• Paulo Vinicius

Resenha: "Caçando Carneiros" de Haruki Murakami

Tendo sido obrigado a parar com uma campanha em sua empresa, o protagonista se vê obrigado a embarcar em uma estranha busca por um carneiro misterioso.

Sinopse:


Lançado no Japão em 1982, Caçando carneiros é o romance que tornou Haruki Murakami conhecido mundialmente. Permeado de mitologia e mistério, a obra é um thriller literário extraordinário. O protagonista do livro é um personagem sem nome que leva uma vida tranquila trabalhando numa agência de publicidade, convivendo com a ex-mulher e alguns amigos - todos muito comuns, ou assim parece. Mas tudo muda quando ele recebe uma carta misteriosa e conhece pessoas inesperadas: uma modelo de orelhas sedutoras, um grupo político de direita com um chefe enigmático e, por incrível que pareça, um homem-carneiro. Lançado em uma busca fantástica, ele terá que atravessar o Japão para encontrar o único carneiro que pode trazer novamente algum sentido ao seu cotidiano. Nessa jornada, nosso narrador se vê no lugar de um excêntrico detetive que, ao mesmo tempo em que esclarece pistas, descobre um pouco mais sobre si mesmo. Ao mesclar situações banais a fatos inexplicáveis, Murakami faz com que o leitor mergulhe em seu universo e se deixe levar por suas narrativas oníricas.




A busca por um carneiro


Essa foi a minha primeira experiência com a escrita de Murakami. E posso dizer que foi uma aventura. Nada me preparou para o que eu iria encontrar nas páginas que se seguiriam. E o mais engraçado é que, por boa parte da leitura, eu fiquei tentando entender por que as pessoas diziam que o autor gostava de colocar algum elemento bizarro, digo fantasioso, em suas narrativas. Até quase a metade da narrativa me parecia um livro com uma narrativa dramática e uma escrita acima da média. Até a hora em que aparece o carneiro. Ou melhor, ele é mencionado. Daí em diante, seguiram-se momentos de "que diabos???" até o momento mais bizarro que eu já vi em minhas leituras lá pelo final do livro. Murakami não me deu uma rasteira... me deu um golpe combinado de capoeira e ficou rindo da minha cara enquanto meu cérebro explodia com as reviravoltas.


A narrativa é contada em primeira pessoa por um personagem sem nome. Nenhum personagem da narrativa tem um nome a menos que você considere apelidos como uma forma de nomear alguém (o Rato e o Doutor Carneiro... ah, e o gato Sardinha). A gente pode imaginar que isso não significa nada, narrativamente falando, mas se você parar para analisar a fundo vai perceber o quanto isso diz a respeito do personagem. Nosso protagonista é um cara difícil de sentir empatia. Ele vive uma existência bem normal e enfadonha em uma empresa de publicidade. No começo da narrativa, Murakami mostra o quanto ele está chateado com o rumo que sua vida tomou, mas não faz nada a respeito. Ele apenas segue aquilo que lhe é apresentado e sua vida ganha até uma certa estabilidade. Ele tem um amor de juventude que não dá certo (e acontece algo trágico com ela), mas acaba se casando; consegue uma empresa de publicidade ao lado de seu amigo, mas é uma empresa tediosa. Tudo nos encaminha a pensar que alguma coisa vai acontecer para alterar esse status quo.

"[...] passei os anos mais impressionáveis de minha infância contemplando não uma baleia, mas um pênis de baleia. Toda vez que me cansava de perambular pelos frios corredores do aquário, ia para o meu sofá no silêncio estanque da sala de exposição de pé-direito alto e ali permanecia horas a fio contemplando aquele pênis de baleia."

