• Paulo Vinicius

Resenha: "Sandman Edição Especial de 30 anos vol. 1" de Neil Gaiman, Malcolm Jones III e outros

Neste primeiro volume de Sandman, ficamos sabendo como o Sonho foi aprisionado e ficou décadas à mercê de um estranho culto. Depois ele vai atrás de suas ferramentas de poder.



Sinopse:


A seminal série de Neil Gaiman comemora seu trigésimo aniversário com uma nova edição de SANDMAN VOL. 1: PRELÚDIOS & NOTURNOS! Sandman é comumente distinguida como a melhor série do selo Vertigo e uma das maiores obras do mundo dos quadrinhos. Gaiman criou uma história inesquecível sobre as forças que existem além da vida e da morte ao conectar mitologias antigas, folclore e contos de fadas com sua perspectiva única numa narrativa sem igual. Em PRELÚDIOS & NOTURNOS, um ocultista que busca aprisionar a morte para barganhar a vida eterna acaba capturando seu irmão mais novo, Sonho, em seu lugar. Após um cárcere de 70 anos, Sonho, também conhecido como Morpheus, parte numa jornada para recuperar seus objetos de poder. Em sua jornada, ele encontrará, Lúcifer, John Constantine e um homem insano e poderoso. Este livro também inclui a história “O som de suas asas”, que apresenta a personagem Morte.





Retornando para o Sonhar


Assim como Watchmen e A Saga do Monstro do Pântano, Sandman é uma daquelas obras que fizeram nascer uma nova forma de contar histórias em quadrinhos. Portanto, uma análise de uma obra desse escopo precisa cuidado e atenção aos detalhes. Ao longo da série, Neil Gaiman vai aperfeiçoando suas técnicas de escrita. Tanto é que este primeiro volume ainda vemos o autor tateando a melhor forma de tratar seu protagonista. O começo da série tem um pouco de terror, mas pouco tempo depois passa para uma narrativa mais fantástica. Isso não tira o caráter clássico da HQ. O primeiro e o segundo volume mostram muito da mitologia do protagonista.


A narrativa começa com Morfeus sendo preso por um culto no estilo maçônico-demoníaco. Eles estavam tentando convocar a Morte, irmã de Morfeus para tomar seu poder de controlar a morte. Passam-se vários anos e o clube ainda o mantém no porão aprisionado. Mas, eventualmente, ele consegue sair de sua prisão e conseguir sua vingança. Este é o primeiro capítulo da história. Agora ele precisa ir em busca de seus artefatos de poder, aqueles que dão as diretrizes sobre seus domínios: a algibeira, a máscara e o rubi. Ao consultar os oráculos, elas dizem que um deles se encontra nas mãos de alguém que o poder corrompeu, o outro se encontra no submundo e o terceiro em um depósito esquecido.


A arte tem bastante daquele aspecto mais sombrio do final dos anos 1980. Era um DC pós-Cavaleiro das Trevas mostrando personagens que não são necessariamente heróis ou vilões. Malcolm Jones consegue capturar bem esse espírito ao empregar cores escuras e pesadas. Muito azul-escuro e preto transbordando das páginas. Inicialmente não gostei muito do design do personagem e achei até um pouco estranho. Somente lá pelo quinto capítulo que eu senti que o artista encontrou uma forma definitiva para o personagem, capaz de demonstrar seu poder e majestade sem ser um design carregado. Também percebi que o artista precisou modificar o seu approach na arte com a mudança de estilo narrativo. Como eu disse, senti que os dois primeiros capítulos tinham uma abordagem meio no terror/weird, na vibe do que o Alan Moore fez no começo do seu run no Monstro do Pântano. Aos poucos, Gaiman se assentou com o que ele queria fazer na história e isso se refletiu na arte.



Uma coisa é certa: algumas cenas são de encher os olhos. A ida do Sonho ao Inferno e sua chegada aos salões de Lúcifer é lindo. Todos os detalhes do castelo, que reflete uma aura lamuriosa e maldita ao mesmo tempo enchem as páginas. O design dos personagens também costuma ser bem diferente, com uma splash page com vários demônios espalhados pelo cenário com Morfeu e os líderes do inferno no alto de uma rocha. Em um grupo de duas páginas, o artista demonstrou domínio de cores, design de personagens e profundidade. Ao mesmo tempo ele consegue entregar uma arte mais simples como na conversa entre a Morte e Morfeu no último capítulo em que os cenários são mais em uma brincadeira de preto e branco. Como o branco representa ausência e o preto, melancolia.


