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Resenha: "Akira vol. 4" de Katsuhiro Otomo

Em uma Neo-Tokyo devastada pelos poderes de Akira, Tetsuo se alia ao agora chamado Grande Iluminado para governar uma nação caótica onde a violência, a adoração e a depravação convivem lado a lado.

Atenção: Spoilers das edições anteriores


Sinopse:


A profecia de Miyako havia sido realizada. Uma tragédia envolvendo Takashi e Akira causa o despertar do Nº 28, destruindo toda Neo-Tokyo. Os sobreviventes observavam incrédulos as ruínas do que um dia foi a capital do Japão… 42 dias depois da catástrofe causada por Akira, na área oeste das ruínas de Neo-Tokyo, havia surgido uma potência chamada de Grande Império de Tokyo, no qual Akira era idolatrado como o “Grande Despertado”, e Tetsuo imperava com demonstrações públicas de seu poder. Qual o rumo que o Japão irá tomar?!






ATENÇÃO: Spoilers das edições anteriores



Terminamos a edição passada com uma demonstração extrema dos poderes de Akira que nos fez lembrar o quanto ele é poderoso. A cidade de Neo-Tokyo é devastada completamente, restando apenas pequenos bolsões de sobreviventes que buscam se apegar em algum tipo de esperança. Kei consegue salvar Hiyoko e Masaru, mas ambos estão em estado crítico e dependendo de alguma medicação para sobreviver. Hiyoko diz a Kei para buscar o Número 19, mas ela não sabe quem é este ser. A cidade foi dividida em duas facções. De um lado um grupo de sobreviventes se dirigiu até o tempo da sacerdotisa Miyako onde esta procura ajudar com seus poderes e palavras de alento enquanto se culpa por ter tido sua profecia realizada. Do outro lado nasce o Grande Império de Tokyo, um lugar de barbárie e depravação governado por um silencioso Akira e seu fiel aliado Tetsuo. Este sai distribuindo pílulas para despertar os poderes de todos que tem contato com ele alegando ser uma benção de Akira, o Grande Iluminado. Mas, por quanto tempo o volátil Tetsuo vai conseguir manter um semblante de estabilidade?


Das quatro edições que li até o momento, a arte deste volume é a que mais me impressionou. E isso porque nem estou falando das sequências animais de edições anteriores. Aqui toda a edição está em altíssimo nível e Otomo nos mostra uma cidade devastada onde os personagens transbordam desespero por todos os poros. Basta ver as expressões dos cidadãos comuns nos quadros. Mesmo o rosto de Tetsuo é um atestado de o quanto toda a situação é estranha e pode se romper a qualquer minuto. Otomo consegue transmitir isso através de sua arte. Os arranha-céus caídos formam uma cidade com dimensões bizarras e formas distorcidas. O melhor resumo desta edição, feito artisticamente, é uma espécie de parada em homenagem ao Akira em que este é carregado em uma liteira por várias pessoas marcadas pelo uso de drogas e a liteira é formada por pedaços de metal retorcido, semáforos destruídos e um letreiro em neon acima de um trono. Do lado está Tetsuo que, embora com uma expressão calma e confiante, simboliza a loucura e a violência vivida por todos naquele momento.


Estamos diante de uma cidade sem lei onde os mais fortes buscam se aproveitar dos bons. Logo no começo deste volume, Kei é atacada por uma gangue de ladrões que querem matá-la e violentá-la a todo custo. Mesmo ela sendo uma mulher corajosa e com experiência em combate, seria uma situação complicada se ela não tivesse tido apoio. Ainda temos espiões que foram até a cidade em busca de informações sobre Akira. Logo na primeira parte desta edição, o autor consegue traçar as linhas insanas que giram neste lugar com drogas, violência e um fundamentalismo religioso criado em bases bizarras. Talvez esta sequência inicial seja a melhor definição do que podemos entender como um mundo distópico.


No meio disso tudo temos o surgimento de um culto de adoração ao Akira. Com seus poderes extraordinários, ele pode ser considerado quase um deus. E diante da escalada de destruição, as pessoas mais fracas precisam acreditar em alguma coisa. As habilidades do garoto desafiam a lógica e ele chega até a curar pessoas doentes. Mas, precisamos lembrar que ao lado de Akira temos Tetsuo que tem uma índole muito instável. E fica claro desde o começo que ele não apenas se sente diminuído, mas também ameaçado pelos poderes de Akira. A gente já sabe que isso vai dar encrenca. Principalmente quando percebemos que Tetsuo quer criar o seu próprio exército de seres com poderes extras, mas ele apenas consegue criar um séquito de viciados em remédios. A situação é tão fora dos padrões que ele coloca as pílulas como se fosse tempero na sopa dada aos famintos. Sem falar em outras bizarrices em algo saído de qualquer corte imperial depravada e violenta. As cenas desse volume são bem fortes.


