Buscar

Atualizado: Jun 27

O evento que marcou a Flip nos últimos anos está de volta. Dessa vez de forma online, de forma gratuita. Quer conhecer as mesas e as atrações? Venha saber mais aqui.



Já há dois anos a Casa Fantástica vem se tornando um espaço de resistência para aqueles que curtem literatura de gênero. Vem mostrando a sua força ano após ano com mesas cada vez mais instigantes, trazendo convidados que falam a todos os públicos, a todos os gêneros, a todas as idades, a todas as formações. Trazendo novos leitores, resgatando velhos leitores. Tive a oportunidade de estar presente na sua segunda edição no ano passado, quando ela foi oficialmente incluída na programação do Off-Flip (no primeiro ano ela foi fruto de uma campanha de financiamento coletivo) e me senti totalmente em casa. Pude me aconchegar em um dos vários sofás ou cadeiras que estavam ali e trocar umas ideias com pessoas como Ana Lúcia Merege ou o Diego Guerra, ou conhecer o Mário Bentes que havia vindo de longe ou até mesmo abraçar a Sabine Mendes e convidá-la a conhecer minha escola. Tudo isso na curadoria da Priscila que na época estava dividindo as atenções entre organizar o evento e cuidar de sua editora.


E chegamos em 2020. Um ano em que esperávamos um evento ainda maior. Eu pelo menos planejava emendar Odisseia de Literatura Fantástica em junho, Flip em julho e Bienal em novembro. Mas, veio a pandemia. Mas, a Casa Fantástica não esmoreceu. Assim como o Relampeio que mostrou a sua força com debates sensacionais, a Casa Fantástica não poderia ficar para trás e optou pelo mesmo formato. E está chegando neste final de semana. Então marque aí na sua agenda: de 26 a 28 de junho no canal de Youtube da Casa Fantástica.


Sexta-Feira (26/06):


17h00 — Literatura e Resistência: o que a ficção pode nos ensinar sobre o panorama político do Brasil?

Link da live

Descrição: A arte pode denunciar opressões em todas as esferas, seja em mundos fantásticos, distópicos, ou com a descrição das crueldades do hoje e do ontem. A Literatura, então, é pulsante quando carrega o leitor para seus entremeios e canaliza as catarses da razão e emoção, buscando por e pelas mudanças, sonhos e revoluções. E é assim que queremos fazer Literatura, sendo ela nosso grito por justiça, por empatia, resistindo todos os dias à luz do debate que ela proporciona. Nosso primeiro bate-papo, Literatura e resistência: o que a ficção pode nos ensinar sobre o panorama político do Brasil?, quer chegar de uma vez, com megafone ligado, e discutir nossas feridas, principalmente aquelas recentemente abertas.

Mediação: Ana Rusche

Participantes:

Lavínia Rocha

Sandra Abrano

Peter Larubia

Thiago Prada

19h30 — O mercado livreiro independente em tempos de crise: soluções possíveis

Link da live

Descrição: O mercado literário existe a partir de muitos agentes e meios, e tem se articulado, talvez desde sempre, para manter-se através de diferentes práticas, produzindo e vendendo literatura. Em tempos de liberdade é possível ver um mercado independente que aflora dando espaço para muitas vozes, mas em tempos de obscurantismo é também o mercado livreiro que protege a história, a ciência, a arte. Nesse bate-papo, editores se encontram para trocar suas práticas, repensar caminhos em tempos de crise e discutir publicações em tempos de resistência.

Mediação: Mario Bentes

Participantes:

Cid Vale Ferreira

Thiago Tizzot

Lizandra Magon de Almeida

Adriana Chaves


Sábado (27/06):



14h30 — Pandemia e literatura fantástica: o que podemos esperar para o futuro, de acordo com os livros?

Link da live

Descrição: A literatura fantástica expande os horizontes, amplia as possibilidades do real. Nela, inúmeros cenários distópicos já foram criados, e muitos deles se parecem, em maior ou menor grau, com o momento em que vivemos hoje. Se a fantasia e a ficção científica conseguiram prever tantos momentos da nossa história, o que será que ela tem a dizer sobre o mundo pós-pandemia em que viveremos logo à frente?

