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Esta é uma coletânea com várias narrativas que exploram como personagens das camadas populares sobrevivem nos mais diversos cenários cyberpunks.



Sinopse:


O avanço tecnológico promete uma sociedade mais evoluída e próspera, mas a realidade é um verdadeiro abismo social que divide miseráveis e alienados sorrindo nas redes sociais. Quanto mais desenvolvidas e difundidas as nossas ferramentas, pior é a qualidade de vida da população. Esqueça todas aquelas distopias em grandes metrópoles do planeta e venha conhecer o sombrio Brasil do amanhã em Periferia Cyberpunk.


Nas ruas sem pavimentação e com esgoto a céu aberto, corre mais uma criança subnutrida que roubou um gadget capaz de transmitir seu cotidiano em tempo real ou acessar o oceano de informações da web na palma de suas mãos. Ela é apenas mais uma que se debaterá para não se afogar nesse mar poluído de dados contraditórios.


Em meio a megacorporações que controlam governos corruptos e desigualdade social que mistura violência e alienação hedonista em comprimidos sintéticos, Raphael Fernandes formou uma célula terrorista para sabotar o sistema. Para isso reuniu os hackers do roteiro Airton Marinho, Guilherme Wanke, Cauê Marques, Lucas Barcellos, Antonio Tadeu, Larissa Palmieri e Bruna Oliveira, e os ciberterroristas das artes Jader Corrêa, Braziliano, Cassio Ribeiro, Jean Sinclair, Thiago Lima, Azrael de Aguiar, Akemy Hayashi e Doc Goose. A capa que protege os seus rastros é do misterioso Camaleão.


Encare a verdade em histórias em quadrinhos sobre um tempo onde big data é mais importante que pessoas. Ou esqueça tudo isso e poste mais uma selfie que esconda sua vida robótica e afundada em consumo sem sentido.





Essa coletânea parte de uma proposta bem criativa. As histórias presentes aqui vão girar desde um homem voltando à sua comunidade depois de alguns anos fora e encontrando tudo pior do que antes, um grupo de ladrões que rouba uma espécie de robô que vai causar problemas, uma mulher atirada no esgoto e sendo aproveitada por um grupo de rebeldes que desejam retomar o controle, uma dupla de policiais a la Máquina Mortífera em uma Fortaleza cyberpunk. A imaginação correu solta. Isso gerou tanto histórias geniais, como ideias que poderiam ser boas, mas acabaram não sendo bem trabalhadas.


A história que melhor incorpora essa ideia do futuro com os problemas da população marginalizada é Babel de Cristo, do Lucas Barcellos com arte do Jean Sinclair. Na história vemos um homem retornando para casa após muitos anos afastado. A vida o marcou, mas a favela fez parte do seu coração, com todas as mortes, as dificuldades e a exploração. No futuro pensado pelo roteirista, o Corcovado se tornou uma imensa torre de Babel que recebe pessoas pobres e desabrigadas de todas as partes. Ela se tornou uma grande favela e a violência corriqueira de traficantes e policiais continua. O protagonista sai atrás de uma conhecida e vai precisar enfrentar adversários perigosos. Uma história com um direcionamento simples, mas muito eficiente. A arte explorou bem o ambiente pobre, das casas feitas de puxadinhos, das pessoas que habitam o local, vítimas e agressores.


Agora se eu posso retomar uma narrativa que me dá vislumbres de Neuromancer, de William Gibson, é Iansã Ferida, de Guilherme Wanke com arte do Brasiliano. Temos duas amigas que vivem diversos apertos nos subterrâneos da cidade. As pessoas mais pobres foram literalmente empurradas ainda mais para baixo. Bia e Letz estão tentando ficar tranquilas quando elas se veem em apuros e precisam se esconder no quartinho da Bia. Para se recuperarem do medo que passaram pouco tempo antes elas decidem "dar um tombo" (usar drogas para ficar de boa). O barato que elas sentem é tão forte que elas apagam vários dias. Só que ao despertarem ninguém parece estar respondendo. Este conto possui tudo aquilo pelo qual Gibson ficou famoso: as drogas, a decadência, a lisergia. Tudo está ali. Claro que na visão de Wanke tem um algo mais. É a destruição da ordem vigente para o surgimento de algo novo. Só que esse algo novo pode não ser tão melhor do que o que já tinha. Algumas perguntas ficaram: o que aconteceu com aqueles que subiram à superfície? E será que o contato de Bia estava ligada aos acontecimentos de alguma forma?