Nesse primeiro volume, Gaiman se dedicou a nos apresentar o personagem Morfeu. O quanto representa sua divindade e seu domínio sobre os sonhos e como é a relação com os seres humanos. Nos capítulos lá do meio vemos a extensão de seus poderes à medida em que eles começam a afetar pessoas na Terra. Tenho que pontuar que o universo onde se passam as histórias escritas pelo autor é o mesmo universo do Batman, do Superman. Mesmo assim, parece até que as histórias existem em um universo próprio, alheio a essa batalha de bem e mal e dos grandes acontecimentos do universo DC. Até vemos o aparecimento de Constantine, do Senhor Milagre e do Caçador de Marte, mas, tirando o Constantine, eles parecem tão fora do universo onde vive o Sandman que eles é que são os invasores e não o contrário. Acho até que a presença deles não faz nenhuma falta. Alan Moore faz o mesmo em seu primeiro volume do Monstro do Pântano mostrando a Liga da Justiça, mas eles são completamente desnecessários.


Lá pela metade desse primeiro volume já começamos a sentir qual vai ser a abordagem de Neil Gaiman. Nele temos um vilão que se apossa de um dos artefatos de poder. E decide usá-lo para seu próprio divertimento. O trecho que se passa na lanchonete é ótimo para entendermos mais ou menos onde se situa o poder de controlar os sonhos. Neste capítulo, Gaiman nos mostra as histórias de várias pessoas que tem sua essência investigada por ele. Controlar os sonhos nesse caso significa controlar para fora os seus instintos mais íntimos e obter o domínio sobre essas pessoas. Vemos o quanto o ser humano pode ser terrível e mesquinho, e ao mesmo tempo estar à mercê de um poder maior do que é capaz de compreender. Esse mesmo sentimento eu tive quando da atuação da Morte. Os Perpétuos (o grupo formado por Sandman, Morte, Desejo e outros que conheceremos mais tarde) são inefáveis. Não podem ser negados ou ignorados.



No começo temos um protagonista focado em se vingar de seus captores. Mas, depois de toda a odisseia que levou ao retorno de seus poderes, o que vem depois? O que se sucede à vingança? Essa é a pergunta que Morfeu se faz ao final deste primeiro volume. Acho que todos os personagens pelos quais Morfeu passou ao longo da narrativa se perguntavam o mesmo. O que eu faço agora? Qual é o meu objetivo? Temos uma mulher que tem tudo o que deseja, mas é assombrada por seres obscuros; um demônio que tem poder, mas não sabe o que fazer com ele; e um vilão em busca de reconhecimento e sentido para si mesmo. No topo de tudo isso, um ser eterno recém-livre que não sabe o que fazer a seguir. O capítulo que tem a Morte como protagonista é absolutamente lindo e nos ajuda a ter um pouco de insight sobre o que veremos nos próximos volumes.


Este primeiro volume é um pouco morno em sua apresentação, mas a escrita do Gaiman já demonstra a sua incrível qualidade de nos encantar. O autor é um contador de histórias. Alguém que tece suas narrativas assim como as Moiras fiam nossos destinos. A arte de Malcolm Jones é competente, mas sofre um pouco pela mudança de direcionamento que acontece da segunda metade em diante. Gosto das linhas, da profundidade e das cores carregadas que ele emprega. Sandman é um clássico; todo fã de quadrinhos deve entrar em contato com ele.










Ficha Técnica:


Nome: Sandman Edição Especial de 30 anos vol. 1 - Prelúdios e Noturnos

Autor: Neil Gaiman

Artistas: Sam Kieth, Malcolm Jones III e Mike Dringenberg

Editora: Panini

Tradutores: Jotapê Martins e Erico Assis

Número de Páginas: 240

Ano de Publicação: 2019


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