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Neste segundo volume temos mais três histórias da milady das trevas. Na primeira, vemos a chegada do príncipe dos vampiros e da sedutora Zora ao reino infernal; na segunda, uma ex-bailarina precisa cuidar de seu companheiro em uma cadeira de rodas. Mas, se tornou um abusador alcoólatra e a vida dos palcos ficou para trás. Por fim, Grimória conhece o poeta Mariusz e surge uma improvável conexão.

Impróprio para menores de 18 anos


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Sinopse:


Segundo livro de Suspiria a ser publicado no Brasil. Três novos contos escritos por Luca Laca Montagliani e desenhados por Alex Horley, Andrea Bulgarelli e Andrea Jula.


Suspiria é a personificação onipresente do medo e do desespero. Ela perambula pela Terra desde o início dos tempos, caçando e punindo almas que não conseguem se livrar do próprio destino por pura indolência. Suspiria está sempre na companhia da sua mãe Santa Morte e das suas três irmãs, Nênia Candelária, Sudária e Grimória.





Esse é o segundo volume de Suspiria, uma criação de Luca Laca Montagliani. É uma obra com teor altamente sensual e erótico, mas Montagliani consegue encaixar algumas reflexões interessantes sobre humanidade, violência e libertação. Às vezes fica-se preso aos desenhos de mulheres esculturais nuas e Montagliani não esconde o uso de uma poesia decadentista e até de uma filosofia libertária para tratar de temas difíceis. Quando o primeiro impacto passa e o leitor presta atenção no que está lendo, o resultado é bem diferente. No geral, a experiência que eu tive com este segundo volume foi diferente do primeiro no sentido de que passei a deixar um pouco de lado a surpresa com o erotismo e observar as minúcias. Montagliani premia o leitor atento com uma dose bem curiosa de pensamentos. Só nesse volume, ele nos coloca diante de um grupo de vampiros incomodados com a efemeridade e materialismo da humanidade, uma mulher cuja vida parou para poder cuidar do marido e um poeta que observa a beleza e a curiosidade mesmo em um lugar infernal.


A edição da Tai Editora está bem legal com uma capa dura com uma ilustração belíssima de Suspiria e seus dotes. Sinto apenas a falta de um prefácio ou algum texto de algum brasileiro para dar um ar diferenciado à edição. A Tai poderia pedir para alguém como o Alexandre Callari (que é fã do gênero) para escrever um texto bacana para a edição. Contudo, cada uma das edições tem algum texto seja do próprio autor, de um bailarino (tem a ver com a segunda história), de um artista ou até de um psiquiatra analisando as prisões que o amor impõe àqueles que se envolvem em uma relação tóxica. O papel empregado é o off-white e ajuda bastante nas pinceladas firmes em preto. Os trechos em colorido ficam meio vazados, mas nada que prejudique apreciar a linda arte do quadrinho. A tradução está muito boa e não tive dificuldades em entender as histórias. Me faltou um pouco de contexto para entender quem eram o tal do Deathless e da Zora, que aparecem na primeira história. Me parece ser alguma referência do mundo do metal.


Mencionando história por história, a primeira delas chama-se Em Nome de Lúcifer e nos mostra um grupo de vampiros cansados de estarem na Terra adentrando no inferno. Suspiria conhecia já o Príncipe das Trevas que veio acompanhado da sedutora Zora. Montagliani nos traz um grupo de imortais cansados de lidarem com uma humanidade que permanece cometendo os mesmos erros. Para ele, é preciso uma renovação na Terra e eles precisam do anjo caído para lhes oferecerem seu poder. Mas, a Mãe Morte nega o contato com Lúcifer que dorme em um sono profundo. O autor faz uma crítica profunda à maneira como a humanidade usa o seu tempo de vida. Suas ações não levam a lugar nenhum e mesmo seres imortais como os vampiros podem se cansar de observar tamanha estupidez. Entrando mais a fundo na mentalidade de Montagliani observamos que em seus contos os humanos são sempre apresentados como seres desprezíveis e mesquinhos. As criaturas sobrenaturais e demoníacas são entendidos como seres puros em sua maldade e danação. Por conhecerem os pecados, sabem reconhecer o véu que separa a verdade da mentira, o tolo do iluminado. Só vemos mulheres que sofrem algum tipo de abuso ou violência como alguém que possui algum tipo de qualidade como a menina no volume passado que sofria violências desde a infância e o amor verdadeiro veio do lugar mais inesperado e nessa edição mais dois humanos.



