• Paulo Vinicius

Pom Poko - A Grande Batalha dos Guaxinins

Um grupo de guaxinins que vivem em uma linda colina lutam contra construtores que desejam aterrar a colina e construir várias casas.

Sinopse:


O crescimento de Tóquio durante os anos 60 originou uma explosão urbanística nos subúrbios; montanhas foram aplanadas e florestas abatidas. Os tanuki, uma espécie de guaxinins, vêem-se ameaçados pelo desenvolvimento dos humanos: a área habitável reduz-se, bem como os recursos alimentares. A falta de comida conduz a guerras internas, mas a sabedoria dos anciões canaliza a energia e a frustração de todos os tanuki contra o inimigo comum: o Homem.




Este é o retorno da dupla de ouro do Studio Ghibli: Isao Takahata e Toshio Suzuki. Pelo enredo eu pude sentir uma influência maior de Takahata muito pela temática de campo x cidade que já havia sido explorada antes por ele. Pom Poko é uma história que mexe muito com as noções de Japão tradicional e Japão moderno, sendo por isso um dos animes que teve maior bilheteria no mercado doméstico. Pom Poko foi a primeira animação do estúdio a ser indicada para o Oscar de melhor animação estrangeira. Já era uma previsão daquilo que estava por vir nos próximos anos.

Antes de falar da animação em si, queria comentar um pouco sobre os tanukis e as kitsunes, dois animais que fazem parte de um grande número de lendas japonesas. Os tanukis são animais que pertencem à família dos cães sendo uma mistura de guaxinins com cães. Alguns especialistas do folclore japonês o identificam com o texugo japonês.

O tanuki é um animal brincalhão que faz uso de suas habilidades especiais para obter vantagens sobre os humanos. Sua principal habilidade mística é a de se transformar em qualquer coisa. Habilidade esta que ele compartilha com as kitsunes. Os dois animais são youkais, ou seja, são animais sobrenaturais. Mas, diferentemente das kitsunes, não são animais maus, apenas espíritos brincalhões e travessos. Suas transformações podem ser em animais, pessoas ou até objetos inanimados.

Nas lendas japonesas o tanuki gosta muito de sake (uma bebida alcóolica tradicional no Japão e muito forte). Seus disfarces são normalmente frustrados pelo seu vício em sake. A barriga do tanuki às vezes é apresentada como uma espécie de tambor em que eles batem para chamar os outros de sua espécie.

Já a kitsune é uma raposa mística capaz de se transformar em um homem, um sábio ou uma mulher bonita. São animais maléficos e gananciosos que costumam frequentar os sonhos dos homens. Existem algumas kitsunes boas (as raposas de Inari) geralmente associadas às pessoas sábias. Alguns especialistas em folclore japonês acreditam que a lenda da kitsune tenha sido importada da China, mas a maioria concorda que existem elementos únicos presentes na cultura japonesa. Quanto mais velha uma kitsune fica, mais sábia ela se torna. Diz-se que a cada 100 anos ela ganha uma nova cauda podendo chegar até nove caudas quando sua pelagem muda para uma coloração dourada.

A história se passa em uma região próxima ao núcleo urbano de Tokyo. Nas colinas próximas, duas tribos rivais de tanukis disputam território na floresta. A batalha prossegue até que a sábia Oroku pede que eles parem porque chegara a hora de eles se unirem porque o homem começava a destruir a floresta dos tanukis. Um conjunto residencial enorme está sendo construído nas proximidades e escavadeiras estavam destruindo com a floresta. Os tanukis se unem para tentar impedir. Só tem um pequeno problema: por serem tímidos os tanukis não podem conversar com os homens. Oroku inicia o treinamento dos tanukis para que eles aprimorem sua arte de transformação. Gonta representa os tanukis mais jovens e revoltados contra a chegada do homem. Ele e um grupo de tanukis se unem e começam a atacar as construções próximas. Mas, durante uma de suas investidas, Gonta se machuca e precisa ficar longe das empreitadas durante um ano. Shoukichi, um tanuki mais ponderado assume a liderança e propõe que eles apenas assustem os homens se fazendo passar por fantasmas. Mas, os sustos não resolvem muito e eles decidem consultar os anciãos tanukis da ilha de Shikoku. Juntos eles planejam uma grande investida só que... Bem, aí você vai ter que ver a animação para saber.

