• Diego Araujo

Resenha: "A Fúria dos Reis" (Uma Canção de Gelo e Fogo vol. 2) de George R.R. Martin

Um cometa atravessa o céu de Westeros, e A Fúria dos Reis dá significados a cada fidalgo ambicioso a guerrear contra o rei vigente em Porto Real. Este é apenas o início do segundo volume de As Crônicas de Gelo e Fogo.


Sinopse:


Um cometa da cor de fogo e sangue corta os céus. E, da antiga cidadela de Pedra do Dragão às costas áridas de Winterfell, reina o caos.

Em A fúria dos reis, seis facções disputam o controle de uma terra dividida e o direito de ocupar o Trono de Ferro de Westeros – e estão dispostos a encarar tempestades, levantes e guerras para isso.

Nesta história, irmão trama contra irmão e os mortos se levantam para caminhar pela noite. Aqui, uma princesa se disfarça de menino órfão, um cavaleiro se prepara para encarar uma pérfida feiticeira e bárbaros descem das Montanhas da Lua para saquear os campos. Em um contexto de incesto e fratricídio, alquimia e assassinato, a vitória será dos homens e mulheres que possuírem o mais frio aço... e o mais frio coração. Pois, quando se desperta a fúria dos reis, a terra inteira treme.





O cometa atravessa o céu, deixa o rastro de cor escarlate por toda a Westeros, e então cada um dos muitos povos clamam aquele sinal à sua causa. Seja para manter o poder, reivindicá-lo por direito legítimo, recuperar uma perda injusta, aproveitar uma oportunidade ou exigir justiça. Toda casa ambiciosa vislumbra o rastro vermelho e justifica simbolismos condizentes ao próprio legado. O sinal é dado quando os reis já estavam decididos. Sim, reis, todos proclamando direitos ao Trono de Ferro ou governar o próprio reino independente dos Sete, todos impondo a fúria sobre Porto Real.


A Fúria dos Reis continua a história de Westeros após as consequências da Guerra dos Tronos. Lançado pela primeira vez em 1999 por George R. R. Martin e com nova edição em 2019 pela editora Suma com tradução de Jorge Candeias, o segundo volume de As Crônicas de Gelo e Fogo expande o ponto de vista a novos personagens, tornando o protagonismo deles mais incertos, e assim as reviravoltas mais interessantes.


“Eis uma história boa para fazer os homens chorar.”


Os parágrafos a seguir contém #spoilers do livro A Guerra dos Tronos. Pule até a próxima citação caso queira evitá-los.




Davos Seaworth era contrabandista antes de servir a Stannis Baratheon, o irmão mais velho da casa após a morte do rei Robert. Ciente de que nenhum dos três filhos de Cersei são legítimos do irmão morto, Stannis reivindica seu direito ao Trono de Ferro. Mesmo assim, precisa tomá-lo à força, precisando competir até com Renly, o irmão mais novo dos Baratheon, por acreditar ser capaz de tomar o domínio de Westeros. Davos cumpre o juramento de servir, admirado pelas qualidades rudes de Stannis desde quando o aceitou ― e decepou as pontas dos dedos da mão antes de perdoar os crimes ―, satisfazendo o dever também através da sinceridade. Preocupa-se com a seita religiosa escolhida em satisfazer a ambição de rei, cujo deus é o Senhor da Luz. Melisandre é a sacerdotisa desta fé, provocando desavenças entre os vassalos de Stannis que são fiéis ao Deus de Sete Faces. Stannis a mantém apenas por servir de meio ao objetivo de conquistar Westeros.


Daenerys sobreviveu ao sacrifício junto ao khal morto, e do fogo nasceram três dragões juntos dela, uma espécie extinta há séculos. Ainda assim ruma na direção oposta a Westeros, lar de direito como herdeira da casa Targaryen. Poucos dothrakis a seguiram após o falecimento de khal Drogo, mas o cavaleiro Jorah Mormont. Daenerys a segue em busca de recursos necessários para travar uma guerra em Westeros. Primeiro precisavam satisfazer suas necessidades básicas, escassas naquele ambiente. Seguiram sempre a leste, direção apontada pelo cometa, onde os dothrakis jamais foram e ninguém da companhia de Dany sabe onde aquele caminho podia levar, e assim ela continua, convicta de encontrar o que é preciso.