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A arte de Alex Horley é lindíssima puxada em tons sépia e em um vermelho bem carmesim. Suas figuras são repleta de detalhes obscuros e angulosos. Algumas de suas splash pages são belíssimas e fiquei muito em dúvida se achava a arte de Horley ou a do Andrea Jula melhor. A diferença é que as mulheres desenhadas por Horley são mais fisicamente imponentes enquanto Jula não se importa em desenhar imperfeições. Existe também um ar maligno em Suspiria que confere esse aspecto demoníaco de sua personalidade. O design da Zora me fez lembrar imediatamente das amazonas guerreiras de histórias de capa e espada como a Valeria nas histórias do Conan. Outro detalhe é que o artista sabe aproveitar todo o quadro mesmo que ele precise nublar alguns cantos ou inserir elementos repetidos. Horley usa poucos quadros e tem uma boa noção de profundidade. Suas paisagens parecem ser imensas, mesmo que o quadro seja no tamanho padrão.


A segunda história é a que dá nome ao volume e mostra uma história mais pé no chão do autor. Ele nos mostra uma mulher cuja vida está presa a um marido alcoólatra e abusador. Abusador não no sentido sexual, mas moral. A jovem e seu marido eram um casal de bailarinos que faziam sucesso pelo mundo todo. Mas, um acidente fez com que as pernas de seu marido ficassem paralisadas e ele ficou rendido a uma cadeira de rodas. Desde então sua rotina é ser xingada, ofendida e fazer todas as vontades do marido. Ainda mantendo a beleza do passado, ela é alvo dos olhares de homens cobiçosos diante de suas curvas voluptuosas. Para ganhar a vida, ela vende flores na praça até o dia em que um velho compra todo o seu cesto e a leva até um beco para fazer maldades. É então que Suspiria e Nenia aparecem para lhe aconselhar. A jovem precisa fazer uma escolha antes que esta lhe seja retirada para sempre de suas mãos. E pode ser uma escolha que poderá amaldiçoá-la para sempre.


Montagliani nos apresenta um enredo bastante comum na vida real, usando o seu estilo único de contar histórias. A protagonista vive uma relação tóxica com o marido que a maltrata diariamente. Ela se sente em dívida com o marido por achar que é sua obrigação como esposa. Em sua mente paira também o medo de sofrer com o ostracismo social. Só que a sua infelicidade é perceptível ao não ser capaz de viver uma vida digna. Suspiria mostra também a ela que seu marido tinha inveja do sucesso da esposa, que era a mais talentosa do casal. De certa forma ele é em boa parte responsável pelo ocorrido. A milady das trevas também questiona se a jovem não merecia um amor que a tratasse com respeito, lhe dando aquilo que ela precisava. É uma trama simples, mas que possui um grau de veracidade que é incrível. Esse tipo de relação existe em toda parte e é responsável por uma enorme quantidade de crimes de feminicídio e violência doméstica. O pior é que esses contextos quase nunca são denunciados a tempo de evitar algo mais grave. Sem mencionar que o tema desta história também é o da masculinidade tóxica, não apenas do marido, mas de outros homens da vila. Estes desejavam apenas abusar do corpo da jovem, como se transar com um grande número de mulheres fosse um selo a ser exposto e dar orgulho. Dois amigos da vila competem para ver com quantas estes são capazes de levar para a cama. E a jovem é um desafio a ser superado, já que ela é fiel ao marido. Curiosamente, esse é o enredo menos erótico dos três, na minha visão. Tem alguns vislumbres de erotismo, mas o enredo se centra mais nos problemas vividos pela protagonista.


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Embora conheça várias pessoas que curtem a arte do Bulgarelli, confesso que ela não me agrada nem um pouco. Ele tem uma boa noção de ângulos de cena e até de preenchimento do pano de fundo, mas algo no que ele apresenta nos quadros não conversa comigo. Não sei se é porque o design de personagens me parece estranho ou fora de compasso ou se a movimentação dos personagens pelos quadros me é esquisita. Até mesmo a sequencialidade em alguns momentos (como na praça com ela carregando o cesto e encontrando a dupla de homens cobiçosos) não encaixa com a visão passada pelo roteiro. Provavelmente é isso: o roteiro parece estar indo para um lugar e a arte para o outro. De toda forma, Bulgarelli sabe desenhar umas cenas bem pesadas e fornecer o impacto emocional necessário. Seja a expressão da jovem ao ser ofendida pelo marido e a expressão belicosa de um homem devastado por uma vida infrutífera, ou os gestos maliciosos de Nenia diante de uma mulher destruída. Nessas poucas cenas, consigo ver o que faz do artista tão reconhecido.


