• Paulo Vinicius

Resenha: "O Gigante Enterrado" de Kazuo Ishiguro"

Axl e Beatrice partem em uma jornada para irem visitar o seu filho em uma aldeia distante. Pelo caminho eles encontram um cavaleiro e um jovem rapaz que estão em uma aventura para derrotar a dragoa Querig e tirar as névoas da memória que cobrem as ilhas britânicas.


Sinopse:


Uma terra marcada por guerras recentes e amaldiçoada por uma misteriosa névoa do esquecimento. Uma população desnorteada diante de ameaças múltiplas. Um casal que parte numa jornada em busca do filho e no caminho terá seu amor posto à prova - será nosso sentimento forte o bastante quando já não há reminiscências da história que nos une? Épico arturiano, o primeiro romance de Kazuo Ishiguro em uma década envereda pela fantasia e se aproxima do universo de George R. R. Martin e Tolkien, comprovando a capacidade do autor de se reinventar a cada obra. Entre a aventura fantástica e o lirismo, O gigante enterrado fala de alguns dos temas mais caros à humanidade: o amor, a guerra e a memória.






Com uma leveza digna de um artista da pena, Kazuo Ishiguro nos leva a questionar sobre o quanto seríamos capazes de sacrificar para obtermos a verdadeira paz. Seríamos capazes de realizar um ato de absoluta covardia, de terror inimaginável para obtermos séculos de paz duradoura? Seríamos capazes de conviver com nossos próprios espíritos? Estaríamos verdadeiramente em paz? Ele brinca com essas e outras questões em uma narrativa que parece ser lenta, mas que quando você se dá conta está completamente absorvido pelas questões existenciais que cercam Axl, Beatrice, Edwin, Wistan e Sir Gawain. A narrativa dessas pessoas se interconecta em uma rede povoada por ogros e dragões em uma Inglaterra pós-arturiana.


Nossa história começa em uma vila com um doce casal de idosos chamados Axl e Beatrice. Depois de adiarem a viagem por muitos anos, eles decidem finalmente ir visitar seu filho (ao qual eles tem poucas recordações) que eles sabem viver em uma vila não muito distante de onde eles moram. Tendo uma forte sensibilidade, Axl percebe uma estranha névoa que paira nas ilhas e está entorpecendo a memória das pessoas de alguma maneira que ele não sabe explicar. Algo está sendo escondido de todos, inclusive deles mesmos. Ao pegar a estrada, eles decidem primeiro se aconselhar com um famoso monge local para descansar e medicar sua esposa Beatrice e no caminho eles acabam se encontrando com Wistan e o jovem Edwin. O cavaleiro bretão Wistan está em uma missão para derrotar a dragoa Querig que vive na montanha próximo da vila para onde Axl e Beatrice pretendem ir. É aí que o cavaleiro decide escoltar o casal de idosos e nossa aventura começa.


"O estranho sugeriu que talvez o próprio Deus tenha esquecido boa parte do nosso passado, acontecimentos do mesmo dia. E, se uma coisa não está na mente de Deus, qual é a chance de ela permanecer na de homens mortais?"

A escrita de Ishiguro é extremamente delicada e sutil. Muitas vezes eu me pegava imaginando o autor escrevendo sua narrativa com o bico da pena de tão delicada que é sua forma de escrever. A narrativa é em terceira pessoa e partimos de dois núcleos principais: ora a partir de Axl e Beatrice, ora a partir de Edwin. Fico imaginando que esse é o tipo de história que não vai agradar a todos porque ela tem um nível de desenvolvimento bem lento. Ishiguro não tem a menor pressa em mover suas peças. O leitor demora a perceber aonde ele quer chegar. Não se preocupem: existe um sentido último e uma enorme surpresa na jornada de Axl e na de Wistan e uma importante história a ser contada.



A relação entre Axl e Beatrice é um dos pontos altos da narrativa. Como Ishiguro consegue nos mostrar bem a relação entre ambos. Isso sem ser água com açúcar. Percebemos que ambos se amam de verdade e que tem os seus momentos de amor e devoção e aqueles em que eles discordam. Isso vai do tempo de amadurecimento da união de um casal. Mesmo pequenos gestos confirmam isso: eles sempre andarem juntos ou a preocupação constante de Axl com o conforto de Beatrice ou o receio de Beatrice com a presença de Axl. E assim, não há nenhum grande mistério na história do casal: a história deles é uma aventura em busca de seu filho. Nada além disso. Só que teremos grandes surpresas nesse trajeto.


