Jonathan Hickman, um dos escritores mais criativos do mercado na atualidade cria um mundo em que o Projeto Manhattan é muito mais do que um programa responsável pela criação da bomba atômica. Ele inclui viagens interdimensionais, contatos com alienígenas e muito mais.
Sinopse:
Joseph Oppenheimer, um assassino com problema de múltiplas personalidades, acredita que “devorou” seu irmão gêmeo, o físico Robert, e se tornou um amálgama dos dois. Ele encontra o Tenente General Leslie Groves, que o apresenta ao Projeto Manhattan, que inclui coisas como explorar o espaço pan-dimensional em busca de tecnologias avançadas para construir máquinas impossíveis.
Mas isso não é tudo! Dentro deste complexo tecnológico, 150 mil computadores funcionam conjuntamente para simular a mente de um certo Franklin D. Roosevelt. Há o Cientista Harry Daghlian, que, aparentemente, absorveu tanta radiação, que acabou se tornando apenas um esqueleto num traje de contenção. Ah! E tem também Einstein tentando abrir uma porta interdimensional que ele mesmo criou. Mas não podemos nos esquecer de cientistas nazistas, militares sem escrúpulos, políticos ambiciosos e alienígenas, MUITOS alienígenas!
Este é o mundo fantástico de PROJETO MANHATTAN, uma série da Image Comics cocriada pelo escritor Jonathan Hickman e o ilustrador Nick Pitarra.
Hickman é um dos escritores mais criativos do mercado na atualidade. E ele produz um nível praticamente industrial. Ele foi responsável pela saga Guerras Secretas, que está terminando de ser publicada no Brasil, trabalhou em uma boa fase nos Vingadores e revitalizou o Quarteto Fantástico. Para a Image Comics ele tem produzido algumas séries e one-shots sensacionais como esta aqui e East of West. Em Manhattan Projects, Hickman eleva o seu nível de insanidade a patamares inimagináveis.
O Projeto Manhattan usa a criação da bomba nuclear como fachada. Esta é apenas a superfície. Porque logo abaixo dela existe um grupo de cientistas brilhantes responsáveis por todo o tipo de pesquisas de ponta como energias exóticas, viagens interdimensionais, portais de teletransporte. E dentro deste cenário é preciso se proteger contra todo tipo de ameaça como monges da morte que enviam autômatos samurais japoneses para invadir a base e roubar todos os segredos norte-americanos. A história começa com a convocação de Oppenheimer para ajudar no projeto. Com sua mente brilhante (e suas múltiplas personalidades) ele irá levar os membros do projetos a lugares distantes. Mas, Oppenheimer esconde uma série de segredos que pode colocar a Terra no meio de uma batalha intergalática. Ao mesmo tempo vemos o primeiro contato dos humanos com uma raça alienígena (e os humanos ferram tudo neste primeiro contato) e a descoberta de um portal que leva a várias dimensões.
O traço de Nick Pitarra é bem diferente do padrão. Ele consegue conceber panos de fundo que são muito bem detalhados em sua estranhice. Aliás, Pitarra é o cara ideal para combinar com a imaginação fértil de Jonathan Hickman. As máquinas e experimentos que o desenhista coloca no fundo de quase todos os quadros são todas diferentes entre si. Isso me deixou surpreso quando eu parei para reparar mais tudo aquilo que acontecia no fundo do cenário. Geralmente o leitor não presta tanta atenção a estes detalhes. Esse tipo de precisão nos detalhes é algo muito raro nos quadrinhos. Mesmo com recursos digitais, conseguir pensar em cada engrenagem, em cada ferramenta, em cada aparelho ou experiência química leva tempo e dedicação. Eu posso até não curtir tanto a forma como Pitarra constrói as aparências dos personagens, mas preciso aplaudir a precisão do traço. Quanto aos personagens acho alguns deles um pouco caricatos. Einstein, Feynman e Oppenheimer ficaram bem expressivos e condizentes com suas características, mas outros ficaram estranhos. Gostei também dos tipos diferentes de raças alienígenas... aqueles bichos com partes de órgãos internos aparecendo eram bizarros.
As cores puxam muito para o azul e o vermelho. Principalmente porque ele utiliza esses padrões para mostrar elementos emocionais dos personagens. Em outros quadros temos muito bege e azul claro o que ajuda a deixar o cenário mais harmônico. Somente ao usar essas cores, Pitarra foi capaz de preencher o fundo com o que a sua imaginação permitia.