A última história é deliciosa porque nos remete a vários filmes que já vimos em outros momentos. Desde o volume passado que vimos Grimória como a irmã que menos se encaixa por ser alguém talvez não tão atraente quanto as outras. Seu domínio é o das maldições, então sua ação não é tão direta quanto a de Sudária ou até de Suspiria. Na narrativa, chamada A História de M, vemos o poeta Mariusz indo parar no barco de Grimória para ser levado às profundezas do inferno. Montagliani é bem sutil ao nos dizer como Mariusz morreu, o que merece eu não contar. Basta entendermos o quanto o poeta é uma pessoa doce e respeitosa, mesmo àquelas que o difamaram em seu lugar natal. Rapidamente Grimória toma interesse em Mariusz que se mostra um homem curioso pelas hordas infernais. Os dois desenvolvem uma conexão curiosa que vai se revelar ser uma estranha fascinação sexual entre um escritor infernal e uma demônio das maldições. Grimória tem dificuldades em lidar com seus sentimentos já que seus dotes giram em outra direção então é interessante perceber que caminhos o autor usa.

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Mariusz é alguém capaz de enxergar as coisas além do que elas aparentam ser. Encontra a beleza das situações e do coração dos indivíduos nos lugares mais bizarros possíveis. Sua fascinação por Grimória vem de ele entender que ela esconde uma profundidade que outros não são capazes de ver. Ao longo de toda a história, o poeta decadente usa palavras simples para lidar com a mulher pela qual desenvolve um afeto. É curioso pensar que Grimória por ter muito conhecimento é alguém eloquente e acaba sendo atraída por um indivíduo de hábitos simples. Grimória tenta encontrar uma racionalidade no que está acontecendo a ela, mas se vê incapaz. É quando Suspiria lhe diz para apenas aproveitar a situação toda e curtir o prazer em suas mais variadas vertentes. Quando ela se liberta de seus medos e receios é que o que os dois sentem florescem. Essa cena do olho, apesar de mórbida, é de uma beleza encantadora. Digna de um poema de William Blake.


A arte do Jula é incrível também. Gosto de como ele não se incomoda em desenhar imperfeições, em ser curvilíneo quando deveria ser reto. Jula tem uma visão das cenas que me remetem aos escritores vitorianos do século XIX com personagens malditos buscando sua redenção. Só que o mundo ao redor é um dos infernos clássicos, ou seja, há criminosos e amaldiçoados aos quatro cantos da cena. Jula representa muito bem estas cenas partindo de uma base cinza no corpo dos personagens e preenchendo com um vermelho sanguíneo que chega a encantar em um jeito maldito. O desenho que ele faz da barca dos condenados atravessando o rio Styx é belíssima. Gosto também de como ele consegue trabalhar bem as expressões dos personagens e a cena acima com Mariusz entregando os seus olhos é de arrepiar.


Mais um bom volume de Suspiria e a cada novo volume somos apresentados a mais camadas da escrita de Montagliani. Fiquei em dúvida se achei esse volume melhor ou pior do que o anterior, mas a primeira história me incomodou um pouco porque exigia alguns conhecimentos de mundo que são de fora da história. Nesse sentido o roteirista pecou. Em todo caso, temos a segunda história com um roteiro excelente e uma terceira história que é muito sutil e bela ao tratar de outro lado das irmãs.



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Ficha Técnica:


Nome: Suspiria - Coração em Chamas

Autor: Luca Laca Montagliani

Artistas: Alex Horley, Andrea Bulgarelli e Andrea Jula

Editora: Tai Editora

Tradutor: Duda Ferreira

Número de Páginas: 192

Ano de Publicação: 2023


Outros Volumes:


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Qual é o seu lugar favorito de leitura? O tipo de leitor que somos pode ser entendido a partir de quais lugares preferimos. Ao mesmo tempo, como estes lugares eram localizados em tempos passados?