Cena de Babel de Cristo

Outro conto que me chamou a atenção foi Condomínio Paradise, da Larissa Palmieri com arte de Azrael de Aguiar. O mais legal é que a Larissa me deu um belo swerve logo de cara. Quando eu vi a protagonista sendo enviada por uma tubulação para baixo (o que representaria a zona decadente), eu imaginei a cena do filme O Fugitivo, aquele scifi brega com o Arnold Schwarzenegger, da década de 1980. Mas, não, a intenção não era essa. A protagonista parece ter se envolvido em alguma situação que não é explicada precisamente na história, e é exilada. Quando ela cai no condomínio Paradise, um lugar onde os rejeitados pela elite habitam, encontra sua irmã, que ela pensava ter matado. Ao que parece, sua irmã se tornou a líder dos rejeitados que se tornaram uma espécie de grupo rebelde que deseja retornar à luz do topo do condomínio. Tem uma série de simbolismos presentes nesta narrativa: a desigualdade social entre os poucos que vivem no topo e os muitos que vivem abaixo, a forma como a sociedade enxerga essas pessoas, o desejo de uma revolução (lembrando que o conceito de revolução é uma tomada do poder de baixo para cima). No final, Larissa ainda deixa um final aberto, mas com uma tirada muito divertida.


O último conto que eu queria comentar é Fortaleza 2068 do Raphael Fernandes com arte do Doc Goose. Divertidíssimo e é uma brincadeira com a ideia dos policiais parceiros; um deles é um cara intempestivo e o outro é o mais cerebral e calmo. Raphael cria dois personagens que tem uma boa química logo de cara. E o fato de o seu parceiro ser fanho oferece uma série de tiradas engraçadas. Esse é aquele conto para você não levar a sério e apenas se deixar levar pelas loucuras inventadas pelo roteirista. A arte do Doc Goose também está excelente, exagerada e espalhafatosa o tempo todo. Há um mix de influências scifi com arte retrô que torna essa Fortaleza futurista uma cidade viva.


A coletânea é bem criativa e algumas histórias mereceram destaque para mim. Algumas eu gostei menos, mas no geral é uma daquelas coletâneas que eu recomendo a qualquer um que goste de boas histórias de ficção científica. Tem um elemento de brasilidade em todas as obras que só por aí já compensa o tempo investido. Me permitiu também conhecer excelentes artistas como o Wanke, o Doc Goose e até a Akemy Hayashi (do conto Midriasi que eu acabei não comentando). Mais um acerto da editora Draco.










Ficha Técnica:


Nome: Periferia Cyberpunk

Organizado por Raphael Fernandes

Editora: Draco

Número de Páginas: 176

Ano de Publicação: 2017


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Na coluna deste mês, Ana Lúcia Merege nos passa um pouco daquilo que ela aprendeu organizando coletâneas de contos. A arte de selecionar contos, como organizá-los e outros detalhes que parecem irrelevantes para nós, mas fazem toda a diferença no final.



Pessoas Queridas,


No post de hoje, quero compartilhar um pouco da minha experiência em algo que adoro: organizar coletâneas.


Os livrões de mil páginas e séries intermináveis que me perdoem, mas o conto é fundamental. Foi por meio deles que os leitores conheceram Robert E. Howard, H. P. Lovecraft e muitos outros. Já no Brasil foi diferente: as revistas dedicadas ao gênero circulavam em grupos restritos, e quando o mercado cresceu um pouco, na segunda metade dos anos 2000, os contos fantásticos brasileiros começaram a aparecer não em periódicos, mas em coletâneas de editoras surgidas na mesma época.


Mais de uma década depois, temos revistas se consolidando no gênero e muitas possibilidades de publicação independente, mas as coletâneas continuam firmes e fortes. Uma rápida busca na rede vai mostrar pelo menos dez editais abertos, com temas e especificações as mais variadas... E um rápido passeio pelos grupos de escritores vai mostrar muitas dúvidas e confusão envolvendo essas publicações.


