• Paulo Vinicius

O Túmulo dos Vaga-Lumes

Uma das histórias mais impactantes do Studio Ghibli. Um relato daqueles que ficaram para trás durante a Segunda Guerra Mundial e precisaram viver situações complicadas e muitas vezes tristes. O Túmulo dos Vaga-Lumes é uma história inesquecível.

Sinopse:


No seguimento de um bombardeamento da II Guerra Mundial, duas crianças órfãs lutam para sobreviver no Japão rural. Para Seita e a sua irmã de quatro anos, o abandono e a indiferença dos seus compatriotas é ainda mais doloroso do que os ataques do inimigo. Perante o desespero, a fome e o sofrimento, as vidas destas crianças são tão frágeis quanto o seu espírito e amor inspirador. Tudo o que eles têm é um ao outro, e a sua crença é que a vida deve continuar...




Hotaru no Haka ou o Túmulo dos Vagalumes não é um filme fácil de ser visto. Sinceramente eu poderia ter passado a minha vida toda sem sequer ter tido o interesse de vê-lo. Eu entendo a produção do Studio Ghibli sempre com mensagens boas e bonitas, histórias estimulando a amizade e o companheirismo. E este filme não é nada próximo disso. É uma história triste e de violência (sutil, mas violenta). Ao ver os 90 minutos de projeção, pude traçar algumas comparações com alguns filmes de Akira Kurosawa e suas críticas à guerra. Isao Takahata realmente produziu algo bem diferente do padrão que ele mesmo ajudou a criar. Sobre a participação de Hayao Miyazaki, ele apenas participou ajudando na direção e com alguns elementos de enredo. Na biografia do Studio Ghibli diz-se que ele acabou por pedir para não ser incluso nos créditos da animação.

Seita e Setsuko são irmãos que passam por vários apuros durante a parte final da Segunda Guerra Mundial. Entre brincadeiras e diversões eles vivem a dura vida daqueles que ficaram para trás, nas cidades atacadas pelos bombardeiros aéreos. Seita é um adolescente tentando ser responsável e cuidando da sua irmã, último pedido de sua mãe antes de morrer. Setsuko é muito nova, gosta de drops e de brincar de correr. Agitada como toda criança de sua idade, Setsuko vai ter que aprender a lidar com a perda desde muito nova.

A mãe dos dois morre vítima de um ataque aéreo. Não sobrevive a acaba deixando os dois sozinhos antes de chegar ao abrigo. Uma das muitas cenas fortes desse filme é Seita vendo sua mãe completamente deformada devido às queimaduras e contusões do ataque aéreo. O pai de Seita é um marinheiro a bordo da poderosa esquadra japonesa que também se rende no final da guerra. Seita tenta de todas as formas entrar em contato com o seu pai, mas ele nunca responde e Seita não entende porquê (só vai entender o motivo quase no final). Então Seita e Setsuko precisam se hospedar na casa da tia deles por algum tempo. Mas, se inicialmente a tia os recebe de braços abertos com o tempo a situação muda de figura e os dois acabam se tornando um peso. Com as críticas da tia, os dois irmãos acabam saindo da casa dela e se mudando para um abrigo antiaéreo abandonado.

A perda é o grande tema por trás do enredo do filme. Com a guerra, Seita e Setsuko perdem muita coisa: os pais, a casa, a infância, a inocência e até a vida. Vemos esta terrível batalha ao longo de toda a história, sempre torcendo para que algo positivo possa acontecer a um dos dois. Mas, esta esperança não passa de uma ilusão. Aliás, a esperança é a última das perdas dos dois irmãos na história. Quando esta se vai, tudo se perde. No início do filme, Seita aparece caído como um mendigo na estação de trem em Tokyo. É uma cena poderosa que o espectador só vai entender mais tarde. Naquele momento, Seita perdeu tudo, e seus olhos refletem o vazio de quando uma pessoa tem tudo retirado de si.

