• Paulo Vinicius

Resenha: "Eden vol. 8" de Hiroki Endou

Atualizado: 6 de Nov de 2019

Momentos decisivos neste oitavo volume de Eden. Com Mana correndo perigo após ser resgatada por Elijah, veremos como se dará o desfecho dessa terrível situação. E os colóides tomam uma nova forma. Como isso afetará a sociedade na Terra?


Sinopse:


Mesmo com Mana recuperada, Elijah e companhia não podem sossegar enquanto não conseguirem neutralizar o micro explosivo implantado no corpo dela. Tudo parecia seguir conforme o planejado, se não fosse pela Sophia sendo atacada por ninguém menos que a própria filha, que ela abandonou no passado, e raptada pelas forças inimigas! A perda da superhacker pode resultar em perdas muito mais graves e irreparáveis!




ATENÇÃO: TEM BELOS SPOILERS AQUI. SE VOCÊ NÃO LEU, PARE AQUI. 



Finalmente um volume decente depois de três decepcionantes. Não é o brilho inicial da série por conta de uma série de situações, mas pelo menos Hiroki Endou conseguiu trazer discussões éticas e desenvolvimentos interessantes para os personagens. Entretanto, é meio tarde demais para isso, porque só falta mais um volume e mesmo com todo o esforço colocado, vários problemas permaneceram. Eden é uma série que eu queria muito ler por conta da distribuição problemática na primeira vez em que foi publicada no Brasil e por ter despertado minha atenção com um bom roteiro. Chego ao penúltimo volume com a impressão de que haviam boas ideias, mas o ritmo de publicação pode ter afetado a produção do mangá. 

O traço recuperou a clareza e os detalhes que eu gosto tanto na arte do Endou. Ele mescla muito bem uma arte mais de rua com detalhes cibernéticos. Uma das virtudes de Eden é quando há essa mescla entre mundo real e futuro onde você quase não consegue definir muito bem a diferença entre ambos. Temos duas metades neste oitavo volume: uma longa cena de perseguição e combate que continua a partir da edição passada e alguns momentos mais calmos e filosóficos na segunda metade. Essa primeira parte é frenética, com bala voando, avião chegando, soldados se organizando. São alguns capítulos que passam voando e o autor não tem pena de matar personagem aqui. É o que eu gostava na narrativa visual do Endou e eu estava sentindo falta. Essa ação visceral, o medo do amanhã. Eden estava muito contido nos últimos volumes. Os cenários de fundo passam rapidamente e tem toda uma variedade dos mesmos usados pelo autor. A gente tem um cenário urbano, depois um campo de refugiados na Índia e até um coletivo de pessoas ao lado de colóides (estruturas fractais que começam a ganhar uma explicação maior). 

A segunda metade é onde ele poderia se perder mais nos desenhos por conta do aspecto mais abstrato das coisas. No entanto, ele consegue se sair bem e apresentar uma atmosfera "universal". Mesmo os momentos onde a ação se volta para a depressão do Elijah e seu tormento com as drogas, Endou adota um fundo branco, se focando inteiramente nas reações do personagem. Esses momentos intimistas me cativaram bastante porque apelaram para o descontrole emocional do personagem e como a Miriam sofria com isso. As expressões faciais dos personagens aqui estão fenomenais.


Mas, o volume tem os seus problemas. Endou quis abraçar o mundo com a sua narrativa. A gente tem muitos pontos de vista aqui e nenhum foco. Ele vai trabalhar tantos temas e lugares diferentes que o leitor não consegue fincar os pés no chão em algum lugar. No primeiro momento temos o grupo do Elijah em combate, depois a captura da Sophia (não é um spoiler completo... acontece na segunda página deste oitavo volume), depois a relação entre Mana e Maya, os colóides e seu impacto na Terra e a situação entre Miriam e Elijah que se agrava. Muito chão para cobrir em pouco tempo. Então essa falta de foco faz com que a gente se disperse. E olhe que tem muito tema interessante sendo debatido aqui. O que eu acho é que apesar de ter essa trama filosófica sensacional com os colóides, o autor precisava ter escolhido entre dar o seguimento às histórias dos personagens ou migrar para o surgimento dos colóides e como isso se resolveria. 