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No quarto, no sofá, na rede, no ônibus. Os lugares podem variar de pessoa para pessoa. Mas, eles representam muito de quem somos. A pergunta "qual é o nosso canto favorito de leitura" nunca teve tanto significado quanto hoje com uma quantidade cada vez maior de leitores se engajando e popularizando esse hobby tão íntimo e pessoal para cada um de nós. Nesta matéria vamos discutir o passado e o presente desse tema que já foi questionado por gerações e gerações de leitores. Será que no passado gregos e romanos liam nos mesmos lugares que nós? O quanto um lugar é capaz de dizer que tipo de leitores somos? Vamos refletir juntos sobre esse tema e trocar uma ideia sobre quais são os lugares ideais para praticar o ato de leitura ou se sequer existe isso de lugar ideal.


Vou começar falando um pouco sobre a minha experiência como leitor e quem sabe algum de vocês se identifica. Desde jovem não faço muita questão de um lugar específico para ler até porque só fui ter um quarto próprio tarde em minha vida. Precisei aprender a filtrar os ruídos dos ambientes ao meu redor para conseguir realizar minhas leituras. Quando estou engajado realmente em um universo literário ou com uma boa discussão, entro em um mundo próprio onde a realidade silencia e acontece sem a minha participação. Um estágio pleno onde consigo filtrar e ignorar o que se passa. Não é estranho então eu dizer que consigo ler sem grandes dificuldades em um ônibus ou um trem. Geralmente são lugares onde as minhas leituras mais fluem porque não tenho distrações ou compromissos que tirem minha concentração. Consigo fazer uma leitura até mesmo em pé se eu tiver espaço o suficiente no ônibus. Em casa hoje ainda não tenho o espaço ideal de leitura porque estamos em obras há vários anos. Então acabo precisando improvisar no sofá da sala ou pendurado em uma cadeira. Futuramente terei o meu próprio espaço, o que será surreal para mim que sempre tive que improvisar lugares.


Mas, isso acontece para todos? Muitos dos leitores fazem suas leituras na cama, em seus quartos de dormir. Talvez esse seja considerado o espaço mais íntimo da casa por excelência. Como formador de leitores, costumo questionar meus alunos onde eles preferem ler até para ter uma noção de como vai funcionar o espaço de trabalho na escola e como combinar regras de convivência. Mais da metade deles preferem um lugar que seja silencioso, para que o conteúdo do que esteja sendo lido possa ser absorvido com maior facilidade. É o que conhecemos como leitura atenta. Nessa modalidade a leitura consegue ter maior fluidez e a apreensão é mais profunda, com o leitor conseguindo rememorar bem os acontecimentos passados na trama. Outros não se importam tanto com o lugar por não terem escolha. Seja porque o espaço da casa é pequeno ou por morarem muitas pessoas no mesmo ambiente. Estes costumam fazer mais aquelas leituras de entretenimento onde não há a necessidade de um teor de profundidade no que está sendo lido. Nesta leitura mais superficial, o leitor consegue apreender a narrativa em uma visão macro, mas tem bastante dificuldade de citar detalhes porque estes escapam diante das distrações.


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Só que precisamos deixar algo bem claro: nem sempre existiram quartos para leitura. Ou cômodos específicos para isso. Alberto Manguem em sua obra Uma História da Leitura nos mostra como isso se desenvolveu ao longo dos séculos. Gregos e romanos tinham uma visão bem distinta sobre onde realizar suas leituras. As klines gregas eram pedaços de madeira com decoração de animais onde o leitor poderia se reclinar para ler sozinho ou junto de outras pessoas em reuniões sociais. Para o conforto poderia haver algum tipo de travesseiro, mas sem a preocupação de um apoio dos pés. Por outro lado, os romanos tinham diferentes tipos de camas (lectus) para dormir, para ler ou apenas para descansar. Demonstra uma preocupação maior com o ato em si que era mais privado. Curiosamente a expressão elucubrar veio do latim lucubrum, um tipo de vela de pano ensopada em cera deixada próxima ao ambiente de leitura para ajudar nas longas noites de leitura.


Não nos esqueçamos de que ler era um ato estritamente masculino e as mulheres que os faziam eram transgressoras. Temos casos famosos disso, mas, por exemplo, na Grécia clássica aquelas que podiam usar as klines eram as cortesãs. Cabia às mulheres gregas cuidarem da casa e produzir filhos para a continuidade da família. Os romanos eram um pouco mais abertos, mas não menos taxativos que seus antecessores. Vamos encontrar no Oriente as mulheres que escreverão os livros de travesseiro como Sei Shonagon, que se tornará famosa entre seus pares. Contando histórias que traziam parte da cultura oriental em romances tórridos para a época, ela abrirá espaço para que outras mulheres assim o possam fazer. Os livros eram escritos às escondidas durante o dia e, de fato, escondidos embaixo do travesseiro. O quarto de dormir era usado como um espaço de transgressão, para abrir portas para um novo contingente de leitoras e escritoras.


