• Paulo Vinicius

Resenha: "Projeto Manhattan vol. 3" de Jonathan Hickman e Nick Pitarra

Atualizado: 3 de Jul de 2019

Muita traição e planos macabros sendo criados. Essa é a premissa desse terceiro volume onde veremos o quanto a premissa de Ciência Ruim vai ser levada a sério. E o Hickman continua aumentando o grau de insanidade dos cientistas do projeto.

Sinopse:


E se a criação da bomba atômica fosse apenas uma fachada do famoso “Projeto Manhattan” e estivessem, na verdade, desenvolvendo uma tecnologia de ponta inimaginável para acessar portais dimensionais e contatar raças alienígenas, entre muitas outras coisas fantásticas?

A partir daí, tudo o que aprendemos nos livros de História parece não fazer mais sentido, pois a série nos mostra os bastidores e os segredos de eventos fabulosos.

Agora, este terceiro volume, que reúne as edições 11 a 15 da série, irá mostrar a primeira metade do plano mestre de Oppenheimer. Como os cientistas do Projeto Manhattan irão governar o planeta? Como se dará a exploração e colonização de outros mundos? Conseguirão encontrar novas fontes de energia renovável? E a raça humana será finalmente aperfeiçoada? São muitas questões a serem respondidas, mas a dúvida maior é: como ganhar controle sobre a criação?

Cheia de referências históricas e muita ação, PROJETO MANHATTAN é uma das melhores séries de ficção científica já concebidas!

Agora falta você mergulhar no fabuloso e perigoso mundo da Ciência!




Este é um volume chave na longa história criada por Hickman. Aqui ele move as peças e coloca alguns acontecimentos em ação. Finaliza a apresentação dos membros do Projeto Manhattan mostrando um pouco da amizade formada entre Fermi e Daghlian. Eu tive uma opinião meio dividida sobre esse volume. Não foi um volume excepcional como o primeiro, mas eu gostei da maneira como Hickman coloca suas ideias malucas ao mesmo tempo em que trabalha os personagens.

Daghlian era um cientista promissor até que um acidente com um elemento radioativo destruiu o seu corpo prendendo-o a uma roupa isolante. Mas, ao mesmo tempo em que ele se tornou incorpóreo, ele dificultou a sua relação com outras pessoas. Alguns sentem pena, outros sentem nojo. Fermi é o único que se colocou ao lado dele durante essa difícil transição. Mas, Fermi esconde terríveis segredos que podem colocar todo o projeto em risco. Enquanto isso Oppenheimer começa a colocar seus planos em ação. E ele quer o controle sobre todo o projeto nem que para isso precise colocar tudo abaixo. Só que no interior de Oppenheimer, uma guerra pelo controle da consciência do corpo está sendo travada entre Joseph, Robert e uma pequena surpresa desagradável escondida no interior da mente de Oppenheimer. E a guerra civil chegará a níveis catastróficos.

Esse foi um volume mais centrado nos personagens então era importante trabalhar expressões. Pitarra faz um trabalho excelente nesse sentido. Por exemplo, Daghlian emociona o leitor tamanha a carga dramática que ele consegue passar nas imagens. Tem uma cena em que ele e Fermi estão na lua e Pitarra constrói uma cena afastada com a Terra enorme no fundo e os personagens pequenos. Essa é a maneira como Daghlian se enxerga no mundo: pequeno, assolado por um grande oceano ao qual ele não pode nadar. Quando acontece a virada na história, vemos o sofrimento de Daghlian na própria posição do personagem em alguns momentos: sempre no fundo ou encostado em alguma parte afastada do cenário. Novamente a guerra civil me despertou a atenção. A profusão de versões diferentes de Oppenheimers espalhados pelo cenário era absurdo. A maior parte das cenas eram fenomenais mostrando uma variedades de formas para os personagens. Posso imaginar o trabalho absurdo que isso deve ter dado.

Mas, Pitarra também criou boas soluções para os projetos malucos dos cientistas do projeto. Objetos estranhos, tecnologias malucas. A modelagem dos elementos de fundo deve ter pedido um diálogo e uma interação muito grande entre autor e desenhista. Vale a pena também destacar as modelagens de alienígenas presentes nesse volume. Algumas cenas são absolutamente nojentas como o laboratório em que Feynman e Einstein estão dissecando raças diferentes de alienígenas. Pitarra conseguiu criar um ambiente abjeto. E eu acho que essa era a intenção. A cena com JFK também é sensacional. Muitos detalhes espalhados pelo cenário. Dá até para fazer um jogo dos 7 erros tentando localizar todos os objetos bizarros presentes no fundo (calcinhas, cigarros de maconha, sutiãs).

São muitos os assuntos trabalhados por Hickman nesse volume. Acho até que ele podia ter reduzido algumas coisas. Mas, o primeiro e o que dura um bom número de páginas é a construção da amizade entre Fermi e Daghlian. Hickman constrói o drama de um ser preso a uma existência do qual ele precisa ficar longe do mundo. O isolamento que ele se vê obrigado é avassalador. Em sua situação absurda, Daghlian é o personagem mais humano dentro do grupo de cientistas malucos do projeto. É aquele que apenas deseja levar seus projetos adiante. O triste disso é que ele encontra em Fermi o seu apoio para continuar no mundo. E será essa relação o catalisador para uma série de eventos que levarão o projeto a uma situação irreversível posteriormente. Curiosamente, Daghlian acaba não se deixando levar pelos acontecimentos. Ele poderia facilmente ter tido uma reação negativa e não foi isso o que aconteceu.


