• Paulo Vinicius

Resenha: "Sono" de Haruki Murakami

Uma mulher perde a capacidade de dormir subitamente. Após mais de dezessete dias acordada, ela reflete sobre suas escolhas na vida e em como ela deseja seguir em frente após essa nova condição.


Sinopse:


Ela era uma mulher com uma vida normal. Tinha um marido normal. Um filho normal. Ela até podia detectar algumas fissuras nessa vida aparentemente perfeita, mas nunca chegou a pensar seriamente nelas. Até o dia em que deixou de dormir. Então o mundo se revelou. Um mundo duplo de sombras e silêncio; um mundo onde nada é o que parece. E onde ela não pode mais fechar os olhos.





Sono é uma obra bem diferente do Haruki Murakami. E isso vindo de um autor que foge completamente do convencional. Estamos diante de um livro com várias ilustrações que servem para acompanhar algumas cenas. O livro propriamente dito é bem curto, do tamanho de uma novella e a proposta é simples. Decidi ler Sono antes de me embrenhar em obras maiores do autor como Crônicas do Pássaro de Corda e 1Q84. Ler Caçando Carneiros foi um impacto positivo na minha forma de encarar a narrativa fantástica. Certamente Murakami consegue inserir o elemento fantástico de uma maneira a fazer com que a narrativa não fique ancorada nele, mas ele é usado para encaminhar a narrativa. É uma visão que se alinha um pouco com o que os autores do realismo mágico fazem, mas cuidado: Murakami não se alinha nesse gênero, apesar de podermos forçar a barra e o colocarmos nesse gênero (que é o que eu vou fazer).


Acompanhamos uma protagonista sem nome em uma jornada de autoconhecimento. Ela é casada, tem um filho e uma vida perfeitamente normal. Quando ela era mais nova, ela teve um momento da vida em que teve um período em que não conseguia dormir. Passava dias com os seus sentidos embotados, funcionando no piloto automático. Esse período acabou passando sem explicação e a personagem seguiu a vida. A protagonista segue uma rotina comum, com um marido bem sucedido. A forma como ela descreve a sua rotina é fria e seca. Não é que ela não ame o seu marido e o filho, mas sabe quando parece que as coisas não são do jeito que ela esperava? É nesse contexto que a sua estranha insônia retorna. No momento em que inicia a história ela está a 17 dias sem dormir. Ao mesmo tempo em que ela não consegue mais dormir, toda a sua percepção sobre o mundo se transforma e ela passa a repensar suas escolhas.


Vamos lidar com o elefante na sala. O final aberto. Se fosse qualquer outro autor, devido ao nível de abertura do final proposto em Sono, eu criticaria. Mas, algo que eu aprendi com o Murakami é ler além do que ele nos apresenta. E aquele final aberto está ali por um propósito. A narrativa se foca em uma personagem que tem um estalo em um determinado momento de sua vida e descobre que não fez nada a respeito dela. Ela se dá conta que tudo o que ela fez até ali é irrelevante. O leitor acaba se focando no tema da insônia e como a personagem lida com essa situação. Mas, o que pouco observamos é como o "embotamento" funciona para ela. A insônia acaba abrindo os olhos da protagonista para a maneira como ela tem levado a vida. De certa forma, como ela possui mais horas para refletir, a protagonista começa a observar a sua vida a partir de um novo ponto de vista.


Mas, o que isso tem a ver com o final? Ao longo da narrativa, a personagem sai de um ponto A para chegar a um ponto B. Ela começa como alguém conformada com o seu status quo e finaliza saindo de casa com o carro do marido (não avanço mais para não dar spoiler). O resto aqui é interpretativo até porque não posso falar sobre o final. Em termos abstratos, a personagem morre no final da narrativa. Aquela mulher que se dedicava ao marido, dialogava assuntos banais, cuidava do filho, ia à natação se foi. A insônia provocou essa mudança em seu ser. As próprias imagens da artista Kat Menschik contribuem para essa visão de que houve a morte da primeira personagem e surgiu uma nova mulher.


Fica um alerta de spoiler: Murakami conta a narrativa toda de Anna Karenina. Se você não leu o livro, saia correndo. Ele conta início, meio e até o final (diga-se de passagem, a primeira coisa que ele conta é o final). O curioso é que o romance de Tolstoi espelha parte da narrativa de Murakami. A maneira como Anna se sente a respeito de sua relação com Vronski e depois o aparecimento de Oblomov é um pouco como a protagonista se sente acerca de sua própria vida. Isso se entendermos Oblomov não como um personagem, mas como um estado de espírito. A leitura de Anna Karenina é uma ferramenta de metalinguagem para servir como desvio de foco para o leitor. Em uma segunda leitura, vamos perceber até o problema do final presente ali. Afinal, Murakami conta o final do livro de Tolstoi... e nos fornece aquele final. Percebem a ligação? Claro que não é possível interpretar a escrita de Sono ao pé da letra. Tudo é simbólico.


Eu concordo com os críticos de que esse não é o melhor livro de Murakami. Porém, é aquele que mais utiliza a habilidade de contar histórias do autor. O emprego do foreshadow ao usar Anna Karenina é um toque de gênio. Mas, eu realmente não curti tanto assim a narrativa. Acho que Sono careceu de algumas páginas a mais até porque a relação da protagonista com seu filho não ficou clara. Ela e o marido ficou clara. No fim de tudo, é uma história instigante e que nos deixa com mais perguntas do que respostas. E essa é a mágica da coisa.










Ficha Técnica:


Nome: Sono

Autor: Haruki Murakami

Artista: Kat Menschik

Editora: Alfaguara

Tradutora: Lica Hashimoto

Número de Páginas: 118

Ano de Publicação: 2015


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