• Paulo Vinicius

Resenha: "O Rei do Inverno" (Crônicas de Artur vol. 1) de Bernard Cornwell

Atualizado: 1 de Mai de 2019

A famosa história do rei Artur contada pelo mais reverenciado autor de romances históricos. Aqui veremos as alegrias, as tristezas, as batalhas; tudo isso contado pelo cavaleiro mais leal a Artur, Derfel Cadarn.

Sinopse:


O rei do inverno é o primeiro volume da trilogia As crônicas de Artur do escritor inglês Bernard Cornwell sobre o lendário guerreiro Artur, que passou para a história com o título de rei, embora nunca tenha usado uma coroa. Um dos mais importantes autores britânicos da atualidade, Cornwell já foi traduzido para mais de dezesseis línguas e seus romances alcançaram rapidamente o topo das listas de mais vendidos: foram mais de 4 milhões de exemplares em todo mundo. A chave de seu sucesso está na criteriosa pesquisa histórica e na narrativa envolvente com a qual Cornwell disseca a vida de seus personagens. O rei do inverno conta a mais fiel história de Artur, sem os exageros míticos de outras publicações. A partir de fatos, este romance genial retrata o maior de todos os heróis como um poderoso guerreiro britânico, que luta contra os saxões para manter unida a Britânia, no século V, após a saída dos romanos. O valoroso soldado cresce dentro do exército do rei e dentro da narrativa de Corwell até se tornar o melhor amigo e conselheiro de Artur na paz e na guerra. Cornwell resgata, em O rei do inverno, curiosidades dos confrontos no início da era cristã, como o ritual do xingamento. Os comandantes dos exércitos rivais esquentavam o ânimo para a batalha se encontrando no meio do campo e trocando insultos. Nesta versão da lenda, Artur - filho bastardo do rei Uther Pendragon - penhora sua fidelidade e proteção para Mordred, herdeiro legítimo do trono. Numa Bretanha habitada por cristãos e druidas, dividida entre diferentes senhores feudais e seus respectivos interesses e ameaçada pela invasão dos saxões, Artur emerge como um poderoso e corajoso guerreiro capaz de inspirar lealdade e unir o país. Uma personalidade complexa, impelida por honra, dever e paixão, iniciada com maestria por Cornwell em O rei do inverno, e finalizada em Inimigo de Deus e Excalibur, próximos títulos da trilogia. Apesar de morar nos Estados Unidos desde 1979, quando se casou e desistiu de uma carreira como produtor de TV para se tornar escritor, Cornwell reteve o senso de fina ironia britânico. Ele coleciona mapas e gosta de pesquisar sobre conflitos famosos visitando os campo de batalha.




As lendas arturianas são um tema para romances desde a Idade Média. Cancioneiros medievais e escritores de romance ou de fantasia já se debruçaram sobre as aventuras de Artur e seus cavaleiros de todas as formas possíveis e imagináveis. Já pudemos ler sobre a famosa Távola Redonda de Howard Pyle, da mágica Camelot de T. H. White e até de uma ode ao feminismo de Marion Zimmer Bradley. Então, normalmente quando sai algum livro sobre essa temática, eu, como leitor, tenho a tendência a torcer o nariz. Por esse motivo, fiquei positivamente surpreso com a escrita de Cornwell. O livro é muito bem desenvolvido e a ambientação é ligeiramente diferente da habitual nas histórias arturianas.

A história é contada pela perspectiva de Derfel Cadarn, um dos cavaleiros que ficaram sob o comando de Artur ao longo de sua trajetória. Mas, Derfel é um homem com uma história própria: jogado em uma vala por Tanaburs, um druida a serviço de Gundleus, Derfel consegue sobreviver e é criado por Merlin. Este também é um druida e é considerado o maior deles nas terras da Britânia. Ele tenta restaurar o poder dos deuses antigos a partir de uma busca por aquilo que ele chama de Os Treze Tesouros. A história começa a partir do nascimento de Mordred, filho de Uther, pai também de Artur. Uther tem suas desavenças com Artur, então decide deixar seu trono com o seu filho recém-nascido Mordred. Infelizmente, Uther morre antes que Mordred alcance a maioridade deixando o reino dividido entre os governantes que não conseguem se entender. Um desses governantes, Gundleus, busca tomar o trono para si ignorando a promessa de guardar o trono para Mordred feita a Uther no leito de morte. Após uma série de jogadas políticas e acordos diplomáticos, Artur consegue um acordo de paz estabelecendo um casamento com Ceinwyn, filha do maior entre os senhores de terra da Britânica, Tewdric de Powys. Mas, uma certa ruiva de olhos verdes e nariz aquilino fará o coração de Artur bater mais forte e fará com que todos os acordos sejam desfeitos.

Fiz uma sinopse de uma forma bem rasa porque a história por trás de O Rei do Inverno é riquíssima em detalhes e sutilezas. Pelo que pude apurar na internet, Bernard Cornwell é um apaixonado por história e batalhas antigas. Como historiador posso assegurar aos leitores do blog que muito do que Cornwell apresenta no enredo é verídico. Detalhes como a homenagem feito pelos bretões aos senhores de terra, o respeito aos deuses antigos e mesmo os rituais mais tolos como cuspir no chão para evitar os maus espíritos, tudo existiu de fato. Claro que, sendo um romance histórico vão existir certos exageros. Em História, não existe certo ou errado, ou acontecimentos 100% precisos. Conjunturas históricas como as da Antiguidade e do Medievo possuem muitas lacunas. É aí que a imaginação de um bom autor de ficção entra em jogo. Cornwell poderia ter apelado para elementos fantásticos jogando todos esses elementos para Merlin e Morgana como fez T. H. White. Não foi necessário aqui.


