• Paulo Vinicius

Resenha: "Klara e o Sol" de Kazuo Ishiguro

Klara é uma AA, criada para servir de companhia para os seres humanos. Cada nova geração de AA tem uma característica especial e a de Klara é a curiosidade e observação. Através de suas capacidades, ela tenta compreender o mundo que a cerca e sua curiosidade a levará a conhecer toda a complexa relação humana.


Sinopse:


Klara, um Amigo Artificial com habilidades de observação impressionantes, estuda com cuidado o comportamento de todos que passam pela vitrine. Do lugar onde foi designada a ficar na loja, ela espera que uma dessas pessoas entre e a escolha como companheira. Contudo, quando surge a possibilidade de sua vida mudar para sempre, Klara é aconselhada a não apostar suas fichas na bondade humana.


Neste novo livro, Kazuo Ishiguro examina o mundo moderno pelos olhos de uma narradora inesquecível. Com uma linguagem única e precisa, ele constrói um romance arrebatador sobre o significado do amor e do cuidado.







Os seres humanos são criaturas complexas que fogem de uma simples elucidação lógica. Muito mais do que apenas sobreviver, eles buscam interagir uns com os outros, sendo seres sociais e socializantes. Kazuo Ishiguro é um autor que gosta de compreender as engrenagens que fazem com que o ser humano se movimente dentro desse complexo mundo enxergado por ele. Um mundo que para aqueles que estão de fora vai parecer estranho e ilógico, mas que possui uma dinâmica interna intrincada. Depois de Não me Abandone Jamais, o autor retorna ao universo da ficção científica com uma trama poética e singela, de uma narradora cujo dom da observação vai nos guiar ao complexo mundo da humanidade.


Em uma loja de Amigos Autônomos (ou AAs), Klara pertence à geração B2, criada para ser sensitiva, curiosa e observadora. Uma companheira perfeita para os seres humanos capaz de fazer parte da vida de qualquer casa de boa família. Sua alimentação consiste na luz do sol que alimenta seus circuitos. Estando em uma loja com uma vitrine voltada para as ruas, Klara observa a passagem das pessoas e acredita que seu mundo é apenas aquela janela. Pessoas vão e vem, carros passam e o enorme edifício RPO se encontra no fundo onde o Sol vai descansar. Infelizmente Klara não tem tido sorte de ter alguém que a adquira, mesmo sendo mais inteligente do que a maioria das outras AAs. Até que um dia ela conhece a jovem Josie, uma garota falante e curiosa que logo faz amizade com ela. Da amizade entre Klara e Josie nascerá uma bela relação onde a AA verá um complexo mundo se desenrolando à sua frente.


"O céu visto pela janela dos fundos do quarto era bem mais amplo do que o vão de céu que se via da loja - e capaz de variações surpreendentes. Às vezes, era da cor dos limões na fruteira, e em seguida podia adquirir o tom cinza das tábuas de cozinha de ardósia. Quando Josie não estava bem, ele podia ficar da cor de seu vômito ou de suas fezes pálidas, e até revelar manchas de sangue. Às vezes o céu se repartia em uma série de quadrados, cada um com um tom de roxo diferente."

Ishiguro possui uma forma narrativa bastante elegante e sensível. Em seu O Gigante Enterrado, o autor pudemos ver o quanto ele se preocupa com o detalhe, aquilo que não está aparente à vista, mas está inserido nas páginas de sua obra. A sutileza na colocação das palavras e a preocupação em quais escolher. Por essa razão até que a obra do autor não é extensa; ele se preocupa com a forma com a qual suas palavras são posicionadas e as maneiras que podemos manipulá-las para conduzir uma mensagem até o leitor. Dou meus parabéns à tradução de Ana Guadalupe porque Ishiguro possui uma abordagem bastante poética e todo o cuidado é pouco para não perder o real significado do que ele queria dizer. Ele escolheu uma narração em primeira pessoa que não é bem uma primeira pessoa já que Klara é um autômato. Constantemente ela refere-se a si mesma na terceira pessoa. Mesmo assim é interessante perceber como ela observa o mundo e procura descrever o que enxerga em palavras. Muitas vezes o leitor vai se perder nestas descrições porque Klara descreve ao pé da letra aquilo que está observando. E essa forma de observar faz parte de seu aprendizado. No começo ela terá uma impressão bastante estranha sobre o que está acontecendo ao seu redor porque Klara não tem nossa experiência de vida. Ela é como uma criança tateando o mundo.


Provavelmente essa seja a grande mágica por trás dessa história. Observar como aos poucos Klara vai ganhando os fundamentos que vão permitir a ela compreender a realidade que a cerca. Para um ser autômato, determinadas situações ilógicas são difíceis de serem previstas e compreendidas. Klara luta quase que o tempo todo para compreender como deve reagir a uma situação X ou Y. E por mais que ela possua dados que se empilham um após o outro, ela não vai reagir corretamente a tudo. Somos seres instáveis por natureza, adeptos de tique e vontades que alguém cujo universo é baseado no racionalismo não consegue captar com 100% de certeza. É curioso perceber que no começo Klara precisa lidar com elementos simples como, por exemplo, como reagir adequadamente a um cliente na loja, como demonstrar interesse, como compreender as reações. Quando Klara vai morar com Josie, a quantidade de informações cresce e as variáveis se tornam infinitas. Como saber se Josie está bem ou doente? Quando ela deseja companhia e quando ela quer ficar sozinha? Quando o que ela diz significa alguma coisa real e quando ela está brincando?