Com a queda do Império romano, as invasões germânicas e as pequenas guerras entre facções que acontecem ao longo da Alta Idade Média, as camas deixam de ser objetos elaborados para serem mais descartáveis. Os catres eram camas mais simples que podiam ser deixadas para trás caso uma família precisasse abandonar suas casas em um saque ou guerra. Este é um momento de bastante carestia pelo mundo feudal com as famílias sobrevivendo com bem pouco. Os espaços de lazer eram poucos e não havia espaço para cultura. Os dias de descanso eram usados para se passar juntos ou até trabalhando no trecho da terra usado para subsistência. Mesmo entre os nobres, não havia uma busca por livros. A maior parte dos nobres era analfabeta, então um objeto que não tinha como ser decifrado não exercia grandes atrativos. A Igreja concentrava os livros em seus scriptoriuns e com isso controlava a difusão do conhecimento.


Se formos analisar como os religiosos abordavam o ato de leitura podemos entender a partir das experiências dos monges mais voltados para os estudos teológicos e daqueles que trabalhavam com a recuperação de livros do período clássico. Os quartos dos monges eram bastante modestos, representando locais para orações ou para uma reflexão de seu sida. As camas eram parecidas com os catres mencionados acima. É no espaço das celas que os monges obtinham o silêncio necessário para suas leituras "iluminadas". A concentração obtida permitia a eles memorizar ou interpretar o que estava sendo lido. Já por outro lado, os espaços privados dos copistas eram uma bagunça de documentos que apenas eles mesmos sabiam compreender. Iluminado à luz de velas, era um espaço de produção de conhecimento para outras línguas, e um trabalho realizado vinte e quatro horas por dia. Será por meio deles que obras que julgavam-se perdidas ganharão novas oportunidades como Virgílio, Aristóteles, Estrabão.


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Com a ascensão da burguesia a partir do final da Idade Média, veremos uma necessidade deles de precisarem legitimar sua posição. Essa será uma tônica do período Moderno com burgueses chegando a comprar títulos de nobreza para conseguir privilégios. Eles queriam conquistar o espaço dos nobres a todo custo e isto envolvia também ostentar status. Uma das maneiras para isso era a criação de bibliotecas privadas em suas casas. Possuir livros era um indicativo de nobreza, de posição dentro de uma sociedade. É nesse momento que o quarto de dormir passa a ser usado para acumular objetos mais pessoais. Até mesmo itens únicos, de colecionador poderiam estar no quarto. Logo, o espaço precisou aumentar para que pudesse caber outros itens e móveis. Só que é preciso fazer uma distinção: enquanto que os livros ficavam acomodados nas estantes, outros itens íntimos eram guardados em baús para que fossem conservados por mais tempo. Curioso pensar que nem todos os burgueses sabiam ler e possuir livros poderia ser mais um hábito de ostentação de fato. Ou até mesmo se adquiriam coleções de capa dura ou colorida para fazerem o ambiente ficar com um ar mais erudito. Para quem pensa que só hoje se compram livros a quilo para compor um ambiente no fundo, olha aí de onde veio a ideia. Preencher o ambiente.


Só que o quarto não tinha esse uso atual como um espaço íntimo e reservado. Até o século XVIII e XIX o quarto poderia ser usado como um corredor de passagem comum. Ou seja, não pensem vocês que havia paz e tranquilidade para uma leitura absorta. Foi preciso um longo processo de mudança de mentalidade para que o espaço de dormir ou de relaxar pudesse se tornar habitual. Sem contar que apenas famílias ricas podiam dispor de quartos individuais. O mais comum era que membros da família dividissem seu espaço de dormir. Cerimônias coletivas como reuniões ou orações também tomavam lugar no quarto. O século XX inova com essa necessidade de criar espaços particulares para cada membro da família. Hoje nos refugiamos em nossos cantos, damos personalidade a eles. Espaços de leitura podem se tornar nossas bibliotecas de Alexandria pessoais. Essa é a principal mudança ocorrida nos tempos modernos.


