• Paulo Vinicius

Resenha: "Contos Fantásticos do Século XIX" escolhidos por Ítalo Calvino (Parte 3)

Nesta terceira parte temos algumas histórias famosas, como O Coração Denunciador de Edgar Allan Poe. Mas, se você estiver com vontade de ler algo mais macabro, que tal O Sinaleiro, de Charles Dickens?

Nesta terceira parte, temos os seguintes contos:


13 - "O Coração Denunciador" (de Edgar Allan Poe) - 1843

14 - "A Sombra" (de Hans Christian Andersen) - 1847

15 - "O Sinaleiro" (de Charles Dickens) - 1866

16 - "O Sonho" (de Ivan S. Turgueniev) - 1876

17 - "O Espanta-Diabo" (de Nikolai S. Leskov) - 1879

18 - "É de Confundir!" (de Auguste Villiers de l'Isle Adam) - 1883

19 - "A Noite" (de Guy de Maupassant) - 1887


Vamos às resenhas:


13 - "O Coração Denunciador"


Autor: Edgar Allan Poe Avaliação:

Publicado originalmente em 1843

Traduzido por Paulo Schiller



Alguns psicólogos afirmam que assassinos gostam de esbanjar os crimes que cometeram. Não há graça em um crime genial se ninguém percebe sua genialidade. É dito também que alguns criminosos se sentem presos em um quarto escuro com medo a todo o momento de serem descobertos. É com essa última característica que Edgar Allan Poe nos apresenta O Coração Denunciador. Entre as histórias de Poe esta é uma que está no hall daquelas mais famosas. É nela que vemos a genialidade do autor e a capacidade de criar mentes sórdidas.


O protagonista está cuidando de um velho (provavelmente seu pai) e ele parece ter adquirido alguma doença que fez seu sentido de visão e sua audição ficarem muito aguçados. Ele se incomodava com o olho de seu velho. A forma como ele o olhava, a cor de seus olhos. Tudo parecia incomodá-lo. Ele então planeja assassiná-lo. Depois que consegue o seu feito, enterra o velho sobre o assoalho e vive sua vida normalmente. Mas, a chegada de dois policiais pode levar a que eles descubram o que ele cometeu.


O protagonista criado por Poe é uma pessoa absolutamente paranóica. Na narrativa de Poe a gente nunca sabe ao certo se o que acontece é fruto de uma doença ou de um acidente, ou se é o próprio subconsciente do personagem que se revela (como em O Gato Preto). A maneira como o autor descreve o nojo e o asco que o personagem sente simplesmente pelo olho do velho. Algo simples, mas que produz um efeito bizarro no personagem. Outro elemento importante é o quanto a audição reflete o sentimento de culpa do personagem. As mínimas batidas no chão são o suficiente para deixar o personagem preocupado de que seu crime poderia ser revelado. Aí é preciso refletir se o que se sucede é uma vontade do personagem de se revelar ou meramente a culpa dele se manifestando e desejando que ele fale a verdade.


O Coração Denunciador é um dos melhores contos de Poe. É um conto curtinho e extremamente impactante. Além de nos mostrar por que o autor é um dos melhores contistas de terror da literatura.


14 - "A Sombra"


Autor: Hans Christian Andersen Avaliação:

Publicado originalmente em 1847

Traduzido por Heloísa Jahn




Sim, esse é o mesmo Hans Christian Andersen que compilou dezenas de contos de fadas que chegaram até nós. Ele também escreveu uma série de contos que bebiam bastante da fonte das histórias as quais ele compilava. Fornecendo sempre alguma coisa de mágico, Andersen conduz o seu leitor pelo mágico e pelo fantástico. A sombra deixando o nosso corpo e passando a agir por si só já foi tema de diversas histórias ao longo do século XX. Enquanto algumas histórias puxavam para o elemento do terror e do sobrenatural, outras já eram mais satíricas, brincando com as possibilidades. Aqui, Andersen caminha mais pela rota do drama.


Um senhor que estava sentado próximo à sua casa, brinca com a possibilidade de sua sombra poder caminhar por si só. Ele tece vários elogios a ela, dizendo o quanto sua sombra é bela e esbelta e causa até a inveja de seus pares. Um dia, ele acorda sem sombra. O velho sente uma profunda tristeza e depois arranja uma outra sombra. Depois de alguns anos, sua sombra original retorna para saber de notícias de seu hospedeiro. É aí que eles passam a travar uma amizade. Mas, nesse momento, a sombra já havia ganho vida própria e estava para seguir em viagem. Ele convida o seu hospedeiro para se tornar a sua sombra para que eles pudessem viajar juntos. O final é absolutamente perturbador.


