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Atualizado: 17 de jun. de 2023

Destacamos dois lançamentos interessantes este mês. Dois livros de não-ficção com temas bem ligados à fantasia, à ficção científica e à ciência em geral.


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"Não Ficções e Um Estranho Tão Familiar" por Editora Bandeirola


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Ficha Técnica:


Nome: Um Estranho tão familiar - Teorias e reflexões sobre o estranhamento na ficção

Autor: George Amaral Editora: Bandeirola

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 128









Sinopse: Formas de ver o mundo e comportamentos que são familiares não funcionam mais tão comodamente frente às mudanças velozes das últimas décadas, com crises continuadas tanto político-sociais quanto climáticas.


O ritmo e a escala só aumentam a percepção de que aquilo antes percebido como familiar bruscamente se tornou estranho, como foi o caso, por exemplo, do período pandêmico da covid-19, trazendo incertezas a atos corriqueiros como sair de casa, andar por lugares superlotados, dar abraços e beijos.


Em Um Estranho tão Familiar, George Amaral apresenta com precisão o percurso histórico do mecanismo de estranhamento na Literatura, partindo do século XIX aos nossos dias, analisando as teorias e as narrativas que colaboram para a desfamiliarização de modos de pensar, de agir e de sentir.


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Ficha Técnica:


Nome: Não Ficções - a Literatura, a Ficção Científica, os Escritores e seus Escritos

Autor: Bráulio Tavares

Editora: Bandeirola

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 192








Sinopse: Essa viagem da Terra Média ao sertão é garantida pela curiosidade e erudição de Bráulio Tavares nos 25 ensaios que compõem essa edição.


Em um texto fácil e saboroso, o autor passa por Borges ao apresentar lendas urbanas, atravessa os labirintos de Malba Tahan e analisa, em pesquisa empírica própria, a Biblioteca Essencial encontrada nas casas simples pelas quais passou.


Parte dos ensaios deste livro dão conta de um dos seus interesses: observar e compreender, com seriedade, a cultura produzida pelo povo.


Além disso, são conhecidas a sua dedicação e interesse pela Ficção Científica, pelo Romance Policial, seguindo a trilha da Ficção Insólita e do Horror. Nesses quesitos, não se furta a abordar temas polêmicos.


Prazo da campanha: 13/07

Data de entrega: novembro de 2023




Principais Formas de Apoio:


1 - Um Estranho tão Familiar: R$58,00


- livro impresso

- marcador de páginas

- frete calculado ao final da compra


2 - Não Ficções: R$82,00


- livro impresso

- poema postal - Bráulio Tavares

- frete calculado ao final da compra


3 - Combo com os dois livros: R$133,00


- livros impressos

- poema postal - Bráulio Tavares

- marcador de páginas

- frete calculado ao final da compra



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Muito antes de nossos momentos a sós com nossos livros e nossa fuga do mundo real era comum o compartilhamento de leituras. Ler de forma silenciosa foi uma inovação que data de séculos antes. Mas como se dava essa leitura? E no que ela difere da leitura silenciosa?


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Antes de começar os trabalhos, quero destacar mais uma vez o quanto a leitura de Uma História da Leitura, do autor Alberto Manguel foi importante para ajudar a compor este conteúdo ao lado de outras referências que tenho. Se tem alguém que me faz viajar a outros lugares quando fala sobre esse assunto é Manguel. Além de aprendermos com um homem que passou décadas escrevendo sobre livros e leitores, ainda somos presenteados com uma escrita gostosa e reflexiva que mescla experiências pessoas com o mais puro sumo da boa história. Como historiador só tenho a ficar feliz toda vez que leio algo escrito por ele. Queria fazer esse parêntese porque tenho tirado tantos temas legais para matérias que acho que vou passar o ano todo escrevendo sobre algo que Manguel me instigou a desenvolver.