Bem, eu achei Pom Poko fantástico. A imaginação de Miyazaki é assustadora. Ele consegue transformar um filme sobre texugos falantes em algo muito profundo. Esqueçam a noção de que são texugos falantes e analisem a mensagem passada na história. Novamente a noção de campo e cidade são exploradas mas em um sentido de tradição contra modernidade. A própria animação mostra isso: no início vemos muito verde, rios, colinas. No final, não conseguimos mais encontrar o lar dos tanukis (salvo o templo que resiste até o final). As imagens são exuberantes e eu posso imaginar o trabalho que foi lidar com as transformações individuais de cada tanuki. Cada um deles tem sua individualidade e sua característica única. Às vezes em uma mesma cena temos dez ou quinze tanukis se transformando em elementos diferentes. No momento da ida deles até a cidade a riqueza de elementos de composição do cenário é imensa. A trilha sonora permanece se focando em elementos do campo e as músicas tradicionais folclóricas que envolvem os tanukis.

Pom Poko é uma forte crítica contra a destruição das áreas verdes para a construção de shoppings e centros residenciais. Não esqueçamos que o Japão é 90% urbanizado e apenas restam poucas regiões verdes preservadas. Muito da fauna tradicional japonesa corre risco de extinção. As cenas finais da animação são muito tristes e mostram aquilo que era e aquilo que se tornou. A prosa de Takahata aliada às belas animações de Suzuki ditam o tom deste contrasenso. Em nenhum momento os humanos pararam para avaliar o impacto ambiental do que estavam fazendo. A destruição era inexorável e foram os tanukis que tiveram que se adaptar ao novo status quo.

Ao mesmo tempo, Takahata quis mostrar que nada poderia ser resolvido com violência. Ele faz também uma crítica aos ecoterroristas (na época em que a animação foi lançada, os ecoterroristas eram em grande número). Apenas com sabedoria e compreensão é que os tanukis seriam capazes de lidar com o problema. Podemos ver que todas as vezes em que Gonta sai para atacar as obras os humanos acabavam revidando de uma forma mais violenta. No final, o desespero foi tão grande que isso acabou por acelerar a destruição da colina. Shoukichi tenta ser mais ponderado, mas é acusado de ter se tornado humano demais. Mas, foi apenas a sua solução que foi capaz de salvar os tanukis da destruição certa. Conviver com os humanos e tentar obter sua simpatia foi a maneira de salvar alguns espaços verdes.

Outro elemento interessante foram os interesses midiáticos. As redes de televisão se aproveitavam dos acontecimentos sobrenaturais para fazer notícia. Quando o dono do parque de diversões se aproveitou do ocorrido, eu percebi na hora a crítica de Takahata. Para ele, a diversão e a alegria estava no desfrutar da natureza e viver em harmonia com ela. Os parques de diversão representam apenas uma futilidade criada pelo homem moderno. Achei fantástico aquele momento final em que são interpostas um cenário tradicional e a zona residencial. Posso supor que foi uma cena que tocou fundo nos corações das pessoas de mais idade no Japão. Os mais jovens não são capazes de compreender como estes espaços simples são tão importantes para nós. O excesso de elementos de audio e vídeo acabou tirando a nossa capacidade de observar a natureza.

Esta foi uma das animações que mais me emocionou até o momento. As cenas finais são de partir o coração. Novamente: ultrapassem a noção de que Pom Poko é sobre texugos falantes. Takahata escreveu uma história riquíssima em noções como amizade, colaboração e respeito à natureza. Na minha opinião, é uma prévia daquilo que será a composição da temática por trás de Princesa Mononoke, um dos maiores títulos do estúdio. Essa é uma animação que eu recomendo a todas as idades (diferentemente de Mononoke que é muito violento).

Na próxima semana falaremos sobre Sussurros do Coração.

Ficha Técnica:


Nome: Pom Poko - A Grande Batalha dos Guaxinins

Diretor: Isao Takahata

Produtor: Toshio Suzuki

Roteirista: Isao Takahata

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 119 min

Ano de Lançamento: 1994


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