Mediação: Lígia Colares

Participantes:

Nikelen Witter

Fabio Fernandes

Simone Saueressig

17H00 — Gênero e poder: o papel da literatura na formação de construções de gênero e sexualidade

Link da live

Descrição: A literatura tem importância na formação das construções de gênero e identidade? Se sim, qual é? Sabemos que a representação LGBTQIA+ e das mulheres na literatura é influenciada pelos papéis que a sociedade entendem pertencerem a cada um desses grupos, mas acreditamos também que os livros são ferramentas poderosas para desmistificarmos os estereótipos de gênero e imaginarmos novos lugares e novas representações para essas pessoas, transformando a realidade que, por sua vez, pode retroalimentar a literatura com novas percepções dos papéis de gênero.

Mediação: Agatha Christie

Participantes:

Claudia Dugim

Vinícius Fernandes

Johann Heyss

Hailey Kaas

19h30 — Literatura periférica: à margem do texto, o texto da margem

Link da live

Descrição: O rótulo “literatura periférica” pode esconder uma série de inovações, tanto em termos de escrita quanto em termos de mecanismos de produção editorial. Habitar a margem pode significar liberdade, exploração artística, respeito a olhares e vivências entendidas como não padrão, mas também pode levar ao habitar de um nicho isolado. Entre a inovação, o posicionamento político das obras e as dificuldades de produção, esta mesa pretende abordar os caminhos pelos quais o “periférico” se sustenta no formato livro - um formato ainda elitista no mercado editorial brasileiro.

Mediação: Sabine Mendes

Participantes:

Israel Reu Neto

Jonatan Magella

Raquel Almeida


Domingo (28/08):



17h00 – Descolonizar a literatura: a língua como ferramenta de resistência

Link da live

Descrição: A literatura é capaz de recontar e criar possibilidades de presente e futuro. Mas muitas vezes demoramos a perceber que as histórias contadas estão cheias dos valores dos colonizadores. Com essa mesa queremos pensar sobre possíveis caminhos pelos quais a literatura pode ser feita e dar luz àquelas que já se construíram nesse caminho, refletindo às lutas e existências que tentaram apagar durante a história do nosso país, mas também, sonhando futuros mais justos e harmônicos.

Mediação: Carolina Mancini

Participantes:

Sirlene Barbosa

Waldson de Souza

Tiago Nhandewa

Gabriele Diniz

19h30 — HQ e resistência política: quais os caminhos do ativismo da nona arte no Brasil?

Link da live

Descrição: Seja através de cartoons, tiras, gibis ou graphic novels, os quadrinhos sempre trouxeram mensagens de crítica e reflexão. Por conta disso também que essa mídia muitas vezes sofre censura de grandes autoridades ou de desgovernos, sabendo do poder e do alcance que ela pode ter com o público geral. Os exemplos são muitos, mas como não lembrar do mais recente caso em que o presidente está usando a máquina pública para processar o Aroeira por uma charge? E o movimento a favor do chargista, possível de acompanhar na #chargistascontracensura e na #somostodosaroeira? Esses e outros meandros farão parte dos debates dessa mesa.

MEDIAÇÃO: Raphael Fernandes

Participantes:

Luiza Lemos

Luiz Fernando Menezes

Rogério Faria

Tainan Rocha

Marcelo de D’Salette


Tags: #casafantastica #flip #resistencia #somosresistencia #fantasia #ficcaoespeculativa #fantasianobrasil #ficcaofantastica #fantasianacional #ficcoeshumanas




Neste aniversário da autora, quais as lições que ela me ensinou? Vou refletir algumas de suas mensagens repassadas através de suas leituras e gostaria que vocês se juntassem a mim nessa jornada.



Neste dia 22 de junho Octávia Butler faria 73 anos. Sua obra se tornou conhecida no Brasil há poucos anos embora seja muito conhecida nos Estados Unidos, inclusive sendo parte do currículo escolar do que equivale ao nosso ensino médio. Mesmo tendo menos da metade de suas obras sido publicada por aqui, fruto dos esforços da editora Morro Branco, ela abriu uma série de debates sobre os mais diversos temas. E neste aniversário da autora queria compartilhar nestas linhas o que pude aprender com esta fascinante autora.