Nesse primeiro volume, Hickman nos apresenta alguns dos cientistas do Projeto. Oppenheimer é o que nos é apresentado primeiro. Sua principal habilidade é assimilar as habilidades e conhecimentos daqueles que ele devora. Ele nos proporciona uma cena bem gore logo no começo do volume. Já Feynman, que parece ser o protagonista geral da série nos é apresentado a partir do segundo capítulo como um homem narcisista e ambicioso. Ele deseja a fama acima de tudo e não mede os meios para consegui-la. Temos também Einstein que esconde um enorme segredo revelado quase no final deste volume. No início ele aparece como um homem devastado por alguma coisa de frente a um monolito. Mas, este monolito na verdade é um portal para múltiplas dimensões.
Para mim, Oppenheimer é a chave para entendermos a temática deste volume. Ele representa a essência do que é a assimilação de tecnologia a qualquer custo. Não importa de que maneira a obtenção de novos desenvolvimentos é feito: o personagem não pensa duas vezes diante dos alienígenas. Mesmo que as suas ações representem um resultado negativo. Os membros do Projeto Manhattan são completamente inescrupulosos. Não temos heróis ali. Por esse motivo existe aquela frase na contracapa do volume: Ciência. Ruim. E isto é o que define a HQ. São cientistas que empregam a ciência para descobrir, mas ao mesmo tempo não medem as consequências para a raça humana. O diálogo entre o major e o presidente Truman também é bem ilustrativo: uma decisão crucial sobre encerrar ou não a guerra. Naquele momento tudo o que o major queria era uma plataforma de testes para a sua nova arma. Ele queria descobrir como ela iria afetar os seres vivos em um raio de centenas de quilômetros. Não havia um patriotismo ou uma necessidade de exterminar os rivais. Era apenas ciência aplicada.
Neste volume, Hickman apenas faz a apresentação dos personagens. Existem apenas alguns desenvolvimentos na história. Ele nos apresenta as motivações e o histórico de cada um dos três personagens centrais para a trama: Einstein, Feynman e Oppenheimer. Acredito que em volumes posteriores ele vá se debruçar sobre outros membros do projeto. Eu consegui entender para onde Hickman quer me guiar ao longo da narrativa. A construção de personagens conseguiu ser perfeita mesmo tendo que disputar espaço com a narrativa central em si. Ao final deste primeiro volume eu consegui pegar as características centrais de cada um dos membros do projeto. Não senti falta de um desenvolvimento melhor da narrativa, mesmo ela sendo espaçada por alguns anos. Talvez ela tenha feito algumas quebras e por isso tenha baixado minha nota geral sobre a história (apesar de o meu incômodo ser mais com a arte).
Outro elemento de narrativa que Hickman trabalha neste volume é a falta de preparo dos seres humanos para lidar com outras raças. Se não somos capazes de conviver harmonicamente uns com os outros, por que isto se daria com alienígenas? É isso o que o autor coloca com a fala do embaixador alienígena. Mesmo quando os cientistas chegam na sala de reuniões dos alienígenas, tudo o que eles pensam é em como roubar tecnologias e sair vivos ou ilesos. Em nenhum momento passou pela cabeça deles conversar ou chegar a algum acordo. O mais curioso de tudo é como o projeto consegue permanecer alheio e independente mesmo representando teoricamente os interesses dos EUA. A desfaçatez do major em desobedecer ordens é absurda. Até em empregar membros do alto conselho americano como cobaias. Sinto que essa falta de limites do projeto vai dar alguma zebra nos próximos volumes.
Manhattan Projects é mais uma insanidade criada por Hickman. Mas, aquela insanidade que você quer ver até onde vai. Não curti tanto a arte de Nick Pitarra, mas preciso admitir que a precisão e o detalhamento dos ambientes de fundo de página são incríveis. Neste primeiro volume, o autor prefere construir as personalidades dos principais personagens de sua narrativa ao mesmo tempo em que desenvolve o enredo central da história. Sem dúvida nenhuma, uma HQ que deve ser lida.
Ficha Técnica:
Nome: Manhattan Projects vol. 1 Autor: Jonathan Hickman Artista: Nick Pitarra Editora: Devir Gênero: Ficção Científica
Número de Páginas: 152
Tradutor: Não Informado Ano de Publicação: 2012
Outros Volumes:
Projeto Manhattan vol. 4
Projeto Manhattan vol. 5
Projeto Manhattan vol. 6
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