• Paulo Vinicius

Resenha: "Sandman vol. 2 - Casa de Bonecas" de Neil Gaiman, Mike Dringenberg e outros

Morpheus descobre que quatro de seus pesadelos estão desaparecidos do Sonhar. E eles parecem estar na Terra. Além de que houve o surgimento de um Vórtice, um ser humano que tem a capacidade de afetar os sonhos dos seres humanos.



Sinopse:


Uma das histórias mais populares e aclamadas pela crítica de todos os tempos, a obra-prima premiada de Neil Gaiman, SANDMAN, definiu o padrão da fantasia lírica e adulta na era moderna dos quadrinhos. Ilustrado por uma seleção exemplar de alguns dos artistas mais habilidosos do meio, a série é uma rica mistura de mitologias modernas e ancestrais na qual ficção contemporânea, drama histórico e lendas são costuradas com perfeição. CASA DE BONECAS reúne as edições 9 a 16 de SANDMAN, contando a história da jovem Rose Walker enquanto ela descobre a natureza singular de sua identidade. A jornada de Rose é acompanhada com interesse pelo Rei dos Sonhos, para quem ela se torna um intrigante mistério e uma mortífera ameaça.






Depois da apresentação ao personagem e seu mundo no primeiro volume, Neil Gaiman começa de fato sua história neste segundo. Vemos algumas pequenas sementes sendo plantadas para futuras histórias e como o autor pretende conduzir suas narrativas. Se formos pensar a partir do ponto de vista de um quadrinho Marvel ou DC, o que Gaiman faz é bem fora da caixinha. Morpheus é o protagonista da série, mas ele aparece mais no fundo, como uma força poderosa que rege os sonhos das pessoas. Outros personagens são considerados centrais de um ponto de vista criativo, que é o papel da Rose aqui. As coisas acontecem com ela e Morpheus acaba interferindo em certos momentos. Essa forma diferente de contar histórias é o que torna Gaiman tão virtuoso ao mesmo tempo em que ele cria uma mitologia sólida ao redor do protagonista de sua série. Casa de Bonecas pode ser considerado o momento de ruptura de Gaiman com a cronologia oficial da DC já que não vemos nenhum personagem participando aqui, fora a menção à Johana Constantine, uma ancestral do nosso fumante inveterado e o antigo Sandman, um herói da Era de Ouro da DC que tinha as atribuições de Morpheus. Gaiman faz essa brincadeira entre o Sandman antigo e o personagem que ele havia criado.


Temos um prólogo onde dois homens estão passando por um ritual de passagem no meio de um deserto na África e é contado o caso de amor entre o homem que controla os sonhos das pessoas e a rainha Nada, uma mulher que se apaixonou perdidamente por quem ela não podia. Na narrativa principal, Morpheus descobre que quatro de seus pesadelos (Bruto e Glob, O Coríntio e o Verde do Violino) não se encontram nos domínios do Sonhar. Lucien acredita que eles possam ter se dirigido para o mundo dos homens. Um outro problema é o surgimento de um Vórtice, uma espécie de anomalia poderosa que ocupa o corpo de um ser humano e dá a ele o poder de romper as barreiras dos sonhos. Então Morpheus sai em busca de seus pesadelos e do Vórtice ao mesmo tempo. Mal sabe ele que essas duas buscas vão se mesclar. Mas, Casa de Bonecas vai tratar principalmente da vida de Rose, neta de Unity Kincaid, aquela mulher que foi afetada pelo sequestro de Morpheus por várias décadas, que conhecerá sua avó pela primeira vez. Depois de conhecê-la, Rose precisará encontrar Jed, seu irmão desaparecido.


Apesar de se parecer um pouco com o roteiro do primeiro volume, com Morpheus indo em uma busca por objetos ou pessoas, Casa de Bonecas muda bastante a abordagem. Primeiramente porque a narrativa é mais centrada em Rose do que em nosso personagem principal. Segundo porque a narrativa é bem mais compassada, sem uma preocupação em inserir elementos do universo DC. A gente sente que o roteiro de Gaiman está mais livre e fluido, sendo a maneira básica como ele vai nos guiar ao longo de vários volumes. Meu conselho aos leitores é que não se apressem na leitura; é um texto mais carregado e sua conexão com a arte vai produzir efeitos que, se passarmos desatentos, não vamos conseguir captá-los. Vale destacar que o autor usou momentos de quebra narrativa em três momentos: um prólogo, uma transição entre atos e um epílogo. Quero que vocês se atentem a essa marcação que parece ter vindo do teatro porque essa relação vai se aprofundar mais nos próximos volumes. O arco é bem fechadinho, com Gaiman nos entregando bem uma resolução para os problemas que ele vai abrir nessa sequência de capítulos ao mesmo tempo em que ele deixa algumas situações para serem resolvidas depois como o envolvimento com Nada, o envolvimento dos demais Perpétuos e a sua rixa com Desejo.



