• Paulo Vinicius

O Onírico e o Sentimental na Obra de Isao Takahata

No dia 05 de abril de 2018 o mundo ficou um pouco mais triste: um dos fundadores do Studio Ghibli, Isao Takahata faleceu aos 82 anos. Queria resgatar um pouco dos sentimentos passados pelas animações deste gênio japonês que ao lado de Hayao Miyazaki nos entregou tanta beleza.

Esta coluna do Especial Ghibli vai ser bem difícil para escrever. Ela vai ser um pouco diferente do que estou acostumado a escrever. Isao Takahata é um dos diretores de animação do qual eu tenho um profundo respeito e admiração. O falecimento dele vai suscitar uma série de artigos espalhados na internet sobre a vida e a obra dele. Portanto, vou propor algo diferente. Esta matéria vai ser algo mais pessoal, mais sentimental da minha parte. Quero compartilhar um pouco dos meus sentimentos por algumas das animações de Takahata que mais me emocionaram ao longo dos anos.

Quando falamos no Studio Ghibli, a primeira imagem que vem à mente é a de Hayao Miyazaki. Ele se tornou a imagem do estúdio, o gênio por trás de produções premiadas como Princesa Mononoke, A Viagem de Chihiro e Castelo Animado. Mas, muitos se esquecem do "segundo homem" do estúdio. Takahata atuou durante décadas no estúdio como uma sombra de Miyazaki, sempre o auxiliando em seus projetos. Mas, ao mesmo tempo, Takahata foi responsável por muitos dos trabalhos mais experimentais e de vanguarda do Ghibli. É inegável o talento dele; só que a sua forma de apresentar uma narrativa está em um universo diferente de Miyazaki. Enquanto Miyazaki gosta de quadros amplos e muita informação visível ao espectador, Takahata prefere uma narrativa mais intimista e reflexiva.

Há pouco tempo atrás eu assisti uma série de documentários sobre o Ghibli feitos pela Royal Ocean Film Society que falava um pouco da maneira como Takahata pensa os seus filmes. No documentário, o narrador comenta sobre como as animações dele tem uma característica mais escapista, às vezes sendo até oníricas. Ou seja, ele navega pela imaginação dos seus personagens, produzindo até mesmo uma atmosfera de sonhos. Algo que eu concordo bastante é que as animações dirigidas por ele poderiam facilmente ser filmadas com atores. Não precisavam ser animações. Mas, vai ser a visão mais reflexiva e sentimental do diretor que transformam suas produções em momentos inesquecíveis sendo animações. Como não achar lindo a inocência da protagonista de Only Yesterday e a forma como sua imaginação vaga após encontrar o amor de sua vida? É algo que somente em uma atmosfera de contos de fadas poderia ter sido feito.

O Túmulo dos Vaga-Lumes

É impossível falar de Takahata e não mencionar O Túmulo dos Vagalumes. Mesmo. É a obra-prima dele em toda a sua trajetória no Ghibli. Ao mesmo tempo, é uma animação matadora. Daquelas que pega o seu coração, o coloca nas mãos e o esmaga de uma só vez. É triste, é pungente, é sensível. Mostra a realidade de como a guerra destrói as pessoas. Não escolhe quem são as vítimas. Takahata decide mostrar como o Japão foi afetado pelo final da Segunda Guerra Mundial. Muitas vezes falamos sobre a guerra, mas do ponto de vista dos aliados. Não paramos para ouvir o outro lado. Pior do que isso: O Túmulo dos Vagalumes fala daqueles que ficaram para trás. Toda a animação percorre esse sentimento de opressão e de perda. A narrativa mais intimista de Takahata se foca em dois irmãos que perdem seus pais após o bombardeio de uma cidade japonesa. Ambos passam por muitos problemas e necessidades advindos da falta de perspectivas, da falta de alimentos e até de estarem ao relento. O diretor consegue nos passar todos estes sentimentos em uma narrativa belíssima, mas que faz cada um de nós sofrer. Algumas das cenas são de partir o coração, como quando Seita está pedalando em sua bicicleta junto com Setsuko. Ou mais tarde quando Setsuko fica doente e Seita está ao seu lado, segurando suas mãos entre as suas.

