• Paulo Vinicius

Resenha: "Contos Fantásticos do Século XIX" escolhidos por Ítalo Calvino (Parte 4)

Na última parte de nossa resenha, temos alguns contos simplesmente sensacionais como O Construtor de Pontes, de Rudyard Kipling e o famoso conto Em Terra de Cegos, escrito por H.G. Wells.

Nesta quarta parte temos os seguintes contos:


20 - "Amour Dure" (de Vernon Lee) - 1890

21 - "Chickamauga" (de Ambrose Bierce) - 1891

22 - "Os Buracos da Máscara" (de Jean Lorrain) - cerca de 1900

23 - "O Demônio da Garrafa" (de Robert Louis Stevenson) - 1893

24 - "Os Amigos dos Amigos" (de Henry James) - 1896

25 - "Os Construtores de Pontes" (de Rudyard Kipling) - 1898

26 - "Em Terra de Cegos" (de H.G. Wells) - 1899


Vamos às resenhas:


20 - "Amour Dure"


Autor: Vernon Lee Avaliação:

Publicado originalmente em 1890

Traduzido por Hildegard Feist



Vernon Lee nos coloca diante de um homem chamado Spiridion que segue até a região da Urbania, na Itália, para estudar uma misteriosa, porém controversa figura chamada Medea da Carpi. Uma espécie de mulher fatal da época dos condottieri, que utilizou sua beleza para obter privilégios. Mas, ao mesmo tempo se tratava de uma mulher sofrida, vítima de um casamento que ela não quis (fruto de um rapto) e de um aprisionamento posterior por causa de sua influência. Aos poucos Spiridion vai se encantando com o objeto de seu próprio estudo até ela se tornar uma obsessão em sua vida. E os encantos de Medea que já eram fatais em vida, vão se provar ainda piores após a sua morte.


O curioso neste conto é o quanto a escrita do Vernon Lee me incomodou e me encantou ao mesmo tempo. Isso porque a sua história de Medea ocupa boa parte da narrativa e chega a ser cansativa em determinado momento. Aliado aos parágrafos alongados demais e aos períodos que também são gigantes (frases de 4 ou 5 linhas acabam afogando o leitor em uma afirmação que não para), a narrativa de Medea é cercada por floreios narrativos. Mas, isso acaba ficando de lado quando a gente percebe dois pontos: a escrita epistolar empregada pelo autor e o fato de os floreios narrativos fazerem parte da construção e progressão da história. Quanto mais floreado é o discurso de Spiridion (a narrativa é escrita a partir de seus diários), mais isso significa que o personagem está sob o controle de uma mulher que não mais existe. Quando chegamos à segunda parte da trama, o protagonista está completamente entregue e suas frases contém inúmeras juras de amor eterno.


Há dois temas dos quais eu posso comentar. Um deles é de o quanto Vernon conseguiu construir uma mulher poderosa e ativa como Medea da Carpi. Mesmo sabendo que o discurso de Spiridion é bem pouco confiável, Medea acaba sendo uma pessoa que correu atrás de seus objetivos mesmo diante de todos os obstáculos que se interpuseram diante dela. Estamos falando da construção de uma mulher empoderada, que não é exatamente uma mocinha ou sequer uma femme fatale, mas alguém que reconhece o seu poder diante de todos ao seu redor. Que não se arroga de empregar sua beleza e capacidade de manipular para obter algum benefício. No caso do jovem Ordelaffi, ela sequer precisou ter relações sexuais para deixá-lo submisso. Ou seja, temos uma personagem que atravessa o conceito maniqueísta de bem e mal, para ser uma mulher humana, passível de qualidades e defeitos.


Já no caso de Spiridion, temos um sentimento de obsessão avassaladora. O seu objeto de estudo se tornou o seu calcanhar de Aquiles. E é curioso pensar o quanto alguns biógrafos passam por esta situação. Quando a pessoa biografada deixa de ser um nome em um livro e se torna alguém de carne e osso. Quando os sussurros do biografado se tornam vontades reais. É apavorante. O desespero de Spiridion de desejar encontrar a sua mulher ideal é totalmente compreensível. O biógrafo se torna um refém daquele sobre o qual está escrevendo.


O autor consegue entregar uma história fascinante e apavorante ao mesmo tempo. O elemento fantástico se vê presente na própria figura encantadora de Medea, nunca existente porém sempre presente. Alguém cujos encantos mesmo após a morte ainda conseguem levar a destruição aos homens que se apaixonam por ela.