Se formos pensar no título, Casa de Bonecas, ele nos permite entendê-lo de duas maneiras. Por um lado, se trata de uma conexão entre Unity e Rose, conexão essa que vai servir ao enredo em momentos finais da narrativa. Unity é uma ponta solta que Morpheus deixou no primeiro volume. Alguém que teve sua vida afetada pelo sumiço do responsável pelos sonhos. Naquele momento, ela não foi capaz de sair desse mundo e se tornou alvo de pessoas mal intencionadas. Quando ela foi despertar, quase toda a sua vida foi deixada para trás. Unity não pôde desfrutar de sua infância e adolescência. Do outro lado temos Rose que está em um momento de passagem da adolescência para a sua vida adulta. A casa de bonecas pode ser um símbolo de uma etapa deixada para trás. Só que podemos entender o brinquedo de outra forma. Por serem criaturas além de nossa imaginação, os Perpétuos são como deuses. Neste volume percebemos o quanto eles podem ser marcados por emoções humanas, como os deuses do Olimpo. E os seres humanos são como bonecos em suas mãos, passíveis de serem manipulados de acordo com seus caprichos. A casa de bonecas seria a nossa própria realidade diante dos Perpétuos titereiros.


Essa noção da casa de bonecas pode ser entendida até mesmo no roteiro do quadrinho bobo imaginado por Jed quando ele estava na custódia de seus parentes. Para fugir de uma situação terrível, ele busca abrigo em uma espécie de dimensão extra onde o Sandman, um super-herói que defende os sonhos das pessoas luta para levar a alegria. Claro que vamos ver que tudo isso não passa de um enorme estratagema de Bruto e Glob para se manter longe da vista de Morpheus e se divertir às custas dos seres humanos. A noção de uma história ingênua e inocente pode ser até um aceno do autor à mudança de perspectiva dos quadrinhos DC da década de 1970 e a passagem para um universo mais cinza e sombria nos anos 1990. A ilusão de dias melhores está presente apenas em uma casa de bonecas, um lugar que não corresponde mais à realidade do presente. Quando Morpheus chega para lidar com a situação, ele não precisa lutar com ninguém. Sua existência é o suficiente para quebrar as barreiras, acertar os paradigmas. E o Perpétuo não é uma criatura boa ou má, ele age de acordo com sua natureza. Bem e mal não podem ser usados como rótulos para sua existência. O sonho é inevitável, assim como a morte e o desejo.


Um capítulo perturbador é o da convenção de serial killers. Achei divertido a brincadeira feita por Gaiman com cereais, algo normalmente atrelado à infância e crescimento. Muitos dos assassinos são apenas pessoas que não amadureceram ou não foram capazes de abandonar uma mentalidade infantil. O fato de a convenção funcionar quase como uma espécie de congresso científico é perturbador. Temos momentos de fala de cada um, variando de sociopatas, passando por fanáticos e chegando em assassinos puros. É aí que entendemos qual é a natureza dos pesadelos, reflexos de lados obscuros do ser humano criados por Morpheus. Mas, ter criado o Coríntio foi um arrependimento para ele. Porque ele fora criado em uma época diferente, em que sua existência funcionava como um conto cautelar do que poderia acontecer às pessoas se cedessem ao seu lado mais sombrio. Só que em uma conjuntura onde os valores mudaram, o Coríntio deixou de ser temido para ser reverenciado. Um sinal dos tempos. Curioso comentarmos isso porque Sandman começou a ser publicado em 1989 e 1990, e Casa de Bonecas é desse período. Se formos trazer para os dias de hoje essa história, talvez o Coríntio pudesse ser entendido quase como um anti-herói ou um herói incompreendido. Percebam como os tempos podem denotar interpretações distintas sobre certos conceitos.