- E como você, logo você, Ana, foi se meter nisso?


Meu primeiro trabalho surgiu a partir de uma conversa com a escritora Ana Cristina Rodrigues. Organizamos, pela Editora Ornitorrinco, dois volumes do “Bestiário”, cada um com seis contos de autores diferentes e seis textos escritos por nós sobre criaturas fantásticas. Depois comecei a organizar coletâneas na Draco. As primeiras foram “Meu Amor é um Sobrevivente”, coorganizada com Janaína Chervezan, e “Excalibur”, com tema sugerido por mim ao editor, Erick Sama.


Dessas coletâneas eu trouxe experiências valiosas que usei nas demais: “Medieval”, coorganizada com Eduardo Massami Kasse, “Magos” e “Duendes”. E muito do que aprendi eu partilho com quem me faz a pergunta de um milhão de shekels:


- O que levar em conta ao organizar uma coletânea?


Para começar, tenha algo em mente: não existe fórmula mágica para o sucesso. Isso depende de uma série de fatores, e não há nada que o organizador possa fazer quanto à maioria deles. O que procuro aqui é dar algumas dicas sobre o que se pode fazer para produzir algo bacana.



Então, digamos que você queira organizar uma coletânea de contos fantásticos contemporâneos (e não uma antologia de textos representativos, tipo “O Melhor da Ficção Científica Eslovena de 1900 a 1980”). Talvez você esteja por conta própria, atuando como editor, além de organizador; talvez trabalhe com uma editora ou queira apresentar o trabalho pronto a uma delas. Em qualquer caso, estes são os pontos que eu sugiro considerar:


- Tema e foco da coletânea. Isso depende do seu objetivo. Se for uma ação entre amigos, e as vendas não importarem tanto, não há o que pensar: fiquem com o tema que mais os empolgar e mãos à obra. No entanto, se a coletânea tem a finalidade de vender, deve despertar o interesse dos leitores – e aí vale a pena dar uma sondada no mercado, ver o que está em alta, descartar as temáticas muito batidas ou que apareceram em coletâneas recentes, bem como conhecer, o melhor possível, os gostos e referências do seu público-alvo.


Se você trabalhar com um editor, talvez ele não se interesse por alguns temas (como assim, você acha que “Pelicanos Telepatas” não vai vender???) ou proponha mudanças no foco. Por exemplo, minha proposta original para “Excalibur” era voltada para o público jovem, mas o Erick achou que seria melhor uma pegada adulta, e também abriu para a possibilidade de vertentes variadas dentro do gênero fantástico – daí termos Artur em cenários steampunk, space opera e no Brasil de D. Pedro III. Já em “Duendes”, ele pediu que os contos fossem todos de fantasia sombria; o edital, a campanha no Catarse (quem se lembra dos versinhos?) e o projeto gráfico do livro foram construídos em cima disso.


- Especificações. Pense em quantos textos você quer incluir no livro ou quantas páginas espera ter (importante em qualquer caso, fundamental se for livro físico). Com isso em mente, determine o número de autores e o tamanho mínimo e máximo dos textos (uma dica: certas vertentes do fantástico, tais como a fantasia histórica, costumam se desenvolver melhor quando há mais espaço). Decida também se só aceitará inéditos ou se os contos podem já ter sido publicados, se o envio será em .docx ou PDF, faça todas as ressalvas. Ou seja, pense em tudo que você não quer na coletânea -- histórias com gore, histórias que não incluam elemento fantástico, histórias para maiores de 18 anos – e inclua isso no edital ou no convite. Seria chato ter que pedir a um autor convidado para reescrever um texto porque você queria todos em terceira pessoa. Isso ainda pode acontecer, mesmo que você tenha sido claríssimo. Mas sempre é bom tentar prevenir.