Outra dessas mudanças envolve o dinamismo de nossas vidas. Como nosso tempo de lazer é escasso, tendemos a usar espaços pouco usuais para realizarmos nossas leituras. Como mencionei acima o fato de eu ler no transporte coletivo. Isso era algo impensável em tempos antigos, mas que hoje pode ser a diferença entre terminar ou estender uma leitura. Em meus tempos como universitário quando precisava ler entre 300 e 500 páginas por semana, o local não era o mais importante, mas sim o silêncio necessário para a compreensão da tarefa deixada por meu professor. E como serão os espaços de leitura no futuro? Com a chegada de novas formas de leitura como os audiobooks pode ser que nossa relação com os livros mudem sensivelmente nas próximas décadas.




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Em uma coletânea de histórias que se passam em lugares como um futuro próximo no Centro-Oeste brasileiro, em uma noite regada a muita música, em uma estranha empresa onde as horas parecem nunca acabarem ou em uma conferência sobre energia atômica, Thiago vai discutir temas como arrependimentos, traições, descobertas e tanto do que faz nossos corações baterem mais forte.


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Sinopse:


Mesmo as mais áridas histórias de ficção científica que se passam em tempos e planetas distantes são feitas de gente. E pessoas se relacionam.


Conhecer romantasias, histórias que unem romance e fantasia, me fez pensar em romantífica: romance + ficção científica. Relacionamentos — e histórias — ainda serão feitos de gente quando for impossível distinguir uma inteligência artificial de um humano ou quando seu par perfeito puder ser construído via robótica ou engenharia genética?


Daí surgiram estes contos, alguns como reflexão, uns como brincadeira, outros como ansiedade. Boas-vindas à Romantífica.







O gênero de romantasia vem se tornando muito popular no Brasil nos últimos anos. Para quem não conseguiu associar o que é o gênero aos temas que ele aborda, é algo bem simples: geralmente são narrativas voltadas para relacionamentos que empregam a literatura de gênero como um cenário. As narrativas podem ou não conter situações de maior ou menor violência dependendo do autor. Entre alguns dos títulos mais famosos nesse estilo do momento estão The Fourth Wing, da Rebecca Yaros, ou A Sociedade de Atlas, da Olivie Blake. Mas, estamos aqui para falar dessa bela coletânea do Thiago Lage. E, ele vai mais para a linha da ficção científica do que para a fantasia no geral. Em algumas delas, ele vai empregar um cenário brasileiro, mas nem sempre apontar o cenário vai ser importante para aquilo que tem a dizer. Nas histórias, ele vai procurar te dar as condições necessárias para que você compreenda o que precisa saber sobre o nível tecnológico ou o contexto em si. Na maior parte das vezes vai funcionar muito bem e o leitor vai conseguir levar numa boa.


O estilo de escrita do Thiago vai variar de acordo com a narrativa. Algumas de suas histórias são mais reflexivas, com os personagens precisando lidar com alguma mudança em suas vidas ou rememorando o seu passado. Nesse caso, as narrativas serão repletas de parágrafos contendo fluxos de pensamento ou descrevendo momentos/emoções. Em outros contos, teremos um foco maior nos personagens envolvidos na história, com diálogos rápidos. Admito que não sou fã desse emprego de diálogos, em grande quantidade, porque sempre acho que é possível suprimi-los com verbos de ação (concordo, nego, meneio a cabeça, fecho os olhos). Mas, para o que o autor quer alcançar naquele conto em específico, funciona até certo ponto. Alguns contos são maiores como o primeiro, Malus Restituta, e o último, A Cidade do Átomo, mas alguns são quase como micro-contos. Então tem histórias para todos os gostos. Não senti nenhum problema com emprego de jargões ou alguma coisa específica. Quando Thiago cria alguma tecnologia ou expressão específica em uma história, ele explica bem para o leitor qual é a sua função ou utilidade.


Selecionei algumas das histórias para tecer alguns comentários. A primeira delas é a primeira mesmo. Em Malus Restituta temos um personagem chamado Rubens que retorna ao Brasil depois de muito tempo na Europa. Ele era envolvido com Flávio, o amor de sua vida. Mas, sua vontade de continuar seu trabalho e algumas discordâncias entre o casal os fizeram se distanciar até uma eventual separação. Rubens fez uma série de procedimentos estéticos nesse mundo futurista para estender sua vida. Um mundo que foi afetado pelo clima e fez com que vários vegetais que faziam parte de nossa alimentação desaparecessem e tivessem que ser substituídos por versões mais sintéticas. Thiago discute temas bem caros ao meio ambiente que tem sido levantados como o empobrecimento dos solos, os efeitos nocivos das alterações climáticas, a exploração nociva do agro versus uma produção mais tradicional. E em como o desaparecimento de produtos que temos como normais pode significar uma mudança drástica na maneira como nos relacionamos com os alimentos.