Uma tarde de sábado com um clima ameno e gostoso sentado em uma rede ou cadeira, com um bom chá ou café ao lado e um bom livro na mão. Uma fuga agradável a outro mundo onde histórias acontecem, personagens vivem suas vidas intensamente. Aquele momento em que nossas mentes viajam e fogem da realidade por alguns momentos e se regozijam de algo bem contado. Anseio por esses momentos todas as semanas, mas a verdade é que leio aonde posso e quando posso. E mesmo assim meus sentimentos são os mesmos. Só que nem sempre foi assim. Em tempos mais antigos, ler para si mesmo era falta de educação. A leitura envolvia a participação de outras pessoas a quem consultamos para discutir os temas e as cenas de uma leitura. Parece curioso o quanto nosso hábito silencioso é mais recente do que o formato original das leituras. A própria concepção da palavra ler (legere, em latim) vem de reunir, colher. Envolve justamente o ato de unir informações, termo esse que vem da agricultura. É como se estivéssemos distribuindo os frutos de nosso plantio. Nos dias de hoje a situação se inverteu com a leitura em voz alta sendo menos comum e até entendida de forma exótica e curiosa no papel dos contadores de histórias.


No passado, havia uma necessidade vital dos agregados humanos de deixar conhecimentos para outras gerações. Era comum a existência de um indivíduo dentro do grupo que tinha os conhecimentos antigos, sabia a história da origem deles. A figura do ancião era fundamental para a sobrevivência com ele ensinando a todos dentro de um grupo as suas funções. As pinturas rupestres nas cavernas eram lidas pelo ancião em voz alta para que todos ficassem conhecendo de onde vinham e como lidar com os inimigos deles. Fazer o fogo, montar armadilhas, melhores lugares de caça. Todas essas informações eram decodificadas por aquele que sabia interpretá-las. O ancião funcionava como o mediador para elas. Quando surgem os primeiros agregados humanos na região conhecida como o Crescente Fértil (que hoje engloba países como Irã, Iraque e outros países que ficam às margens do rio Tigre e do Eufrates), as informações sobre cultura e habilidades eram deixados em estelas, que poderiam ser votivas (ligadas à religião) ou de registros (que poderiam versar sobre história ou conhecimentos comuns). As estelas não haviam sido pensadas inicialmente como algo para ser lido silenciosamente, mas um objeto cerimonial. Um monumento a ser lido por gerações e compartilhar as glórias de cada cidade-estado. Lembremos que o alfabeto ainda estava em desenvolvimento e o cuneiforme era ainda mais simbólico do que algo homogêneo. Os escribas conheciam seus significados.


Essa é a era dos escribas onde eles tinham um enorme poder e status pessoal apenas por dominarem a habilidade de ler. Já mencionei isso em outra matéria, mas alguns deles eram conselheiros de senhores da guerra ou de faraós. O domínio das letras se mesclava com uma esfera mágica, então sacerdotes e escribas compartilhavam características em comum. Isso embora os escribas fossem mais da área civil ou ligados à economia. O chefe de Estado precisava que o escriba lesse para ele e para sua corte as dívidas, as demandas e outras informações necessárias para a prosperidade do reino. Vejam como a leitura em voz alta se confundia com a política nessa época. Outros tipos de escritos poderiam ser rituais a alguma divindade ou celebrações específicas. Todas dominadas por um pequeno grupo de pessoas que eram consultadas quando necessário para que repassassem tais informações. O próprio códice de Assurbanipal, registrado em diversas placas de pedra, era lido por pessoas que entendiam das leis e conheciam os símbolos. Isso, embora o rei tivesse tido a visão política de tentar escrever em símbolos que haviam se tornado comuns em todo o Oriente Médio. Assurbanipal desejava ser o rei dos quatro cantos dos universo e para isso ele precisava encontrar uma forma para que estes lugares pudessem entender uns aos outros. Ou seja, era preciso criar uma escrita homogênea.


