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Resenha: "Sweet Tooth vol. 1 - Saindo da Mata" de Jeff Lemire

Gus é um garoto que vive no meio da floresta, isolado de tudo junto de seu pai. Ele não tem contato com outras pessoas e seu pai diz que se ele sair da cerca que separa sua casa do resto do mundo, ele será punido por Deus. Mas, quando seu pai fica doente e morre, Gus se vê sem opções. Só que Gus não é um menino comum; ele tem chifres como um antílope. E seu mundo irá mudar para sempre quando um homem enorme chamado Jepperd o salvar de caçadores.


Sinopse:


Após o sucesso de O Ninguém, a sua estreia como autor do selo Vertigo, o autor/artista Jeff Lemire escreve a sua primeira série contínua, Sweet Tooth. Uma mistura de Bambi e A Estrada de Cormac McCarthy, Sweet Tooth conta a história de Gus, um tipo novo e raro de híbrido entre animal e humano, que foi criado em isolando após uma pandemia inexplicável que afetou a humanidade há uma década atrás. Agora, com a morte de seu pai, ele precisa sobreviver sozinho... até que ele encontra um andarilho enorme chamado Jepperd que promete ajudá-lo. Jepperd e Gus embarcam em uma jornada pós-apocalíptica em uma América devastada para encontrar "A Reserva" um refúgio para híbridos.







Se já não bastasse Jeff Lemire ser um dos autores do momento com trabalhos incríveis como Gideon Falls e Black Hammer (ambos já resenhados aqui no site) a série Sweet Tooth foi adaptado para a Netflix. A HQ foi o primeiro trabalho de Jeff Lemire em uma série mais longa; seus trabalhos anteriores eram volumes únicos. Sweet Tooth projetou o nome de Lemire como revelação e seu sucesso atual se deve muito a seu trabalho na Vertigo. Sweet Tooth teve seis encadernados sendo que a Panini reeditou a série esse ano em três encadernados Deluxe. Para fins das resenhas aqui no Ficções Humanas, vou seguir a organização original de Lemire que é como a série foi pensada, ou seja, vou trabalhar com seis encadernados. Essa resenha aqui diz respeito aos capítulos 1 a 5 do primeiro volume Deluxe que corresponde ao primeiro arco de histórias. Minha opção foi levada em consideração à maneira mesmo como Lemire quis conduzir a história, e isso nos mostra a evolução do autor ao longo da edições.



A propósito... esqueçam uma correlação com a série. A HQ é muito, mas muito diferente da série. Não é melhor ou pior; é só que a abordagem de Lemire é mais melancólica e escura do que o tom leve e ingênuo da série. Até mesmo elementos de narrativa são bastante distintos.


Começamos com Gus isolado em sua cabana na floresta ao lado de seu pai. Certamente Gus é um menino diferente: possui um chifre de cervo, sendo um híbrido entre animal e humano. Seu pai é um homem bastante religioso e ele tem algumas regras para Gus: nunca sair da floresta, sempre rezar para Deus e por sua mãe e quando ver humanos, correr e se esconder. São as regras básicas de sobrevivência. Ele diz a Gus que o mundo lá fora foi destruído e se ele pisar fora da cerca que separa a casa do resto do mundo, Deus irá queimá-lo com o fogo do inferno. Só que o pai de Gus adoece e acaba falecendo, deixando Gus sozinho no mundo. Sua vida se encaminhava para algo mais tranquilo quando dois caçadores entram na floresta e estão caçando-o. Nosso protagonista é salvo graças a ajuda de Jepperd, um andarilho de constituição física avantajada que mata os dois caçadores, para horror de Gus. Jepperd avisa Gus sobre não ser mais possível sobreviver na floresta e que eles precisam sair dali antes que outros caçadores cheguem. O grandão promete a Gus levá-lo até um lugar chamado A Reserva onde ele poderá ficar seguros junto com outros híbridos assim como ele. Gus não entende do que Jepperd está falando porque isso contradiz tudo o que seu pai falou sobre o mundo. É aí que a história de Gus começa... com ele saindo da floresta profunda.


Vamos falar primeiro do elefante na sala: sim, o traço de Lemire é esquisito para caramba. Esse é o traço do autor e é bem específico dele. Não esperem que isso vai mudar até porque Lemire só usa esse traço em poucas obras. Faz parte da abordagem mais íntima dele em relação ao que ele pretende fazer com os seus personagens. Digo até que o traço de Lemire combina e muito com o estranho que ele promete trazer para Sweet Tooth. Os traços angulosos dele servem para ampliar a sensação de estranhamento e dá mais força às reações dos personagens. Posso não gostar do traço em si, mas através dele é possível fazer um estudo das emoções daqueles que estão envolvidos na história. Por exemplo, somos capazes de entender que Jepperd é um homem raivoso e marcado pelas agruras da realidade em que vive. Seu rosto está sempre fechado e demonstrando insatisfação e impaciência com quilo que acontece ao seu redor. Por outro lado, Gus manifesta reações de curiosidade e interesse pelo mundo. Ele não sabe como reagir aos humanos já que só viveu com seu pai por toda a sua vida.