Mas, Malus Restituta não é apenas isso. É a história de um doce amor do passado que foi afetado pelas intempéries que a vida nos apresenta. Afinal, nem sempre somos maduros o suficiente para lidarmos com determinadas situações. Nos falta a sensação de perda e saudade que faz com que lutar um pouco mais por uma pessoa possa valer mais a pena. Ou apenas uma situação não é possível de ser contornada, mas pode ser revisitada mais tarde. Às vezes somos como maçãs: ainda verdes, não estamos próprias para apresentarmos nossa verdadeira doçura. Somente quando vermelhas e prontas para colheita é que iremos mostrar o quanto somos saborosas. Na narrativa, Thiago emprega flashbacks e retornos ao presente para nos contar como foi a relação entre Rubens e Flávio. A passagem temporal está muito boa e os cortes são bem realizados e o leitor consegue entender bem quando se trata do passado e do presente. O problema todo é o começo que é um pouco truncado e demora algumas páginas para que o leitor realmente consiga entrar na trama. Mas, depois a história consegue fluir numa boa.


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Como segunda história queria trazer Hoje à Noite uma linda narrativa que mostra duas pessoas se encontrando e se descobrindo da maneira mais improvável possível. Márcio foi levado por seus amigos a uma ilha para curtir uma boa balada. Mas, essa ilha tem um sinal de celular fraco e tudo depende ali da relação tete-a-tete. Márcio se sente meio deslocado, já que esse tipo de festa não é bem a sua praia (sem trocadilhos, já que a festa se passa em uma praia). Ele tenta se enturmar e buscar conhecer alguém até que encontra Telúrio, um garoto com quem as coisas parecem acontecer de maneira tão rápida e natural que quando ele vê, está envolvido com ele. Os dois estabelecem uma conexão, mas Márcio parece ter vergonha do que as demais pessoas podem achar de ele estar se envolvendo com outro menino. Nessa indecisão de estar junto ou não, os dois vão a um lugar sozinhos e vão viver a noite de suas vidas. Essa é uma bela história em que Thiago consegue trazer para o leitor todas as angústias e inseguranças de Márcio e em como ele precisa lutar para superar seus próprios preconceitos. A narrativa é repleta de belas mensagens e a virada narrativa ao final é bem legal. Não vou comentar muito para não dar spoilers.


Vou fechar comentando sobre um conto curtinho chamado Banco de Horas. Tentarei não entregar muito sobre ela, mas vai ser uma missão bem complicada. Rita e Felipe trabalham em uma empresa que desenvolve marketing para outras empresas. Em uma tarde normal em que o trabalho acontece de sua forma mais cotidiana e corriqueira possível, acontece uma tempestade iônica fora da empresa que obriga todos a permanecerem presos lá dentro até que esta passe. A perspectiva é precisar permanecer até o dia seguinte e Rita e Felipe ficam irados de ter que fazer cerão. É combinado que eles podem receber por essas horas extras ou apenas compor um banco de horas a ser usado depois. A narrativa vai se debruçando sobre as atividades dos funcionários, principalmente dos protagonistas, dentro desse pequeno espaço. O conto é associado imediatamente a um famoso filme natalino que não vou comentar qual é, mas as críticas que Thiago faz ao longo da história me fizeram pensar em Tempos Modernos, do Charlie Chaplin. Isso porque o trabalho se torna uma coisa estupidamente redundante dos quais os funcionários perderam a noção completa da utilidade do que estão fazendo. Em um capitalismo cada vez mais mordaz e alienizante. uma narrativa como essa apenas preconiza o que as relações de trabalho podem se transformar no futuro. Foi um dos contos que mais gostei dessa coletânea.


Thiago desenvolveu um trabalho muito legal nessa coletânea. Gosto de como ele envolve o leitor com propostas que, por vezes, são bem simples, enquanto outras envolvem um bom nível de maturidade para entender aonde ele deseja chegar. Nem todas as histórias vão agradar a vocês, e tudo bem. Essa é a beleza de uma coletânea de contos. São diferentes sabores dos quais vocês poderão inclusive perceber diferentes facetas do autor. Para mim, um belo trabalho de apresentação do que ele pode fazer. Os assuntos são bastante atuais enquanto outros são atemporais.