Tyrion regressa a Porto Real e assume a posição de Mão do Rei, cargo reservado ao pai Tywin, só que este o mandou em seu lugar enquanto travava batalhas com o exército de Robb Stark. Ele exerce o cargo contra a vontade da irmã Cersei, regente de Westeros até o rei Joffrey atingir a maioridade, e por isso precisava de cautela, evitando ser condenado por alguém de seu próprio sangue, deixando o jogo de cintura entre as intenções dúbias dos lorde Varys e Baelish de aquecimento para o pior. Tyrion prepara planos contra as prováveis invasões de adversários autoproclamados reis, além de aturar a opinião popular desgostosa sobre o governo vigente, precisando pensar na segurança do rei Joffrey até contra o próprio povo.


A família Stark continua desmembrada, inalcançáveis e até inconscientes entre as situações de si. Catelyn segue o filho Robb, agora considerado como rei de Winterfell, em marcha com o exército da família Stark e aliados do norte na busca de justiça à morte de Eddard Stark. Ela cumpre seu papel de mãe até Robb lhe atribuir outra tarefa, sem nunca abandonar este papel. Sansa é mantida como uma pretendente a Joffrey e “protegida” em Porto Real, uma mera ferramenta de possíveis estratégias contra a casa Stark. Arya sai de Porto Real com a ajuda do patrulheiro negro Yoren, junto com todos os párias reunidos, que seguem rumo à Muralha ao norte de Westeros, onde ela poderia voltar a Winterfell, caso chegasse até lá. Brandon assume como príncipe regente de Winterfell sob a ausência de Robb, caindo em seus ombros a responsabilidade de manter o poder na região original dos Starks sobre os ombros. E Jon Snow avança pelo norte da Muralha, na esperança de encontrar o tio desaparecido da Patrulha da Noite, disposto a enfrentar os selvagens e demais perigos.


Theon Greyjoy é enviado de volta ao reino do pai, dez anos depois de permanecer como “protegido” dos Starks. Enfim livre da estranha família que o acolheu, ele ansiava por reencontrar o pai e o reino destinado a governar por ser o único herdeiro homem vivo. Theon se lembra dos aspectos das Ilhas de Ferro, apesar de receber cumprimentos diferentes do esperado, todos o veem mais como Stark em vez de Greyjoy, e Theon tenta provar o contrário.


“Nos dias que correm todo tipo de gente se intitula rei.”


Como em Guerra dos Tronos, esse levantamento citado acima das jornadas dos personagens focalizados promete muita história em pontos de vistas distintos, do cavaleiro ao refugiado, do controlador ao refém, do convicto ao incerto. As jornadas de cada personagem se entrelaçam e contam o enredo nos pontos mais importantes de Westeros. Os sete reinos vivem alheios às dificuldades desses personagens, com o leitor conhecendo a situação deles a partir do que os capítulos informam seja por ser relevante à pessoa focada naquele trecho, ou por esta estar no lugar certo quando recebe a notícia. Tudo planejado conforme alinha a história de Westeros aos conflitos individuais.


A maioria dos personagens foram apresentados no primeiro volume, e neste tiveram suas personalidades reafirmadas e testadas. Todos enfrentam conflitos consequentes dos acontecimentos anteriores, o enredo mostrando as possibilidades de ação em cada um deles conforme os respectivos comportamentos, e eles agindo de acordo com o que lhe é mais característico. Após os acontecimentos, se torna necessário enfrentar as consequências, mesmo quando o personagem decide não agir. Esta inação ainda é uma decisão e tem um preço caro. As consequências podem gerar novas possibilidades, outros dilemas a serem enfrentados, além de esperanças mortas pela desilusão de quem já sofreu tanto, embora tenha sobrevivido. Tal convergência de dilemas e atitudes favorecem o enredo e ainda elabora tensões nos conflitos pessoais e podem atiçar a relação do leitor com determinado personagem, seja um sentimento de preocupação com ele ou o criticando por uma atitude enquanto elogia o enredo pela falta de misericórdia.