O protagonista tem algumas falas terríveis. Digamos que ele não seja uma pessoa das mais doces e gentis. Algumas respostas que ele dá a amigos e pessoas que ele tem interesse são curtas e pouco amáveis. Mas, ele acaba se envolvendo com uma garota usada pela empresa para fazer uma propaganda de orelhas. Sim, o protagonista ficou assanhado com as orelhas da moça. Eles acabam desenvolvendo um relacionamento bem interessante que se estende pelo livro. Ela funciona como um contraponto ingênuo à pouca sutileza e empatia dele. Algumas sequências deles são repletas de afeto como quando eles conversam sobre a natureza, ou as estrelas no céu ou outro momento em que ela prefere ficar no Hotel do Golfinho porque acha o lugar bacana. Essa personagem tem também uma estranha habilidade com suas orelhas; ela parece ter uma espécie de sexto sentido que a alerta de coisas. Não dá para definir ao certo mais do que isso.

"Conforme advertira o fotógrafo, nada havia de especial em sua aparência. Tinha um rosto comum e vestia-se com simplicidade, mais ou menos como uma cantora de coral em faculdade de segunda linha. Obviamente, isso não me incomodou. O que realmente me decepcionou foi ver que ela ocultava por completo as orelhas debaixo dos cabelos lisos, caídos sobre os ombros."

O Chefe e uma existência secular


Então somos colocados diante da busca do personagem. Uma de suas campanhas publicitárias irritou um chefão do crime da cidade onde ele vive. Ele é chamado por um intermediário que exige que ele pare com a campanha imediatamente. Outro pedido que lhe é feito é que ele encontre um carneiro específico que apareceu na foto de divulgação da campanha. O personagem teria um mês para encontrar o animal, caso contrário ele sofreria consequências terríveis. Aparentemente essa foto foi usada por acaso. Ela tinha sido enviada por seu amigo Rato há alguns meses, e o personagem a colocou no fundo da gaveta até o momento em que decidiu usá-la. A caça ao carneiro se torna também a busca por seu amigo.


Este carneiro parece estar envolvido em algumas situações bem estranhas. Não vou entregar muito para não dar spoilers, mas ele parece influenciar pessoas a fazer o que ele deseja. E esta influência do carneiro está presente na criação de uma cidade, no surgimento de uma organização criminosa e até mesmo em uma busca no final da Segunda Guerra Mundial. A narrativa ganha contornos fantásticos ao falar dessa criatura/presença. E logo de cara a gente percebe que sua influência não é nada benigna adotando tons bem sombrios. Não ficou muito claro para mim quais os objetivos verdadeiros do carneiro até porque ele não chega a ser o plot principal da narrativa. Digamos que a busca por ele é um meio para se chegar a um fim.

Vamos nos dando conta de que a narrativa é mais sobre o próprio protagonista e como a relação com Rato vai afetar a sua existência a longo prazo. Nosso personagem precisava de alguma forma sair de sua inércia. E o Rato foi o responsável por isso em sua juventude, e o é novamente na vida adulta. A necessidade de ter um objetivo, a luta por algo além do dia seguinte. Todas essas coisas faltavam em sua existência. O personagem se transforma ao longo da narrativa e isso é perceptível na própria escrita do Murakami. Se ele começa com um cético e cínico, ao final da sua jornada ele está mais reflexivo. Ele entende a necessidade de mudar a si mesmo. E acompanhar essa evolução do personagem (que no começo é insuportável) é o melhor da escrita do Murakami.


Para mim não foi uma experiência espetacular, mas me agradou muito o nível de abstração do autor. No começo os capítulos são rápidos e pequenos, mas eles vão ganhando complexidade à medida em que vamos lendo e entendendo aonde ele quer chegar. Senti alguns furos na narrativa, mas é muito mais porque eram pontos que não necessariamente interessavam ao autor. Por exemplo, fiquei com a impressão de que poderia haver um epílogo com um certo personagem do livro. Mas, okay, a narrativa é incrível e o personagem evolui muito ao longo do tempo.


Ficha Técnica:


Nome: Caçando Carneiros

Autor: Haruki Murakami

Editora: Alfaguara

Gênero: Romance/Fantasia

Tradutora: Leiko Gotoda

Número de Páginas: 336

Ano de Publicação: 2014


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*Material enviado em parceria com a editora Alfaguara


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