• Diego Araujo

Resenha: "O Festim dos Corvos" (Crônicas de Gelo e Fogo vol. 4) de George R. R. Martin

Após A Tormenta de Espadas, O Festim dos Corvos têm a tarefa de continuar a história de Westeros com os personagens restantes e afetados pelo luto, mas jamais livres das ameaças.



Sinopse:


Há séculos os sete grandes reinos de Westeros se enfrentam em amargas disputas, batalhas e traições. Agora, com Joffrey Baratheon e Robb Stark fora da jogada e lordes insignificantes competindo pelas Ilhas de Ferro, a guerra que devorou o continente parece ter finalmente chegado ao fim.


No entanto, como após todo grande conflito, não demora para que os sobreviventes, os bandidos, os renegados e os carniceiros avancem para disputar o espólio dos mortos. Por toda Westeros os lordes se agitam, formando alianças e fazendo planos, enquanto nomes conhecidos e desconhecidos se apresentam para tomar parte das danças políticas.


Todos precisam lançar mão de suas habilidades e poderes para encarar os tempos de terror que se aproximam. Nobres e plebeus, soldados e feiticeiros, assassinos e saqueadores devem arriscar suas fortunas... e suas vidas, pois em um festim de corvos, muitos são os convidados ― e poucos os sobreviventes.





Após as mortes impactantes de alguns personagens no volume anterior, trazer os corvos ao título da continuação da história foi conveniente. Westeros vive apesar do luto, a guerra persiste e as conspirações são eternas, apenas mudando os envolvidos. Ainda há a história dos piratas cujo legado é, quando mortos, são incapazes de morrer e voltam mais fortes. E do pequeno reino cuja herdeira tem grandes ambições e vinganças a serem satisfeitas. O Festim dos Corvos promete todas essas intrigas. Lançado pela primeira vez em 2005 por George R. R. Martin, com a edição brasileira mais recente publicada em 2019 pela editora Suma sob a tradução de Jorge Candeias.

“Quando o leão cai, as feras menores avançam, os chacais, os abutres e os cães bravios.”

O Festim dos Corvos se passa ao mesmo tempo que o quinto volume da série, A Dança dos Dragões. Enquanto foca na jornada dos personagens presentes em Westeros, o quinto volume detalha os conflitos presentes na Muralha e além do Mar Estreito. Aviso de spoilers de A Tormenta de Espadas a seguir, porque precisaremos contextualizar o enredo deste livro.

Porto Real obtém vantagem na guerra com a derrota de Robb Stark e pelo distanciamento de Stannis Baratheon. Nada disso sendo capaz de animar Cersei devido a perda do filho Joffrey e do pai Tywin. Ela acusa Tyrion de ser o culpado dos dois assassinatos, prometendo recompensas a quem for capaz de trazer justiça para os Lannister. Ao mesmo tempo, ela tenta manter a regência por meio do rei Tommen, jovem demais para ocupar o cargo, apesar de já estar prometido em matrimônio a Margaery Tyrell, cuja família também está disposta a participar do jogo dos tronos. Jaime se desentende com a irmã, ora pelos boatos dados por Tyrion de ela o ter traído, ora por discordar de várias escolhas desde a morte do pai.

Arya Stark chega em Braavos e consegue acesso ao santuário do Deus de Muitas Faces, mas precisa aprender a abandonar o seu antigo nome e tantos outros tidos no caminho. Para permanecer ali, ela não deve ser ninguém. E Sansa Stark continua no Ninho da Águia, embora tenha de viver sob a identidade de Alayne, a suposta filha bastarda de Petyr Baelish, Senhor Protetor do príncipe Robert Arryn, agora órfão da mãe Lysa. Ou seja, ambas estão fora de alcance de Brienne de Tarth, a guerreira Donzela juramentada por Jaime a recuperar as filhas de Catelyn Stark. Brienne persiste na busca das garotas mesmo sem pistas, sem saber se elas estão vivas ou mortas.



Samwell Tarly obedece Jon Snow e sai da Muralha para se tornar meistre em Vilavelha. Viaja de navio junto de meistre Aemon e da selvagem Goiva, e só ao longo do percurso descobre os motivos ocultos por trás de seus acompanhantes. Falando em navio, As Ilhas de Ferro ganham destaque na narrativa através de diversos personagens que discutem quem assumiria a regência após a morte do antigo rei Greyjoy. Dorne também participa do enredo entre pontos de vistas distintos, pois Myrcella, filha de Cersei, permanece sob a proteção de Dorne, e também pelo desejo de vingança pelo príncipe Oberyn, morto em batalha ao tentar proteger Tyrion da acusação de assassinar o rei Joffrey em um Julgamento de Combate.


