• Paulo Vinicius

Resenha: "Saros 136" de Alexey Dodsworth e Ioannis Fiore

Cinco histórias que se conectam. Cinco personagens separados no tempo e que terão suas vidas mudadas quando o tempo se dobrar e o eclipse surgir. Uma história que perpassa gerações e vai nos mostrar uma humanidade lutando para se desenvolver.


Sinopse:


Seria um eclipse capaz de romper as barreiras do tempo e do espaço? Ainda que fascinante, a viagem no tempo é um tema da ficção científica que desperta certo temor.


Você conseguiria dormir em paz, diante da perspectiva de que nossa vida depende de alguém que ainda nem nasceu ou que até mesmo já morreu? Agora imagine que o futuro da humanidade depende da união de pessoas tão diferentes, que até uma conversa entre elas é quase impossível.


"SAROS 136" é uma história em quadrinhos que vai agradar os apaixonados por astronomia e aos fanáticos por histórias como "Cloud Atlas", "Efeito Borboleta", "Donnie Darko" e "12 Macacos".







Aonde a humanidade irá chegar? Conseguiremos superar nossas diferenças? Alexey Dodsworth e Ioannis Fiore se debruçam sobre esse tema e vários outros nessa HQ que tem muito de Atlas de Nuvens, uma obra de David Mitchell que eu adoro. Somos levados a conhecer vários personagens em diferentes épocas cujas histórias se interligam em uma trama que ultrapassa várias gerações até chegar em um futuro distante quando os seres humanos já não são mais aquilo que vocês imaginam. A partir desta leitura e de muitas outras que já fiz do Dodsworth, só posso chegar à conclusão de que ele é um dos autores de ficção científica brasileiros que possuem um dos maiores níveis de criatividade para pensar narrativas envolventes. Isso sem falar na arte aquarelada de Fiore que está magnífica. Vou te convencer ainda mais de que essa é uma história sensacional. Segue o texto.


No futuro, uma mãe conta a seu filho a verdade sobre suas origens. Para isso ela precisa colocar um elenco de quatro personagens existindo em diferentes épocas cujas narrativas vão tecer um fio que chegará até os dias em que mãe e filho se encontram. Primeiro, somos colocados diante de um escravo no século XIX que possui uma enorme importância a seu dono que descobriu que o escravo é um sacerdote com poderes sobre a vida e a morte em seu vilarejo. Mas, Antônio não deseja terminar seus dias coo escravo. Avançando para o ano de 1919 acompanhamos uma missão europeia no Ceará tentando entender as propriedades físicas de um eclipse solar. Heinrich, um jovem pesquisador, está sofrendo de terríveis dores de cabeça que o fazem ter estranhas visões. Em 2045, a astronauta Julia que trabalha em uma estação de pesquisas na Lua precisa lidar com a realidade de que um enorme cometa está se dirigindo rumo à Terra e ela pode ser a única capaz de mudar sua trajetória. E em Sealand, a ilha que abriga os últimos remanescentes da humanidade, a doutora Radra precisa lidar com o retorno da praga vermelha, uma doença terrível que pode varrer os habitantes da ilha caso nada seja feito. O que estes personagens tem em comum? Vocês terão de ler para descobrir.

Primeiro de tudo, é preciso elogiar o projeto editorial da Draco para esta HQ. Ela está lindíssima. A arte de capa do Fiore é algo à parte que vou falar mais abaixo, mas o que eu achei legal foi o toque da capa de acetato que cria um efeito legal de eclipse solar para a capa. Só achei que o logo da editora poderia ter ficado na capa de acetato para dar uma valorizada maior na arte. Mas, é algo pequenininho para um projeto tão legal. A propósito, ele foi financiado via campanha no Catarse no ano de 2021 o que certamente ajudou a edição a ganhar uns extras bem merecidos. Por falar em extras, temos vários na edição. A começar pelo prefácio de Renato Janine Ribeiro que conta a sua impressão ao ser um dos primeiros a ler este trabalho e o quanto ele chama a atenção para a importância da ficção científica para pensarmos em questões do presente usando um pano de fundo futurista. Ao final temos alguns outros extras como um posfácio do Alexey Dodsworth contando como surgiram as inspirações para a composição da narrativa. E vocês ficarão impressionados em saber de onde surgiu a ideia para Sealand. A seguir tem um texto com o diário de Heinrich, uma peça de divulgação bacana contando as aventuras do pesquisador alemão e que os leitores poderão ler uma parte (o diário completo está em um site da HQ). E por fim, temos um texto de Lucas Fonseca, CEO de uma startup chamada Airvantis e que coordena o projeto Garatéa que pode ser o responsável no futuro por colocar o Brasil na vanguarda da exploração espacial.