Aprendi com Octávia Butler a arte de contar histórias que nos fazem refletir. Porque a literatura é entretenimento, mas não é apenas entretenimento. Cada um de seus livros ecoa algum tema a nós. Alguns deles nos emocionam, outros nos machucam, outros nos encantam, mas nenhuma de suas histórias nos deixam ilesos. Sua literatura tem o dom de possuir camadas por cima de camadas, sendo mais profundas do que uma simples frase. É quase como se pudéssemos dizer que seus livros tratam de hipóteses cujos argumentos são apresentados pelos personagens ao longo de suas narrativas.


Aprendi com Octávia Butler a arte de contar histórias. Sim, a simples arte de contar uma narrativa a uma outra pessoa. Toda vez que leio um livro da autora a imagino contando a mim ao redor de uma fogueira, na tradição dos antigos contadores de histórias da tradição iorubá. Histórias essas passadas de geração a geração, oralmente, feitas para encantar os ouvintes, com gestuais e formas distintas a cada nova apresentação. Suas histórias são entoadas de forma mágica e possuem o poder de nos levar até lugares como o sul dos EUA no século XIX, ou uma nave espacial ou um continente americano após um desastre apocalíptico. Reagimos a estes lugares: os sentimos, os ouvimos, os vemos. Suas descrições são poderosas, conseguindo ser vívidas o suficiente para nos transportar até lá.



Aprendi com Octávia Butler que o poder da fé pode nos levar tanto a algo magnífico como a algo terrível. Ou seja, representa uma linha muito tênue. O homem tem um poder ilimitado de alcançar coisas milagrosas. Bastando apenas a ação. Fomos capazes de domar rios, construir cidades, levantar casas, descobrir o fogo. Mas, ao mesmo tempo, matamos uns aos outros por causa de terras, por diferenças religiosas, pela simples cor de pele, por símbolos mágicos. A fé pode mover montanhas. Certamente que sim. Tanto para o bem quanto para o mal. Tudo é questão de perspectiva. E isso Butler analisa como ninguém.


Aprendi com Octávia Butler que o homem ainda não está preparado para singrar o espaço. Precisamos antes resolvermos nossas próprias diferenças, evoluirmos como seres humanos. Como podemos pensar em colonizarmos novos planetas se não somos capazes de convivermos uns com os outros. Somente levaríamos os mesmos problemas a outros lugares. Continuaríamos com nossas guerras, apenas as mudaríamos de lugar. O homem precisa alcançar uma outra etapa de evolução antes de sequer pensar em entrar em contato com outras civilizações do espaço.


Aprendi com Octávia Butler que é possível usar a literatura de gênero para impactar aqueles que a veem como "literatura popular". Assim como Ursula Le Guin, Octavia Butler conseguiu atravessar a barreira que a ficção científica impõe. Livros como Kindred e A Parábola do Semeador são encarados como "alta literatura", embora eu não goste desta alcunha. Mas, é preciso destacar o quanto a autora se tornou uma das grandes dentro da literatura norte-americana.


Aprendi com Octávia Butler o quanto é difícil o caminho que uma autora negra de ficção científica precisa trilhar. Todos os sacrifícios pelos quais ela passou, todas as negativas que ela recebeu. E mesmo assim, ela perseverou em seu objetivo. Porque na época em que ela iniciou sua carreira o mercado de literatura de gênero era formado estritamente por homens brancos conservadores. Mulheres como Butler, Le Guin, James Tiptree e Andre Norton são desbravadoras. Mas, é preciso pontuar que Butler é uma das poucas negras nesse meio durante esse período. E em um contexto bem recente de lutas pelos direitos civis pós manifestações de Martin Luther King e Malcolm X.



Aprendi com Octávia Butler as marcas terríveis deixadas pela escravidão durante o período colonial no Novo Mundo. O quanto isso influenciou o imaginário do homem branco que vivia na América. A realidade da casa grande e da senzala foram de uma violência e de uma virulência assustadoras. As imagens que Butler nos mostra em Kindred com Dana sofrendo nas mãos dos capatazes violências físicas e psicológicas nos deixam mal. Cenas que nos assustam, fazem nosso estômago embrulhar. Pior do que isso, é saber o quanto das marcas do preconceito continuam ainda hoje. Algumas delas em maior grau enquanto outras em pequenos gestos que parecem normais para nós.