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Frequentemente nos referimos à Ilíada e à Odisseia de Homero como alguns dos primeiros trabalhos literários do mundo. Mesmo que eles sejam registros históricos (ou quase isso) de uma guerra entre duas cidades-estado envolvendo deuses e homens. Só tem um pequeno detalhe: ambas as obras não foram concebidas para serem escritas, e sim cantadas. Ou entoadas. Os rapsodos, homens da música e da poesia, levavam os feitos de Aquiles, Ulisses e a tragédia de Troia para toda a parte onde encantavam suas plateias. Estudiosos das duas obras apontam a existência de fórmulas mnemônicas espalhadas pelos versos que facilitavam a vida dos rapsodos para memorizar cantos da Ilíada e da Odisseia. Existem inúmeras discussões quanto à identidade de Homero. Se ele existiu de verdade; quem ele era; ou se ele na verdade é um avatar coletivo representando inúmeros rapsodos. Fato é que ambas as histórias são compilações desses cânticos que visavam criar uma versão única de uma história clássica e que ganhara toda a extensão do mundo antigo. Mais tarde quando chegarmos a uma Atena clássica, as discussões feitas na academia de Platão eram feitas oralmente. Mesmo as leituras eram compartilhadas e então discutidas entre os seus pares. Aristóteles vai dar as primeiras pistas para uma futura leitura silenciosa. Em sua visão as informações chegavam ao nosso organismo ao passar por diversos órgãos que formavam um grande complexo comum, as entranhas (ou splanchna). Esse complexo controlava nossa respiração e sentidos.


Muitos de vocês podem argumentar sobre a existência dos papiros como algo que ajudava a difundir a leitura. Só que isso não era necessariamente verdade. O papiro em si era algo quase ritualístico e passava pela enunciação do conteúdo pelo mensageiro que o estivesse carregando. Ou pelo escriba que tivesse recebido o papiro e fosse incumbido de repassar a informação. Quando surge o cristianismo, o aramaico, sua linguagem original, não tinha palavras separadas para leitura em voz alta e leitura silenciosa. Os antigos cristãos, ainda perseguidos pelo império Romano, passaram a adotar os códices, versões mais portáteis dos papiros. A divisão em capítulos surge aí por conta até do tamanho deles. Essa necessidade de separar o conteúdo em versões mais compactas chegou até a ajudar os antigos pregadores principalmente aqueles ligados ao Novo Testamento que permitiam separar os evangelhos ou as cartas epistolares de Paulo. A figura do pregador ainda era importante para trazer novos fieis. Este fazia seu sermão e lia os escritos bíblicos enquanto inseria seus ensinamentos em sua homilia. O pregador era o mediador entre o mundo humano e o divino.


Curiosamente é na própria Igreja que veremos um movimento de mudança no método de leitura. E conseguimos esse relato vindo de Agostinho de Hipona em seu Confissões. Uma das pessoas mais importantes para a vida religiosa de um dos principais Pais da Igreja foi o seu contato com Ambrósio de Milão, um pregador que ganhou bastante notoriedade na época em que ele começava a sua trajetória. Uma característica fundamental na figura de Ambrósio era sua exegese, seu cuidado com a doutrina e sua habilidade em encantar multidões. Mas, Ambrósio era um homem reflexivo, preocupado com discussões internas e dogmáticas. Um dos primeiros contatos de Agostinho foi uma imagem do milanês lendo a Bíblia apenas para si. Algo que ele descreve como sendo uma bela imagem que refletia o quanto Ambrosio era um homem pio. Agostinho também elogiava o vasto conhecimento dele, que memoriza trechos inteiros da Bíblia com enorme facilidade. Segundo uma das conversas que ele teve com Ambrosio, este lia para si de forma a compreender melhor a mensagem do Criador e abrir portas em sua mente para que a mensagem de Deus entrasse em seu coração. Lógico que as técnicas de Ambrosio eram questionadas por seus pares que enxergavam em sua prática uma blasfêmia por ele estar seguindo em um sentido inverso ao dos pregadores que compartilhavam seu conhecimento.