21 - "Chickamauga"


Autor: Ambrose Bierce Avaliação:

Publicado originalmente em 1891

Traduzido por Paulo Schiller



Narrativas que tratam de campos de batalha sempre são terríveis. Principalmente quando o autor consegue nos apresentar o desespero daqueles que ficam ou que perecem após uma batalha importante. Ambrose Bierce é conhecido pelos seus contos de terror, mas o mais curioso aqui é o quanto aqui não existe nada de sobrenatural ou mágico. Porém, como o organizador da coletânea, Ítalo Calvino expõe, o fantástico está na própria aura de destruição e carnificina deixada para trás por aqueles que travaram uma guerra. É quando a inocência é deixada para trás em prol da sobrevivência e onde os cães e os chacais são os verdadeiros vencedores.


Aqui temos uma história curtinha mostrando o resultado de uma batalha ocorrida durante a Guerra de Secessão, nos EUA, pelos olhos de uma criança que sobreviveu a tamanho massacre. Acredito que essa criança ou seja parte de uma família que vivia nos arredores ou era um dos acompanhantes que seguem os soldados que participavam das batalhas. A criança percorre a destruição e a violência do campo de batalha e aos poucos ela vai se deparando com cenas cada vez mais tenebrosas. É quase como se fosse uma via crucis até o momento em que o desespero toma conta de seu íntimo e ela não é mais capaz de continuar.

A escrita de Bierce é poderosa. As imagens dos corpos espalhados pela floresta, das pessoas fugindo desesperadas ou dos cães se alimentando dos restos deixados para trás são pungentes. A gente sente a dor deixada para trás a cada sequência. Somos capazes de escutar o coração da criança se partindo em mil pedaços a cada nova cena, formando um caleidoscópio da barbárie. Presenciar um soldado tentando colocar suas vísceras para dentro certamente destrói qualquer um. Bierce consegue chocar e emocionar. Demonstrar a banalidade da guerra para aqueles que deixam jovens para trás. O quanto a violência destrói nosso íntimo, nos marcando para todo o sempre. Para mim, Bierce dá um espetáculo de escrita imagética, simplesmente porque ele consegue fazer o leitor visualizar aquilo que se encontra em suas páginas. Só tenho a recomendar demais esse conto.


22 - "Os Buracos da Máscara"


Autor: Jean Lorrain Avaliação:

Publicado originalmente por volta de 1900

Traduzido por Rosa Freire D'Aguiar



Como Calvino coloca na apresentação do conto, Jean Lorrain era um boêmio, reconhecidamente homossexual e usuário de éter, Os Buracos da Máscara nos mostram um personagem que é impossível não associarmos ao próprio autor. E eu posso imaginar como deveria ser um homossexual em pleno século XIX onde os valores do homem poderoso, chefe patriarcal de sua moradia e provedor deveriam pesar nos ombros do autor. Ser alguém preso em um corpo que ele não desejava ser seu. A dor de não poder se libertar das amarras sociais. Somente ao se entorpecer é que essa libertação acontece, quando todos os problemas sociais ficam para trás porque o corpo está em um outro plano. Essa é a narrativa por trás de uma aventura "fantástica" vivida pelo protagonista.


Nosso protagonista está ao lado de seu amigo De Jakels (claramente seu amante) e ele segue em uma noite de carnaval até um clube onde eles poderiam ficar à vontade. Após uma viagem encantadora com seu amigo, eles chegam até o estranho lugar onde todos usam máscaras. Pouco a pouco o protagonista vai se dando conta de que ele não é capaz de reconhecer ninguém como ser humano. Aliás, o único humano presente em todo o clube é um boneco de cera que está na porta para uma outra sala do clube. Ele se preocupa que o mundo inteiro teria ficado desprovido de seres humanos até que ele se depara com uma constatação assustadora...


É fácil imaginar que as máscaras representam nada além das próprias máscaras sociais usadas pelos "transgressores" nessa sociedade de status e valores. Ao usar máscaras por tanto tempo, pessoas como o protagonista acabam perdendo o senso de si mesmos. Eles querem ser alguma coisa e acabam não podendo por conta de valores aos quais eles não entendem a lógica. A existência do clube é um sinal claro de que existe essa necessidade de se esconder em um lugar que fornece um módicum de libertação. E mesmo essa libertação é repleta de medo e desconfiança como é percebido na fala do porteiro do clube e das outras pessoas cujos olhares são o tempo inteiro avaliativos.


