvem um comportamento violento e começam a matar as pessoas. Vai ser durante essa confusão que Pedro e André lutarão por suas vidas.

Eu gostei da ideia do Tiago. Sem dúvida alguma é uma ideia muito diferente daquele tipo tema de sobrevivência a la Walking Dead. E ele localizou o cenário em algo tipicamente brasileiro. Se eu posso falar em pontos positivos do conto, estes estão presentes aqui. Porém, eu não gostei da execução. Entendi o que o autor quis fazer ao dar um aspecto mais dinâmico na trama, mas senti que não produziu o efeito que ele descreve na entrevista presente na revista. Ele deixou bastante a cargo da imaginação do leitor, mas senti que tiveram muitas lacunas. Não é nem uma questão de precisar de um texto mais longo, até porque não precisa. Mas, são algumas cenas que poderiam ter sido suprimidas de forma a trabalhar melhor a ligação entre os dois personagens. Acho até que teria sido legal se ele trabalhasse com flashbacks que se sobrepusessem à trama, fazendo uma espécie de interlúdios durante a narrativa. Teria um efeito melhor e reforçaria esse laço.

É um conto bem rápido e ilustrativo de como é uma escrita em vignettes, algo tipicamente cinematográfico. Vale a pena para estudar como essa ferramenta pode ser empregada apesar das falhas de execução presentes no conto. Adorei a ideia do Tiago e quero ver mais coisas escritas dele, mas nesse estilo mesmo. Tenho certeza que é uma questão apenas de acertar o ponto.

4 - "O Empacotador de Memórias"


Autor: Gael Rodrigues Avaliação:

Ficha Técnica: Fantasia




Algumas histórias possuem o dom de nos encantar. A fantasia apesar de ser um subgênero mais voltado para nos mostrar mundos fantásticos e seres mágicos também pode nos apresentar histórias que toquem os nossos corações. Gael Rodrigues nos questiona através deste conto o que estamos fazendo com o tempo em nossas vidas. Estamos construindo memórias duradouras ou seriam elas etéreas e vulneráveis como bolhas de sabão?

O autor constrói sua história seguindo um gênero muito comum entre os autores latino-americanos: o realismo mágico. Trata-se de uma história que se passa em nossa realidade comum com algum elemento encantado que extrapola as leis da física comuns. Além disso, essa extrapolação é tratada como um elemento comum e não chega a ser questionada pelos demais personagens presentes na história. Apesar de parecer o contrário, a história não gira em torno desse elemento mágico, mas sim de como os personagens se relacionam entre si.

Tom é um órfão que vivia com a sua avó durante muitos anos. Porém, sua avó tem uma doença que vai retirando-a do convívio normal com a sociedade, fazendo com que ela não mais se lembre das demais pessoas. Me parece que a avó de Tom sofre de mal de Alzheimer, mas o autor não diz especificamente que se trata disso. Apenas solta algumas pistas e deixa a critério do leitor deduzir se é ou não. Fato é que o protagonista passa o resto de sua vida tentando encontrar uma maneira de preservar ou reviver memórias do passado. Mas, no fundo, ele não passa de um rapaz solitário que não encontra prazer no presente.

Esta é uma história bastante melancólica. Já convivi com uma pessoa que sofria de perda progressiva de memória e essa é uma condição cruel. Se para quem está de fora é um fato triste, para quem sofre da doença deve ser terrível. Mas, como a história trata mais de quem está ao redor, fico pensando em como o protagonista sempre se sentiu abandonado no mundo. Sendo órfão e depois perdendo o contato com a sua avó, ele acabou por se encerrar em seu mundo particular. Ele poderia ter tentado tocar a vida, mas infelizmente ele acabou ficando preso às lembranças do passado. A um tempo idílico que nunca mais irá retornar. Tom acabou por não crescer. E isso vai ocasionar toda uma série de conflitos não resolvidos por ele que farão ele tomar más escolhas ao longo da história.

A história é absolutamente emocionante e a gente fica pensando bastante nas partes finais dela. Isso porque estamos no mundo apenas uma vez. Esse tempo que estamos na Terra é um tempo curto. E fica aquela mensagem de aproveitar este tempo da melhor forma possível com quem amamos, pois este é um tempo que pode não ser recuperado depois.

Outro ponto que eu achei incrível na escrita do autor é sua prosa poética. Cada parágrafo é carregado de melodia e significado. Por exemplo, as bolhas de sabão costumam representar símbolos de memória em várias histórias de ficção. O autor foi muito inteligente ao empregar esse símbolo para demarcar a perda da mesma. Recomendo bastante a leitura do mesmo e fiquei muito curioso para ler outros trabalhos do autor.


5 - "Invasão"


Autor: Cláudio Parreira Avaliação:

Gênero: Fantasia




Algumas pessoas vão estranhar o fato de eu ter dado uma nota máxima para o conto de Cláudio Parreira já que ele não apresenta altas ideias ou uma história elaborada. Mas, pensem comigo: nem sempre uma história depende disso. Um conto pode apresentar meramente uma brincadeira ou uma ironia feita com o leitor. E é exatamente isso o que eu percebi aqui. Invasão parece ser uma forma muito diferente e original de contar a velha piada dos muitos palhaços entrando em um carro. E depois saindo. O conto é extremamente competente em sua completa insanidade.

Aqueles que acompanham o meu trabalho sabem que eu gosto de boas histórias nonsense. Quando bem feitas podem produzir um efeito incrível de confusão na mente do leitor. Foi assim com o romance de Brenda Bernsau que eu resenhei este ano e assim é com este. É uma forma de escrita com um grau elevado de dificuldade e quando o autor consegue entender a falta de compreensão do nonsense, o resultado é esse.

Outra ferramenta que o autor empregou com sucesso foi o fluxo de consciência. A história é contada em primeira pessoa e como o personagem está sem entender o que está acontecendo com tantas pessoas subitamente entrando em sua casa, somos arrastados pelo turbilhão de confusão dele. Em nenhum momento nos sentimos confortáveis porque o protagonista também não está. Estamos querendo saber o porquê daquilo tudo assim como ele, e enquanto ela não vem ficamos cada vez mais ansiosos por saber também. E o autor dá uma rasteira no leitor ao quebrar nossas expectativas ao final. Para mim, Cláudio Parreira está de parabéns ao criar uma história tão engraçada e repleta de uma técnica muito sofisticada de escrita.

Ficha Técnica:

Nome: Trasgo vol. 3 Organizada por Rodrigo van Kampen

Número de Páginas: N/I Ano de Publicação: 2013


Outros Números:

Trasgo nº 1

Trasgo nº 2

Trasgo nº 4

Trasgo nº 5

Trasgo nº 15


Link para download:

www.revistatrasgo.com.br


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