A beleza de suas animações está nas coisas simples. Enquanto Miyazaki escolhe mostrar-nos um restaurante repleto de seres sobrenaturais (em uma das mais belas cenas de A Viagem de Chihiro), Takahata prefere a sutileza dos gestos cotidianos. Uma ida à escola, o pedalar de uma bicicleta, um trem lotado onde o protagonista olha para as luzes da natureza, um restaurante de sushi. Ele passava horas treinando gestos como o cortar de uma melancia ou como o vento atuava em uma folha de papel. Ou até mesmo a forma como os pássaros voam em Chie, a Pirralha. São coisas tão banais, mas que dão um toque de harmonia às produções dele. Querem ver um exemplo crasso disso? Uma das cenas que mais me emocionam toda vez que a vejo é quando Seita e Setsuko estão em um gramado, em um lugar escuro iluminado apenas pelas luzes dos vagalumes. Parece algo simples, mas possui um significado muito profundo. Uma das leituras que eu fiz dessa cena é que cada um dos vagalumes representa uma alma perdida durante a guerra, fosse ela um civil ou um soldado. Esses vagalumes vagavam pela floresta para dar o seu último adeus aos seus familiares.

Mas, o diretor também gostava de experimentar. Meus Vizinhos, os Yamadas foi uma das animações mais diferentes que eu vi em toda a minha vida. Ela foi baseada em uma série de tirinhas de jornal que Takahata decidiu manter nesse formato. Para aqueles que estão acostumados com o tipo de animação tradicional, Meus Vizinhos pode ser algo muito estranho. O visual é muito cartunesco. Por outro lado, é o que mais trabalha com como os personagens percebem as coisas que acontecem ao seu redor. Por exemplo, quando Noboru precisa estudar para a prova e fica enrolando, Noboru imagina várias cópias de sua mãe mandando ele estudar. Ou o cãozinho Pochi e como ele enxerga os seus donos. Ou os problemas de Takashi no serviço. Outro elemento curioso é o emprego de uma linguagem poética japonesa na animação. Quanta ousadia é necessária para usar Bashô nas transições de cenas de uma história cartunesca? Esta ousadia e esta forma de ver o mundo só poderiam vir de uma mente sensível como a de Takahata.

O Conto da Princesa Kaguya

Ao mesmo tempo em que se foca em coisas simples e do cotidiano, Takahata não colocava nenhuma cena por acaso. Todas tinham algum significado. Seja um simples jantar de família, uma viagem ao campo ou um pai levando sua filha a um festival de outono. Talvez é em Chie, a Pirralha que conseguimos ver isso com mais clareza. Mesmo sendo um slice of life, ou seja, uma história sobre o cotidiano dos personagens, é ali que vemos essa visão objetiva e sensível do diretor. Nada é tão belo quanto as cenas familiares em Chie e em Meus Vizinhos. A mãe que dá a mão ao filho para eles seguirem em viagem e balões voam aos céus ou os Yamadas voando ao céu e cantando Que Será, Será. São esses pequenos gestos que compõem a profundidade dos personagens e as suas relações. É o amor da mãe por sua filha, a amizade entre dois amigos ou o amor entre duas pessoas. Como não achar lindo a cena em que Kaguya dá a mão a seu amado e voam por cima de um campo florido em O Conto da Princesa Kaguya? E é uma cena tão desprovida de complexidades, mas tão sutil e sensível ao mesmo tempo.

Queria comentar também sobre Pompoko, uma das animações menos conhecidas do Studio. Pompoko é a história de um grupo de guaxinins antropomorfizados que lutam para proteger a sua colina da construção de um conjunto habitacional. Eles representam tanukis, ou guaxinins sobrenaturais que teriam a capacidade de se transformar em seres humanos. É muito interessante a maneira como Takahata sai do lado selvagem dos tanukis para o seu lado antropormofizado. Quando eles estão no segundo caso que é durante as suas conversas e interações, eles tem um visual mais cartunesco com rostos expressivos. Quando estão no primeiro caso, é o momento em que eles se relacionam com os seres humanos ou observados por eles. Neste momento suas características animais são ressaltadas. Tem uma cena excelente para ver como se dá esta transição que é quando dois grupos rivais de tanukis se enfrentam pelo domínio de um território. As transições entre as duas formas ocorrem rapidamente.

Falando em Pompoko é impossível não comentar da preocupação de Takahata com a relação entre o homem e a natureza. É de fundamental importância para o diretor proteger os espaços onde o homem pode ser mais simples. A preocupação dele com a vida urbana, com a extinção das belezas naturais é vista em várias de suas animações. Pompoko é uma animação melancólica porque apesar de toda a narrativa doce e gentil sobre tanukis defensores da natureza, eles acabam sendo vítimas do homem. Este sempre aparece como um rolo compressor devastando tudo o que os animais consideram sagrado. Vejam a profundidade da narrativa: imaginem ter o seu lar destruído por outras pessoas que não entendem a importância de seu lar. É a destruição da natureza vista por aqueles que estão perdendo suas coisas. Chega a ser triste em determinado ponto da narrativa quando os tanukis começam a perder sua esperança de um futuro melhor. Isso porque estes seres são muito ligados à própria essência do campo.