Aquele final era em parte previsível muito porque não é possível que algo como aquilo fosse real. As limitações sociais da época não permitiriam algo tão aberto. A gente pode especular se a experiência inteira foi verídica ou se foi fruto dos devaneios do protagonista. E é incrivelmente triste pensar que um autor tão talentoso como Jean Lorrain tenha passado por isso, e certamente isso encurtou o seu tempo de vida. Durante toda a narrativa podemos ver o grito do autor para que aquela angústia findasse.

23 - "O Demônio da Garrafa"


Autor: Robert Louis Stevenson Avaliação:

Publicado originalmente em 1893

Traduzido por Ricardo Lísias



A tentação de poder pedir aquilo que se deseja sempre passa pela mente do homem. Os desejos de um gênio, uma habilidade mágica ou um diabo na garrafa. Esses elementos mágicos sempre estiveram presentes espalhados por toda a literatura. Aqui, Stevenson brinca com o tema dos desejos, mas de uma maneira perversa e demonstrando o quanto uma ambição desmedida pode destruir uma vida. Vários momentos deste conto são angustiantes e o final é simplesmente arrebatador.


No conto, Keawe é um homem simples das ilhas da Polinésia que se depara com um estranho e soturno homem que o oferece uma garrafa com aparentes poderes mágicos. Essa garrafa possui algum tipo de ser mágico que concede desejos. Mas, aparentemente esse ser é completamente maligno e tem o dom de distorcer tudo o que se pede a ele. Keawe fica cético a princípio e acaba comprando a garrafa do homem. Ah, a curiosidade é que a garrafa precisa ser vendida por um valor menor do que o que ela foi comprada. Então, a cada momento ela está com o preço mais baixo o que gera a desconfiança de quem compra. Nosso protagonista testa os poderes da garrafa e acaba pedindo uma casa. E é aí que ele percebe o quanto esta garrafa é maligna. Vamos ver o personagem tentando de tudo para se livrar do fardo.


Stevenson dá um belo twist no tipo de história do ser maravilhoso que concede desejos. Aqui temos um artefato nitidamente maligno que faz de tudo para torcer o que lhe é pedido ou obrigar o dono a fazer um pedido mesmo contra a vontade. O demônio da garrafa é, sem dúvida, uma representação do pecado da cobiça. E é muito curioso ver as engrenagens usadas pelo demônio para causar o caos ou fazer uma maldade. Podemos dividir a narrativa em duas partes: na primeira o leitor vai se familiarizar com como a garrafa funciona e na segunda vemos o protagonista lutando para se livrar dela, mas caindo em uma série de armadilhas. Tem um momento angustiante na história entre Keawe e sua esposa Kokua. A gente percebe que os dois realmente se amam e o quanto a garrafa se coloca entre eles apenas para causar a maldade.


A narrativa do autor é um pouco longa para o meu gosto. Ela consegue passar a mensagem que deseja, só que às vezes o autor se perde em suas próprias maquinações. Mas, vale dizer que eu gosto da forma como Stevenson escreve em comparação a outros de seus contemporâneos. Ele é bem menos descritivo que Kipling que vamos ver já já. Os diálogos não são tão expositivos, se focando mais no emocional dos personagens. E outro ponto positivo é o quanto o autor não escreve de forma tão erudita. Facilita a compreensão. O Demônio da Garrafa é uma ótima história que nos mostra o quanto desejar as coisas com facilidade pode vir a um preço que nem sempre estamos dispostos a pagar.


24 - "Os Amigos dos Amigos"


Autor: Henry James Avaliação:

Publicado originalmente em 1896

Traduzido por Renato Pompeu



Ser ciumento é algo que pode transformar a nossa vida em uma eterna vigília. Sempre refletir sobre uma frase dita ou um silêncio súbito, perceber gestos descabidos e interpretá-los de forma desconfiada. A pessoa ciumenta vive em um mundo de paranoia aguardando a traição surgir a cada minuto. É esse tipo de paranoia que Henry James tenta impor em sua narrativa, nos colocando diante de um casal que vê sua vida ligada a partir de um interesse exótico pela capacidade de enxergar fantasmas e que esse mesmo interesse irá colocá-los em uma situação absurda.


O casal divide então essa paixão pelo estranho e pelo sobrenatural. O noivo teria visto sua mãe antes de ela morrer, só que esta estava a quilômetros de distância do filho. Então ele teria visto algum tipo de espectro seu. A protagonista tem uma amiga com a qual ela compartilha confidências e tem uma boa relação. Mas, esta relação azeda quando sua amiga parece estar interessada em conhecer o seu futuro esposo. É então que a protagonista faz de tudo para evitar que os dois se encontrem. Mas, tudo isto vai mudar quando subitamente sua amiga falece. Antes disso acontecer, ela teria tido um encontro espectral com o seu marido e deixado uma marca indelével em seu ser. A partir daí, tudo irá mudar...