Uma coisa que me incomodou muito na escrita de Andersen é em o quanto ele prolonga desnecessariamente o conto. A Sombra é aquele tipo de história que poderia ter metade de seu tamanho original. Por conta disso, a narrativa vai parecendo um pouco arrastada e algumas situações poderiam ocorrer de forma mais orgânica. Mas, acredito que isso seja um vício de escrita oriundo dos próprios contos de fadas que ele estava compilando. Muito por conta da estrutura narrativa dos mesmos que exigiam testes e tribulações antes de fornecer o final.


A relação entre a sombra e o hospedeiro é bem desenvolvida. E é irônica a virada narrativa que ele faz mais para o final com o velho e a sombra trocando sua importância para a história. No começo, o ponto de vista narrativa nos é fornecido pelo velho e vemos os seus sentimentos após a partida de sua sombra. Mas, quando o velho parte em viagem com a sombra, o velho se torna a sombra, e perde o protagonismo. Passamos a ser guiados pelos pensamentos da sombra, agora independente. O final é uma bela rasteira no leitor, fornecendo um tom bem macabro. Porém, isso não foi o suficiente para me fazer gostar da história.

15 - "O Sinaleiro"


Autor: Charles Dickens Avaliação:

Publicado originalmente em 1866

Traduzido por Ricardo Lísias




Charles Dickens é um autor muito conhecido por suas críticas sociais. Seja em uma narrativa familiar como em David Copperfield ou em algo mais expansivo como Grandes Esperanças. Ele sempre vai comentar também do homem que se desenvolve sozinho (o self-made man), algo que é tão caro na cultura americana. Por essas e outras, que Dickens é o maior símbolo da literatura dos EUA. Em O Sinaleiro ele apresenta um pouco da vida de um homem cuja responsabilidade é manter a chegada e a saída de trens em segurança, seja com um sinal luminoso ou com uma bandeira. Muitas vezes até arriscando sua vida.


O protagonista percebe a existência do sinaleiro e vai até sua pequena casa para conhecê-lo. Lá chegando descobre que o homem é uma pessoa muito culta e que apenas não teve a oportunidade de finalizar seus estudos e encontrar um emprego digno. Dickens faz uma clara crítica à falta de oportunidade para todos na sociedade capitalista. Isso ao nos apresentar um personagem que claramente é inteligente e sábio, mas que, por conta dessa desigualdade social é incapaz de conseguir alguma coisa melhor. Ao longo da narrativa o protagonista vai percebendo as qualidades do personagem e se perguntando por que ele se encontra em uma situação tão degradante.


Outro ponto bem interessante é a invisibilidade social. Algumas profissões são muito invisíveis para nós. Não percebemos que estas pessoas existem. O mesmo se passa com o Sinaleiro. Se o protagonista não tivesse chamado-o por acaso, jamais o teria conhecido. E mesmo depois que acontece a virada narrativa no final, ele simplesmente é descartado e substituído. O elemento fantástico da história está em uma premonição que acaba acontecendo mais para o final, deixando o protagonista bem desconcertado. É algo bem sutil e poderia ter facilmente sido ignorado. Entretanto, é a deixa final para que o protagonista teça algumas críticas sobre a maneira com a qual o Sinaleiro é tratado.


Vou sempre recomendar qualquer coisa escrita por Dickens, mesmo eu não tendo conseguido me importar tanto com a história. Vale a pena ainda para que a gente conheça um pouco mais sobre o mundo do trabalho no século XIX, eivado de desigualdades e invisibilidades.


16 - "O Sonho"


Autor: Ivan S. Turgueniev Avaliação:

Publicado originalmente em 1876

Traduzido por Aurora Fornoni Bernadini




Esse é um conto que mexe com a nossa percepção. Ao lidar com a questão dos sonhos, Turgueniev faz o possível para confundir o leitor, provocando uma incapacidade de afirmar se algo acontece no mundo real ou no mundo dos sonhos. Contos que lidam com conceitos mórficos não são incomuns, e alguns deles produzidos no século XIX até chegam a ser empregados nas pesquisas de Carl Jung sobre o simbolismo por trás de sua manifestação. Em O Sonho vamos nos deparar mais com algo figurativo do que uma narrativo per se. Até porque a narrativa é bem prosaica e mais serve para enevoar os temas.