No meio deste segundo volume, temos uma das história fechadas mais elogiadas de Gaiman. É a história de um homem que Morpheus e Morte conheceram no século XIV e que dizia não temer a morte porque ele já a havia visto e isso era perda de tempo. A Morte toma um interesse por ele, e Morpheus faz um pacto com esse homem: a cada cem anos eles irão se encontrar nessa mesma taverna e conversar por algum tempo. Ao final, Morpheus perguntará se o homem irá finalmente desejar a morte. Se ele responder que não, um novo encontro será marcado. E esse encontro se estende por vários e vários séculos enquanto vemos o mundo sofrendo suas mudanças e desenvolvimentos. E este homem passando por diferentes fases de sua vida, desde a luta pelo seu sustento, a casamentos mal fadados, a investimentos questionáveis e guerras lutadas. Uma história com várias camadas de compreensão dos quais os leitores irão tirar significados diferentes. Para mim, ele tocou fundo na noção de que o ser humano nasceu para ser finito. Nossas vidas tem significado porque sabemos que em algum momento deixaremos este mundo. Então vivemos com intensidade nossas vidas. Quando perdemos a finitude, parece que o mundo fica cinza e embaçado. Os objetivos deixam de ser tão claros e após uma longa vida as coisas perdem o sentido. Aliás, esta história se confunde bastante com o mito do demônio e do judeu errante. Algo que Gaiman faz menção.


Casa de Bonecas não é o melhor volume da série Sandman, mas é o começo da revolução que o autor faz através deste personagem. Veremos algumas sementes e conceitos colocados aqui que serão explorados muito tempo depois. A narrativa principal é bastante empolgante e não comentei nem a metade do que acontece de verdade (não cheguei nem a falar do lugar esquisito onde Rose vai morar e as pessoas diferentes com quem ela vai conviver). Cada volume de Sandman tem tanto conteúdo a ser comentado que poderia ficar dias discutindo com vocês cada aspecto. Não vou repetir o óbvio de se recomendo ou não, só recomendo que façam uma leitura atenta para não perder cada detalhe do que é exposto pelo autor.


O Quadrinho em 1 Quadro:



Mike Dringenberg e Malcolm Jones estão muito bem neste segundo volume. Eles encontraram o seu ritmo e começaram a brincar com as cenas, algo que vai permitir uma boa combinação entre roteiro e arte. Usei este quadro acima para mostrar como as experiências são divertidas. Uma simples angulação diferente fornece uma outra conotação à cena. A disposição em faixas nos permite entender que Lucien está caminhando por vários ambientes distintos enquanto cumpre a tarefa de fazer o censo de criaturas no Sonhar para Morpheus. Ou seja, todos os quadros nos passam a sensação de movimento enquanto o desenhista busca usar o espaço de um quadro no formato de um retângulo alongado com uma cena disposta na vertical. Lucien está sempre entrando ou saindo de lugares, e a câmera ora está de frente para ele, ora em suas costas. Toda a concepção dos quadros foi feita para passar essa sensação ao leitor.


Outros quadros possuem essa mesma finalidade. Destaco dois, em específico. Um deles acontece quando Rose está dormindo no carro enquanto ela e sua mãe se dirigem até onde Unity se encontra. Nesse momento, Rose começa a sonhar e o quadro deixa de ter uma orientação comum e passa a lentamente se angular para uma orientação de paisagem. Ou seja, é a passagem do mundo material para o mundo dos sonhos. E os quadros lentamente fazem essa passagem ora no formato retrato, ora em um ângulo de 45º até chegar ao momento final. Outro momento interessante é quando um dos personagens passa por um surto descontrolado de seu poder e se torna um vórtice. O personagem se encontra no olho do furacão enquanto os demais personagens envolvidos são agregados em quatro pequenos quadros nos cantos da página. Como se trata de uma splash page, dá um efeito brutal à cena.











Ficha Técnica:

Nome: Sandman vol. 2 - Casa de Bonecas

Autor: Neil Gaiman

Artistas: Mike Dringenberg, Malcolm Jones III, Chris Bachalo, Michael Zulli e Steve Parkhouse

Colorista: Zylonol Studio

Editora: Panini

Tradutor: Jotapê Martins

Número de Páginas: 232

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


Outros Volumes:

Volume 1 - Prelúdios & Noturnos


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