• Paulo Vinicius

Meus Vizinhos, os Yamadas

Com um estilo de animação e narrativa bem fora do normal, o Studio Ghibli nos apresenta a história desta família. Vamos acompanhar as alegrias, as tristezas, as aventuras e as trapalhadas deles em vários pequenos esquetes.

Sinopse:


O filme mostra o dia-a-dia da família Yamada, que é composta por Takashi (o pai, um trabalhador comum), Matsuko (a mãe, dona de casa), Shige (a sogra), Noboru (o filho adolescente), Nonoko (a filha criança) e Pochi (o cachorro da família). A história é dividida em quadros curtos, cada um focando algum ponto interessante do cotidiano da família, mais ou menos como se vê nas tirinhas de jornal. Trata de problemas que vemos em nossos próprios lares, como a exigência dos pais para que o filho adolescente estude mais, a mãe que não quer ser tratada como uma empregada, o pai que chega cansado demais do trabalho e tem que acordar cedo para uma reunião de negócios, o adolescente passando por crises existenciais, os pensamentos inocentes da criança... Essas coisas que conhecemos bem...




Realmente o Studio Ghibli gosta de produzir trabalhos peculiares. Depois de uma animação pesada e trabalhosa como Princesa Mononoke, Meus Vizinhos: os Yamadas é, no mínimo, algo exótico. A leveza do enredo e o traço estilístico e de vanguarda tornam a animação curiosa de ser assistida. Eu, definitivamente, estranhei o estilo, mas passado o meu preconceito inicial, me diverti muito com as trapalhadas da família Yamada. A direção e o roteiro foram de Isao Takahata. Pelo estilo de animação e os temas contidos nas 100 horas de projeção, a recepção internacional de Os Yamadas não foi muito boa. Entretanto, ele recebeu uma homenagem do Japan Arts Festival.

O enredo é bem simples e é formado por pequenos esquetes que apresentam a família Yamada vivendo diversas situações engraçadas. Cada esquete dura de 2 a 10 minutos sendo que o estilo lembra muito o das tirinhas em quadrinhos ocidentais. A família é formada por cinco membros (seis se contarmos Pochi, o cachorro): Takashi (o pai), Matsuko (a mãe), Shige (a avó), Noboru (o filho mais velho) e Nonoko (a irmã mais nova). Takahata trabalha noções impactantes para a sociedade japonesa e apresenta-nos uma família bem peculiar: Takashi é o pai trabalhador, porém meio esquecido e atrapalhado. Ele gosta de ver televisão e curtir a neve que cai durante o inverno. Matsuko é uma dona de casa preguiçosa, fazendo o possível para delegar as tarefas domésticas para outras pessoas. Shige é a sábia da família sempre repreendendo Matsuko por ser preguiçosa. Noboru é o adolescente problemático e meio lerdo nos estudos. Nonoko é a sonhadora irmã mais novas, curtindo desenhar e se divertir com o irmão.

Os Yamadas é a primeira animação do studio Ghibli a empregar animação digital. Surpresos? Takahata optou por empregar uma palheta de cores com base na pintura de aquarela que deu à animação um aspecto todo característico. Tratou-se de uma animação experimental usando técnicas diferenciadas de forma a fornecer aos animadores do estúdio a experiência necessária para lidar com a animação digital. Alguns dos resultados desse experimento veremos em A Viagem de Chihiro e Tales from Earthsea, as animações que se seguem. A trilha sonora que compõe a animação é bem simples e, em sua maioria, são composições de piano. Dão a impressão de um ambiente mais familiar. Segundo o Imdb as composições baseadas em obras clássicas como as de Mahler foram tocadas pelo grupo tcheco Philarmonic Chamber Orchestra. Tanto a animação como a trilha sonora ajudam a manter o ritmo quase teatral de Os Yamadas.


Ao longo de toda a animação, mais precisamente na transição entre os esquetes, vemos o emprego de haikus. Para aqueles que não conhecem, o haiku é uma espécie de poesia curta muito famosa no Japão e que tem chegado até o Ocidente muito recentemente. O haiku se aproveita da estética singular da escrita kanji oudo hiragana japonesa para formar poemas pequenos. Na sua composição, o haiku emprega dois símbolos (cada kanji representa uma imagem ou uma ideia) e uma palavra que serve para "cortar" (kireji) os dois kanjis. Esta palavra que corta, ao mesmo tempo liga e relaciona estas duas ideias. No geral, um haiku é formado por três linhas, como, por exemplo:

na velha lagoa um sapo pula na água uma profunda ressonância

A maior parte dos haikus usados em Os Yamadas pertencem a um poeta japonês chamado Matsuo Bashô que viveu em Edo (antigo nome da cidade de Tokyo) no século XVII. Ele foi um dos criadores do sistema por trás da composição do haiku e seus temas variavam da apreciação da natureza até reflexões sobre a essência da vida. Alguns de seus haikus mais famosos se centram na imagem de lagoas (como o haiku acima) e a floração da cerejeira. Abaixo estão alguns haikus presentes em Os Yamadas:

[Nonoko se perde e depois é encontrada] Risadas gostosas quebram o silêncio da véspera do outono.

[Takashi tira uma foto de sua família sem que eles percebam] Uma figura solitária/ de costas/ adentrando na névoa

[Noboru recebe uma ligação da namorada] O cheiro de plumas/ no caminho da montanha/ subitamente o fim da tarde

Os temas de Os Yamadas são relacionados a problemas do cotidiano de uma família comum japonesa. Podemos dizer então que Os Yamadas pertencem ao estilo slice of life que já comentamos em outras resenhas. Por exemplo: Takashi sai com a família em viagem e eles se divertem no carro. Após passarem em um mercado eles acabam esquecendo Nonoko dormindo no banco e saem apressados para retomar sua viagem. Somente algum tempo depois eles se lembram de terem esquecido Nonoko e precisam retornar. Chegando ao mercado, não a encontram e saem disparados para casa achando que ela poderia ter retornado. O fato de ela ter saído com um estranho do mercado deixa Matsuko apavorada. Tempos depois, ela descobre que Nonoko tinha apenas encontrado sua tia e ido passar a noite lá. Outros temas envolvem a inteligência de Noboru, a imaginação fértil de Nonoko e a masculinidade de Takashi diante de um bando de motoqueiros.

Recomendo Os Yamadas para toda a família. É uma animação muito divertida e engraçada, não tendo uma história muito grande. Pode até ser visto homeopaticamente já que os esquetes não seguem uma ordem cronológica. A animação pode ser muito diferente e estranha, mas talvez uma criança de 4 ou 5 anos não note muita diferença. Os temas são bem leves, não tendo nenhuma cena com violência ou nada do gênero.

Para os fãs do especial Ghibli que estão acompanhando as resenhas, semana passada eu acabei optando por colocar no ar uma resenha de As Memórias de Marnie. Optei por fazê-lo porque a animação vai concorrer ao Oscar e seria legal ter uma resenha no ar próximo ao evento. Se Marnie vai ganhar ou não, já é uma outra história (eu acredito que não... acredito que o Oscar fique com Divertida Mente, mas... torcer não custa nada). Na próxima semana, o mais famoso anime do Studio Ghibli, A Viagem de Chihiro.

Ficha Técnica:


Nome: Meus Vizinhos, Os Yamadas

Diretor: Isao Takahata

Produtores: Seiichiro Ujiie, Takashi Shouji e Toshio Suzuki

Roteirista: Isao Takahata

Baseado em Nono-chan escrito por Hisaichi Ishii

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 104 min

Ano de Lançamento: 1999


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