Nosso protagonista parece ter encontrado alguém na rua que é muito semelhante ao seu falecido pai. Sua mãe acaba não sendo muito clara quanto à morte do pai o que provoca no personagem um nível de expectativa quanto a revê-lo ou não. Desde a morte de seu pai, sua família ficou desolada. A busca por esse personagem que se parece com seu pai vai tomando ares épicos à medida em que sonho se mistura com realidade e o personagem não é mais capaz de discernir entre um e outro. A questão central é: este homem que ele tanto busca é seu pai ou apenas fruto de sua imaginação?


A narrativa lida muito com a perda e a obsessão. Eu entendo que a tristeza pela perda do pai acaba se tornando algo imensurável para o protagonista e sua mãe. A vontade de revê-lo se torna uma obsessão de seu coração, necessitando que esse sentimento tão ruim possa ser aplacado. Mais do que isso: existe uma percepção de que o protagonista precisa que esse capítulo de sua vida seja encerrado. Me parece que ele não aceitou a morte dele e a esperança do retorno acabou se tornando maior do que a realidade dura e crua. O sofrimento em silêncio de sua mãe em nada ajuda a aplacar a dúvida.


O leitor pode deduzir uma série de coisas a partir dos símbolos deixados pelo autor no conto. Por exemplo, o negro que sempre segue o suposto pai do protagonista pode ser uma espécie de portal entre o mundo real e o mundo dos sonhos. Sim, um portal vivo... toda vez que ele aparece temos uma distorção no tecido da realidade narrativa e a história adota um tom onírico. Quando o personagem sai de cena, o personagem "desperta". Foi assim na visita à casa do artesão e foi assim no bar.


Eu não consegui curtir tanto assim a narrativa de Turgueniev, mas preciso admitir que de um ponto de vista de escrita criativa é uma ótima maneira de estudar como criar histórias com esse padrão de sonhos. O autor possui uma escrita pesada, porém precisa que se manifesta nos objetivos pelos quais ele criou sua história. Ele não sai dos trilhos em nenhum momento, e nada do que ele coloca ali é despropositado.

17 - "O Espanta-Diabo"


Autor: Nikolai S. Leskov Avaliação:

Publicado originalmente em 1879

Traduzido por Aurora Fornoni Bernardini



Os russos tem alguns costumes bem curiosos. Seja da sua bebida feita à base de pão fermentado, ao seu espírito indomável e sua forma distinta de cristianismo. Mesmo assim alguns elementos de seu folclore persistem. Esse conto de Leskov se trata de uma viagem pelo universo da aristocracia russa com um final bem estranho.


Ilya Fedoseievitch é um rico aristocrata de uma grande cidade russa. Seu sobrinho (nosso protagonista) está indo prestar seus respeitos a ele, passando um dia a seu lado. Durante esse dia, o sobrinho acaba percebendo o quanto seu tio representa o que há de pior na classe aristocrática local: esbanja dinheiro, maltrata os mais pobres, tem desejos bizarros além de realizar festas absurdas. O sobrinho acaba sendo cooptado para uma delas onde vê todo o tipo de pecado sendo realizado: comida sendo desperdiçada, homens ricos bebendo até cair, um restaurante sendo destruído por causa da balbúrdia provocada pelas pessoas. Mas, o dia seguinte vai lhe revelar algo surpreendente sobre seu tio.


A ideia de sagrado e profano é bem apresentado neste conto de Leskov. E a ideia por trás do pensamento final é bem curioso. A realização da decadência até as profundezas do inferno para se livrar dos maus espíritos para que em um segundo momento possa ser possível a realização de uma ação sagrada. É quase como uma libertação para o personagem. Com os excessos, tais espíritos ficariam saciados e deixariam o corpo do transgressor. Isso para em seguida este possa se ver livre para fornecer o que há de melhor em si mesmo para o próximo. Realmente se trata de uma filosofia oriental, mais focada na purificação do espírito através de uma realização da mente em obter a transcendência.


Neste conto, não há muito a ser dito porque receio acabar dando mais detalhes sobre a narrativa. Mas, considero uma leitura totalmente válida, mesmo eu não tendo gostado nem um pouco do estilo narrativo do Leskov. Só despertei do meu torpor no final com o plot twist.


18 - "É de confundir"


Autor: Auguste Villiers de l"Isle Adam Avaliação:

Publicado originalmente em 1883

Traduzido por Rosa Freire D'Aguiar




Este já é o segundo conto de literatura de gênero que eu leio de Villiers e uma coisa que me surpreende é o quanto ele consegue comprimir boas narrativas em espaços pequenos. Surpreende em quantas conexões conseguimos fazer em contos de 3, 5 ou 9 páginas. Apesar de Calvino tê-lo colocado em uma coletânea de fantasia, seu estilo combina mais com o gótico tão típico do século XIX com aquela puxada para o terror.