Infelizmente a história não conseguiu me tocar. Achei os parágrafos longos demais. Até mesmo a forma das frases de James eram cansativos. Os períodos tinham quatro, cinco ou até seis linhas. Isso para um leitor é complicado. É preciso o máximo de atenção em uma narrativa desse tipo de forma a absorver tudo o que o autor pretende. Admito que preciso fazer uma segunda leitura para tentar entender melhor as nuances da história. Mas, de qualquer forma, James nos coloca em uma situação que por vezes é tortuosa de ser compreendida. Precisei reler determinados trechos umas duas ou três vezes. E eu só fui realmente captar a essência da história lá pelo final. Até mesmo para entender a proposta das projeções espectrais eu briguei um pouco porque este nem é um mote frequente.


Contudo, ele foi bem sucedido em nos apresentar uma mulher ciumenta e obcecada. A protagonista não é um personagem gostável. Seu lado ciumento é feio e demonstra sua total insegurança frente à realidade em que vive. A maneira como ela cria as situações para frustrar o encontro de seu noivo e sua amiga chega a ser maldoso. Inclusive com os comentários que ela tece sobre sua amiga. O que acaba acontecendo com ela na segunda parte é fruto de suas próprias maquinações. Ela colhe o que semeia.

25 - "Os Construtores de Pontes"


Autor: Rudyard Kipling Avaliação:

Publicado originalmente em 1898

Luiz A. de Araujo



A interação entre o novo e o antigo é um tema que passou pela mente de muitos autores. Este choque entre tradicional e moderno. Se formos pensar na Índia então, é onde isso acontece até os dias de hoje. Aliás, é legal pensar primeiro historicamente. A Índia foi um dos lugares onde o imperialismo selvagem europeu principalmente quando sob a tutela da Inglaterra após a segunda metade do século XIX. Os ingleses empreenderam um ritmo de industrialização muito frenético, desconstruindo o tradicional e impondo a civilização. Até desdenhando daquilo que fazia parte da cultura indiana desde tempos imemoriais. É lógico que isso vai provocar uma reação. A aculturação foi sim parte do modus operandi dos ingleses. E Rudyard Kipling conseguiu usar a sua literatura para nos chamar a atenção quanto à necessidade de prestarmos atenção nestes pequenos detalhes.


Somos colocados diante de um grupo de trabalhadores construindo uma ponte importante para ligar duas regiões da Índia. Ponte esta que seguia um modelo em pilastras, teoricamente garantindo uma resistência e estabilidade maior do que as pontes estaiadas, que haviam se tornado uma moda naquele período. Findlayson é o chefe de obras e tem orgulho de sua abordagem na construção de pontes. Peroo é um indiano que o ajuda com os trabalhadores locais. E é um homem imbuído da cultura indiana e lhe fala de algumas de suas superstições e o quanto seus homens são afetados por elas. Um dia, uma chuva ameaça destruir todo o trabalho. Findlayson se vê na tarefa de recolher todo o material de construção da ponte. Peroo o alerta de que essa cheia é fruto da ira de Mãe Gunga que está insatisfeita com as pessoas que não lhe fazem mais oferendas. Diante de tamanha destruição perpetrada por um deus, Peroo pede a Findlayson que largue tudo e se abrigue em um lugar. Mas, o construtor persiste e acaba assistindo a uma incrível cena que vai marcá-lo para sempre.


É possível o tradicional conviver com o moderno? Esta é uma pergunta extremamente filosófica e talvez impossível de ser respondida com precisão. Kipling acredita que sim e tenta demonstrar isso através de uma conversa entre vários deuses. Cada um aponta um problema na humanidade. No século XIX estávamos em um lento processo de nos desligarmos dos aspectos religiosos que vão culminar na visão de "Deus está morto" de Nietzche. Diante das transformações tecnológicas não havia mais tanto espaço para o inexplicável. No início dos tempos, as religiões se focavam nesse aspecto de misterioso e mágico provocado pelos fenômenos da natureza. Mas, à medida em que a ciência ganha cada vez mais espaço, o mágico acaba sendo relegado a lugares muito pequenos de nossa imaginação. Isso afeta a forma como nos relacionamos com a fé. O que é a fé hoje? O que a religião representa em nossas vidas? Vemos um crescimento de religiões de caráter mais normativo, que regulam nossas vidas em prol de um pós-morte ideal. Não sobre espaço para religiões como a hindu onde a relação com os deuses vem a partir do desconhecimento da faceta selvagem da natureza.