Outra coisa que o autor poderia ter feito na história é ceder o protagonismo a Artur ou a Merlin. Isso teria sido o padrão na maioria dos contos arturianos. Mas, Cornwell decidiu inovar nos contando a história em primeira pessoa pelo ponto de vista de Derfel. Nosso narrador não é confiável, pois ele faz um relato do que aconteceu em sua vida para seus contemporâneos. O autor nos passa a ideia de que Derfel está compilando uma espécie de história dos feitos de Artur, mas que aquela que encomendou esta história irá alterar e manipular os acontecimentos e a escrita de Derfel para torná-los fantásticos. Além disso, Derfel fala que irá deixar alguns acontecimentos de lado porque dizem respeito apenas a ele. A prática de encomendar histórias era comum no medievo em que os novos impérios e feudos buscavam estabelecer suas origens em tempos antigos (ainda não é o espírito nacionalista típico do século XIX). Cornwell ilustra muito bem a forma como o contador de histórias atiçava a curiosidade de seus ouvintes: ele buscava dar ritmo ao seu relato e deixar certos elementos de fora para serem contados posteriormente.

Neste primeiro volume da trilogia, os personagens secundários que recebem maior importância são o próprio Artur, Nimue e Galahad. O Artur de Cornwell é bem interessante: muito mais um guerreiro do que um rei. Apesar disso ele deseja a todo o custo obter a paz. Ele consegue obter esses acordos de paz mostrando ora a sua face guerreira, ora a sua face diplomática. E o Artur que nos é apresentado na obra de Cornwell é um homem sofrido, rejeitado pelo pai e enviado muito novo para a Armórica onde consegue a sua fama. Diferentemente de em outros romances, o Artur que chega em Caer Cadarn é um guerreiro experiente e famoso, muito antes da tão afamada Camelot. O Artur que nos é apresentado já possui até filhos, os gêmeos Amhar e Loholt, filhos de uma mulher chamada Aileann com quem se envolveu, mas não pode se casar. Após milhares de esquemas e momentos tensos com os governantes da Bretanha, Artur consegue o tal acordo de paz só para vê-lo quebrado por ele mesmo ao se envolver com Guinevere, manchando a honra de Tewdric.


Nimue representa o lado mágico da trama. Ela é a ponte de ligação entre a história e os mitos dos deuses antigos. Nimue representa também o papel de mulher forte na trama, nem um pouco submissa. Mesmo sendo amante de Merlin, ela tem desejos por Derfel, mas que nunca se realizarão por n fatores. O seu estupro por Gundleus a levará em uma busca desenfreada por vingança que arrastará Derfel a um mundo que ele não gostaria de estar. Muito do envolvimento de Derfel com Artur se dará por causa de sua ligação com Nimue. Ele se convence de que suas escolhas foram apenas suas, mas no fundo ele nutria a esperança de conseguir ser amado por Nimue. Mesmo o resgate de Nimue em Ynys Mon não será suficiente para isso, pois Nimue voltará marcada da Ilha dos Condenados. Merlin aparece neste primeiro livro mais como uma sombra do que uma pessoa. "O poderoso Merlin", o "famoso Merlin", "quando Merlin chegar ele destruirá todos os inimigos da Bretanha". Bem, Merlin só vai aparecer de fato no final deste primeiro volume e podemos discutir se ele teve participação ou não nos acontecimentos que levam à Batalha do Lugg.

O autor é espetacular no ato de descrever batalhas. Seu conhecimento e paixão pela arte das batalhas fez com que estas parecessem orgânicas no livro. Elas não são momentos incômodos ou chatos, apresentando momentos de suspense e tensão que fazem com que o leitor queira passar logo as páginas. Lembro que eu ficava ansioso por saber o que aconteceria a seguir no combate. Cornwell consegue descrever com precisão o sentimento dos guerreiros diante de uma terrível parede de escudos. Para mim, os capítulos finais do livro passam brincando por um leitor ávido. Entretanto, e esse é o motivo de eu não ter gostado completamente do livro, algumas partes de O Rei do Inverno são enroladas. Isso é completamente compreensível porque o autor está buscando fazer com que o leitor faça parte daquele universo. Os capítulos de transição servem para criar o elemento de imersão. Claro que eu acho que Cornwell poderia ter dosado mais estes capítulos de transição... Talvez o fato de eu não ter gostado completamente de O Rei do Inverno seja porque O Inimigo de Deus (o segundo volume) seja tão espetacular.

O Rei do Inverno é uma obra excelente e uma forma diferente de romancear as histórias por trás de Artur e seus cavaleiros. Gostei das precisões históricas e a preocupação do autor até em explicar suas decisões nos apêndices do livro. Como historiador, fico muito feliz ao ler uma obra com essa preocupação e o porte épico que ela dá a cada momento da trama. Sem dúvida alguma, o autor tem uma escrita ao nível das histórias arturianas.



Ficha Técnica:


Nome: O Rei do Inverno

Autor: Bernard Cornwell

Série: Crônicas de Artur vol. 1

Editora: Record

Gênero: Romance Histórico/Fantasia

Tradutor: Alves Calado

Número de Páginas: 546

Ano de Publicação: 2001


Outros Volumes:

O Inimigo de Deus (vol. 2)

Excalibur (vol. 3)


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