É nos scriptoriums medievais que a leitura silenciosa vai ganhar mais e mais adeptos. A necessidade de gravar trechos bíblicos para a pregação em locais distantes (principalmente nos reinos germânicos e nórdicos) vai fazer com que os aprendizes desenvolvam fórmula que os permitam memorizar trechos da Bíblia e evitar uma necessidade intensa de consultar seus livros. Neste momento aqui, leitura em voz alta e leitura silenciosa compartilham da mesma temporalidade. Se antes a primeira era óbvia e a segunda era vista com maus olhos, agora temos uma preocupação em passar corretamente a mensagem da cristianização. No mundo islâmico, isso era algo essencial para o ímã. Principalmente porque o Corão era escrito como a Odisseia: para ser entoado ou cantado. Seu versos claramente possuem ritmo e cadência e para os muçulmanos a palavra corânica é divina mesmo na sua escrita. Na religião muçulmana são as letras em si o objeto de decoração das mesquitas. Seu desenho é sagrado e existe um padrão que as embeleza e as faz se mesclar com a arquitetura do local onde estão inseridas (sou suspeito para falar o quanto admiro a beleza da caligrafia e da arquitetura já que me casei em uma igreja mourisca, que tinha sua arquitetura metade cristã e metade islâmica).


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O analfabetismo gritante dos camponeses na Idade Moderna europeia ainda vai fazer a leitura em voz alta ser comum nos clubes de leitura. Mas, esta vai começando a perder cada vez mais espaço para a leitura silenciosa. O ato de ler para si se torna um hábito nobre e "civilizado" rechaçando assim aqueles que a compartilhavam. O desenvolvimento da imprensa vai ajudar a difundir o livro por mais moradias. Pregadores protestantes vão passar a estudar os escritos bíblicos e incentivar seus fieis acerca da necessidade de não mais se ver nas mãos de um catolicismo corrupto e corrompido que não ensinava corretamente os ensinamentos. É chegada a época da livre interpretação bíblica e poder contar com um exemplar do livro sagrado era essencial para esse objetivo das religiões de matriz protestante. Claro que esse objetivo esbarrava ainda no alto índice de analfabetos, mas era um incentivo para que os camponeses passassem a buscar informações sobre os livros sagrados. Talvez o maior símbolo de que a leitura silenciosa tenha vencido essa "batalha" tenha sido a escrita de Frankenstein, por Mary Shelley. Em um retiro onde vários escritores e Mary Shelley, eles fizeram uma competição amigável onde o objetivo era escrever um romance em um curto espaço de tempo. Eles seriam lidos por seus pares que, após a leitura, faria uma discussão sobre os temas que cada um se debruçou. Isso nada mais era do que uma leitura silenciosa e atenta ao que cada um produziu.


Mas, preciso fazer um desvio rápido para falar dos clubes da leitura surgidos na época da Revolução Francesa. Estes eram destinados àqueles que não conseguiam ler escritos polêmicos ou proibidos pelo absolutismo francês. Os revolucionários compartilhavam a leitura de livros de Locke, Rousseau, Montesquieu e tantos outros que serão as fagulhas iniciais para o acirramento dos ânimos contra aqueles que defendiam a manutenção do Antigo Regime. Robert Darnton faz uma belíssima discussão sobre estes locais, pouco conhecidos até hoje dentro da história europeia, no livro O Grande Massacre de Gatos. Sem essa atuação ativa dos clubes de leitura, os panfletos revolucionários não teriam se espalhado quase como uma praga para os antigos conservadores que se viam diante de uma população que agora reclamava por seus direitos. Membros desses clubes de leitura iam a diversos pontos na Europa para insuflar a revolução e as greves operárias tão comuns no século XIX, lendo em voz alta os grandes autores iluministas que forneciam o aporte conceitual para estas lutas de classe. À medida em que a população foi se alfabetizando esses clubes perderam a necessidade de existir, mas por muito tempo eles foram essenciais para o que veio por quase trezentos anos.


Por hoje ficamos por aqui e em uma outra oportunidade vamos conversar mais sobre os contadores de histórias. Sua origem, suas técnicas e sua longa história em diversas cultura diferentes. Por ora, continuo a indicar a todos a leitura do ótimo livro de Alberto Manguel que, além de ter uma belíssima escrita, ainda vai aprofundar e muito as discussões que fizemos aqui nesta matéria, E até a próxima.