- Edital, contrato e condições. Aqui não irei me alongar; nunca lidei com a parte de direitos autorais, direitos de tradução e outras questões jurídicas e administrativas. O que posso recomendar é que tanto o contrato como o que vem antes -- edital e/ou convite -- sejam tão objetivos e transparentes quanto possível. Algumas coisas têm que ser esclarecidas logo de cara. Já vi editais dizendo que a participação era gratuita e, ao receber o contrato, os autores ficaram sabendo que gratuita era apenas a submissão: para entrar no livro, eles teriam de adquirir 20 exemplares ao preço X. Não preciso dizer o quanto ficaram felizes.


- Quem escreve. Se não estiver organizando uma ação entre amigos, você terá de fazer convites ou abrir uma seleção. Trabalhar com convidados é mais seguro: você pode reunir autores que tenham afinidade com o tema, garantir representatividade (ou pelo menos tentar) e, uma vez que já reuniu o time, combinar alguns pontos para tornar a obra mais interessante. No caso de “Medieval”, eu e Eduardo convidamos autores bons de pesquisa histórica, e cada um definiu o cenário em que iria escrever – e funcionou muito bem. Por outro lado, abrir para o público traz a possibilidade de receber textos maravilhosos de onde menos se esperava, e até revelar novos autores, como aconteceu em “Excalibur” e “Duendes”.



Aos que fazem edital aberto, recomendo incluir um ou mais convidados, por duas razões: garantir variedade (já começamos “Duendes” sabendo que haveria contos de duendes japoneses, galeses e da América Latina) e conferir um certo “peso” à coletânea por meio de um nome um pouco mais conhecido. Um prefaciador também pode ajudar, mas leve em conta o estilo e o público-alvo da obra: um prefácio escrito por um autor do gênero ou por um influenciador da mídia provavelmente será diferente do de um acadêmico.


Tenham ainda em mente a Regra Número Um: nada garante o sucesso, inclusive nesta etapa. Nem todos os convidados poderão participar; bons autores podem escrever contos fracos e/ou inadequados ao projeto (mas, se eles forem realmente bons, aceitarão trabalhar em cima!) e, na seleção aberta, é provável que cheguem muitos textos fracos ou crus. Então... Prepare-se para garimpar!


- O trabalho de seleção. Você abriu o edital, os contos foram chegando (a maior parte nos últimos dias e vários nos últimos minutos) e no final você se viu com algumas dezenas ou centenas de textos. Agora é só ler todos e escolher os melhores, et voilà: está resolvido. Muito simples, né?


Só que não é bem assim. Não se trata de um concurso de contos, que irá premiar os melhores segundo uma série de critérios (ser bem escritos, originais, surpreendentes e por aí vai). Não, uma coletânea é pensada como um conjunto, e como tal ela deve levar em conta a variedade, o equilíbrio e a harmonia entre os textos. Quer um exemplo? Quem compra a coletânea “Excalibur” deve gostar e conhecer um pouco dos mitos arturianos, por isso espera ver no livro figuras como Merlin, Arthur e os cavaleiros. E se todos os contos – apesar de ótimos – girassem em torno de Mordred? Não seria um pouco frustrante? E se, na coletânea “Duendes”, oito das onze histórias fossem sobre crianças trocadas? Meio repetitivo, não?


Assim, eu sugiro dividir o trabalho de seleção em duas etapas. Na primeira, boa parte dos contos será eliminada por uma série de critérios: uns por estar mal escritos, outros por ter furos graves na trama ou fugir da proposta (no caso de “Duendes”, isso incluiu excelentes contos com pegada juvenil). Durante a leitura, você verá alguns textos que se sobressaem, prendem a atenção, têm tudo a ver com o espírito da coletânea: esses você já separa para incluir. Então, se não tiver completado as vagas, procure, entre os remanescentes da segunda leva, os que confiram equilíbrio, deem uma nota variante, tragam uma narrativa diferente ou um novo cenário.