De outro lado temos a desesperança de ver todos os esforços não terem dado resultado. E isso é representado pelo Coronel e por Ryu que, mesmo em lados opostos da disputa por Akira, fracassaram miseravelmente. Ambos caíram em uma depressão sem tamanho onde um busca se isolar completamente e o outro busca se afogar na bebida para esquecer de seus fracassos. Mas, esse desespero pode se revelar também na maneira como as pessoas estão encarando toda a situação. Seja buscando uma espécie de falso deus e se tornando espectros daquilo que foram um dia ou apelando para os instintos mais básicos do ser humano, atacando, destruindo e depredando. É uma espécie de alvorecer da humanidade e o leitor assiste a tudo isso atônito. Onde parece que nada disso vai ter um fim e nem sabemos de onde pode vir uma virada. Mas, quando menos esperamos ela vem e de onde não conseguimos imaginar.


O Tetsuo é a chave desse quarto volume. Seja para destruir ou para resolver as coisas, algo que depende só dele mesmo. Como já mencionamos antes, a mente dele é volátil e ele pode estourar a qualquer minuto. Não existe aqui um arco de redenção ou nada do tipo. Tetsuo é um cara em busca de aprovação, de que as pessoas o observem e o aceitem como ele é. Otomo fornece mais detalhes sobre o passado dele e seus pensamentos, mas de maneira nenhuma ele sai do papel de vilão. Ele se sente inferior ao Akira, logo ele vai fazer todo o possível para estreitar esse abismo de distância. Vemos que sua percepção é a de que os medicamentos vão lhe dar um melhor controle sobre suas habilidades. Mas, como Miyako lhe explica depois, os remédios apenas dão uma falsa impressão disso, uma ilusão de que está tudo certo enquanto cria um limitador para que os poderes não saiam do controle. Só que a verdadeira habilidade vem de conhecer o próprio interior, de treinar, de entender e isso Tetsuo só vai conseguir depois de abandonar aquilo que o entorpece. E, como qualquer droga, a abstinência pode ser algo mortal.

Ficamos sabendo também um pouco mais sobre as experiências com as crianças numeradas e como se chegou no Akira. Esse tema das experiência remete bastante à Guerra Fria que ainda era uma realidade, embora já em declínio, na época em que o mangá foi publicado. A gente sabe apenas a ponta do iceberg de tudo o que aconteceu durante essa disputa ideológica entre EUA e URSS. Os experimentos visavam criar uma arma mais poderosa capaz de virar a maré dessa disputa. E em vários momentos jogou-se para o alto a toalha da ética e dos direitos humanos. Otomo pega esse tema e o eleva à quarta potência colocando a humanidade em risco a partir de um erro causado por cientistas mal intencionados. O pior é que o tema novamente voltou à tona durante a pandemia com cientistas novamente querendo buscar atalhos para encontrar uma saída para um problema. A ciência feita do jeito errado. Um mangá como Akira serve para nos lembrar o quanto os métodos éticos e científicos são importantes. Não apenas para manter uma aparência de que a vida humana e a correção do processo estão sendo observados, como para evitar saídas falsas. Algo como um Akira pode facilmente acontecer se deixarmos a correção de lado.


Otomo sabe mudar o ritmo da história de uma forma súbita e inacreditável. As cinquenta últimas páginas deste quarto volume são alucinantes. Passam muito rápido e o leitor passa as páginas faminto por querer saber mais. Sem falar que, se você ainda tem dúvidas de que Otomo é um dos maiores mangakás de sua geração, e se as outras trezentas páginas não te convenceram, é aqui que ele consegue esse feito. Com quadros poderosos, splash pages, várias coisas acontecendo por quadro, linhas cinéticas. Ele usa tudo. Parece até que Otomo pega toda a maleta de ferramentas de um artista, joga tudo em um caldeirão e mexe até formar esse trecho. Enche os olhos. Não vou entrar em detalhes, mas vale a pena mencionar que nesses quadros rola ainda menos diálogos do que o normal, e olhe que Otomo é econômico com isso.


Excelente quarto volume com momentos de ação e revelações perturbadoras sobre Akira e seus poderes, além de vermos um lado completamente podre da humanidade. Os lados do conflito ficaram bastante nublados por conta da destruição de Neo-Tokyo. A arte está fenomenal, no seu auge, e Otomo consegue explorar vários lados da produção artística japonesa em poucas páginas. Fiquei com uma vontade louca de pegar logo o volume 5 para ler porque o gancho no final é de deixar qualquer um maluco. Nota máxima e mais um pouco aqui.












Ficha Técnica:


Nome: Akira vol. 4

Autor: Katsuhiro Otomo

Editora: JBC Tradutora: Drik Sada

Número de Páginas: 400

Ano de Publicação: 2019


Outros volumes:

Vol. 3


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