Aprendi com Octávia Butler que vidas negras importam. É o lema das atuais manifestações em prol da morte de George Floyd pelas mãos de um policial americano. Isso mostra o quanto seus livros conseguem ainda ser tão atuais. Espero com essa matéria ter te convencido a dar uma oportunidade a esta autora. Seus livros não são complexos demais mesmo aqueles que se embrenham mais a fundo na ficção científica além de possuírem temas bastante atuais. Talvez nunca houve um momento mais propício para ler os livros dela como agora.


Links de alguns livros na Amazon:


Kindred

Parábola do Semeador

Despertar


Tags: #octaviabutler #blacklivesmatter #preconceito #humanidade #evolucao #civilizacao #violencia #ficcaocientifica #pessoas #negritude #kindred #paraboladosemeador #editoramorrobranco #ficcoeshumanas




Uor é um grande matador de gigantes. Nicolau está investigando uma série de assassinatos misteriosos. Um é um herói de sua espécie e frequenta festas diariamente. Outro está na polícia científica de uma nave espacial rumo a um novo planeta e uma nova esperança para a humanidade. Esses mundos diferentes vão se encontrar de forma explosiva.


Sinopse:


Matando Gigantes é uma space opera de equívocos, ambientada no ano 2127.


Rebeldes haitianos, comandados por duas senhoras de meia-idade, se unem a brasileiros e outros latino-americanos para enfrentar o comando elitista branco e opressor de uma nave em viagem de colonização e terraformação de outro planeta.


Assim que chegam ao destino, as coisas começam a esquentar para o lado dos rebeldes, quando pessoas são cortadas ao meio repentinamente por uma força invisível e assustadora, o que acende o estopim para uma revolução.


A força invisível e assustadora se esconde na nave, são pequenos serzinhos, talvez alienígenas, talvez híbridos, que veem nos gigantes, nós, uma ameaça.


A maioria desses pequeninos é adepta do carpe diem, menos Gus, trans-homem e encarregado científico de seu povo, que, intrigado, decide não ir às tradicionais festas diárias, para estudar melhor os tais gigantes e descobrir métodos melhores para matá-los.






Sonhamos em colonizar o espaço. Levar nossa civilização a outros planetas e, quem sabe salvar a humanidade de algum possível evento de extinção planetária. Mas, em um novo planeta, será que temos a possibilidade de evoluir? Evoluir como pessoas, como cultura? Ou manteremos os mesmos vícios de hoje? É com essa proposta que Cláudia Dugim escreve Matando Gigantes onde ela nos coloca frente a frente com duas civilizações vivendo sob um mesmo teto, mas com formas diferentes de enxergar a vida. E, no fim, me senti preocupado ao chegar a uma mesma conclusão pessimista do que a autora: talvez não tenhamos remédio.


Temos duas narrativas distintas no começo que lentamente vão se interligando. De um lado temos um grupo de seres pequeninos que lutam para sobreviver em seu pequeno espaço. Mas, a presença cada vez mais constante de gigantes próximo ao lugar onde vivem tem tornado a sua vida, que antes era bem tranquila, em algo preocupante. A necessidade de entender melhor esses seres enormes que vivem à margem se tornou imperativa e somente Gus, um trans-homem cuja mente se voltou para além das festas e das brincadeiras habituais, vai ser capaz de encontrar alguma solução. Na outra narrativa, Nicolau precisa investigar uma série de estranhos assassinatos que envolvem o corte de membros por alguma arma cortante. O assassino parece ser incrivelmente astuto ao não deixar rastros. Em uma espaçonave seguindo para Terra 2, os ânimos entre os setores mais pobres e uma elite manipuladora vão esquentando. E uma rebelião parece estar bem próxima de acontecer, colocando em risco a última nave das três que foram enviadas em busca de um novo lar para a humanidade.


"Remorsos são desnecessários, mentiras são necessárias, pondera Gus. Remorsos por causa de mentiras por uma boa causa, como o bem comum: incoerentes."

Essa já não é a primeira vez que eu leio algo da Cláudia. E posso dizer que ler qualquer coisa dela é sempre algo recompensador ao mesmo tempo em que é desafiador. Com um estilo mordaz de apresentar suas histórias, a resposta para aonde ela quer chegar nem sempre está claro. Você precisa ler nas entrelinhas, compreender as ironias e subjetividades de sua escrita. Aqui não é diferente. No começo ela vai bagunçar a sua cabeça e você não vai entender nada do que ela está dizendo. Calma! Respira, continue a ler que eventualmente a ficha vai cair e a narrativa vai ganhar uma clareza arrebatadora. A narrativa é em terceira pessoa, contendo vários núcleos narrativos, e, com isso, todo o contexto se torna nítido em alguns capítulos.