- A organização interna. Escolhidos os contos, resta uma tarefa que eu, pelo menos, considero importante: determinar sua ordem na coletânea. Já ouvi organizadores dizendo que começam e terminam com os melhores, que usam a ordem alfabética, que alternam os contos mais narrativos com os mais dinâmicos. Eu sigo uma estratégia: abro com o conto que irá evocar algo conhecido dos leitores (cruzadas em “Medieval”, um Artur baseado em Thomas Mallory em “Excalibur”) ou vá ao encontro de suas prováveis expectativas (em “Magos” e “Duendes” foi mais o estilo de escrita). E fecho com a obra que dá mais sensação de portas abertas, deixa um restinho de indagação no ar (o de “Excalibur” é o melhor exemplo). Nem todos vão concordar com minhas escolhas, mas... é o critério que me parece funcionar melhor. Também prefiro que as biografias dos autores venham no final. Já textos complementares, caso haja (textos dos autores sobre a experiência da escrita, por exemplo, ou informativos, como os que tratavam das criaturas nos volumes do “Bestiário) podem estar no final ou intercalados. Vale uma análise, caso a caso, para decidir como fica melhor.


Após a seleção, seguem-se as idas e vindas da leitura crítica, copidesque e revisão. Não vou me alongar aqui, porque não é específico de coletânea; também não vou tratar de questões de orçamento, financiamento ou divulgação, que em princípio cabem à editora e não ao organizador. No entanto, para todos que começam a navegar nestas águas, quero tocar num último ponto:


- Capa, projeto gráfico e apresentação. Peço desculpas se isso parece óbvio, mas, pelos tópicos que vejo abertos em grupos de escritores, percebo que muitos têm dúvidas. Então, eis o que penso: uma coletânea pode ter um tema instigante e os contos mais incríveis, mas apresentação conta muito sim. Há quem compre livros pela capa sim. Às vezes não compram na hora, mas dão um jeito de comprar depois. Perdi a conta de quantas pessoas, em eventos, correram para agarrar (literalmente) nossas coletâneas por causa das capas; vi livros com contos muito bons ficarem de lado por causa de capas inadequadas. E quando digo inadequadas não quero dizer necessariamente feias ou malfeitas. Às vezes uma capa é bonita, mas não traduz bem a obra: remete a algo juvenil num livro adulto, por exemplo, ou é muito genérica. Vale a pena pesquisar, para ter uma ideia do que funciona, e contratar profissionais para o projeto, capa e diagramação (sim, isso tem um custo; eu disse que não falaria sobre a parte de orçamento, mas que ela existe, existe). E o mesmo se aplica à revisão. Um errinho ou outro sempre passa, mas frases truncadas, pontuação malfeita e um piano de calda espreitando a cada parágrafo irão depor contra o livro, os autores e os responsáveis pela edição.


Eu teria mais a dizer, mas já me estendi bastante. Fico por aqui, à espera de comentários, dúvidas, questionamentos. E se algum outro organizador quiser se juntar ao debate, será muito bem-vindo.


Fiquem bem, e até a próxima!


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A vida de Shura é uma bagunça. Ela mora com sua família em um lugar pequeno precisando sustentar uma mãe fria, um irmão folgado e uma tia inútil. Sua namorada Violet é sua eterna companheira nas ruas claustrofóbicas de Nova Avalon. Mas, tudo promete mudar já que ela pode se tornar uma policial. Ou será que sua realidade é uma ilusão?



Sinopse:


O limiar entre o real e o virtual pode ser tão perigoso quanto a travessia da juventude para a vida adulta. Os caminhos são diferentes, mas as escolhas que apresentam são mais parecidas do que alguém pode pensar.


Shura sabe que não tem a vida perfeita. Ela não precisa que lhe digam que sua família é disfuncional ou que ela não tem perspectiva de futuro. O que ela precisa é de um plano — e isso, felizmente, ela tem. As luzes da cidade não a impedem de imaginar um futuro, mas a cegam o suficiente para que ela deseje nunca ter olhado para trás.





Philip K. Dick era um autor clássico de ficção científica que se destacava por suas narrativas provocadoras capazes de bagunçar a nossa mente ao borrar os limites entre o real e o virtual. Em suas histórias, raramente éramos capazes de fazer essa distinção com clareza. Diário Simulado vem com essa mesma proposta ao nos apresentar uma personagem que luta consigo mesma para decidir o que é real para ela: o real ou o virtual. Só por essa pequena frase já é possível desconfiar que estamos entrando em um território lamacento onde nada é certo e tudo é efêmero. Assim é a escrita de Delson Neto: daquelas que te fazem olhar o real com outros olhos.