Certamente Kipling nos faz refletir sobre esta dicotomia. Os personagens são nossas orelhas para entender o que ele realmente quer dizer. E sua abordagem acaba sendo orientada para algo metafísico que serve para todos nós. Os Construtores de Pontes é uma daquelas histórias que valem a pena serem lidas e relidas.


26 - "Em Terra de Cegos"


Autor: H.G. Wells Avaliação:

Publicado originalmente em 1899

Traduzido por Renato Pompeu



Esta é a segunda vez que eu leio esse conto do H.G. Wells. E é incrível o quanto ele fica melhor a cada nova leitura. A gente acaba percebendo outras nuances da escrita de Wells e outras mensagens que estavam escondidas bem ali e não éramos capazes de perceber porque não tínhamos a maturidade suficiente. Para mim, Em Terra de Cegos é um dos melhores contos (se não o melhor) escrito pelo autor. E é uma história com uma mensagem poderosa.


Nela, vemos que um grupo de exploradores do qual Nuñez faz parte seguem pela cordilheira dos Andes. Existe a lenda da existência de uma vila de pessoas cegas que teriam fartura de comida, de riquezas e de felicidade. Só que esta terra ficaria em uma terra inacessível para as pessoas em um ponto isolado da cordilheira. Nuñez acaba sofrendo um acidente e caindo longe do alcance de seu grupo. Ele acaba sendo resgatado por estranhas pessoas que ele percebe terem seus olhos afundados e serem incapazes de enxergar. Enquanto ele se recupera em sua vila, ele tenta explicar às pessoas que ele pode enxergar. Nenhuma das pessoas da vila sabe o que é a "visão" já que por muitas gerações ninguém nasceu com esse sentido. O protagonista acaba formulando um plano de dominar estas pessoas já que ele é o único capaz de enxergar. Mas, as coisas acabam não saindo do jeito que ele queria.


A crítica de Em Terra de Cegos é bem subjetiva e suscita inúmeras interpretações (como a sua clara relação com a alegoria da caverna de Platão). Mas, eu vou pela óbvia e deixá-los criar outras explicações. A vantagem física de Nuñez teoricamente lhe daria uma vantagem diante das pessoas. Mas, estas por nunca terem ouvido falar dessa habilidade o consideram um louco. A batalha do protagonista contra o óbvio acaba diluindo a sua vontade de estabelecer a sua conquista. A gente pode, por exemplo, usar a interpretação de um domínio exercido pelos fortes. Sem uma legitimação, esse jugo não tem como acontecer. É como Nuñez jogando o argumento da visão para alcançar o controle e um reinado sobre eles.


É também legal perceber o quanto as pessoas que moravam naquela vida não necessitaram do seu sentido da visão para se tornarem uma comunidade próspera. Eles conseguiram criar estratégias e até valores que os permitiram viver razoavelmente bem. Apoios para as pessoas, caminhos que são acessíveis ao toque, seu cultivo e criação que seguem os seus critérios. O sentido de audição e de tato deles são muito melhores que os de Nuñez. Eles são capazes de ouvir as batidas do coração de alguém e determinar se ele está mentindo, se está agitado. Até mesmo os critérios de beleza deles são diferentes de Nuñez: eles preferem formas mais arredondadas ao invés de mais angulosas. É a melhor demonstração de que é possível adquirir um desenvolvimento mesmo com algum tipo de limitação. Aliás, isso sequer é limitação para eles. Wells nos coloca Nuñez o tempo todo limitado de algum jeito.


Essa é apenas uma das várias interpretações possíveis para esse maravilhoso conto de Wells. Uma história que é parte da cultura mundial e se tornou atemporal. E é uma narrativa que se torna melhor e melhor a cada nova releitura. Demonstra também o quanto somos limitados por nossas próprias ideias, e que as limitações físicas são facilmente superáveis por pessoas engenhosas.

Ficha Técnica:


Nome: Contos Fantásticos do Século XIX

Organizado por Ítalo Calvino

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Fantasia

Tradutor: ver em cada conto

Número de Páginas: 520

Ano de Publicação: 2004


Outras Partes da Resenha:

Parte 1

Parte 2

Parte 3


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*Material enviado em parceria com a editora Companhia das Letras


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