“― É uma cabeça feia, admito, mas ele só tem uma.”

Após os acontecimentos de A Tormenta de Espadas, O Festim dos Corvos tem o desafio de superar as altas expectativas diante das mortes de personagens importantes ao enredo. Tais acontecimentos geram lutos e demandas ao reinado de Cersei que governa por meio do filho mais novo, o único ao seu alcance. A guerra no território de Westeros perde impacto, já as tramas políticas em Porto Real ganham destaque no livro ao longo de diversos capítulos de uma prosa arrastada. Após um terço do livro lido, ainda acontecia o funeral de Tywin Lannister, estendido para encaixar as conspirações vistas por Cersei, cheias de ameaças verbais, já as consequências reais ocorrem apenas nos capítulos finais desta personagem. Há pouco a dizer de Jaime. Além do desentendimento com a irmã, ele assume o compromisso de encerrar as batalhas pendentes da guerra enquanto treina o manejo da espada com a única mão disponível e reencontra alguns de seus parentes Lannister.

As palavras esticam a estadia de Arya e Sansa no enredo por longos capítulos ocupando o tempo do leitor sem a força dos Stark e estando alheias à guerra. A jornada de Samwell é intermediária, resumida a partir de uma ida de um lugar para outro, embora aconteçam conflitos para manter a lealdade dos votos à patrulha da noite, além de reunir informações relevantes e pouco exploradas em Porto Real, dentre elas algo capaz de conectar parte da trama a outra personagem importante, porém dedicada a continuar a jornada no próximo volume. Brienne vagueia de um lugar a outro, limitada a enfrentar diversos foras da lei no caminho até ser concluída com a aparição de uma personagem vista somente no fim do volume anterior. Tudo comentado dos personagens até aqui reflete o sentimento de desolação, ambientação interessante de George R. R. Martin a ser aproveitada por ele. Porém, em vez disso ecoou apenas o luto de personagens passados, e os sobreviventes presos em tramas emaranhadas.



“― Nós, os dorneses, somos um povo de sangue quente, rápido na ira e lento no perdão”

Conceder capítulos dedicados às Ilhas de Ferro e Dorne contribui para uma ampliação do enredo rumo a esses lugares enquanto Porto Real fica de luto. Alternar o ponto de vista dos capítulos a diversos personagens (alguns tendo sua voz trabalhada pela primeira vez na narrativa) serviu de renovação de um estilo de escrita fixado em determinados personagens desde o primeiro volume, por outro lado oferecendo menos oportunidades para desenvolver o carisma desses personagens. As Ilhas de Ferro ganharam destaque ao longo do segundo volume nos capítulos de Theon Greyjoy, com detalhes sobre a ambientação até então indisponíveis. Festim dos Corvos repete a sensação, tudo o que deixou de ser escrito sobre o lugar antes, agora compensado em longas descrições sobre os costumes locais, e isso compromete a apresentação das Ilhas em contraste com a descrição balanceada dos demais reinos de Westeros. Dorne tem a vantagem de ter sido pouco abordada até então, e a descrição da ambientação traz novidades exóticas ao reino de Westeros, portanto agradáveis de serem acompanhadas.

A qualidade da escrita de George R. R. Martin manteve o nível do volume anterior. Os capítulos exigem leituras prolongadas e alternam entre diálogos, descrições e pensamentos dos personagens focados por ele; todos aspectos dependentes da preferência de cada leitor, pouco agradável aos acostumados com uma leitura rápida, por exemplo. A descrição de Martin colabora nos aspectos fantásticos distintos em cada local ambientado, condizente com o perfil do protagonista.

O animal presente no título de O Festim dos Corvos reflete a ambientação dedicada neste quarto volume, mas também nos aspectos negativos, pois compromete parte considerável do enredo devido ao luto. Martin provocou mudanças na forma de narrar a história, dividindo o elenco em dois para dedicar cada um em seu respectivo livro e flexibilizou a regra ao protagonizar vários pontos de vista ao abordar os acontecimentos das Ilhas de Ferro e Dorne, pena as novidades da trama irem pouco além disso.

“No jogo dos tronos, até as peças mais humildes podem ter vontade própria.”










Ficha Técnica:


Nome: O Festim dos Corvos

Autor: George R. R. Martin

Série: Crônicas de Gelo e Fogo vol. 4

Editora: Suma

Tradutor: Jorge Candeias

Número de Páginas: 608

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


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*Material enviado em parceria com a editora Suma











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