Muito já se foi dito sobre se o romance é ou não uma fantasia. O próprio autor não gosta de ter o seu romance vinculado ao gênero. Para mim é uma fantasia sim. A diferença é que o elemento fantástico não é uma ferramenta da narrativa, e sim um estado presente na narrativa. É a mesma sensação que temos quando lemos Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez ou Como Água para Chocolate, de Laura Esquivel. Então a todo o momento temos a presença da névoa que de alguma maneira afeta a memória de toda a população das ilhas britânicas ou a dragoa Querig que permanece como o grande vilão a ser abatido ou os ogros que atacam camponeses incautos. Mas, a aventura não se move em função disso. Se eu pudesse ser mais ousado, Ishiguro usa a fantasia quase como uma alegoria para aquilo que ele tem a dizer. Por exemplo, os ogros são uma alegoria para a extrema violência que assolavam as estradas durante a Idade Média. Os camponeses eram mortos a todo o momento e precisavam andar em caravanas. Bandoleiros eram pessoas sem identidade definida quase como se fossem ogros ou brutos. A dragoa Querig está presente por conta do seu bafo de névoa que encobre a ilha do qual falarei a seguir. Ou seja, é sim uma fantasia.


O autor gosta de brincar com como a memória pode ser dobrada ou entorpecida. Em O Gigante Enterrado, uma névoa poderosa está sendo usada para encobrir um acontecimento terrível do passado. A partir desta narrativa da memória surgem dois problemas a ser resolvidos pelos personagens: queremos nos lembrar de tudo o que foi esquecido, mesmo que seja algo horrível; e por que reviver memórias passadas se elas desenterrarão feridas que já poderiam ter sido cicatrizadas. O primeiro caso é algo mais íntimo e pessoal e tem a ver com um amadurecimento próprio, uma auto-análise que fazemos bem mais adiante. A gente aceita aquilo que já aconteceu e tratamos como parte daquilo que forma o nosso todo. Tudo é parte de nossa experiência pessoal; acertos e erros. Já o segundo caso cai em um ponto de toque mais complexo. Por exemplo: e se pudéssemos apagar magicamente o que foi feito com os judeus durante o Holocausto? Houvesse uma forma mágica ou um artefato qualquer que apagasse apenas isso da memória de todos? Seríamos capazes de reverter o processo? Reviver toda a dor novamente? É nessa encruzilhada que os personagens vão se situar no final da narrativa, mas em uma situação distinta.


"Axl e eu queremos recuperar os momentos felizes que passamos juntos. Não lembrar deles é como se fôssemos roubados, é como se um ladrão tivesse entrado no nosso quarto à noite e levado o que nos é mais precioso."


Uma das partes que eu mais gostei também na narrativa se passou no monastério. Temos toda uma rede de intrigas acontecendo ali dentro com monges e padres estranhos que não sabemos se são apenas bondosos ou escondem alguma coisa. De repente aparece um instrumento de tortura com uma máscara e ferros pontiagudos. Me lembrou bastante os momentos investigativos passados em O Nome da Rosa, de Umberto Eco. A forma como Ishiguro coloca os personagens e a ambientação é muito boa e consegue envolver os leitores em algo que não te dá pistas exatas sobre o que está acontecendo. A gente sabe que alguma coisa está errada só não sabe o que e de onde é. Achei isso fascinante.


Preciso escrever também um parágrafo sobre Sir Gawain, um dos últimos remanescentes da corte do rei Arhur. Um homem alquebrado pelo tempo e pelas guerras montado em seu cavalo Horácio e partindo em uma última missão em busca da dragoa Querig. Assim como Wistan. A percepção que eu tive é que Gawain tem uma participação quase quixotesca em O Gigante Enterrado, embora seu papel tenha sido mais dramático do que cômico. Digamos que Gawain represente um legado de tempos passados e difíceis e que tiveram que ser resolvidos com medidas extremas. Nesse sentido Wistan e Gawain representam imagens espelhadas embora com idades diferentes. Tem dois capítulos no livro que Ishiguro nomeia Devaneios de Sir Gawain que são extremamente melancólicos e nos mostram um pouco do que se passa na mente do nobre cavaleiro. Ele precisou conviver com a culpa de ter feito as ações sob o comando de Arthur, um homem justo e de ter sobrevivido a tudo. Nem sempre ações justas significam boas ações. Talvez essa seja a maior lição deixada pela imagem de Gawain.


"Isso é um disparate, senhor. Como as velhas feridas poderão cicatrizar se estão cheias de vermes que subsistem de forma tão exuberante? Ou como a paz poderia durar para sempre se foi construída sobre um massacre e um truque de mágico? Eu vejo com que ardor o senhor deseja que os seus velhos horrores se esfarelem até virar pó. No entanto, eles continuam esperando debaixo da terra, como ossos brancos, que os homens os desencavem."

O Gigante Enterrado é um belíssimo livro, de um lirismo inacreditável e é compreensível o fato de ele ter sido tão premiado como foi. É um daqueles livros que ou você ama ou você odeia. Para mim, foi uma ótima leitura. Ishiguro me mostrou por que é um dos grandes da literatura mundial e fico feliz que essa tenha sido a minha porta de entrada em seus escritos. Mal vejo a hora de pegar outro de seus trabalhos.








Ficha Técnica:


Nome: O Gigante Enterrado

Autor: Kazuo Ishiguro

Editora: Companhia das Letras

Tradutora: Sônia Moreira

Número de Páginas: 400

Ano de Publicação: 2015


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