O protagonista está seguindo em direção ao trabalho. Em determinado momento quando ele passa por uma rua, ele sente que entrou em um necrotério com corpos de pessoas acumuladas pelo chão. Ele desvia destes corpos para poder chegar até seu trabalho. Ao se aproximar do escritório, sua visão volta ao normal, mas logo que ele sobe até lá, sua visão distorce novamente para alguma coisa macabra.


Vou tirar uma interpretação que pode nem ser a original dele, mas foi a que eu consegui fazer com base nas grandes cidades da época. Acredito que sua narrativa versa sobre os problemas dos grandes centros urbanos. A Londres e a Paris do século XIX são cidades tomadas por trabalhadores vivendo em situação marginal. Muitos deles, atraídos pelo surgimento das fábricas, acabam acreditando em uma nova possibilidade de vida, longe dos grandes nobres e fazendeiros do interior. Mas, o trabalho operário, ainda sem as regulamentações trabalhistas, é de um nível de exploração absurdo. A falta de um limite de horas de trabalho, de segurança no local, de idade mínima, de salário mínimo, quase sempre provoca uma grande queima da força de trabalho. Muitos camponeses morrem devido às péssimas condições com as quais precisam lidar diariamente.


Por isso, a ideia de cidade/necrotério. E a dos corpos empilhados na rua. Villiers costuma trabalhar muito com uma linguagem figurada que esconde na maior parte das vezes aonde ele deseja chegar. Esta é uma narrativa com tons de terror, mas muito mais fantástica, por conta dessa dualidade entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Este é um autor que, para mim, precede a noção das flash fictions que estão tão na moda nos dias de hoje. E, devido à sua técnica de escrita simbólica, dá uma aula do gênero.


19 - "A Noite"


Autor: Guy de Maupassant Avaliação:

Publicado originalmente em 1887

Tradução de Rosa Freire D'Aguiar




Maupassant era um conhecido boêmio do século XIX. Não é de todo estranho ele escrever sobre uma noite das várias nas quais ele passou perambulando pelas ruas de Paris. Com uma escrita muito relacionada à sensorial, ele explora a noite francesa em todas as suas nuances. Desde o lugar de maravilhamento até o beco obscuro da solidão. Através de suas palavras, o autor transforma a noite em uma criatura fantástica e repleta de vida que enreda aqueles que a amam.


Como pudemos perceber, a noite é a protagonista da história. Mas, ela tanto pode fornecer o combustível para os poetas e suas aventuras, como ser a madrasta fria e cruel com suas garras gélidas, destruindo o coração do protagonista. A gente tem dois momentos claros no passeio de Maupassant: o momento inicial onde ele se maravilha com tudo ao seu redor. Todas as pessoas e cenas ganham novas cores sob o efeito do álcool (isso é uma dedução... pode ser outra coisa). Depois parece que acontece aquele momento de virada quando a bebida vai deixando o organismo do personagem, e temos uma queda em nossos sentimentos quando o encantamento dá lugar às lamentações. Estou apenas sugerindo que a ideia tenha sido essa porque não há nenhuma explicação razoável para ele mudar tanto a forma como ele enxerga a realidade. Ele passa de uma euforia para uma solidão em poucas linhas.


Algumas expressões também marcam essa passagem do positivo para o negativo: as cores vívidas, o movimento, a poesia dá lugar ao frio, à escuridão e à solidão. O autor sabe muito bem demarcar estes dois momentos bastando ao leitor fazer uma leitura atenta. E é fascinante como esses marcadores se relacionam demais com a vida boêmia. Quando estamos iniciando nossa noite social, estamos ao lado de amigos conversando sobre o universo e todas as coisas. Mas, quando a noite está findando, a solidão se abate em nossos seres. Percebemos que aquele momento tão feliz, colorido e animado está chegando ao fim.


Esta foi a minha primeira experiência com algo escrito por Maupassant e já fiquei curioso desejando ler mais coisas dele.

Ficha Técnica:


Nome: Contos Fantásticos do Século XIX

Organizado por Ítalo Calvino

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Fantasia

Tradutor: ver em cada conto

Número de Páginas: 520

Ano de Publicação: 2004


Outras Partes da Resenha:

Parte 1

Parte 2

Parte 4


Link de compra:

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*Material enviado em parceria com a editora Companhia das Letras


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