Matando Gigantes é um livro com várias camadas. Por exemplo, a gente pode falar da sociedade dos pequeninos e como ela vive de uma maneira ingênua, beirando ao prazer. Curtir a vida em festas, onde buscar um parceiro ou parceiros é a única preocupação parece ser o ideal perfeito do carpe diem, como colocado na sinopse. Claro que nem tudo são flores. Existe o enfrentamento eventual com os gigantes e uma tragédia que acometeu os pequeninos em um determinado momento. Mas, tudo isso é apagado quando as músicas tocam e os hormônios afloram. Cherv, o chefe de Uor e Gus, se preocupa em manter apenas a sua aparência como chefão, embora ele passe a imagem de alguém meio incompetente e trapalhão. Indicar alguém para ir nas festas de Chervinho, seu filho, parece ser uma comendação enorme. Mas, Gus, um conhecedor, sabe melhor. Entende os problemas dentro de sua própria sociedade. Busca enxergar além das aparências. Ele entende que não basta só matar um gigante eventualmente. É preciso compreender o inimigo e traçar uma estratégia (palavra essa desconhecida entre eles) para melhor lidar com eles.



" - "Como poderemos ponderar sobre os erros do passado e evitá-los no futuro? A fantasia está tão misturada à realidade que ninguém se entende sobre os grandes acontecimentos. As mudanças políticas, a noção de unidade e equidade, tão bem preservada, poderia ser questionada facilmente. As pessoas dão graças às Estrelas Caminhantes, deusas inquestionáveis, por nunca ter havido um grande questionador, antes de Gus, eu mesmo."

Vale mencionar como a Claudia inova em um momento em que precisamos de obras que não se atenham aos cânones e clichês de uma ficção científica limitada no tempo. Matando Gigantes é representativa; é uma narrativa que atravessa a questão de gênero, não entendendo-a a partir de um significado maniqueísta bobo. Por exemplo, entre os pequeninos a questão do gênero é muito relativa, ficando a critério do indivíduo defini-lo. Gus é um pequeno do sexo masculino, mas detentor de uma vagina. Ou seja, é um transexual. O casamento entre eles pode ou não ser monogâmico. Desde que exista uma química entre as pessoas. Vamos ver exemplos dos dois casos. Até é engraçado quando acontece o choque de culturas e um dos pequeninos pergunta a um dos personagens por que eles se casam com uma só pessoa e que precisa necessariamente ser do outro sexo.


Se vamos falar de inclusão, precisamos falar de outros personagens. As líderes do movimento rebelde são duas mulheres de meia-idade que carregam em si a experiência de lutas passadas, mas com uma energia tão grande quanto a de jovens. Por que o protagonismo não pode ser dado a elas? Mama Bá é uma personagem extremamente importante para a trama e as negociações futuras precisam passar por ela. É uma articuladora nata. Claire também precisa assumir esse manto em algum momento. E vai se revelar tão sutil quanto Mama Bá, embora mais impulsiva. A mescla cultural também está bastante presente no livro. Haitianos, brasileiros, entre outros estão nos setores da nave. Como sempre, representam povos explorados pelos poderes que comandam tudo.


"Nicolau percebe que, ao abandonar a Terra, os humanos não deixaram para trás milhares de anos de opressão, ganância, tirania e preconceito, como acreditavam os ufanistas. Porque isso não pertencia ao planeta; pertencia a eles, humanos."

A parte investigativa cobre toda a primeira parte do livro em que de um lado os pequeninos desenvolvem meios para saber mais a respeito dos gigantes. E do outro, segue a investigação de Nicolau que o leva a entrar em contato com os rebeldes. Esse contato com Claire, Daniele, Mama Bá e tantos outros o leva a questionar suas próprias certezas sobre um mundo que deixou de fazer sentido. Viver em uma bolha de segurança o coloca em confronto com seus próprios ideais. Já no outro núcleo narrativo, Uor precisa entender o que a sua função de herói inclui como responsabilidade para com seu povo. Ser herói é apenas ir a bailes e encontrar fêmeas para se relacionar, ou existe algo mais? Esse confronto de ideias vai derrubar também as suas certezas sobre o status quo onde vive e obrigá-lo a sair do pequeno lago seguro que é sua vida para enfrentar um grande oceano incompreensível em um primeiro momento.