Isao Takahata quis mostrar nesse filme que a guerra não é bonita. Fala-se muito de glória e de honra quando quem sofre mais são aqueles que ficaram para trás. Em um mundo em que a cada minuto podemos perder a vida nas mãos de um ataque aéreo, a vida das pessoas se transforma. Todos aqueles ao redor dos dois irmãos se transformam. Vemos a tia se transformar de uma mulher doce e carinhosa em uma fanática pelo militarismo japonês. Os irmãos não fazem nada pelo Japão, logo não tem o direito de habitar a mesma casa daqueles que trabalham para o poderoso imperador Hirohito. O fazendeiro que prestava pequenos favores dando arroz em troca de alguns kimonos da mãe de Seita, de repente se torna amargo e egoísta guardando a comida para si. E, em tempos de guerra, será que estas pessoas são tão erradas assim? Ou é o jeito delas de sobreviver e manter a sanidade?

Um dos maiores obstáculos para Seita e Setsuko se torna a busca por comida mais para o final do filme. Não tenho como explicar essa parte sem dar spoilers dos filmes, mas, a morte de Setsuko é muito tola. Ela morre com alguma bactéria ou parasita que poderia facilmente ter sido tratado com algum remédio e muita comida. A sensação de impotência de Seita diante da aflição de Setsuko demonstra tudo: como algo tão bobo pode acabar com sua querida irmã? Acredito que Seita poderia ter passado por cima de tudo o que lhe aconteceu no filme, desde a perda da casa até se tornar órfão, mas ver sua irmã morrer nos seus braços foi o prego final no caixão. Por falar em caixão, não tem como se emocionar ao ver Seita colocando Setsuko dentro de uma caixa de palha com todas as coisas que lhe eram queridas e cremando sua própria irmã. É de partir o coração de qualquer pessoa.

O filme é belíssimo visualmente. A atmosfera do filme é vibrante na maioria das cenas. A praia que os irmãos visitam, a beira do lago em que eles brincam de pega-pega, a floresta de vagalumes à noite. Se alguém pensa que o visual do filme é sombrio, esqueçam. Apenas algumas cenas marcam uma palheta mais cinza que é durante os ataques aéreos. Na maior parte do tempo, vemos Setsuko sorrindo e feliz. O clipe de imagens de Setsuko que aparece após sua morte também corrobora esta vibração de cores. Em alguns momentos, o espectador se questiona se esse é um filme de guerra mesmo.

É preciso ter muito estômago para ver esse filme. A gente acaba se apegando aos personagens. Vendo eles passarem por tantas perdas, faz com que nós desejemos  vê-los vencer. E a derrota final dos dois pela guerra e por tudo o que acontece ao redor nos faz reflexivos. Realmente, qual é o valor de uma guerra? O bem vencer o mal? Quem representa o bem e quem representa o mal? O que dá o título de bonzinho ou malzinho a uma pessoa? Entendo tudo aquilo que está por trás de uma guerra, mas, e as pessoas? O que elas tem a ver com jogos de poder entre nações?

Enfim, Túmulo dos Vagalumes é uma crítica contumaz à guerra e à violência que ela traz para a vida das pessoas. É um filme diferente, lindíssimo, porém, ao mesmo tempo, belamente horrendo e aterrorizante. Não recomendo o filme a ninguém, a não ser aqueles que queiram ver como os japoneses compreendem o impacto da Segunda Guerra Mundial em suas vidas, em suas crenças, em seus valores. Só tenho que concordar com Takahata após ver esse filme: que a guerra nunca traz nada de positivo a ninguém.

Na próxima semana, será algo mais light: vou resenhar Meu Vizinho Totoro, considerados um dos pontos altos da filmografia de Hayao Miyazaki.

Ficha Técnica:


Nome: O Túmulo dos Vaga-Lumes

Diretor: Isao Takahata

Produtor: Toru Hara

Roteirista: Isao Takahata

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 89 min

Ano de Lançamento: 1988


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