Klara interpreta Josie como sendo alguém que muda de forma; é uma interpretação literal demais sobre como criamos máscaras para interagir em diversos ambientes. Somos pessoas diferentes em diferentes espaços e compreender que papel assumimos neles pode ser confuso e nos afogar em um mar de dúvidas. Klara luta para entender corretamente como reagir diante da Mãe, da Melania Empregada Doméstica, durante os encontros de interação, junto a Rick. Alguns momentos vão ser repletos de tensão porque Klara vai ficar perdida sem saber que escolhas tomar. E em determinados momentos como no caso da viagem à cachoeira, não vai haver uma resposta correta. Qualquer escolha que ela tivesse feito, teria desencadeado uma reação adversa.


" "Klara, você é mesmo excepcional", a Gerente disse, em voz baixa para não chamar a atenção de Rosa e dos outros. "Você percebe e absorve tantas coisas." Ela balança a cabeça como se estivesse admirada. Então, disse: "O que você precisa compreender é que somos uma loja muito especial. Muitas crianças lá fora adorariam poder escolher você, escolher Rosa, qualquer um de vocês. Mas, para elas, isso não é possível. Vocês não são acessíveis para elas. É por isso que elas vêm até a vitrine, para sonhar em ter vocês. Mas aí elas ficam tristes."

Já em outras situações, Klara manifesta uma ingenuidade tão grande que chega a ser tocante. A partir da segunda metade da história, a personagem acaba envolvendo a si mesma em uma jornada para fazer com que Josie fique melhor da doença que ela tem. Josie sofre de um mal estar que a coloca acamada com bastante frequência. Não sabemos ao certo o que ela tem antes do final da história, então só temos a certeza de que isso atrapalha a sua convivência cotidiana. Klara atribui todas as coisas boas ao Sol, que a alimenta e que ela presenciou um momento em que a personagem atribui um poder curativo e regenerador também para os seres humanos. Na cabeça de Klara, ela precisa encontrar o Sol e conversar com ele para pedir algum tipo de ajuda especial para Josie. E isso a coloca em uma subtrama em que ela vai realizar determinadas "missões" para tentar obter os favores do Sol. Para nós, que acompanhamos a história e temos uma noção humana sobre o que está acontecendo, vai parecer desconhecimento e ingenuidade. Mas, é fruto de uma falta de informações necessárias para que a autômata percebesse que possivelmente aquilo não interferiria na saúde de sua amiga humana. São situações bastante comoventes e repletas de uma doçura que encanta.


Precisamos falar sobre a relação entre Rick e Josie. Rick é um menino que é o vizinho da porta ao lado. Para usar uma expressão tipicamente americana. Rick vive com sua mãe Helen, uma mulher que hoje também se encontra bastante doente e precisa de seu filho para cuidar dela. E Rick é um menino que não é elevado, ou seja, ele tem desvantagem em relação aos demais e sequer consegue vagas em instituições de ensino superior devido a essa questão. Esse tema da elevação também só é melhor abordado depois na história, então, para não dar spoilers, fiquemos com a impressão de ser uma desvantagem fatal para sua convivência em sociedade. Aliás, esse é um assunto que diz respeito também à Josie cuja elevação não está garantida por causa de sua condição física. Os dois personagens tem uma amizade de infância que percebemos desde o começo que se transformou em algo mais. E como todo casal, eles tem seus momentos bons e ruins, e desejam fortemente estar ao lado do outro. Só que os problemas e convenções sociais atrapalham os planos de ambos. Seja Josie com a necessidade de melhorar para poder se elevar, ou de Rick em encontrar um futuro ao mesmo tempo em que precisa saber como deixar a mãe para trás.


"Como da outra vez, uma luz alaranjada preenchia todo o celeiro, e no começo foi difícil enxergar meu entorno. Mas logo reconheci os blocos de feno empilhados à minha esquerda e notei que a parede baixa que eles formavam se tornara ainda mais baixa. Havia as mesmas partículas de feno capturadas pelos raios do Sol, mas, em vez de flutuarem delicadamente pelo ar, elas agora se moviam agitadas, como se pouco antes um dos blocos de feno tivesse despencado no chão duro e se desintegrado. Quando ergui o braço para encostar nessas partículas flutuantes, percebi que meus dedos lançavam sombras que se esticavam até chegar à entrada do celeiro."

Assim como no conto O Homem Bicentenário (escrito por Isaac Asimov), Kazuo Ishiguro procura discutir o transumanismo. Um robô é capaz de ter sentimentos humanos? Somos dotados de uma capacidade especial, ao sorrirmos, ficarmos tristes, nos comunicar através de um olhar? É por essa razão que o autor criou uma personagem cuja principal característica é observar e processar informações. Será que um autômato seria capaz de imitar características humanas ao conviver muito tempo com ele? Mesmo Klara sendo uma autômata repleta de sensibilidade, ter a capacidade de sentir é uma habilidade difícil. Isso porque sentimentos não são lógicos. As reações que uma pessoa deve ter diante de uma dada situação podem variar a partir de vários fatores. Em vários momentos, Klara reage erroneamente ou simplesmente não compreende porque alguma situação acarretou uma reação adversa. Sem entrar em muitos detalhes, observem o quanto Klara vai aprendendo sobre o mundo que a cerca e qual o motivo pelo qual Chrissie a levou para estar ao lado de Josie. É algo impressionante e se encaixa bem com o que o autor propõe desde o começo da obra. Nesse sentido, Ishiguro continua nos impressionando com a maneira como ele dobra o texto para nos sensibilizar. Klara e o Sol é mais um livro que suscita emoções em nossos corações e acabamos investidos nos objetivos tão inocentes de uma personagem que, mesmo sendo um autômato, é sensível, delicada e afetuosa.












Ficha Técnica:


Nome: Klara e o Sol

Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Companhia das Letras

Tradutora: Ana Guadalupe

Número de Páginas: 336

Ano de Publicação: 2021


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras











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