Leitura indicada:



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Ficha Técnica:


Nome: Uma História da Leitura

Autor: Alberto Manguel

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Não-Ficção

Tradutor: Pedro Maia Soares

Número de Páginas: 449

Ano de Publicação: 2021


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A cidade de Alto Oeste foi o lar de Kênia por muitos anos. Um lugar distante e afastado que guarda memórias ruins para ela. Mas, a cidade afundou em um fenômeno natural estranho e depois de muitos anos ela submerge. E com esse retorno, Kênia, agora uma fotógrafa, e seu parceiro Facundo vão fazer um registro da vida dos moradores da cidade.


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Sinopse:


Da mesma autora de “As águas vivas não sabem de si”. Alto do Oeste é uma cidade no meio do Cerrado, que, no início desse século, afundou inexplicavelmente dentro de um lago. Apesar de insólita, essa submersão foi acontecendo de forma lenta e gradual, de modo que também foi aos poucos que seus habitantes foram “expulsos” pelo avançar das águas e obrigados a abandonar à cidade. Anos depois, uma seca extrema no cerrado voltou a revelar Alto do Oeste, e todos os resquícios da vida das pessoas daquele lugar antes da inundação vieram à tona novamente, como se fossilizados pelo barro que agora encobre todas as coisas. Ao saber da notícia, Kênia Lopes, uma antiga moradora da cidade, decidiu que precisava fotografar as ruínas, como se em busca da resposta para uma questão jamais respondida: o que faziam os moradores enquanto aquele pequeno apocalipse se aproximava?







O quanto somos moldados pelos lugares em que vivemos? O tempo e as memórias de um lugar esquecido no meio do cerrado brasileiro, uma cidade que afundou misteriosamente e depois ressurgiu do mesmo jeito. Esta é a história de Alto Oeste, um lugar que, para a fotógrafa Kênia, marca memórias de uma infância e juventude que ela desejaria esquecer. Tendo ido ao lado de seu companheiro documentarista Facundo à recém-redescoberta cidade, ela se vê obrigada a enfrentar algumas de suas feridas do passado. Momentos de dor e angústia de uma cidade que foi desaparecendo pouco a pouco, sem ninguém se dar conta até ser tarde demais. Nos dias de escola passados há muito tempo, um diário esquecido trará à tona uma amizade destruída pela falta de expectativas do presente, por uma sensação de abandono e solidão diante de uma cidade pequena em todos os sentidos da palavra. Através de entrevistas e relatos dos antigos moradores que voltaram para a cidade, encontraremos um mosaico de histórias que nos ajudará a montar o que aconteceu antes de uma cidade ser engolida pelas águas.


Esse é o segundo romance que leio da Aline Valek e este é bem diferente do primeiro. Se o primeiro transbordava ficção científica pelos poros, esse está mais para o lado do realismo mágico, bem na verve de um Garcia Marquez. Não há necessidade de explicar por que a cidade afundou até porque a história não é sobre isso. O leitor vai se deparar com algumas coisas inexplicáveis, mas que nos ajudam a entender as histórias daqueles que passaram por Alto Oeste. O próprio tempo é um pouco maleável aqui e a narrativa não segue necessariamente uma ordem cronológica de compreensão. E está tudo bem porque o leitor vai compreender tudo sem nenhum problema. As divisões temporais são localizáveis sem stress e esse esquema de ir e voltar no tempo nos fornece as informações que precisamos. Fico em dúvida se essa é uma história de Alto Oeste e aqueles que viveram nela ou se é de Kênia e sua necessidade de resolver assuntos deixados para trás. A gente pode argumentar dos dois lados e essa é uma discussão bem saudável. Há argumentos para as duas abordagens.


"Todo mundo que voltou deixou alguma coisa aqui. É por isso que se volta. Para buscar."