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Ficha Técnica:


Nome: Romantífica

Autor: Thiago Ambrósio Lage

Editora: Urutau

Número de Páginas: 112

Ano de Publicação: 2023


Avaliação:

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Conversa aberta. Uma mensagem lida. Pular para o conteúdo Como usar o Gmail com leitores de tela 2 de 18 Fwd: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br Caixa de entrada Ficções Humanas Anexossex., 14 de out. 13:41 (há 5 dias) para mim Traduzir mensagem Desativar para: inglês ---------- Forwarded message --------- De: Pedro Serrão Date: sex, 14 de out de 2022 13:03 Subject: Re: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br To: Ficções Humanas Olá Paulo Tudo bem? Segue em anexo o código do anúncio para colocar no portal. API Link para seguir a campanha: https://api.clevernt.com/0113f75c-4bd9-11ed-a592-cabfa2a5a2de/ Para implementar a publicidade basta seguir os seguintes passos: 1. copie o código que envio em anexo 2. edite o seu footer 3. procure por 4. cole o código antes do último no final da sua page source. 4. Guarde e verifique a publicidade a funcionar :) Se o website for feito em wordpress, estas são as etapas alternativas: 1. Open dashboard 2. Appearence 3. Editor 4. Theme Footer (footer.php) 5. Search for 6. Paste code before 7. save Pode-me avisar assim que estiver online para eu ver se funciona correctamente? Obrigado! Pedro Serrão escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:42: Combinado! Forte abraço! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:41: Tranquilo. Fico no aguardo aqui até porque tenho que repassar para a designer do site poder inserir o que você pediu. Mas, a gente bateu ideias aqui e concordamos. Em qui, 13 de out de 2022 13:38, Pedro Serrão escreveu: Tudo bem! Vou agora pedir o código e aprovação nas marcas. Assim que tiver envio para você com os passos a seguir, ok? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:36: Boa tarde, Pedro Vimos os dois modelos que você mandou e o do cubo parece ser bem legal. Não é tão invasivo e chega até a ter um visual bacana. Acho que a gente pode trabalhar com ele. O que você acha? Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. Atenciosamente Paulo Vinicius Em qui, 13 de out de 2022 12:39, Pedro Serrão escreveu: Olá Paulo Tudo bem? Obrigado pela resposta! O meu nome é Pedro Serrão e trabalho na Overads. Trabalhamos com diversas marcas de apostas desportivas por todo o mundo. Neste momento estamos a anunciar no Brasil a Betano e a bet365. O nosso principal formato aparece sempre no topo da página, mas pode ser fechado de imediato pelo usuário. Este é o formato que pretendo colocar nos seus websites (por favor desligue o adblock para conseguir visualizar o anúncio) : https://demopublish.com/pushdown/ Também pode ver aqui uma campanha de um parceiro meu a decorrer. É o anúncio que aparece no topo (desligue o adblock por favor): https://d.arede.info/ CAP 2/20 - o anúncio só é visível 2 vezes por dia/por IP Nesta campanha de teste posso pagar 130$ USD por 100 000 impressões. 1 impressão = 1 vez que o anúncio é visível ao usuário (no entanto, se o adblock estiver activo o usuário não conseguirá ver o anúncio e nesse caso não conta como impressão) Também terá acesso a uma API link para poder seguir as impressões em tempo real. Tráfego da Facebook APP não incluído. O pagamento é feito antecipadamente. Apenas necessito de ver o anúncio a funcionar para pedir o pagamento ao departamento financeiro. Vamos tentar? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 16:28: Boa tarde Tudo bem. Me envie, por favor, qual seria a sua proposta em relação a condições, como o site poderia te ajudar e quais seriam os valores pagos. Vou conversar com os demais membros do site a respeito e te dou uma resposta com esses detalhes em mãos e conversamos melhor. Atenciosamente Paulo Vinicius (editor do Ficções Humanas) Em qui, 13 de out de 2022 11:50, Pedro Serrão escreveu: Bom dia Tudo bem? O meu nome é Pedro Serrão, trabalho na Overads e estou interessado em anunciar no vosso site. Pago as campanhas em adiantado. Podemos falar um pouco? Aqui ou no zap? 00351 91 684 10 16 Obrigado! -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! 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