Se o design de personagens é estranho, preciso elogiar os cenários e até o enquadramento. A gente realmente se deixa levar pela história e a forma como Lemire encontra saídas criativas para determinados momentos é fascinante. Por exemplo, tem um momento em que Gus desmaia após sofrer um ferimento. Lemire cria uma espécie de mosaico de pequenos quadros que vão se esfacelando quanto mais à direita o leitor vai observando, significando a perda de consciência. Ou o quadro acima que mostra um campo com cerca que serve para separar a mata da estrada. Os cenários também são muito bem feitos mostrando uma América devastada. Por isso, tudo é muito aberto, amplo. Há pouco contato com seres humanos que habitam em bolsões específicos. As cidades foram arrasadas por uma pandemia da qual sabemos ainda bem pouco.


Gus é um menino bastante inocente, embora não seja totalmente ingênuo. Ter sido criado isolado em uma mata fez dele uma pessoa que não conhece sobre o mundo ao seu redor. Seu pai era um homem bastante religioso e duro, o que pode ser percebido em suas falas. A gente vê um protagonista resiliente e que consegue manter a suavidade mesmo tendo sido criado privado de muitas coisas. Para ele, aquela mata era o mundo inteiro e quando ele vê suas fronteiras se abrindo, precisa reformular toda a sua filosofia de vida para poder encaixar outras experiências que tem aparecido em sua vida. O ato de sair de mata podemos até entender como um passo rumo à adolescência, a uma possível rebeldia e reformulação do seu próprio status quo. As regras criadas por seu pai precisam ser revistas e readaptadas a um mundo em transformação.


O que me espanta é o quanto Gus é uma pessoa completamente empática nessa série. Lemire faz o possível para torná-lo alguém para quem vamos torcer. Ele é um menino bondoso e curioso. Cabe até associar o protagonista ao animal ao qual ele é híbrido, o cervo. Ele tem características de receio e curiosidade. Receio no sentido de que ele se assusta facilmente e curioso por querer saber tudo o que está ao seu redor. Vamos ver se Lemire fará isso com outros híbridos, mas é uma forma legal de mostrar o quanto o lado animal faz parte da constituição emocional e psicológica de Gus assim como de outros. Outro ponto que vale a pena destacar é o quanto os seres humanos desse primeiro arco são desprezíveis. Não tem um único neste primeiro momento que possamos elogiar. Mesmo Jepperd é um homem duro e prático na forma como ele sobrevive no mundo. Ele não tem reservas em matar outro ser humano se ele precisar tirá-lo de seu caminho. Ou o cafetão da cidade que pegou mulheres fragilizadas por um mundo violento e as transformou em seus objetos de negócios. Algo que consegue deixar até mesmo Jepperd enojado ao vê-lo que ele não se importa nem de usar menores a seu bel prazer ou de agredir aquelas que o desobedecem. De fato, perceber o quanto Gus consegue manter sua bondade é admirável e nos coloca rumo a uma discussão que será retomada nos próximos encadernados: será que o ser humano é realmente o topo da cadeia alimentar ou estaremos vivenciando, nesta série de quadrinhos, uma forma alternativa de evolução?


A América está devastada pela pandemia. Vemos cenários terríveis espalhados por toda a HQ como a pilha de corpos presente na primeira cidade em que Gus e Jepperd chegam. Lemire não alivia nem um pouco os socos no estômago. Essa não é uma história feliz, possuindo vários momentos que são difíceis de engolir. A violência é bastante gráfica, embora não seja aquela coisa mais explícita como Garth Ennis faz em The Boys ou Preacher. Mas, tem diversos momentos de embrulhar o estômago e a própria história tem um tom melancólico. Carregada de um peso que nos faz refletir sobre o papel da humanidade frente a um mundo em decadência. E não estamos ajudando o planeta a se curar das feridas que nós mesmos causamos. O resultado de nossa interferência na natureza é o que acontece na narrativa, com uma humanidade se encaminhando para a sua alvorada.


Sweet Tooth é uma narrativa brutal e sensível ao mesmo tempo. Brutal no sentido de que ela nos apresenta na nossa cara os efeitos de nossos abusos ao meio ambiente com o surgimento de novas doenças e uma possível espécie que teria vindo para nos suceder. Lemire diz a nós que o Antropoceno não é o ponto final da evolução do planeta e que a natureza pode ser bem dura ao reagir contra os abusos da humanidade. Sensível no sentido de que Gus representa aquilo que a humanidade poderia ser se decidisse ser solidária e cooperativa no que tange às relações uns com os outros. O desenho continua sendo aquilo que Lemire sabe fazer, o que causa um estranhamento inicial. Mesmo assim seu traço estranho combina com a narrativa fazendo com que nosso olhar se concentre na narrativa gráfica em que roteiro e arte se combinam para entregar um todo conciso e interligado.












Ficha Técnica:


Nome: Sweet Tooth vol. 1 - Saindo da Mata

Autor: Jeff Lemire

Editora: Panini

Número de Páginas: 125

Ano de Publicação: 2012


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