No geral, a escrita da Aline Valek é em terceira pessoa dependendo de quem é o narrador daquele capítulo específico. Isso porque existem os capítulos narrados por Tainara em seus registros de diário. Estes são em primeira pessoa. Há também alguns capítulos sendo feitos com recortes de jornal. Então, há uma variedade legal de formas de apresentar a história que tiram o leitor do lugar comum. Temos três personagens que são principais, no sentido de aparecerem mais vezes, e uma quarta que aparece na segunda parte da narrativa. A autora escolheu escrever a história usando capítulos bem pequenos, como se fossem fragmentos de memória que podem ser juntados para formar a narrativa principal. Isso torna a leitura bastante rápida e fluida. O leitor pode ficar tranquilo porque a escrita é leve, não há estruturas complicadas, nem nada, sendo fácil se situar na história. Cidades Afundam em Dias Normais é uma história sobre pessoas que vivem em uma cidade pequena no meio do nada. É esse tipo de narrativa mais intimista, ao qual vamos nos apegar aos personagens e suas vivências. Por essa razão, não há necessidade de empregar jargões ou formas mais complexas de compor narrativa. Bastava que o leitor se importasse com aquelas histórias. E nesse sentido a autora foi muito feliz.


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Quando Paul Ricoeur, em seu livro Tempo e Narrativa, fala sobre o papel do historiador ele menciona a necessidade da rememoração. Na sua visão, a história é uma visão do presente acerca dos acontecimentos do passado. Ao nos recordarmos sobre os acontecimentos que já se sucederam, usamos nossa experiência atual para buscar um sentido naquilo que já se passou. A história não é construída por historiadores, mas por pessoas; cabe a estes apenas transmiti-las às gerações futuras. Na narrativa de Valek temos vestígios históricos, materiais e humanos, que são encontrados por Kênia e Facundo. As pessoas que dão seus depoimentos procuram buscar pela memória fragmentos de suas vidas passadas. Mas, estes fragmentos nada mais são do que momentos que foram marcantes ou fatos que foram mal resolvidos e que deixaram algum tipo de feridas que não cicatrizaram completamente. As narrativas dessas pessoas relatam diferentes visões sobre acontecimentos, se confrontam e se chocam para buscar nos mostrar uma aparente visão do todo. Tem uma fala da Érica quase no final da história que diz que as memórias pertencem ao futuro e só contamos histórias pensando para frente. E é um pouco isso o que é transmitido nessa narrativa. Cada pessoa é uma casa em permanente construção. As experiências vividas são como pequenos tijolos empilhados um após o outro. Às vezes um trecho da obra pode ficar mais frágil porque os tijolos não foram postos adequadamente e até desmoronar enquanto outros serão sólidos. Cada acontecimento é importante de alguma forma para moldar quem somos.


"Ela se sentia em casa ali, do mesmo jeito que eu me sentia à vontade na casa dela. [...] Ou talvez a gente se sentisse em casa uma com a outra."

A vida de Kênia foi difícil assim como a de muitos dos personagens da narrativa. Mas ela nunca se imaginou como parte daquela cidade. Sua solidão vinha do fato de ela não desejar permanecer naquele ambiente. Por mais que ela tentasse se ajustar ao cenário, sempre havia alguma coisa que a tirava do rumo. Fosse sua amizade com Tainara que significou ter alguém a quem se apegar ou seu breve romance que serviu mais para suprir uma carência do que ser um sentimento romântico por outra pessoa. Ao observar a cidade desaparecendo lentamente, havia uma espécie de desejo não dito em voz alta de ver tudo aquilo ser tragado pela terra e ela ter uma nova oportunidade de reiniciar sua vida em outro lugar. Mas, faltava à personagem a coragem de tomar sua decisão de uma vez por todas. Nada ali a prendia de fato àquela realidade, nem sua amizade.