Um terrível jogo de manipulação acontece ao longo de todo este terceiro volume. Os cientistas do projeto acreditam que tenham se safado de uma retaliação por parte de seus governos. Para alcançar seus objetivos mais facilmente, se aliaram aos soviéticos em plena Guerra Fria. Chegaram até a mudar a base para a Star City em conluio com Ustinov. Tendo colocado Kennedy como presidente dos EUA, um mulherengo e viciado em drogas, eles acreditam terem se livrado definitivamente da observação próxima da Casa Branca. Mas, Oppenheimer vai mostrar o seu trabalho nos bastidores. Através de algumas ações ele vai se posicionar como o novo líder do projeto. E isso poderá levar os acontecimentos a patamares nunca antes alcançados. E a questão é: quem manipula quem? O manipulador se sente seguro, mas sempre existe uma movimentação por trás para destronar aquele que está no poder. O jogo de interesses funciona a partir de quem é capaz de agir primeiro.


Outro ponto interessante discutido no volume foi sobre como desenvolver a ciência: inovando ou assimilando? Desenvolver a ciência a partir da criatividade ou replicar aquilo que já existe e se apossando para os seus próprios fins? A ideia básica entendida por Oppenheimer é roubar ideias usando sua habilidade de assimilar conhecimentos através da antropofagia. O cientista não é um inovador: ele apenas assimila tudo. Mas, chega um momento em que não é mais possível apenas ser um repositório de informações. Inovadores também são pessoas importantes para o desenvolvimento da ciência. Caso contrário esta se torna estagnada. Torna a busca por novas fontes de assimilação uma necessidade, É interessante essa discussão feita por Hickman. E ela se relaciona diretamente ao tema do próximo parágrafo.

Durante a conversa entre Ustinov e Wernher eles se questionam se os membros do projeto são cientistas ou pecadores. Isso porque eles não medem esforços para alcançar seus objetivos. Assim como no volume anterior podemos ver o quanto as atitudes destes cientistas afetam o mundo como todo. E eles não se arrogam de sacrificar muitos apenas pelo desenvolvimento da ciência. Era lógico que iria acontecer em algum momento uma retaliação severa da Casa Branca assim que fosse descoberto o conluio entre o projeto e os soviéticos. Ou seja, Hickman critica a ética da ciência apresentando situações absurdas demonstrando o quanto a ciência pode ser usada para o mal. E durante a Guerra Fria esse tipo de situação aconteceu desenfreadamente com os testes nucleares, as pesquisas biológicas. Quem pode nos garantir que ainda não existem em lugares secretos, com cientistas com o mesmo grau de insanidade que estes personagens da HQ?

Mais uma vez o destaque vai para a guerra civil dentro da cabeça de Oppenheimer. O tema dessa parte é a evolução de uma sociedade que vive em guerra há milênios. Todo o desenvolvimento destes homens são para a aplicação bélica. É uma cena de devastação e morte que deixa o leitor estático. São páginas e mais páginas de uma evolução cruel. E pouco a pouco a mente do hospedeiro vai se deteriorando até o momento em que ele permite a existência de forças de oposição. E mesmo uma pessoa bem intencionada como Joseph é afetada por tantos anos em guerra. No fim das contas, ele acaba tendo que mudar os seus ideais para continuar existindo. O que percebemos que Hickman quer mostrar no interior da mente de Oppenheimer é algo quase darwiniano: ou Joseph se adaptava ou desaparecia.

Enfim, é um volume mediano, mas rico em temas. Pitarra trabalha muito bem com as expressões de personagens. Acho que foi de longe o melhor trabalho dos três porque ele faz com que o leitor sinta empatia pelos personagens. A preocupação com o cenário de fundo é um elemento de destaque. Já Hickman move as peças mostrando os personagens em seu melhor: manipulando o manipulador que imagina estar manipulando tudo. Ao final, Oppenheimer se sai vitorioso, mas pode ser uma vitória bem curta se o que eu imagino que o autor planeja é o que vai acontecer. Se bem que tentar entender o Hickman é meio complexo. Ou seja: recomendo este terceiro volume para continuarmos a ver as coisas explodindo no próximo volume.




Ficha Técnica:

Nome: Projeto Manhattan vol. 3 Autor: Jonathan Hickman Artista: Nick Pitarra Editora: Devir Gênero: Ficção Científica

Tradutor: --- Número de Páginas: 152 Ano de Publicação: 2016


Outros volumes:

Volume 1

Volume 2

Volume 4

Volume 5

Volume 6

Link de compra: https://amzn.to/2DizNb8


Tags: #projetomanhattan #jonathanhickman #nickpitarra #devirbrasil #cientistas #loucura #ciencias #humanidade #evolucao #contato #conspiracao #alienigenas #ficcaocientifica #hqs #leiahqs #amohqs #ighqs #ficcoeshumanas




ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.