“Todas as manhãs trazem um novo dia, muito igual ao velho.”


Do vasto continente, nem todas as regiões foram exploradas e apresentadas no primeiro volume, e quando algum personagem chegava num lugar inédito, este é demonstrado ao leitor. Mesmo havendo citações dos costumes e informações sobre a casa governante da região antes, a jornada individual cede espaço para as descrições explorarem as diversas características ambientais e da população local. Vai além de quebrar o ritmo, na prática o texto freia quase toda a história através desta descrição, que, mesmo com uma boa qualidade criativa, desanimando a leitura de uma história já avançada, mas deixada de lado. Compromete inclusive o personagem focado, pois perde a proatividade por causa do enredo ao impor o vislumbramento das novidades alheias da saga ao leitor.


Os grandes acontecimentos já foram exaltados nesta resenha pela qualidade conforme as escolhas dos personagens. As consequências inimagináveis tornam-se mais reais devido à situação provocada por essas escolhas. A Fúria dos Reis é mais extensa que o volume anterior, contando a perspectiva de mais personagens, entregando mais capítulos... E esta quantidade prejudica a qualidade. Há passagens monótonas de parágrafos, que começam com o personagem em determinado cenário, onde ele fala com alguém, encerra a conversa, faz alguma ação, e troca palavras com outra pessoa, e repete esse ciclo. Sem desmerecer os diálogos, pois esses sempre entregam assuntos interessantes e fazem a história prosseguir ― salvo alguns que poderiam ser mais sucintos sem prejudicar o ritmo ―, o problema estando na recorrência desta sequência em capítulos submetidos a diálogos. Faltou criatividade em diversificar a forma narrativa, fazendo-a avançar entre parágrafos e falas sem entregar algo a mais ao leitor comprometido a ler as várias centenas de páginas.



Outro recurso abusado ao avançar o enredo é a descrição dos pensamentos do personagem focado. Destacado em itálico no texto, é a transcrição do que ele está pensando no momento exato da cena, colocada na maioria das vezes junto ao parágrafo de descrição. Apesar do recurso se mesclar na narrativa, ainda agride o ritmo da história. Independentemente do texto estar em itálico, a transgressão está em mudar a frase para a primeira pessoa, sinalizando uma descrição suspensa e da voz do personagem manifestada naquele momento, para depois retornar à terceira pessoa e prosseguir com a história. A transição é nítida, nítida a ponto de interromper a fluidez da leitura. Longe de ser proibido descrever o pensamento ao longo da história, a maneira como é feita é que é incômoda. Poderia misturar a narrativa com a reflexão interna por meio do discurso indireto ou indireto livre, ou restringir esses pensamentos quando de fato impactam e compensam a quebra de ritmo.


A Fúria dos Reis demonstra a imensidão de Westeros em conflitos tão grandes quanto o território do continente. As escolhas provocam reações e consequências, sejam as dos personagens, sejam as do autor na forma de narrar; em ambas o leitor participa por meio de elogios ou revirando os olhos, há motivos deste último acontecer sobre o autor e por isso arriscar a credibilidade da saga, que precisa manter a qualidade da história acima da maneira escrita.


“Há homens que nasceram para ser mortos.”








Ficha Técnica:


Nome: A Fúria dos Reis

Autor: George R.R. Martin

Série: As Crônicas de Gelo e Fogo vol. 2

Editora: Suma

Tradutor: Jorge Candeias

Número de Páginas: 648

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


Outros Volumes:

A Guerra dos Tronos (vol. 1)


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a editora Suma



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