Por outro lado Tainara representava a permanência. Alguém que nasceu e se desenvolveu naquele lugar. Se Kênia era uma pessoa mais ativa e em busca de sua identidade, Tainara era mais observadora. Aquelas vidas em movimento a deixavam curiosa. Ela não era a garota mais popular da escola, e sim apenas uma menina estudiosa e sincera consigo mesma a respeito do que ela queria para si. Vale imaginar que sua amizade com Kênia surge de uma necessidade mútua de se encontrar uma na outra. As duas se complementavam porque tinham visões diferentes de mundo. Ao mesmo tempo ambas se colocavam no chão para poderem seguir juntas adiante. Somente quando seus sentimentos passaram a se chocar é que a comunicação errada e as ausências prejudicaram seus corações. Nenhuma delas foi responsável de forma direta pela tristeza da outra. Foi apenas o tempo e a vida que seguiram seu curso, com seus obstáculos e desafios a serem superados. O afundar da cidade significou para Tainara uma dor no coração porque ela via seu mundo ser destruído. Quando ela teve a oportunidade de deixar Alto Oeste, não queria fazê-lo, não porque ela não quisesse deixar sua avó para trás, mas porque aquele lugar representava tanto para ela. Se Kênia desejar deixar a cidade o mais rápido possível, Tainara deseja permanecer e ser mais um tijolo na história daquela cidade.


"A gente sempre se acostuma, depois de um tempo. Se acostuma com o caminho até o colégio, com os programas da TV, com a cidade sumindo, com os blecautes, com apanhar sem nenhuma explicação. Isso me assusta um pouco. Se acostumar é não conseguir mais diferenciar as tragédias dos dias normais."
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Essa é uma história de perdas e tristezas sim, mas é a vida das pessoas. Nem sempre nossas existências são marcadas por bem aventuranças e sucessos. Pensar para trás, rememorar doces amarguras serve também para confrontarmos os fantasmas de nossos corações. Através de seu documentário, Kênia e Facundo fazem com que os personagens juntem os pedaços da cidade que foram deixados para trás em um passado não tão distante. Isso não significa que a maquete que eles montarem será a mesma cidade que existiu outrora. Só que para estas pessoas, inclusive para Kênia, essa é uma maneira de conseguir tocar a vida adiante, colocar alguns demônios para descansar e conseguir se aceitar como fruto dessas experiências. Afinal, como diz Ricoeur, estudar o passado é também compreender a condição humana.


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Ficha Técnica:


Nome: Cidades Afundam em Dias Normais

Autora: Aline Valek

Editora: Rocco

Número de Páginas: 256

Ano de Publicação: 2020


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Conversa aberta. Uma mensagem lida. Pular para o conteúdo Como usar o Gmail com leitores de tela 2 de 18 Fwd: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br Caixa de entrada Ficções Humanas Anexossex., 14 de out. 13:41 (há 5 dias) para mim Traduzir mensagem Desativar para: inglês ---------- Forwarded message --------- De: Pedro Serrão Date: sex, 14 de out de 2022 13:03 Subject: Re: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br To: Ficções Humanas Olá Paulo Tudo bem? Segue em anexo o código do anúncio para colocar no portal. API Link para seguir a campanha: https://api.clevernt.com/0113f75c-4bd9-11ed-a592-cabfa2a5a2de/ Para implementar a publicidade basta seguir os seguintes passos: 1. copie o código que envio em anexo 2. edite o seu footer 3. procure por 4. cole o código antes do último no final da sua page source. 4. Guarde e verifique a publicidade a funcionar :) Se o website for feito em wordpress, estas são as etapas alternativas: 1. Open dashboard 2. Appearence 3. Editor 4. 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Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. Atenciosamente Paulo Vinicius Em qui, 13 de out de 2022 12:39, Pedro Serrão escreveu: Olá Paulo Tudo bem? Obrigado pela resposta! O meu nome é Pedro Serrão e trabalho na Overads. Trabalhamos com diversas marcas de apostas desportivas por todo o mundo. Neste momento estamos a anunciar no Brasil a Betano e a bet365. O nosso principal formato aparece sempre no topo da página, mas pode ser fechado de imediato pelo usuário. Este é o formato que pretendo colocar nos seus websites (por favor desligue o adblock para conseguir visualizar o anúncio) : https://demopublish.com/pushdown/ Também pode ver aqui uma campanha de um parceiro meu a decorrer. 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