"A luz da geladeira se esgueirava junto da fria névoa de gelo vinda do interior do freezer, envolvendo a cozinha em um azul trêmulo. Atrás da pia havia uma única janela, responsável por trazer toda a claridade do letreiro queimado do Karpas, o restaurante oriental de procedência duvidosa que se alojava debaixo do primeiro andar do cortiço."

Tudo pode ser uma bagunça na vida de Shura Lee. Decidida, impulsiva e incandescente, nossa protagonista busca mudar sua realidade para sempre. Ela vive em um pequeno apartamento ao lado de sua mãe, seu irmão e sua tia. Se Shura é esquentada, sua mãe é o exato oposto e praticamente ignora sua filha. Seu irmão é irritante e vive junto de um rabo de saia em frente à televisão. Sem contar com sua tia Izolda, uma imprestável completa que vive dizendo que será buscada por um noivo rico na semana que vem. Se não fosse Violet, sua namorada, a vida de Shura seria um completo inferno. Depois de mais uma noite de farra ao lado de Violet, Shura acorda de ressaca. Depois das discussões matinais com sua querida família, ela desce para pagar o aluguel atrasado para o senhor Kwan. Para a sorte dela, tudo irá mudar agora que ela vai se tornar uma policial em Cornewall. O dinheiro vai entrar e ela finalmente irá poder morar sozinha. Ela e sua amiga Trisha saem para comemorar com muita dança e milk shakes até que um ataque de neodruidas arrebenta com o ShakeR, onde elas se encontravam. É agora que tudo irá mudar e a noção do que é real vai ficar muito bagunçada.


Delson Neto conseguiu escrever um ótimo scifi. Daqueles que você diria que saiu da mente de um Philip K. Dick. Isso porque os elementos de ficção científica nem são tão pesados assim, podendo ser lidos simplesmente por quem deseja uma boa história. O que frita a mente do leitor é justamente essa alternância entre o que é real ou não. Quando ele começa a nos apresentar os neodruidas e como os policiais perseguem esses criminosos, as coisas começam lentamente a se tornar mais complicadas. Aparece as noções dos avatares e as simulações que tornam a vida dos habitantes de Nova Avalon mais palatável. A maneira como ele vai nos envolvendo em sua trama é marcante. A narrativa é, principalmente, em terceira pessoa, mas temos entradas iniciais antes de cada capítulo em que Shura parece estar escrevendo um diário. Se a parte da narrativa em primeira pessoa serve para nos contar como Shura se encontra emocionalmente naquele momento, as partes em terceira nos permitem conhecer melhor os pensamentos da personagem. Para ser sincero, a escrita das entradas é tão boa que eu fiquei com vontade de ler um romance do Delson escrito inteiramente com a voz da Shura.


"A cidade era uma besta forjada em néon e metal. Shura a amava, mas temia que as memórias se transformassem em mais um artifício daquele sarcófago de vidas cruzadas."

Ao final da história temos um conto chamado A Garota na Ponte que se passa depois dos acontecimentos de Diário Simulado. Sem dar spoilers, a trama gira em torno de um novo tipo de simulador chamado Drops capaz de fazer uma pessoa estar ao mesmo tempo na realidade e em uma simulação ao mesmo tempo. Os detalhes do drops não ficam tão claros, mas o criador deste novo sistema vai atrás de Shura (que tem boas habilidades como hacker) para que ela teste o novo sistema que teve sua patente roubada por uma empresa. O objetivo deste cliente é encontrar coisas que ele possa aprimorar depois. Claro que vão ter muitas complicações que vão alterar bastante a proposta inicial. Basta apontar também que eu achei que se a história principal tem muito de Philip K. Dick, a inspiração do conto está mais no cyberpunk de William Gibson.



Voltando à história principal, é incrível como ela é muito mais uma história Shura e sua relação com Violet do que qualquer outra coisa. Sim, vamos ter conspirações loucas e confusões mentais, mas se pararmos para pensar, é a relação de Shura e Violet que vai nortear a história e boa parte das decisões da protagonista. Sua amada é uma parte importante de sua vida e a presença dela é a sua bússola. Sem entrar em detalhes, é lógico que em algum momento esta relação será testada. Quando Shura se vir privada de Violet, ela vai se perder. Parece que um pedaço dela foi arrancado de seu ser. Tem um momento quase no final da história em que será dada a ela a possibilidade de uma escolha egoísta ou uma altruísta. E a escolha que ela acaba fazendo condiz bastante com a personalidade dela.