Only Yesterday é outra animação que retoma esse sentimento de ligação do homem com o campo. Através de uma narrativa dupla de uma mulher voltando para casa e de uma criança descobrindo sua vida, Takahata nos mostra a vida simples daqueles que vivem sob os auspícios da natureza. Coletar flores, prestar atenção no clima, cuidar dos animais, tudo é feito em uma outra temporalidade. Não segue o ritmo das grandes cidades. A própria protagonista de Only Yesterday sente isso nos primeiros dias. Com o passar do tempo ela vai percebendo como aquele mundo vivia sob suas próprias regras. E que talvez, este mundo do campo lhe permitisse desfrutar de uma relação mais reflexiva consigo mesma. Foi nesse universo que ela conseguiu encontrar a si mesma. Tudo isso porque os sons da cidade silenciaram e ela foi capaz de finalmente escutar o seu coração. Mais uma vez o diretor destaca a importância de nos relacionarmos com a simplicidade, com a frugalidade. É esse espírito simples que vagueava nas histórias dele.

Pompoko

Queria terminar essa matéria falando dos dois últimos trabalhos de Takahata (se bem que o último foi apenas como co-diretor): O Conto da Princesa Kaguya e A Tartaruga Vermelha. O primeiro mostra como ele era apegado às lendas e tradições do Japão. Fosse com os hotarus (os vagalumes) de O Túmulo dos Vagalumes ou os tanukis de Pompoko, volta e meia o autor tirava uma lenda da cartola para rechear suas animações. E a lenda da princesa Kaguya é muito tradicional na cultura japonesa. A princesa que nasce de um broto de bambu, é uma princesa iluminada pelos deuses e atrai a atenção deles que desejam que ela case com um de seus filhos. Mas, seu amor pela humanidade é tão grande que ela não é capaz de se desvencilhar de seu contato com o mundo material. É uma história repleta de elementos sutis como o amor de seu pai (um cortador de bambu) que a protege de todos os males; ou do menino que conquista seu coração e ela lhe dá seu amor incondicional que nunca é realizado; as pessoas que a adoram tanto, tanto, que para se casarem com ela, fazem qualquer coisa (até realizar missões impossíveis). Ao lado dos produtores musicais que fizeram uma trilha belíssima, Takahata uniu o insólito ao amoroso em uma belíssima história. Algo de fazer com que suspirássemos ao final da narrativa ou derramássemos uma lágrima com a poesia presente em cada passagem.

Por fim, o último legado deixado pelo autor foi auxiliar Michael Dudok de Wit (um diretor de animação dinamarquês) a levar o seu sonho que era filmar a história de uma tartaruga vermelha que ajuda um náufrago a sobreviver em uma ilha deserta. Se não bastasse todas as qualidades de Takahata que eu destaquei nessa matéria, ele ao lado de de Wit produziram uma obra de arte. A animação foi totalmente produzida sem falas. Temos apenas momentos em que os personagens gritam uns pelos outros, se espantam, grunhem. Mesmo assim, A Tartaruga Vermelha é uma animação extremamente expressiva. Cada movimento, cada gesto, cada toque compõem algo sem igual. Juro a todos vocês que eu jamais vi algo semelhante sendo produzido nesse modelo de animação japonesa. Somente alguém com o coração, a sensibilidade e o espírito onírico de Takahata seria capaz de produzir algo com essa riqueza de detalhes.

Antes de finalizar e agradecer àqueles que leram esse meu depoimento, queria deixar os links para algumas de minhas resenhas de animações do Takahata. Convido a todos para darem uma oportunidade a estas animações. E aqueles que já conhecem, façam como eu: revejam. Cada vez que eu revi alguma dessas animações eu sempre encontrava algo novo no qual reparar. Tenho certeza que as estrelas estão mais brilhantes nos dias vindouros. E que possamos celebrar a vida e a obra deste grande criador de sonhos.


Chie, a Pirralha


Only Yesterday


O Túmulo dos Vaga-Lumes


Pompoko


Meus Vizinhos, os Yamadas


O Conto da Princesa Kaguya


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