Sempre me impressiono com arte aquarelada. Impressiona porque exige bastante do autor. Ela necessita de uma percepção de como os personagens vão estar dispostos na tela, como eles farão parte de uma cena ou de um pano de fundo e até como as cores vão se encaixar para formar um todo harmônico. Aliás, pensar em cores aquareladas é sempre bastante difícil porque é possível errar o tom, criar algo destoante ou anacrônico. Cada uma das linhas narrativas possui a sua própria palheta de cores. Se bem que é possível dividirmos em dois grupos as linhas narrativas. Uma delas com as duas histórias que se passam no passado que possuem cores mais terrosas e um aspecto mais sujo, combinando com uma ideia de civilização em desenvolvimento. Já as três linhas narrativas do futuro possui cores mais chamativas, efeitos quase lisérgicos para criar cenas incríveis. Falando assim parece que eu gostei mais dos trechos que se passam no futuro, mas isso não é verdade. Citando duas cenas em particular do passado, uma delas envolve uma enorme criatura surgindo de dentro da água que tem a ver com as habilidades de Antônio, o curandeiro africano. Outra cena bem legal é quando Heinrich começa a ter visões enquanto escuta o som dos cânticos e instrumentos musicais. É uma mescla de ritmo musical e alucinação que é muito bem representado.


Algo que eu achei bastante arriscado, mas que Dodsworth tirou de letra, foi a mescla de elementos culturais oriundos de várias origens diferentes. Temos um pouquinho da religião africana, de mitologia hindu, de pesquisas astrofísicas europeias. Gostei de como o autor pensa de maneira holística, observando o todo a partir de vários campos de pensamento. Talvez o que falta para as ciências avançarem mais nos dias de hoje é esse tipo de pensar fora da caixinha que vez ou outra vemos aparecer na ficção. Imagine só pensar nos pontos do chakra enquanto se reflete acerca da noção de espaço e tempo. Ou em como os poderes da natureza podem afetar nossa realidade de maneira palpável e direta. O que podemos conferir nessa história é o quanto ainda temos uma forma de pensar iluminista diante de um mundo pós-moderno onde todas as influências importam no momento de observar a realidade que nos cerca. É isso o que somos convidados a fazer durante as diversas partes que compõem essa história.

Histórias que são construídas a partir de um estilo caleidoscópico também são bastante arriscadas de serem construídas. Não tentem fazer isso em casa, meus caros, a menos que vocês tenham treinado muito bem suas habilidades de escrita. A possibilidade de falhar é enorme. Vejo poucos escritores se saírem realmente bem nisso e um dos expoentes é David Mitchell que já fez isso em Atlas de Nuvens e em The Bone Clocks embora podemos colocar Maja Lunde nesse bolo. E o nosso caro Alexey Dodsworth. Quando se pensa em vários núcleos narrativos separados por um longo espaço de tempo é preciso dar tempo de tela a cada um deles. Fazer com que eles tenham igual importância para a narrativa maior. Suas micronarrativas precisam fazer sentido em um espaço micro e em um macro. Além disso, a história precisa ser interligada de uma maneira clara e lógica para que tenha um sentido. Essas conexões não precisam ser necessariamente transparentes e explicadas ao leitor, podendo ser sutis e instigando releituras. Saros 136 tem justamente essa pegada mais sutil, fazendo o leitor juntar por si próprio as peças do grande quebra-cabeças. E só isso vai fazer com que peguemos a HQ mais uma vez para uma nova leitura buscando entender melhor as lacunas. Nesse sentido, Dodsworth foi muito bem sucedido.


Outro ponto que gostaria de chamar a atenção é que embora toda a narrativa em Sealand com a cultura hindu seja interessante por ser diferente, Dodsworth nunca deixa de lado parte da narrativa valorizando a cultura africana. Digo isso não por causa da história do escravo fugitivo, o que daria para falarmos bastante a respeito, principalmente por se passar no século XIX, período de declínio do tráfico negreiro, mas pelo poder e importância da busca da ancestralidade. Mais uma vez consigo visualizar o papel do griot em uma história do autor, do contador de histórias. Imaginando o que é a base da narrativa, uma mãe contando a seu filho onde e como seu povo surgiu, esse é exatamente o papel de alguém que registra e compartilha histórias a seus semelhantes. Claro que não temos o ritual da contação de histórias que envolve reunir as pessoas em torno do contador (pode ser ao redor de uma fogueira, embaixo de uma árvore, dentro de uma casa especial), mas a essência disso está ali. O narrador não está só apresentando a história para nós, leitores, ele está repassando a narrativa à futuras gerações, contando uma verdade que pode ser positiva ou negativa, dependendo do ponto de vista e de como aquele que escuta vai entender a história.


No ano passado, a primeira HQ que eu li (Ritos de Passagem, do autor Lucas Marques) foi a melhor do ano. Parece que Saros 136 vai ser um forte candidato a esse título novamente e o mais legal é que também se trata de uma HQ nacional. Uma narrativa bem polida, uma história fascinante repleta de vários easter eggs curiosos e que vão nos incentivar a pesquisar além da história. A arte também é maravilhosa e o Dodsworth consegue sempre nos surpreender com ótimas parcerias. Como um aficcionado por boa ficção científica só posso ficar encantado com uma leitura dessas logo no começo de 2022.













Ficha Técnica:


Nome: Saros 136

Autor: Alexey Dodsworth

Artista Ioannis Fiore

Editora: Draco

Número de Páginas: 130

Ano de Publicação: 2021


*Material enviado em parceria com a editora Draco













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