O que faz de Shura alguém tão interessante é o quanto ela é verossímil. Ela não é nenhuma heroína. Somente alguém buscando viver sua vida à sua maneira. Não há nenhum indício nela de querer participar de uma revolução nem nada do gênero. Até a possibilidade de retirarem sua possibilidade de escolha para ela é revoltante. Violet atua como uma apaziguadora, como alguém capaz de diminuir o fogo da personalidade da protagonista. A parceria das duas é muito bacana porque uma não interfere na liberdade da outra. Uma é paixão e a outra é razão.


"Nunca é tarde para falar o que queremos. Negar aquele pedido, confessar que não sabemos fazer aquilo que nos pedem. Mas, parece que é sempre cedo demais para desistir de nossas ilusões. De tanto projetarmos uma imagem errada, nos apegamos às sombras da caverna. Esqueci quem eu era antes de meus desejos me consumirem e eu fingir ser aquela garota que nunca fui."

Sobre o cenário em si, vale destacar a alegoria excelente que Delson usou sobre Camelot. O mundo real é regulado e controlado por um governo que comanda todos os aspectos da vida dos cidadãos. Não há espaço para todos, mas há os prazeres que todos podem ter. A música, os cigarros, a bebida... ou seja, é um mundo onde o entretenimento serve para arrefecer a vontade de se revoltar contra o status quo. Cabe às pessoas aceitar o que lhes é oferecido. É isso o que os neodruidas chamam de brumas. As brumas impedem as pessoas de enxergar o que é real. O que você vive é real ou você se acomodou a uma simulação de realidade? Você prefere a Dama do Lago que ou a Feiticeira Morgana? Real ou Ilusão? Na Nova Avalon de Delson, temos uma utopia/distopia onde as pessoas estão acomodadas demais em suas vidas para buscarem algo diferente.


Algo que vai bagunçar a cabeça dos leitores é em como Delson usa um loop para contar a história dos dilemas de Shura. Star Girl e Gone Girl são partes da história e representam momentos da vida da protagonista. Mas, você, leitor, saberá diferenciar o que está dissonante em cada um dos três momentos da vida da protagonista? O que mudou? Quem desapareceu? Para montar estes momentos o autor deve ter tido muito trabalho. Porque até mesmo o tom da narrativa mudou. No primeiro temos uma aventura comum com alguns aspectos futuristas, mas focando na vida de Shura. Na segunda parte, temos uma história contada de trás para frente com a protagonista buscando respostas para suas dúvidas ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que ela deseja. Já na última parte, temos uma narrativa mais melancólica onde ela precisa lidar com as consequências de suas escolhas e em como seguir em frente.


A história é fascinante e revela muito do potencial do autor. Preciso apenas criticar um pouco a barriga que existe na metade da história. Entre a segunda parte e o clímax da terceira parte tem momentos em que parece que a história não está se movendo. E isso cansa um pouco o leitor. Entendi que o autor precisava desse momento maior para mostrar as dissonâncias existentes na realidade de Shura e como Gorlois e o Senhor de Muitos Nomes acabam mexendo em parte com as escolhas dela. Mesmo assim, eu sinto que esse trecho poderia ter sido menor e mais orgânico, mas okay, nada que tenha me feito perder o interesse. Já quero ler mais coisas do Delson, seja nessa realidade cyberpunk que ele criou ou em qualquer outra que ele deseje bagunçar a minha cabeça.


"É tudo questão de perspectiva. Sempre foi e sempre será. O homem abraça o que lhe convém, e nós somos meros expectadores daquilo que criamos para ser, a priori, controlável e volúvel. Nossas criações agora andam com as próprias pernas."








Ficha Técnica:


Nome: Diário Simulado

Autor: Delson Neto

Editora: Plutão Livros

Número de Páginas: 231

Ano de Publicação:2019


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