A discussão sobre o futuro da humanidade me deixou preocupado. Porque é inevitável a gente chegar ao mesmo raciocínio da Cláudia. Provavelmente eu sou um pouco mais velho que os meus colegas blogueiros de literatura de gênero e tenho uma visão mais sórdida e menos idealizada da vida. Porque ao longo da narrativa vemos como a busca pelo poder cerceia todas as relações. E o quanto relações de desigualdade social se mantiveram mesmo sob um discurso de que a humanidade não repetiria os mesmos erros do passado. A existência de uma camada protegida e que se livraria dos demais caso fosse necessário é um sinal dos tempo em que vivemos onde a vida do homem vale tão pouco diante dos anseios de um grupo. O final é de um pragmatismo ímpar e quem espera uma mensagem de final feliz e todos viverão contentes vai se espantar com a transparência da autora. Mais do que isso seria dar spoilers.


Alguns pontos sobre o livro precisam ser destacados. Primeiro que eu achei que a presença dos membros do Coração ficaram sutis demais. Eles aparecem muito na frente e precisavam ser estabelecidos cedo. As instituições que administram a nave me pareceram abstratas demais até que elas foram apresentadas pela autora. Como se trata de uma narrativa que foca bastante nessa relação de dominação e exploração de uma massa por um pequeno grupo, a elite me pareceu ausente dessa discussão. Por muito tempo achei que o Juan era um dos membros dessa elite. Que eu não entendia exatamente quem eram ou o que representavam.


"Todos somos envolvidos de uma forma ou outra pelo sentimento político, querendo ou não. Desse sentimento depende o bem ou o mal coletivo. Quem nos comanda é o nosso reflexo, se não nos agrada o que vemos no espelho, mudamos, simples assim. Pelo menos em teoria; na prática, cada indivíduo tem sua própria vaidade, para uns o defeito está no cabelo, para outros na roupa, harmonizar o todo não é uma tarefa fácil. Os governos opressores costumam baixar a autoestima do povo a tal ponto que nem no espelho ele vai querer se olhar mais."

Além disso a história sofreu com uma quantidade grande de assuntos e temas apresentados pela autora. Isso é uma faca de dois gumes. Por um lado, torna a narrativa rica em detalhes e nos permite encontrar novos assuntos a cada releitura. Por outro lado, faz com que a narrativa sofra por precisar se focar em outros temas que não o desenvolvimento dos personagens ou a condução da narrativa. Por exemplo, o mundo dos pequeninos é fascinante e a maneira como ele se choca com os problemas da espaçonave é um momento de virada. No entanto, a rebelião que se iniciava e a necessidade de expor como Martina e seus aliados se colocavam no jogo sublimaram esse debate. A maneira como as duas enxergavam uma a outra renderia bons capítulos de confusão, desentendimento e dúvida. As possibilidades são tantas que seria possível até enxergar a possibilidade de Matando Gigantes precisar de um segundo volume.


Mais um bom livro dessa coletânea Futuro Infinito, criado pela editora Patuá e que abraçou autores de ficção científica com histórias ricas, reflexivas e engajadoras. Pude ler um romance longo da Claudia Dugim que sempre tem uma boa história para contar, com um pouco de doçura e muito de crítica social. É impossível não se encantar com o livro e não pensar em tantas possibilidades e em quanto estamos caminhando para a estrada errada.











Ficha Técnica:


Nome: Matando Gigantes

Autora: Cláudia Dugim

Editora: Patuá

Número de Páginas: 336

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

https://www.editorapatua.com.br/produto/96485/matando-gigantes-de-claudia-dugim


*Material enviado em parceria com a autora


Tags: #matandogigantes #claudiadugim #editorapatua #desigualdesocial #civilizacao #colonizacao #espaco #dominacao #exploracao #revolucao #ficcoeshumanas





ficções humanas rodapé.gif

Todos os direitos reservados.

Todo conteúdo de não autoria será

devidamente creditado.

  • Facebook - Círculo Branco
  • Twitter - Círculo Branco
  • YouTube - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle

O Ficções Humanas é um blog literário sobre fantasia e ficção científica.