Acontece uma morte importante neste volume e é uma total quebra de clichê já que a morte não tem nenhum propósito em especial. O legal é que o próprio autor brinca com isso. "Sua morte não teve nenhum propósito, nenhum motivo e não vai gerar nada." O personagem morto apenas estava no local errado e na hora errada. E de fato, isso apenas gerou um anticlímax. Sempre imaginamos uma morte como um catalisador para algo, mas tal não é o caso. A morte gerou uma bela discussão sobre o que fazemos de nossas vidas. Nosso destino como seres humanos é se autodestruir. Caminhamos para isso. Nesse ponto, o discurso do Endou é bem pessimista mesmo. Enquanto que há uma orientação para como a natureza equilibra a vida, o homem se coloca totalmente à parte desse movimento. Matamos por fé, preconceito ou diferenças... mas, essas mortes de nada auxiliam ao meio ambiente ou desenvolvem o conceito de existência. A morte significa apenas um vazio completo. 

Nesse ponto dá para fazer uma bela associação com o que acontece no campo de refugiados na Índia onde um dos cientistas vai parar. Aqueles poucos capítulos funcionam quase como uma parábola para legitimar o objetivo dos colóides. Somos colocados diante de uma série de pessoas ferias que são atendidas pelos médicos ali. Quando os remédios faltam, um dos médicos tenta obter a medicação através de meios ilegais. O cientista reclama do médico por conta de sua falta de ética que originou uma retaliação de grupos muçulmanos, causando a morte de algumas pessoas. Salvou-se algumas, mataram-se várias. Quando o cientista consegue uma sobre de remédios em outra cidade, tudo parece encaminhar para um final feliz. Mas, quando ele retorna ao campo, tudo fora destruído horas antes por um grupo de guerrilheiros armados. Então, de que valeu todo o esforço? Foi algo frustrante e decepcionante para ele. 



Por outro lado temos o Elijah e sua dependência de drogas. Alguns leitores já devem até ter se acostumado com esse vai e vem dele. Quando colocado em uma situação difícil, ele busca refúgio nas drogas. Isso acaba tomando outras proporções porque a gente percebe que a Miriam se apaixonou por ele. E ela não consegue ficar parada vendo ele se afogar nas drogas. A pior decisão que ela pode fazer é o primeiro caso... Casos como o dele são de internação e reabilitação mesmo. Não tem para onde correr. Pode parecer que o personagem é fraco, mas o grande defeito dele é sua baixa auto-estima. Como ele teve um crescimento errático, se envolvendo em situações oriundas dos negócios de seu pai, ele acabou conhecendo determinados horrores muito cedo. Isso precisa ser somado à falta de uma figura paterna... Ennoia nunca esteve presente e Hannah acabou em coma e em uma clínica. Vamos aguardar para ver se a dedicação da Miriam vai ser o suficiente para tirar o personagem dessa situação. 

Enfim, este volume 8 teve lapsos do brilhantismo de outrora da série. Para mim, infelizmente chegou a um ponto em que eu quero apenas terminar a leitura já que só falta mais um volume. Me divirto em algumas partes, mas o desenvolvimento dos personagens ou da narrativa não me interessam tanto. Endou me surpreende com algumas decisões arriscadas, mas fica só naquela sensação de choque apenas. Vale pelos traços, vale por algumas discussões... eu gosto do Endou pés no chão. 



Ficha Técnica:

Nome: Eden vol. 8 Autor: Hiroki Endou  Editora: JBC (no Brasil) Gênero: Ficção Científica Tradutor: Denis Kei Kimura Número de Páginas: 400 Ano de Publicação: 2016


Outros volumes:

Volume 1

Volume 2

Volume 3

Volume 4

Volume 5

Volume 6

Volume 7

Volume 9

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